
Jovem anarquista que criou União Operária e foi assassinado há um século no ABC paulista ganha série de homenagens com jornal, documentário, festival de música, filme e HQ.
por Assessoria de Imprensa Estranhos Atratores e Revista Mortal
revistamortal@gmail.com | estranhostratores@gmail.com
Durante o ano de 2019 a Editora Estranhos Atratores, a Revista Mortal¹ e vários ativistas e artistas estarão promovendo uma série de ações culturais que lembrarão os 100 anos de assassinato do jovem anarquista Constantino Castellani, ocorrido durante uma passeata em 5 de maio de 1919 em Santo André, no ABC Paulista.
Constante Castellani, chamado de Constantino pelos seus colegas, tinha 18 anos quando, com outros companheiros, fundou a União Operária – uma espécie de central anarcosindical que congregava várias profissões como canteiros, sapateiros, tecelãs, marceneiros, chapeleiros etc.–e rebelou-se contra a exploração dos patrões, liderando uma manifestação de trabalhadores da tecelagem Ypiranguinha, exigindo redução da jornada, melhores salários e condições de trabalho. O episódio culminou com sua morte.
O pesquisador Jairo Costa, Editor da Revista Mortal e idealizador do projeto, conta que descobriu a história de Constantino enquanto realizava investigação sobre movimentos políticos no ABC no início do século XX.
Costa relata que na fábrica Ypiranguinha os operários, em alguns casos, eram obrigados a cumprir até 16 horas de trabalho, submetidos a constantes espancamentos e impedidos até de utilizar os banheiros da fábrica. Outra situação clássica de exploração era a das famosas dívidas contraídas nos armazéns e quitandas da fábrica. Os trabalhadores consumiam nestes estabelecimentos, suas dívidas ficavam enormes e o patrão transformava aquilo numa forma de segurar, sequestrar, escravizar o operário, exigindo que trabalhasse mais e não permitindo desligamento da fábrica até que a dívida estratosférica fosse quitada.
Contra todas essas injustiças, Constantino Castellani e seus compas da União Operária organizaram ato para o dia 5 de maios de 1919, que começou às 5 da manhã, e aglutinou mais de 500 operários entre mulheres, crianças e idosos, saindo em passeata pelas ruas de Santo André até chegar ao centro da cidade, na rua Oliveira Lima. Lá, em frente à fábrica de cadeiras Streiff, enquanto Castellani discursava pedindo a adesão de mais trabalhadores à manifestação, um tiro de fuzil disparado por membro da força pública cruzou a multidão, atingindo em cheio o coração do anarquista, que morreu instantaneamente.
A morte de Castellani causou comoção geral e a região viveu três dias de caos.Os operários tiraram o corpo de Constante das mãos da polícia e o levaram para o barracão da União Operária, atraindo milhares de pessoas para seu velório e sepultamento, sendo o maior séquito daquela época. O delegado Henrique Villaboim, que mandou prender o atirador logo após o incidente, foi misteriosamente demitido do cargo. O prefeito da cidade na época, Sr. Saladino Cardoso Franco, desapareceu dos eventos públicos com medo da população. Após o enterro de Castellani, dezenas de prisões foram realizadas por todo o ABC, o barracão da União Operária foi novamente destruído e aquela organização anarcosindical foi proibida de atuar por cerca de dez anos.
Legítima defesa: o julgamento do soldado José Bernardino de Araújo, assassino de Castellani, ocorreu tempos depois e o militar acabou sendo absolvido por unanimidade. Em sua defesa surgiu uma versão dos fatos sucedidos na passeata do dia 5 de maio de 1919 em que Constantino Castellani aparece como um homem que teria supostamente arremessado um tijolo contra a força pública, motivando assim a reação (desproporcional) de Araújo. No entanto, o tesoureiro da União Operária, Natalino Vertenatti, que estava ao lado de Castellani na hora do tiro, negou qualquer ação agressiva do líder da União Operária contra a força pública. A maioria dos “cabeças” da organização anarquista foi presa e torturada após o assassinato de Constantino. Muitos operários estrangeiros que militavam na União Operária e trabalhavam na tecelagem Ypiranguinha foram presos e mandados para a Ilha Grande (RJ); outros com menos sorte, como foi o caso de Alexandre Português, foram deportados, banidos do país por sua ideologia.
ANO CASTELLANI
Passados 100 anos desses fatos, Costa diz que a história de Castellani merece ser apresentada para as novas gerações principalmente agora que o país precarizou de forma completa as leis trabalhistas, a organização sindical está mais uma vez ameaçada e a aurora autoritária renasce nos trópicos.
O editor da Revista MORTAL afirma que Castellani ressurge um século depois como novo ícone de luta: “Constantino Castellani volta para inspirar uma nova geração de inconformados com o sistema! Ele foi um verdadeiro protopunk lutando contra os coronéis e o capital”.
Para marcar os 100 anos de morte do primeiro rebelde do ABC, uma série de ações já estão sendo desenvolvidas, com destaque para o lançamento do jornal pirata “A Plebe” sobre a história de Castellani e do Anarquismo na região.
O novo “A Plebe” é uma publicação inspirada no periódico de mesmo nome que circulou no país no início do século passado e uma homenagem da Editora Estranhos Atratores aos primeiros jornalistas de mídia independente do Brasil, Fábio Lopes e Edgard Leuenroth.
A primeira obra em homenagem a Castellani já está em circulação: um cartaz desenvolvido pelo artista plástico Flávio Grão, que apresenta Constantino diante da fábrica onde foi assassinado em 1919.
Também estão em fase de desenvolvimento o Festival Protopunk Constantino Castellani, o debate “Anarcosindicalismo nas fábricas do ABC no princípio do século XX”, fixação de placa-homenagem alusiva ao centenário de morte de Constantino, criação do prêmio Constantino Castellani, produção de um vídeo ficcional e documentário sobre Constantino, desenvolvimento de uma HQ e de uma ação de dança de rua, entre outras atividades.
Serviço:
Ano Constantino Castellani
Quando: no decorrer de 2019.
Contato: revistamortal@gmail.com
Artistas e ativistas envolvidos no Ano Castellani: Izabel Bueno, Daniel Tossato, Ana Mesquita, Flavio Grão, Larissa Paz, Soraia Oc, Daneil Melim, Luiza Maninha Teles Veras, Marcos Imbrizi, Rodrigo Tamassia, Bandas: Krias de Kafka, Sentimento Carpete, Giallos, Take9001, Bar Red Light Duplex, Rodrigo Pinto.
[1] Revista Mortal é um veículo de mídia livre com atuação na região metropolitana de São Paulo.
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