
Por Carlos Ferreira de Araujo Junior [1]
O antirracismo é um dos fundamentos do anarquismo contemporâneo. É impossível falar da luta anarquista sem falar da luta contra o racismo. Mas nem sempre foi assim. Entre o fim do século 19 e o início do século 20, o anarquismo era bastante influenciado por discursos racialistas, eugenistas e pelo darwinismo social de autores como Lombroso, Spencer e Le Bon.
O criminalista Cesare Lombroso (1835-1909) defendia que criminosos nasciam predestinados aos delitos e que suas características biológicas, hereditárias e determinantes, como traços faciais e anatomia craniana, evidenciavam inclinações a condutas criminosas. Já Herbert Spencer (1820-1903) aplicava a teoria da seleção natural, da sobrevivência do mais apto, às sociedades humanas. Esta teoria legitimava a “superioridade” do continente e da “raça” europeia sobre os demais povos. Por último, Gustave Le Bom (1841-1931) defendia a hierarquia de raças e a aversão a mestiçagem. Todos estes “cientistas” moldaram o pensamento racialista e o eurocentrismo. O anarquismo do período também sofreu influências destas ideias.
Num artigo escrito sobre o Treze de Maio, João Crispim, um dos pseudônimos do anarquista espanhol Primitivo Soares (1883-1947), mais conhecido como Florentino de Carvalho, afirmou que os negros não eram tão evoluídos/civilizados quanto os brancos, devido às suas anatomias cranianas, similares às dos símios, determinando, assim, a existência de uma vida vegetativa [2] nestes indivíduos.
No livro, Sicários do Jornalismo (1923), o anarquista português Joaquim Mota Assumpção (1879-193?) afirmou que à medida que o Brasil se afasta do tipo europeu, representando na sua base étnica pelos portugueses, cai na incurável barbárie do negro e do índio. [3]
Os anarquistas brasileiros também foram influenciados pelas ideias racialistas europeias. Orlando Correia Lopes (1872-1927), anarquista gaúcho, lamentava que o carnaval tivesse perdido a estética europeia cheia do “luxo exibicionista de algumas cidades da Itália” e ter dado lugar ao “misto de festas mundiais, adaptação de cultos ruidosos e africanismos de danças comiciais e sensuais, de nenhum valor estético para mim”. [4] As danças de origem africanas “sem valor estético” para o anarquista eram: o lundu, o cateretê, o batuque e o maxixe, de origens afro e indígenas.
Maria Lacerda de Moura (1887-1945) foi uma das mais influentes anarquistas brasileiras e do mundo. Publicou obras fundamentais como A Mulher é uma Degenerada (1924), onde criticou a “misoginia científica”, e Civilização: Tronco de Escravos (1931), onde fez um panorama pessimista dos “progressos” da humanidade. Moura teceu acertadas críticas antifascistas, anticlericais e anticapitalistas, porém, a autora conseguiu se livrar das influências higienistas e eugenistas. Para a libertária, o carnaval popular carioca, não o carnaval “limpinho” dos clubes sociais frequentado pelas altas elites, era uma festa imunda, geradora de tragédias, prostituições, degenerações do corpo, lascívia, DST’s etc. [5] Além disso, Maria Lacerda de Moura criticou a dançarina negra Josephine Baker (1906-1975), como exemplo de decadência cultural. A artista franco-americana foi uma das maiores antirracistas e antinazistas que o mundo conheceu, atuando e recolhendo informações que levaram à prisão e morte de diversos fascistas e nazistas.
Os comentários dos libertários e libertárias acima refletem o pensamento eurocêntrico e cientificista do início do século 20. O negro, o indígena e o oriental eram vistos como corpos desprovidos de intelectualidade, de racionalidade e de dignidade. Eram corpos passivos, permissivos, emotivos, mas nunca conduzidos de forma autônoma por eles mesmos.
Além da cultura, as experiências libertárias, horizontais, voluntárias, autônomas não-europeias, como os quilombos e as alianças entre povos originários foram desconsideradas como efetivos exemplos de experiências libertárias. Para muitos imigrantes anarquistas e libertários brancos brasileiros, o proletariado brasileiro, majoritariamente negro, era visto como desprovido de “razão”. As irmandades negras, terreiros, sambas, batuques, blocos carnavalescos, sociedades dançantes, maracatus e tantos outros espaços de sociabilidades eram considerados espaços inferiores quando comparados ao verdadeiro santuário da superioridade e racionalidade operária: o sindicato.
Negros e negras anarquistas começaram a perceber e apontar preconceitos cotidianos dentro do movimento anarquista. Somente na década de 1970, o anarquismo começou a adotar as práticas antirracista como bandeira de luta. Periódicos como Inimigo do Rei e Barbárie, por exemplo, foram pioneiros na renovação do anarquismo. As críticas pós-estruturalistas, os movimentos negros e as lutas anticoloniais fizeram com que os libertários refletissem até que ponto a liberdade que tanto defendiam não seria uma “versão leve” do discurso iluminista eurocêntrico.
Por muito tempo, e ainda há quem teime, os anarquistas desconsideraram a questão racial. Sem os questionamentos e as críticas contra colonialistas, o anarquismo permanecerá uma narrativa inofensiva ao liberalismo, ao racismo e as inúmeras formas de fascismos atuais.
[1] Historiador. Bibliografia: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), libertários e socialistas negros no Brasil
[2] A REBELIÃO. N.2.09/05/1914.
[3] ASSUMPÇÃO, Motta. Os Sicários do Jornalismo. P.134-135. Ano: 1923.
[4] NA BARRICADA. Data: 23/09/1915. N.16
[5] MOURA, Maria Lacerda. Civilização: Tronco de Escravos. 1931. P.109. UFCG.
agência de notícias anarquistas-ana
meio dia
dormem ao sol
menino e melancias
Alice Ruiz
Viva a revolução espanhola e viva a anarquia!
bom texto!
posição lúcida. organização anarquista com marca registrada? pedindo ação do estado contra trabalhadores? opa, pera lá caceta!
Comunistas, Capitalistas e Anarquistas e a servidão voluntária. Mas... A hora mais escura é logo antes do amanhecer. (Provérbio árabe)
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.