[Reino Unido] BASH BACK desmonta campanha difamatória de Ann Widdecombe

Grupo de ação direta trans diz que matéria publicada no The Times busca “justificar mais repressão” contra grupos de ação direta.

Freedom News ~

O grupo de ação direta transgênero BASH BACK apresentou uma resposta devastadora a um artigo do The Times, no qual Lord Walney sugere que o Reino Unido deveria passar a proscrever grupos envolvidos em “perturbação criminosa sistemática”. Lord Walney é o ex-deputado trabalhista de direita John Woodcock, que deixou o Parlamento após acusações de assédio sexual. Enquanto atuava como “conselheiro independente do governo para violência política e perturbação”, ele também fazia lobby ativamente em favor de interesses da indústria fóssil e do setor de armamentos.

O artigo foi precedido por uma extensa reportagem que repete trechos do texto de opinião, recheada de referências a coberturas anteriores alarmistas sobre o BASH BACK publicadas pelo The Times. Em sua declaração, reproduzida abaixo, ativistas do BASH BACK argumentam que a “paranoia da direita autoritária decorre da necessidade de proteger propriedade, ideologia e lucro”. O grupo afirma apoiar todas as suas ações anteriores e reafirma seu compromisso com a não violência.

No artigo, disponível apenas para assinantes, Woodcock critica o BASH BACK por não ter removido de seu site a imagem de um martelo quebrando vidro depois que Ann Widdecombe foi assassinada com um martelo em 8 de junho. Walney evita alegar qualquer ligação direta e não faz referência à notória campanha de Widdecombe contra os direitos LGBTQI+. Alegando uma relação de “ladeira escorregadia” entre destruição de propriedade e violência contra pessoas, ele sugere que todos os grupos que causem “perturbação sistemática” sejam avaliados “segundo o mesmo limiar” utilizado para proscrever o grupo Palestine Action.

Segue a declaração do grupo. Imagem: Pixabay CC0.

Esta semana, John Woodcock, conhecido como Lord Walney, publicou um artigo de opinião no The Times exigindo que nossa organização seja proscrita como uma organização terrorista. Woodcock é mais conhecido por ter sido o antigo conselheiro do governo para violência política e perturbação, tendo desempenhado um papel fundamental na proscrição do Palestine Action, e historicamente defendeu restrições semelhantes contra outros grupos de ação direta, como o Just Stop Oil. Sua tentativa de proscrever nossa organização de maneira tão semelhante, apesar de não ter ligação direta com o governo trabalhista, chegando inclusive a sugerir “testar o Bash Back [sic] segundo o mesmo limiar [do Palestine Action]”, é curiosa e revela uma tentativa de exercer poder contra as classes políticas subalternas por meio de sua conexão com o jornalismo dominante.

Em seu artigo, Woodcock descreve o protesto pacífico como uma liberdade política, enquanto a ação direta e o vandalismo seriam uma grande violência que poderia levar a outras formas de violência, inclusive assassinato. Woodcock afirma, assim como Zia Yusuf havia feito uma semana antes, que ativistas de ação direta, talvez até membros do BASH BACK, seriam responsáveis pelo assassinato de Anne Widdicombe. Para justificar isso, Woodcock, que possui um histórico de alegações de intimidação, bullying e má conduta sexual, afirma que “a violência política […] começa com a criação de uma atmosfera na qual a intimidação é normalizada”. Ele continua: “É por isso que a conduta do grupo transgênero militante Bash Back [sic] merece uma atenção muito mais séria […] Esta semana um tribunal ouviu que Anne Widdicombe foi atingida 21 vezes na cabeça com um martelo”.

Sua alegação segue um argumento de ladeira escorregadia: de que um crime deve necessariamente levar a outro; de que a presença de um martelo implica uma vítima de homicídio e não uma janela; de que declarar-se não violento exigiria necessariamente remover qualquer coisa que pudesse sequer ser interpretada como violenta, meses depois do fato. Isso segue uma retórica autoritária de vigilância, um panóptico no qual não crimes do passado podem ser transformados em crimes por meio de um jogo de associação de palavras. Woodcock chega inclusive a repetir a mentira de que “a sargento Kate Evans sofreu uma fratura na coluna durante uma operação contra a Elbit”, para justificar mais repressão contra grupos de protesto sem relação entre si e traçar uma linha retrospectiva ligando a ação direta não violenta à morte violenta de uma política.

Apesar de tudo isso, Woodcock afirma que “ninguém deve prejulgar processos em andamento, e não faço aqui qualquer sugestão sobre quem foi responsável ou por quê”, tentando conceder a si mesmo uma espécie de imunidade contra acusações de desacato, enquanto apresenta essas alegações em um grande jornal de direita. Sempre fomos não violentos, sempre seremos não violentos, e nenhuma quantidade de manipulação política mudará isso.

Formamos o BASH BACK com a intenção de chamar atenção para as dificuldades que nós, pessoas trans, enfrentamos em nosso cotidiano. Somos uma resposta a um ambiente político que nos vê como vítimas fáceis, uma resposta construída a partir da urgência e da exigência, e do conhecimento de que, como demonstram os acontecimentos na Parada do Orgulho de Berlim no último sábado, a retórica queerfóbica mata.

Vemos que o protesto pacífico não está funcionando no Reino Unido da mesma forma que a ação direta está funcionando, em grande parte por causa da mesma retórica autoritária anti-protesto com a qual Woodcock está claramente alinhado. Já vimos isso na prática: a London Trans Pride 2025 foi a maior de sua história, e ainda assim recebeu pouquíssima cobertura da imprensa dominante. Em contraste, nossa ação contra o escritório de Wes Streeting naquele mesmo mês continua sendo noticiada até hoje, inclusive por Woodcock em seu artigo.

Nossas ações também produziram mudanças materiais: a EHRC foi obrigada a transferir seu escritório de Londres para um local menos público explicitamente por causa de uma ação realizada no final de 2025. É evidente que Woodcock busca proscrever o BASH BACK por uma razão simples: porque somos eficazes.

A paranoia da direita autoritária decorre da necessidade de proteger propriedade, ideologia e lucro. Alegações de dano pessoal e sofrimento causados pela ação direta são usadas como cortina de fumaça para defender suas bases ideológicas contra ameaças, apesar do dano que essas ideologias causam às comunidades marginalizadas: danos como os provocados pela EHRC com suas novas diretrizes, ou como os causados por Wes Streeting quando proibiu bloqueadores de puberdade. As políticas cruéis dos políticos nos privaram da autonomia sobre nossos corpos e causaram diretamente suicídios de pessoas trans, enquanto os credos de jornalistas transfóbicos incentivaram um ambiente hostil e um pânico moral que levou ao aumento dos crimes de ódio contra pessoas trans nos últimos anos, como o horrível assassinato da adolescente trans Brianna Ghey em 2023. Devido às ações materiais e à discriminação ativa de organizações como a EHRC, o NHS England e as forças policiais, os suicídios de pessoas trans atingiram o nível mais alto já registrado, tendo a discriminação pública e a intolerância institucional como principais responsáveis. Quando isso acontece com pouca resistência ativa, a formação dessa resistência torna-se necessária.

Nossas ações são destrutivas, e nosso guia de ação (disponível gratuitamente) reflete isso. Ele tem sido, previsivelmente, fonte de muita controvérsia. Agora em sua segunda edição, o guia detalha vários métodos de ação direta, incluindo informações sobre sua legalidade. Deixamos claro aos potenciais ativistas os riscos que assumem e os danos que podem sofrer, ao mesmo tempo em que explicamos os meios de resistir e desafiar a crescente onda de intolerância no Reino Unido. Fazemos isso porque reconhecemos que uma cultura de medo e conformidade é exatamente o que pessoas como Woodcock desejam. O BASH BACK é, antes de tudo, um lembrete ao Estado de que não o tememos, de que somos capazes de resistir. Woodcock sugere removermos nossas postagens que mostram danos à propriedade, por medo de ferir uma nação em luto, mas nunca afirmamos apoiar violência, nem sequer havíamos falado de Anne Widdicombe antes de seu assassinato, então por que deveríamos fazê-lo? Francamente, até ela ser mencionada, nunca tínhamos sequer ouvido falar de Sarah Pochin. O BASH BACK continua sendo reativo; apoiamos todas as ações que promovemos, e não as promoveríamos se não as apoiássemos. Além disso, não incentivaríamos ações se não fosse pela violência que enfrentamos diariamente como pessoas trans. Talvez o que o próprio Woodcock tema seja nossa honestidade. Talvez ele queira um novo bicho-papão (pergunto-me se existe um termo neutro em gênero para “bicho-papão”).

Ao nos designar como “terroristas”, Woodcock revela um chauvinismo ocidental, algo enraizado em seus vínculos com a indústria armamentista israelense e com o genocídio e a ocupação na Palestina. O terrorismo no Reino Unido sempre foi usado pelas classes dominantes para designar ameaças ao status quo e, assim, intimidá-las ao silêncio. É uma ferramenta assustadoramente eficaz, instrumentalizada pelo próprio Woodcock em sua exigência islamofóbica de retirar o passaporte do ativista antiapartheid Moazzam Begg no ano passado. “Terrorismo” é um rótulo insidioso que define a violência do Estado, expressa pelo uso de poderes policiais extremos, longas penas de prisão, isolamento, negligência médica e, claro, campanhas de bombardeio e tráfico de armas no exterior, como algo digno de proteção. Qualquer resistência a isso, violenta ou não, passa a ser vista como extrema e perigosa. Designar um grupo como terrorista implica oposição aos “valores britânicos”, e é precisamente isso que faz com que os pogroms racistas dos últimos meses, estimulados por fundamentalistas de direita do Reform, do Partido Conservador e do atual governo trabalhista, não recebam essa designação: apesar de toda a violência real que cometem, de todos os hotéis que incendeiam e de todas as ameaças cruéis que dirigem a migrantes e pessoas racializadas, seus valores permanecem patrióticos até o extremo. Evidentemente, a violência de direita não é terrorismo; terrorismo é o que é anti-britânico, e as ações dessas pessoas estão alinhadas a uma longa história de violência colonial, supremacista branca e anti-queer praticada pelo e para o Estado britânico. O silêncio pessoal de Woodcock sobre isso, apesar de seu antigo cargo, diz muito. Sua crítica ao extremismo político é uma via de mão única, permitindo a vitimização de migrantes e pessoas queer, que se tornam “terroristas” por resistirem. É o mesmo de sempre, como o próprio Woodcock afirma: “nenhuma causa, por mais sinceramente defendida que seja, justifica violência ou a ameaça dela”… a menos que você seja um supremacista branco, um sionista ou membro do Estado britânico. O The Times também está implicado nisso: só se referiu ao ataque em Berlim como “terrorismo” quando o principal suspeito de assassinato foi apontado como islamista e, deliberadamente, em seu artigo, traçou uma distinção entre isso e o extremismo de extrema direita.

A representação incessante da direita de toda resistência política trans como inerentemente violenta ou próxima do terrorismo, vista do outro lado do Atlântico nos planos antiterrorismo de Trump voltados contra grupos “radicalmente pró-transgênero”, é um pré-requisito para a destruição ainda maior de nossa autonomia política, o que então levaria a mais segregação. Estão nos difamando como brutamontes violentos para fabricar consentimento para a violência estatal contra nossa comunidade em resposta a uma ameaça imaginária. A violência sistêmica e o terrorismo estocástico praticados pelos que detêm o poder são claramente violentos e mortais, mas recebem muito menos cobertura do que as fantasias paranoicas dos conservadores. A realidade da ofensiva genocida do Estado contra nós é obscurecida e, quando reagimos, somos tratados como se estivéssemos exagerando diante de nada, como animais histéricos, como se não estivéssemos sendo educados o suficiente com nossos opressores. Essa apresentação da política como simplesmente uma conversa entre lados diferentes de um debate, em vez de uma questão sobre o exercício do poder, é uma mentira da classe dominante. É uma mentira que diz que a violência do Estado é não violenta, enquanto a ação direta disruptiva e não violenta dos oprimidos em resposta é a verdadeira violência; uma mentira que afirma que a aniquilação de um grupo demográfico inteiro é aceitável desde que seja feita pelos canais apropriados, enquanto quebrar algumas janelas seria impensável.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2026/07/29/bash-back-shatters-ann-widdecombe-smear-campaign/  

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Cai a pedra n’água
partindo o espelho do rio:
as nuvens se esvaem.

Ronaldo Bomfim

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