[Reino Unido] Natal Anarquista em Bristol

Nós chamamos o evento de “Natal Anarquista”. Não é por causa da pompa, nem da pilha de presentes que você leva pra casa, nem mesmo por causa do bolo.

Vivemos num mundo dividido, caindo no protecionismo reacionário e políticas hostis incentivadas por populistas cheios de ódio. Ninguém tá encontrando inspiração no doomscrolling. Os autoritários e capitalistas, que buscam nos reduzir a consumidores inertes e conformados, prosperam quando as nossas comunidades estão atomizadas e desconectadas. Quando nós estamos apenas empurrando a vida adiante, olhando pra uma tela e desesperadamente tentando encontrar um momento de esperança, estamos presos em um ciclo de decadência.

Mesmo que alguma thread nos dê um escape temporário do enorme peso do mundo, dos horrores cometidos contra povos inocentes em terras distantes, das correntes políticas que roubam as nossas liberdades, e do puro fardo impiedoso de sobreviver ao capitalismo, depois de um turbilhão sufocante de coisas… aí você precisa acordar pra ir pro trabalho depois de algumas horas.

A gente caiu numa dependência profunda de fronteiras eletrônicas e as falsas promessas de plataformas de redes sociais em que, teoricamente, elas nos conectam, mas na verdade nos deixam sozinhos, divididos, e sem propósito. Estamos num oceano esmagador de pessoas, todas tentando se conectar desesperadamente, mas, em última análise, isoladas. Cada uma sozinha no seu quarto, fazendo doomscrolling, se sentindo desamparada diante do domínio terrível dos detentores do poder. Em outros lugares, a extrema-direita oferece um senso de pertencimento pela exclusão, unidade pelo ódio, propósito pela submissão, com mensagens de ódio profundamente enraizadas em desfiles enganosos – usando o amor de pessoas da classe trabalhadora e seu desejo natural por comunidade, espaço e lugar, para jogá-las umas contra as outras.

Contra isso, espaços anarquistas insistem numa forma diferente de pertencimento: um pertencimento construído com ajuda mútua, solidariedade, e a liberdade de pensar e agir junto. Nós chamamos o evento de “Natal Anarquista” porque a feira do livro anarquista local é a cura pra toda essa melancolia. É quando a família se junta, velhas amizades que você não vê há anos, aquela moça que você viu pela última vez em cima de uma árvore dois anos atrás, seu velho camarada daquela ocupação que você costumava visitar, e aquele cara que te mostrou Kōtoku Shūsui.

Então o que É uma feira do livro Anarquista?

Uma boa feira do livro parece uma feira misturada com a sensação de estar com amigos em um festival. É pura energia positiva e um sopro de ar fresco. Em qualquer uma delas você pode encontrar uma variedade de banquinhas interessantes com tudo, desde organizações ambientais até projetos de redistribuição de riqueza, desde ativistas locais de proteção animal até coletivos de arte, editoras radicais, e campanhas de solidariedade com camaradas que estão em terras distantes. As banquinhas são quase sempre complementadas por oficinas sobre diversos assuntos e uma variedade de atividades, sessões de reparo de objetos, comida vegana deliciosa – e bolo, claro.

Atualmente, estamos testemunhando um renascimento no Reino Unido e em todo o mundo, com novos encontros presenciais surgindo aos montes, e eventos já estabelecidos se tornando eventos de vários locais e de vários dias. Mais do que nunca, as pessoas estão saindo do scrolling infinito e se encontrando pessoalmente. Fazer isso, especialmente fora dos bares e cafés corporativos que tentam te explorar, é um ato de rebeldia. Pra ilustrar o ressurgimento da organização cara-a-cara, nós somos apenas um de uma dúzia de eventos que aconteceram nos últimos dois meses; no mesmo dia em Newport, há uma Feira do Livro Radical no Riverfront, na próxima semana a Feira do Livro Anarquista de Manchester vai acontecer no Museu da História do Povo, a Feira do Livro Radical de Edimburgo volta pro Assembly Roxy de 5 a 9 de Novembro, e Swansea sediará mais um Festival Comunitário Radical no dia 22.

Cada um destes eventos será uma variedade vibrante e empolgante de organização anarquista e socialista, educação radical, publicações populares. Cada uma é uma reafirmação de que ainda acreditamos em comunidade, curiosidade, e imaginação coletiva. Quer você tenha vindo com nada, ou com bastante dinheiro pra gastar, você voltará pra casa com uma pilha de coisas, terá compartilhado uma refeição com alguns novos amigos, terá rido, participado de debates, descoberto coisas novas, novas fronteiras na luta, e a tua mente estará fervilhando de novas ideias de projetos.

São eventos mágicos e potentes, e esse é o motivo pelo qual, de novo e de novo, anarquistas, socialistas, defensores da terra, lutadores sociais queer: ativistas de todo o espectro, comparecem. Mas mais do que isso, são as pessoas de fora que são as mais importantes pra mim. As pessoas que olham pro estado do mundo e sabem que o inimigo chega não de barco, mas de limusine; que veem a polícia agredir os jovens, que assistem o ódio maligno sendo disseminado e querem fazer algo a respeito.

Cada pessoa participa na organização de um evento como este a partir de um ponto de vista diferente. Essa multipolaridade de tendências políticas, interesses específicos e inclinações é benéfica e certamente faz com que o evento seja diverso e enriquecedor. Esta é a quinta Feira do Livro que ajudei a coordenar, e, pra mim, o mais importante são as banquinhas e unir as equipes, é sobre arte e tornar o anarquismo atraente, e, bom, principalmente, são as pessoas que nunca haviam ido a uma feira do livro que fazem todo o esforço valer a pena. Cada uma delas, em algum momento do dia, sentindo aquela chama de esperança, às vezes pela primeira vez. Eu me lembro de vários momentos da minha vida que foram como uma luz brilhante na escuridão: as conversas, zines, e pessoas que me fizeram acreditar que podemos fazer isso, podemos construir um mundo melhor. Junto.

Uma pequena recapitulação da Feira do Livro Anarquista de Bristol.

A feira do livro em Bristol percorreu um caminho meio instável. A edição recente começou em 2008; 26 banquinhas e 25 oficinas no Centro Comunitário de St. Werburgh com tudo, desde Princípios Anarquistas 101 até uma aula de Tai Chi. O sucesso consolidou o evento, que foi crescendo a cada ano. Em 2011, a Feira do Livro aconteceu logo após os protestos de Stokes Croft. Houve eventos durante toda a semana que antecedeu a feira, a polícia chegou a ameaçar fechá-la, e mesmo assim cerca de 1.500 pessoas compareceram pra aproveitar os 60 estandes e 34 eventos distribuídos em seis espaços, e algumas pessoas sortudas ainda conseguiram adquirir uma gravura de Banksy que se tornaria imediatamente lendária.

A feira do livro continuou. Ela teve seus altos e baixos; em setembro de 2017, o evento foi organizado por algumas pessoas novas, incluindo Anna Campbell. Depois de alguns anos no centro Trinity, ela voltou ao Centro Comunitário de St. Werburgh, e contou com mais de 30 banquinhas e 19 oficinas, e foi, segundo todos os relatos, um evento excelente. No mês de março seguinte, Anna seria assassinada pela Força Aérea Turca enquanto ajudava civis deslocados a fugir de Afrin.

Em maio de 2018, após uma mudança de local de última hora, a Feira do Livro aconteceu entre o Black Swan e o centro social BASE. Infelizmente, o evento entrou num hiato nesse ponto, embora tenha sido parcialmente substituído pelo fantástico Festival de História Radical de Bristol, que, com seu tom mais amplo e sua vibe meio diferente, se tornou um anfitrião acolhedor pra comunidade de organizadores de Bristol.

Aí, a Pandemia chegou, e o mundo inteiro entrou num hiato.

Nós todos nos deparamos com as realidades agridoces de buscar ajuda mútua vasta, linda e a nível de comunidade, em confronto com uma extrema-direita fortalecida e um governo indiferente, propenso a impulsionar a economia à custa da classe trabalhadora.

A Active Distribution foi a primeira a retomar as atividades após o lockdown com uma série de pequenas Feiras do Livro Radicais no Exchange. Assim, as pequenas faíscas de revolta e ousadia começaram a se espalhar. O círculo de tricô anarquista fez sua parte, e, no início de 2024, a Feira do Livro Anarquista de Bristol começou a reunir a turma, com uma mistura de rostos antigos e novos. Fizemos uma “mini Feira do Livro Anarquista” no fim do ano, e as pessoas ficaram entusiasmadas.

Então, aqui estamos…

Agora estamos propriamente de volta. As portas se abrem das 10:30 da manhã no Elmgrove Centre e fecharemos às 5 da tarde. Temos mais de 50 banquinhas de toda Bristol, do Sudeste da Inglaterra, do País de Gales e de todo o Reino Unido. Junto disso, há mais de 20 oficinas gratuitas com uma grande variedade de estilos e assuntos. Haverá atividades práticas sobre tudo, desde como lidar com oficiais de imigração, como consertar bicicletas, até como interagir com escudos antimotim de forma segura. Vamos explorar o político no pessoal com o debate “É Preciso Uma Aldeia Para Cuidar de Uma Criança”, TRH faça-você-mesma para pessoas trans, e escrita de testamento para radicais. Orientação especializada sobre o que tá acontecendo com o uso da lei do Terrorismo com protestos, e formas fáceis de lidar com a sua segurança digital. Ficar em dia com os trabalhos mais recentes sobre a Libertação da Pessoa com Deficiência ou as análises sobre Direito Fundiário, ou se juntar à plenária sobre luta eficaz no ambiente de trabalho com o sindicato de trabalhadoras do sexo e funcionários de hospital. Ouvir as pessoas da maioria global que estão se organizando na linha de frente contra o racismo encorajado, e os ativistas por trás da campanha que derrubou a estátua de Edward Colston. Ou talvez você apenas precise sentir a inspiração da Plenária de Motivos para Ser Otimista, que vai apresentar vitórias de campanhas regionais nos últimos cinco anos, com uma análise das táticas que nos levou a chegar onde chegamos.

Entre as atividades, você vai comer junto, compartilhar histórias, fazer planos. Espere por debates vibrantes sobre justiça habitacional, organização de bairro, e ecologia. Você vai bater um papo bebendo cerveja com camaradas mais velhos e veteranos do movimento, enquanto crianças folheiam fanzines ilustrados e correm umas atrás das outras por perto. Nesse murmúrio cheio de vida, você vai ouvir o eco das lutas de Bristol. Essa garota de Lawrence Weston falando sobre como ela não consegue encontrar trabalho, um organizador comunitário falando sobre o abismo de expectativa de vida de aproximadamente dez anos entre bairros mais ricos e bairros mais pobres, e um fervoroso morador de ocupação de Stokes Croft empolgado em contar desventuras da Fábrica Vermelha na época dos protestos.

Esses eventos são de família (em Bristol nós temos uma creche supervisionada e um espaço para crianças em uma brinquedoteca com brinquedos macios), e todo mundo é bem vindo, mesmo que seja só pra uma visitinha rápida. Venha dar uma espiada pela porta e faça a última coisa que o estado quer que você faça: começar a falar com seus vizinhos trabalhadores sobre os seus problemas, esperanças, sonhos, e como você acha que podemos chegar a um mundo melhor.

Leve as suas perguntas. Leve suas ideias. Leve a sua fome por mudança. Juntos nós vamos reafirmar que aqui, em Bristol, em carne e osso, ainda acreditamos que um mundo melhor é possível.

A gente se vê no Natal Anarquista.

Em solidariedade

Um Membro da equipe da Feira do Livro Anarquista de Bristol.

Fonte: https://organisemagazine.org.uk/2025/10/31/anarchist-christmas-in-bristol/ 

Tradução > Caio Forne

agência de notícias anarquistas-ana

Sol de primavera —
O despertar das flores
É quase um sussurro.

Paulo Ciriaco

[EUA] Marchando por Mumia: uma jornada de 12 dias por justiça

Ativistas iniciarão uma marcha de 12 dias pela libertação de Mumia Abu-Jamal em 28 de novembro, caminhando da Filadélfia até a prisão SCI Mahanoy em Frackville, Pensilvânia. Seu objetivo é urgente: exigir cuidados médicos, dignidade e liberdade para o prisioneiro político mundialmente conhecido.

Mumia Abu-Jamal, ex-membro do Black Panther e jornalista premiado, foi incriminado pelo assassinato de um policial da Filadélfia em 1981, após um julgamento racista marcado por provas falsificadas, testemunhas coagidas e parcialidade judicial. Por mais de 40 anos, ele expôs a injustiça do encarceramento em massa de trás das grades, tornando-se uma das vozes políticas mais importantes de sua geração.

Organizações internacionais de direitos humanos, incluindo a Anistia Internacional, há muito apenam sua condenação como uma farsa da justiça. Ele já foi condenado à morte, mas sua sentença foi posteriormente reduzida a prisão perpétua sem direito à liberdade condicional — uma morte em vida atrás das grades.

Agora com 71 anos, Mumia enfrenta sérios problemas de saúde. Após meses de pressão pública, ele foi submetido a uma cirurgia de catarata no olho esquerdo em setembro. Mas ele ainda precisa de cirurgia no olho direito e tratamento para retinopatia diabética, uma condição que pode causar cegueira se não for tratada. Os apoiadores chamam o atraso deliberado de abuso de idosos — outra forma de violência estatal contra um prisioneiro político.

Os gritos de guerra da marcha — Libertem Mumia Abu-Jamal, Acabem com a Negligência Médica, Acabem com o Abuso de Idosos — conectam a luta de um homem à crise mais ampla de negligência médica e abuso de idosos prisioneiros em todo os Estados Unidos.

A organização da rota de 12 dias requer alimentação, alojamento, transporte, assistência médica e apoio jurídico, de segurança e da mídia. Uma reunião híbrida de organização no início deste mês na Ethical Society da Filadélfia reuniu ativistas veteranos do Liberte Mumia e novos participantes, determinados a levar adiante a luta.

“Nunca vamos parar de lutar por Mumia porque ele nunca parou de lutar por nós”, disse Mama Pam, falando em um comício de 2023 na Filadélfia.

Quando os manifestantes chegarem aos portões da SCI Mahanoy em 9 de dezembro, eles estarão carregando mais do que a causa de um homem. Eles estarão marchando contra um sistema que prende os pobres, silencia a dissidência e trata a vida humana como descartável — e pelo direito à justiça e à liberdade.

Como apoiar a marcha pela libertação de Mumia

Você não precisa caminhar os 12 dias inteiros para fazer parte dessa luta. Os organizadores estão convocando uma ampla solidariedade para tornar a marcha possível.

Formas de ajudar incluem:

• Seja voluntário na logística — incluindo equipes de motoristas, preparação de alimentos, coordenação de alojamento, segurança, assistência médica e mídia.

• Faça doações para ajudar a cobrir os custos de suprimentos, hospedagem e outros custos logísticos dos manifestantes.

• Compartilhe atualizações nas redes sociais e ajude a divulgar o apelo pela libertação de Mumia.

• Organize eventos locais de solidariedade e palestras sobre o caso de Mumia e a luta contra a encarceramento em massa.

A marcha é coordenada por ativistas e aliados da campanha Liberte Mumia Abu-Jamal de todo o país.

Uma reunião organizacional foi realizada em 3 de novembro na Ethical Society, 1906 South Rittenhouse Square, Filadélfia, com coordenação contínua online.

Para atualizações, inscrições de voluntários e doações, visite marchformumia.org ou siga @BringMumiaHome nas redes sociais.

Até que Mumia seja libertado, nenhum de nós será livre.”

agência de notícias anarquistas-ana

Beija-flor travesso —
Pula de galho em galho
na manhã azul…

Marco Antonio Fontolan

[Itália] Dois encontros diferentes, uma única perspectiva: resistir ao domínio e construir liberdade.

O Grupo Anarquista “Mikhail Bakunin” – FAI Roma & Lazio adere e participa das iniciativas de 29 e 30 de novembro de 2025, respectivamente ao cortejo antimilitarista de Turim e ao dia “Montanha Libertária” em Colloro (Premosello Chiovenda, VB).

Dois encontros diferentes, uma única perspectiva: resistir ao domínio e construir liberdade.

Em Turim, contra a guerra e quem a arma; em Colloro, por uma vida autogestionada, solidária e livre das lógicas do lucro.

O sistema que devasta povos e territórios é o mesmo que arma os exércitos e empurra para a obediência.

As fábricas de armas, os governos, as fronteiras e os mercados são engrenagens da mesma máquina de morte e exploração.

Ser antimilitarista significa sabotar essa máquina, rejeitar todo alistamento, todo patriotismo, toda cumplicidade.

As guerras se interrompem desertando, opondo-se, agindo nos territórios contra quem lucra com a destruição.

Nas montanhas abandonadas ou mercantilizadas pelo turismo, abrem-se ao contrário espaços de resistência e autogestão.

“Montanha Libertária” é uma oportunidade para construir redes de mutualismo, economia vernacular e comunidades solidárias: formas de vida que negam o Estado e o mercado na prática cotidiana.

Rehabitar a montanha em perspectiva libertária significa opor-se ao capitalismo predatório e reconstruir relações livres, igualitárias e sustentáveis.

A luta contra a guerra e a busca por uma vida autogestionada fazem parte da mesma tensão anárquica: destruir o domínio, construir liberdade.

Porque não basta dizer não à guerra: é preciso criar um mundo que a torne impossível.

Contra todas as guerras, contra todos os Estados, contra todos os patrões.

Pela liberdade, a autogestão e a solidariedade entre os oprimidos.

Grupo Anarquista “Mikhail Bakunin” – FAI Roma & Lazio

gruppobakunin@federazioneanarchica.org

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

O céu, no jardim
amanhece encoberto…
Mas o ipê floresce!

Guin Ga Eden

[Espanha] Lançamento: “La Rebelión de los Siervos”, de Federica Montseny

“La Rebelión de los Siervos” é muito mais que uma novela curta: é um grito de denúncia, uma proclamação libertária e um manifesto narrativo contra a injustiça social. O texto encarna a convicção de que a literatura pode ser uma arma para organizar a raiva e forjar a utopia. Ambientada em uma casa rural andaluza, a história retrata Manuel, um camponês autodidata que armado com livros e dignidade, se levanta contra a exploração dos grandes proprietários de terras. Junto a personagens memoráveis como Carmencilla, símbolo trágico da resistência feminina, Montseny traça uma potente alegoria da luta obreira, da emancipação da mulher e da revolução social.

Com um estilo direto e apaixonado, esta novela se inscreve na tradição da literatura proletária e se irmana com relatos como “El Mexicano” de Jack London. Sua mensagem segue interpelando o leitor a partir da ética da resistência.

Ano de publicação: 2025

Autora: Federica Montseny

Editora: Calumnia Edicions & Piedra Papel Libros

ISBN: 978-84-129699-8-6

Páginas: 95

Tamanho do livro: 110 mm. x 160 mm.

Preço: 8,00 €

Web: piedrapapellibros.com

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

neve profunda –
as pegadas do gato
cada vez maiores

Ion Codrescu

[Chile] Valparaíso: I Jornada Anárquica pela prática e propaganda ácrata

Que a propaganda ácrata se espalhe na forma de livros, gráficos, música e reflexões para fortalecer a prática.

Criamos este espaço no morro para encontros e conversas. Que as redes se entrelacem neste território rebelde, aguçando a mente, o corpo, a palavra e a ação contra a autoridade.

Sabemos que o caminho para as transformações não é nem será dado pelas instituições, por isso continuamos com convicções firmes, procurando materializar as ideias anarquistas, em solidariedade com nossos companheirxs na prisão e pela destruição de todas as jaulas.

Não apenas negamos a prisão para nossxs companheirxs, mas repudiamos a prisão como conceito, porque entendemos que a prisão é o resultado de um pacto social ao qual nunca aderimos e que tem como objetivo a perpetuação de um sistema que desprezamos.

Em memória dos 81 presxs que morreram queimados na prisão em 8 de dezembro, aquele lugar maldito onde reina a tristeza.

Nos vemos no dia 13/12 no morro

(Mais perto da data divulgaremos o endereço)

>> Programação e atualizações: bibliotecaantiautoritarialecheros.wordpress.com

agência de notícias anarquistas-ana

paciência de tartaruga
cem anos
em cada ruga

Alexandre Brito

[Grécia] Adeus ao nosso Ignatius

3 de novembro de 2025

Após muitos meses (desde junho) em coma no hospital da Cruz Vermelha, Ignatius abriu os olhos pela primeira vez há alguns dias, durante uma visita de seus companheiros, aparentemente para se despedir de nós, pois hoje, domingo, 2 de novembro de 2025, ele faleceu. Repetidos derrames e cirurgias cranianas difíceis, apesar dos esforços da equipe médica e de enfermagem, levaram ao seu fim irreversível. Ignatios era um camarada anarquista conhecido em todo o movimento por sua participação plural em todas as suas ações e resistências, fossem elas lutas contra a repressão, projetos alternativos autogerenciados ou eventos culturais.

Ele se iniciou na ocupação Karyatidos, em Peristeri, e depois participou de coletivos que administravam o café Zapatista. Nos últimos anos, ele também participou de outros coletivos políticos e sociais, às vezes no Movimento Antiautoritário e no Empros [teatro autogestionado], mantendo uma presença constante no coletivo MEKAREVERSE e, é claro, participando de todos os eventos do movimento. No entanto, foi sua participação de longa data e multifacetada na ocupação do Jardim Botânico de Petroupolis que o marcou. Lá, ele desempenhou um papel de liderança em todas as ações individuais da ocupação, que diziam respeito à rua, ao acolhimento de refugiados e ao grupo de teatro, participando de inúmeras apresentações. Mas o que ajudou a criar o espaço foi o autoestabelecimento de coletivos, especialmente a mercearia, que desempenhou um papel decisivo. Um de seus grandes sonhos que não foi realizado foi a viagem planejada a Chiapas e às comunidades zapatistas para o Encontro Internacional de Resistência e Levante, realizado em agosto no Acampamento Comandanta Ramona, visitando as comunidades zapatistas pela segunda vez. Deixamos a última frase para o que ele mais amava, que era dançar e a respectiva aprendizagem que recebeu nessa área desde a infância. Desejamos que agora, sem restrições estatais, regulatórias e físicas, ele se divirta fazendo círculos e figuras de planeta em planeta e de estrela em estrela, e prometemos que nunca o esqueceremos.

Espaço social gratuito do Jardim Botânico de Petroupolis

Fonte: https://athens.indymedia.org/post/1638271/

Tradução > transanark / acervo trans-anarquista

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Fugiu-me da mão
no vento com folhas secas
a carta esperada.

Anibal Beça

Greves na Espanha!

Nossa seção espanhola, a CNT, convocou recentemente várias greves relacionadas com diversos conflitos laborais. Não só se somou à convocatória de greve geral de 24 horas em todo o país, em solidariedade com o povo palestino, mas que segue organizando-se nos locais de trabalho. Assim, seus membros se declararam em greve em Sevilha e Granollers (perto de Barcelona). Extremos opostos da geografia ibérica e setores econômicos muito diferentes, mas uma mesma luta: a da classe obreira.

Aixa Can Mansana é uma empresa com sede na Catalunha que proporciona serviços de arqueologia para as escavações iniciais exigidas pela lei espanhola em muitas construções ou movimentos de terra. Recentemente, a empresa despediu uma parte importante de sua planta fixa e a substituiu por pessoal temporário, substituindo assim os contratos estáveis de longa duração por outros de fixos descontínuos. Ao mesmo tempo, se negou durante os últimos 13 anos a revisar os salários para ter em conta a inflação, não proporciona a equipe de segurança necessária e se negou a discutir outros detalhes dos contratos.

Após um longo período de negociações infrutíferas, os trabalhadores e as trabalhadoras se cansaram e se declararam em greve, a partir de 13 de agosto. Isto significa que estão a mais de dois meses em luta. Uma entrevista completa pode se encontrar aqui¹: “Com a Caixa de Resistência Confederal podemos nos centrar na greve, nos piquetes, sem medo” – Confederação Nacional do Trabalho e uma declaração e uma atualização (em catalão) pode se encontrar aqui²: La vaga d’arqueòlegs de Can Mansana s’apropa als 60 dies mentre l’empresa vulnera el dret de vaga | CNT

Do outro lado do país, GAZC é uma empresa metalúrgica com sede em Sevilha que manufatura peças para fabricantes de aviões a nível internacional. Durante muito tempo, ignorou muitas disposições do convênio coletivo e impôs um clima de terror e repressão sindical, que culminou em várias demissões durante o último verão. A planta, cansada desta situação, se declarou em greve indefinida a partir de 6 de outubro. Há mais informação em³: CNT inicia uma greve indefinida em GAZC Sevilha. Uma de suas principais reivindicações, claro, é a readmissão de seus companheiros demitidos.

Segundo a legislação espanhola, durante as greves não se pagam salários, o que significa que os trabalhadores e as trabalhadoras não receberam (ou não receberão) pagamento algum durante meses. No entanto, o último congresso da CNT aprovou a criação de uma caixa de resistência, de modo que as pessoas que façam a greve receberão dinheiro deste fundo. Esta é a razão principal pela qual os conflitos podem prolongar-se tanto tempo ou continuar indefinidamente (outros motivos são o ânimo combativo e a determinação). Isto significa também que a CNT pode abordar lutas mais duras e ser mais ambiciosa em suas reivindicações, já que está preparada de antemão. Em CIT nos alegra ver que nossa seção espanhola cresce cada dia em número e capacidades! Ânimo!

Fonte: https://www.iclcit.org/es/Greves-en-espana/

[1] https://www.cnt.es/noticias/con-la-caja-de-resistencia-confederal-podemos-centrarnos-en-la-huelga-en-los-piquetes-sin-miedo/

[2] https://granollers.cnt.es/2025/10/06/la-vaga-darqueolegs-de-can-mansana-sapropa-als-60-dies-mentre-lempresa-vulnera-el-dret-de-vaga/

[3] https://sevilla.cnt.es/2025/10/cnt-inicia-una-huelga-indefinida-en-gazc-sevilla/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Rosa branca se diverte
Pétalas no vento
Imitam a neve.

Vinícius C. Rodrigues

[Belém-PA] Encerramento da COP30: avaliação do CCLA

Há poucos dias, a cúpula da ONU sobre as mudanças climáticas e as soluções para enfrentar os problemas gerados pela aceleração dessas mudanças foi encerrada com um “acordo mínimo” muito aquém das expectativas dos observadores mais pessimistas.

De fato, enquanto anarquistas e libertáries, não podíamos, até antes de ela começar, esperar muito de um encontro que ao longo dos anos não soube frear minimamente a ganância capitalista e só trouxe como única “solução” concreta ao desregulamento climático a mercantilização de um suposto direito a poluir: o tal de mercado de carbono.

Portanto, havíamos cuidadosamente preparado nosso Centro de Cultura para acolher as mais variadas formas de protesto vindo da Amazônia brasileira (começando por Belém e sua metrópole), da América do Sul e do resto do mundo. Todos os dias, durante aquele circo de vai e vem de delegações oficiais gangrenadas por lobistas do petróleo, propomos atividades culturais, debates e rodas de conversa, refeições solidárias, preparação das marchas populares de protesto, etc.

Apesar dessa preparação e desse planejamento, tivemos a felicidade de conhecer momentos imprevistos e pessoas desconhecidas e de conviver com outras até então frequentadas apenas por meio da internet: assim pudemos participar da ocupação por parte dos povos indígenas da Zona Azul da COP, receber visitantes vindo de muito longe e dialogar com eles, Dràgàn Macko (França), Mário Rui Pinto (Portugal) ou Peter Gelderloos (EUA)… e isso não é tudo: foram momentos lindíssimos, cheios de aprendizagens em termos de práticas de resistência, de trocas de pontos de vista sobre as crises geradas pelos de cima e de compartilhamento de soluções para a gente sair dessas desde a nossa posição periférica.

Para finalizar essas jornadas anarquistas anti-COP30, queríamos deixar a vocês a nossa avaliação sobre essa farsa que foi esta COP, trigésima ocasião perdida para salvar a nossa Mãe Terra (Mother Earth como a chamava Emma Goldman) e as populações que nela sobrevivem, presas a mazelas e tormentos evitáveis.

Já o sabíamos, a coragem para sair dessa trilha de destruição só será a nossa e, quando conseguirmos reverter essa situação desesperadora pelas nossas lutas, deixaremos apenas às elites as roupas de vergonha de quem podia e não tentou para se vestir e andar sob as vaias da humanidade e de todas as criaturas do planeta, finalmente livrado da exploração capitalista e das desigualdades e opressões.

>> Para ler a Carta das Jornadas Anarquistas Anti-COP na íntegra, clique aquihttps://cclamazonia.noblogs.org/files/2025/11/Carta-das-Jornadas-Anarquistas-Anti-COP-CCLA.pdf

Boa leitura!

Centro de Cultura Libertária da Amazônia – CCLA

Rua Bruno de Menezes (antiga Gen. Gurjão), 301. Campina. Belém, Pará, Brasil.

Site: https://cclamazonia.noblogs.org/

Instagram: @cclabelem

agência de notícias anarquistas-ana

Se equilibra
nas variações do vento
o bem-te-vi

Harley Meirelles

Lula, líder climático?

[Itália] Sobre a operação Maistrali em Cágliari

NÃO ABAIXE A CABEÇA DIANTE DO ESTADO E DE SEUS SÚDITOS

CONTRA A GUERRA DOS ESTADOS

CONTRA A PAZ SOCIAL

Há muitas maneiras de matar. Pode-se enfiar uma faca na barriga de alguém, tirar-lhe o pão, não curá-lo de uma doença, enfiá-lo numa casa inabitável, massacrá-lo de trabalho, levá-lo ao suicídio, mandá-lo para a guerra, etc. Apenas alguns desses métodos são proibidos no nosso Estado.

B. Brecht “O Livro das Mudanças”

No dia 21 de novembro, mais uma vez a Digos [Divisão de Investigações Gerais e Operações Especiais da polícia italiana] de Cáglieri e o tribunal lançam uma megaoperação, denominada “Maistrali”, na qual 36 companheirxs são investigadxs por vários crimes e 10 delxs também por associação com fins de terrorismo ou subversão da ordem democrática (o infame artigo 270-bis), pelas lutas anticarcerárias, antimilitaristas e antifascistas, incluindo pichações, realizadas desde 2020 até hoje. Fatos que a polícia e o tribunal costuram de forma bizarra para justificar suas interpretações e seus pedidos. Apesar de o Estado acusar de terrorismo quem luta, a única motivação desta operação é, mais uma vez, disseminar o medo para combater o conflito social emergente em grande parte do planeta.

Enquanto a opinião pública está atordoada pelas redes sociais e pelos bombardeios midiáticos sobre segurança, os estados e seus exércitos continuam a se armar, com enormes investimentos sem precedentes, empobrecendo trabalhadorxs e exploradxs. Para justificar esta política, precisam criar um inimigo. De fato, a solução mais fácil é classificar a população em amigos e inimigos, identificando como inimigos aqueles que não querem ou não podem cumprir as prescrições de um sistema capitalista direcionado, com determinação crescente, para o aniquilamento do ser humano. Os novos crimes, as medidas preventivas, a prisão, a tortura são um alerta útil para quem ainda não está convencido a ficar do lado do Estado.

Toda vez que o conflito social ganha força, o Estado emana leis que reforçam normas para controlar qualquer dissidência, seja qual for a forma como se manifesta. Normas escritas de forma a dar aos juízes a possibilidade de interpretá-las, variando arbitrariamente o tipo de crime e atingindo mais duramente todxs aqueles que se opõem e todxs aqueles que são solidárixs.

A imposição desenfreada de medidas preventivas para quem tenta lutar nos locais – sejam praças, prisões ou CPRs (Centros de Permanência para Repatriação) – onde o Estado exerce sua violência racista contra pobres e migrantes, tem o único objetivo de proteger esses lugares que servem para separar o proletariado dos poderosos e dos patrões. A contínua colaboração entre forças policiais e exército é útil ao Estado para proteger os exploradores e seus súditos, espancadores fascistas e militares, todos criminosos assassinos quando surge a oportunidade, tanto em tempos de guerra como em tempos de paz.

Estamos convencidos de que a única maneira de protestar contra as regras é infringi-las; quanto mais o sistema tem medo, mais busca incutir medo em quem se opõe, inclusive normalizando o uso da violência contra quem não se adequa. O desejo de liberdade não pode ser detido pelas concessões do poder; a liberdade se toma. Não damos e não daremos nenhum passo atrás em relação às nossas escolhas e às nossas lutas, reafirmando que não serão seus processos, com sentenças que já gostariam de ter escrito, suas ameaças e suas torturas que nos impedirão de estar sempre do lado dos fracos e dos exploradxs que lutam.

TODXS LIVRES

SEMPRE DO LADO DE QUEM LUTA

FOGO AO ESTADO E ÀS PRISÕES

Anarquistas contra a prisão e a repressão

Fonte: https://brughiere.noblogs.org/post/2025/11/25/sulloperazione-maistrali-a-cagliari/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

na rua deserta
brincadeira de roda
vento se sujando de terra

Alonso Alvarez

[Alemanha] Mumia livre – uma hora em solidariedade com os oprimidos do feudalismo norte-americano

Terça-feira, 9 de dezembro – Embaixada dos EUA em Berlim – 18h às 19h00

Na terça-feira, 9 de dezembro de 2025, o jornalista afroamericano Mumia Abu-Jamal, completa 44 anos(!) de prisão por um suposto assassinato de um policial. Como jornalista, décadas atrás, Mumia denunciou o governo corporativo, a repressão autoritária e racialmente motivada e a violência policial mortal nos EUA e os criticou quando seus colegas às vezes se subordinavam voluntariamente ao mainstream. Como ex-porta-voz do Partido dos Panteras Negras, ele sabia e sabe muito bem do que são capazes os representantes da supremacia branca nos EUA.

A atual aquisição tecno-feudal não cresceu da noite para o dia, mas está profundamente enraizada no colonialismo social-darwinista da América do Norte. O assassinato em massa e o etnocídio da população indígena, bem como a escravidão, que continua até hoje de forma modificada, permitiram que a classe dominante nos EUA ignorasse os direitos humanos e afirmasse os próprios interesses sem escrúpulos. Já há muito tempo, as guerras que os EUA vêm travando ou apoiando externamente são um espelho das guerras que travam internamente desde o seu início: expulsão e assassinato de todas as pessoas de cor que não se subordinam aos interesses da exploração. Um judiciário classista e racista garante que o terço inferior da população dos EUA não tenha acesso à justiça e que as corporações possam fazer o que quiserem sem impedimentos. Uma força policial que emergiu das patrulhas escravistas dos antigos estados do sul saqueia e aterroriza impunemente a população pobre do país. Políticos de ambos os principais partidos nos EUA costumam ser lobistas de grandes corporações, especialmente das indústrias de armas e prisões.

Mais de 2 milhões de prisioneiros, maior população carcerária do mundo, geram lucros gigantescos e permanecem em grande parte sem direitos civis, mesmo após a libertação da prisão. Sentenças de prisão excepcionalmente longas e o uso de confinamento solitário ao longo de décadas, o que viola os direitos humanos, fazem parte do programa de tortura estabelecido para manter a população sob controle na chamada “Terra dos Livres”. Nem falamos, ainda, sobre controles policiais racistas e a destruição do estado de bem-estar social. Devastador e apocalíptico, mas os fascistas da tecnologia não estão tão firmemente assentados.

Apoiar aqueles nos EUA que se opõem a tudo isso e defendem uma perspectiva de liberdade e justiça é o mínimo que podemos fazer. Aos 71 anos, ainda preso, Mumia Abu-Jamal continua lutando contra tortura, exploração e guerra, depois de sobreviver a duas ordens de execução da pena de morte. Ameaçado pela cegueira, afetado por inúmeras doenças não tratadas da velhice, ele não deixa de ser a voz dos oprimidos no corredor da morte e nas prisões de isolamento nos EUA. Vamos fortalecer Mumia, vamos fortalecer os prisioneiros combatentes nos EUA!

Venha para o comício no 44º (!) aniversário de sua prisão em frente à Embaixada dos EUA em Berlim: Pariser Platz 2, perto do Portão de Brandemburgo, das 18h às 19h00.

FREE MUMIA – FREE THEM ALL!

>> Mais infoshttps://freiheit-fuer-mumia.de/

Tradução > CF Puig

agência de notícias anarquistas-ana

Pra que respirar?
posso ouvi-la, fremindo,
maciez de noite.

Soares Feitosa

Do DOI-CODI à Favela: O Estado Genocida e Sua Nova Máscara

Dada a conjuntura atual, mais do que nunca, é necessário que abramos os olhos e rompamos o véu enganoso da “redemocratização” no território dominado pelo Estado Brasileiro! Eles nos vendem a farsa de que a ditadura militar acabou, mas nós, das ruas e das lutas sociais, sabemos a verdade sangrenta: o monstro apenas trocou de pele. Torturas, prisões, sequestros, assassinatos, delação, censura – os mesmos instrumentos de terror que assombraram o Brasil sob os gorilas fardados continuam a ser a política de Estado contra os pobres, os negros, os indígenas e os militantes. A pergunta que ecoa das favelas aos quilombos é: a ditadura realmente acabou ou apenas mudou de nome?

Eles trocaram os porões do DOI-CODI pelas operações de “Garantia da Lei e da Ordem” nas periferias. A tortura saiu dos quartéis e se instalou nas abordagens policiais, nas violações de autos de resistência, nas humilhações cotidianas do sistema prisional. O sequestro de corpos negros segue uma lógica industrial, seja no extermínio pela polícia, seja no encarceramento em massa que arranca milhares de suas comunidades. O método é o mesmo: o terror como ferramenta de controle social e a aniquilação daqueles que o sistema marca como indesejáveis.

O aparato de perseguição política foi modernizado e recebeu roupagem “legal”. As prisões preventivas, as delações premiadas coagidas e a criminalização dos movimentos sociais são as novas facetas do arbítrio. A Lei de Segurança Nacional, herança maldita da ditadura, é brandida contra quem ousa criticar os poderosos. Eles não precisam mais de AI-5 quando têm um Judiciário conivente e uma mídia mercenária que legitima a perseguição, construindo narrativas que transformam militantes em “terroristas” e protestos em “atos de guerra”.

A censura não morreu; tornou-se digital, algorítmica e estrutural. Ela se disfarça de “política de comunidade” nas redes sociais, de “combate à desinformação” que silencia vozes dissidentes, e da monopolização midiática que mantém o povo intoxicado pela ignorância. A violência do Estado agora é transmitida ao vivo, mas a mesma máquina que a exibe tenta justificá-la como “necessária”. O genocídio negro, o etnocídio indígena e a repressão aos pobres são a prova viva de que o Estado brasileiro mantém sua essência autoritária.

E a farsa eleitoral? Trocar os generais por políticos profissionais não altera a natureza do Estado. Enquanto o poder permanecer nas mãos das elites econômicas, das corporações militares e de um Judiciário de exceção, a democracia seguirá sendo uma piada de mau gosto. O mesmo sistema que financiou a ditadura segue no poder, renovando sua maquiagem a cada pleito para preservar seus privilégios. A “Nova República” não passou de um pacto de elites para manter o povo sob jugo, agora com métodos mais “sofisticados” de repressão.

Portanto, a resposta é clara: a ditadura nunca acabou, apenas se recombinou. Ela agora é civil, militar, jurídica e midiática. Mas nossa resistência também se reinventa. Não depositaremos fé em salvadores da pátria ou nas instituições podres desse Estado genocida. Nossa luta é pelo fim da polícia, dos exércitos, pelo fim do sistema prisional, pelo fim da justiça de classe e por uma verdadeira desagregação desse Estado assassino (e de seu irmão, o Capital). A memória dos torturados e assassinados nos grita: não passarão! Pela liberdade de todos e pelo fim de TODAS as ditaduras, ação direta e luta nas ruas!

Pela anarquia.

Liberto Herrera.

agência de notícias anarquistas-ana

lerdamente,
a água empurra a água
e o rio flui.

Alaor Chaves

[Itália] Lançamento: O Comandante Anarquista e Suas Batalhas no Coração do Século XX

Emilio Canzi: Vida, Luta e Memória

Com documentos e fotografias inéditos

Emilio Canzi, Comandante Único da XIII Zona Partigiana, atravessou os principais eventos da primeira metade do século XX, e neste volume surge sua figura de dimensão internacional. Sua atuação não se limita ao contexto nacional, onde, além de ter combatido na Primeira Guerra Mundial e na Resistência, teve um papel de destaque na formação dos Arditi del Popolo e na atividade antifascista clandestina, sofrendo repetidas prisões e a confinação policial em Ventotene. Suas façanhas também incluem a experiência da guerra civil na Espanha entre 1936 e 1937 – sendo um dos primeiros italianos a correr em auxílio dos republicanos espanhóis – e os acontecimentos do antifascismo anarquista no exílio na França, de 1922 a 1940. Com a chegada dos alemães a Paris, foi capturado e passou pelas prisões do Terceiro Reich e pelo Campo de Concentração de Hinzert antes de sua extradição para a Itália. Pela primeira vez, sua trajetória como combatente em mil batalhas é vista também através de seus relacionamentos familiares, o amor por seus filhos Bruna e Pierrot, e o encontro com outras personalidades que o tornaram uma referência. Contribuindo para criar uma lenda em torno dele, está a incrível história de sua morte. Ele ainda nos espera lá em cima, na montanha.

208 páginas

Formato: 16×23 cm

ISBN: 9791280648-49-5

Preço de lançamento: € 21,5 (Frete normal gratuito)

shop.riccardoravizza.com

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

o jornaleiro espantado
que eu queira comprar
o jornal de ontem

André Duhaime

A COP30 acabou. E qual foi o resultado?

Por Gi Stadnicki | 25/11/2025

A COP30, como todas as anteriores, não findou com decisões com impacto efetivo diante da urgência climática. Há muita expectativa, mas COPs não têm poder de obrigar ninguém a nada. Lá se produzem acordos voluntários, sem mecanismos reais de punição caso tais expectativas não se concretizem.

Então, o padrão se repete: países prometem, multiplicam-se as selfies, e tome discursos e mais discursos, páginas e mais páginas de textos com ideias pra soluções, intencionalmente rasas. Com metas e mais metas traçadas que dificilmente serão cumpridas.

E pra piorar, bem pouca transparência pra que a população, a sociedade, entenda minimamente do que é tratado ali. Porque no capitalismo, há contas que nunca fecham. Afinal, as grandes economias continuam ditando as regras. E a regra fundamental delas é: crescimento econômico acima da vida. Isso significa manter petróleo, gás e mineração funcionando enquanto falam de “transição energética justa”…

Grandes negócios foram fechados. As mineradoras, as petroleiras e claro, o agro, foram as estrelas da festa, com toda liberdade, conforto e aval estatal pra priorizarem seus lucros.

O Brasil, inclusive sob o governo Lula, não rompe com esse modelo. Tudo se resumiu a “discursos bonitos”, a alguma presença indígena simbólica nos espaços VIP, mas:

• A realidade é que expandiu a extração e comércio de petróleo o ano todo;

• Defendeu “transição energética justa” sem tocar no lucro das petroleiras;

• Não apresentou plano concreto para extrair menos.

Ou seja: continuou jogando o jogo.

Os povos originários, quilombolas, ribeirinhos, camponeses, comunidades periféricas seguiram tendo que lutar cada vez mais, pressionando por direitos básicos, e sem participação à altura nas mesas oficiais.

Precisaram como sempre produzir um evento à parte, a Cúpula dos Povos, pois só assim tem a voz e o protagonismo que merecem, como os reais protetores do meio ambiente!

E que esse ponto aqui fique definitivamente bem esclarecido: qualquer avanço real pros povos indígenas e quilombolas, quando vem, vem à custa da forte e incessante pressão/luta histórica desses povos por seus DIREITOS, e não porque líderes políticos brancos decidiram fazer-lhes algum favor! Todo mérito é deles, que sempre souberam se organizar, enfrentar e resistir ao fim do mundo!

Infelizmente, diante de tudo isso, nos resta entender que o sistema internacional de proteção climática é construído para não funcionar. Por exemplo, as principais causas da emissão de gases de efeito estufa são: o agronegócio, o uso de agrotóxicos que destrói a biodiversidade, afeta o regime de chuvas e equilíbrio da natureza e o uso do petróleo no transporte individual.

Essas três causas apareceram no documento final? Foi elaborada alguma proposta concreta para enfrentar esses problemas? Não. Isso porque exigir medidas de proteção reais significa mexer em:

▪️ lucro de corporações,

▪️ modelo colonial de exploração,

▪️ consumo do Norte Global.

E eles não vão cortar voluntariamente o próprio privilégio.

A COP30 serviu para produzir manchetes, reforçar narrativas de compromisso e manter o teatro diplomático. Não alterou os fundamentos do problema: um sistema mundial movido pela lógica de extração infinita num planeta finito.

Nada de estrutural foi realmente resolvido, os combustíveis fósseis sequer foram mencionados nos documentos, portanto é de se concluir que realmente, as COPs não foram desenhadas para resolver e sim pra fazer o que o capitalismo faz de melhor: transformar absolutamente tudo e todos em espetáculo e produto.

agência de notícias anarquistas-ana

Sombra no mato
passarinho assovia —
avencas ao vento.

Mô Schnepfleitner

Governo mantém benefício a usinas a carvão em MP do setor elétrico

“Faça o que eu digo, não o que eu faço.” No início de novembro, o presidente Lula sugeriu que a COP30 deveria propor um mapa do caminho para eliminar os combustíveis fósseis. No mesmo dia em que a conferência do clima em Belém terminou sem mencionar o roteiro em qualquer texto da “Decisão de Mutirão”, no sábado (22/11), disse, na Cúpula de Líderes do G20 [na África do Sul], que o grupo deveria discutir o tema. A lição de casa, porém, mais uma vez, não foi feita.

Ontem (25/11), em despacho no Diário Oficial da União, o presidente em exercício, Geraldo Alckmin, informou os vetos à Medida Provisória nº 1.304/2025, que tenta organizar o setor elétrico. O texto recebeu “jabutis” (matérias estranhas ao tema) de deputados e senadores, um deles beneficiando termelétricas a carvão, um dos piores combustíveis fósseis no que diz respeito a emissões de gases de efeito estufa. E este “jabuti” foi mantido na legislação.

Na prática, isto significa que até 2040 haverá a compra compulsória da eletricidade produzida por usinas a carvão com contratos vigentes em 31 de dezembro de 2022 e com previsão de término não superior a 31 de dezembro de 2028. É o caso de Candiota 3, planta instalada no Rio Grande do Sul pertencente à Âmbar Energia. Para ligar o nome às pessoas, a Âmbar é controlada pela holding J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, também donos da JBS – e que tiveram trânsito livre dado pelo governo na Zona Azul da COP30.

Além de uma energia suja, essa eletricidade é desnecessária para suprir a demanda brasileira, e muito mais cara que aquela gerada por fontes renováveis. A ABRACE, associação que reúne grandes consumidores de energia, calcula que o benefício vai custar quase R$ 1 bilhão por ano nas contas de luz, informa a Folha de S. Paulo. Sem falar no custo climático das emissões.

Fonte: ClimaInfo

agência de notícias anarquistas-ana

Nem uma brisa:
o gosto de sol quente
nas framboesas

Betty Drevniok

Justiça climática REAL é… ACABAR com todos os exércitos e a indústria bélica!!!

|| O setor militar é um dos maiores consumidores de energia, cujas emissões de gases com efeito de estufa contribuem significativamente para a crise climática. ||

Não é de se estranhar que ninguém levante a questão das emissões produzidas pelos exércitos, atividades militares e equipamentos bélicos nas COP´s. Na COP30, em mais uma rodada de negociações internacionais sobre mudanças climáticas, o tema sequer foi abordado no “documento final”. Os exércitos estão isentos dos protocolos e tratados internacionais, inclusive de informar sobre suas emissões. Estima-se que, se fossem um país, seriam o quarto maior emissor, atrás dos Estados Unidos, China e Índia, e à frente da Rússia.

• Atualmente, os exércitos respondem por 5,5% de todas as emissões globais, de acordo com um estudo realizado em parceria pela Scientists for Global Responsibility (SGR) e a Conflict and Environment Observatory (CEOBS).

• O setor não está vinculado a nenhum acordo climático internacional: as atividades militares foram deixadas de fora do Protocolo de Kyoto de 1997 e do Acordo de Paris sobre o Clima de 2015. O argumento usado é o de que dados sobre o uso de energia pelos exércitos poderiam minar a segurança nacional.

• Nos raros casos em que há divulgação, as informações não são confiáveis ou, na melhor das hipóteses, estão incompletas, segundo cientistas, acadêmicos e ativistas.

• A guerra, os conflitos armados no mundo, não só tem um impacto devastador nos meios de subsistência das pessoas em zonas de conflito, como também causa estragos no meio ambiente, na natureza.

• De acordo com o livro “A Guerra Contra o Clima”, a guerra entre Israel e Gaza produziu o equivalente a 32,2 milhões de toneladas de CO₂ em apenas 15 meses.

• Em três anos, a invasão da Ucrânia pela Rússia também produziu o impressionante equivalente a 230 milhões de CO₂.

• As forças armadas, exercícios militares entre diferentes forças (Exército, Marinha e Aeronáutica), produzem emissões massivas de gases de efeito estufa, especialmente em aeronaves, tanques e navios, devastam ecossistemas e deixam para trás resíduos tóxicos que envenenam comunidades por gerações.

• As forças armadas dos EUA são os maiores consumidores de petróleo do mundo e, consequentemente, um dos maiores emissores de gases de efeito estufa. As emissões de gases de efeito estufa do Pentágono equivalem a mais de 59 milhões de toneladas métricas de dióxido de carbono por ano. Se fosse um Estado-nação, as forças armadas dos EUA seriam o 47º maior emissor do mundo, com emissões superiores às de Portugal, Suécia ou Dinamarca.

Portanto, combater as mudanças climáticas é, entre outras ações reais urgentes, DESMILITARIZARACABAR com todos os exércitos e a indústria bélica!!!

agência de notícias anarquistas-ana

Boêmio da noite
no portão enferrujado.
Morcego dormindo.

Fanny Dupré