Vídeo | Solidariedade com Johann Sainea: Anarquista Encarcerado pelo Estado Colombiano

Johann Sainea Rubio está detido nas prisões colombianas desde 2021, acusado de participar da revolta popular daquele ano. Desde que o governo de extrema direita de Abelardo de la Espriella assumiu o controle do Estado colombiano, sua situação, que já era muito grave, piorou ainda mais. O Estado colombiano está restringindo o fornecimento de alimentos, impondo uma situação de fome e sede muito graves, com o objetivo de prejudicar a saúde de Johann e de outras pessoas presas em diferentes partes do país após lutarem pela dignidade e pela liberdade.

Aproveitamos a Semana Internacional de Solidariedade com ys Presys Anarquistas para tentar oferecer algum alívio a Johann e seus companheiros, arrecadando dinheiro para que possam ter acesso digno à água e à comida.

Como diz Johann, em suas próprias palavras: “A solidariedade é amor e compreensão transformados em ação“. Para ajudar Johann, doe qualquer quantia pelo link:

https://chuffed.org/project/197444-solidarity-with-johann-sainea

>> Para ver o vídeo, clique aqui:

https://kolektiva.media/w/x7gXbkiRxH85J82qd2n8Dt

agência de notícias anarquistas-ana

Não há céu nem terra,
apenas a neve
caindo sem parar.

Hashin

[Itália] Bolonha · Encontro Internacional dos Arquivos Libertários

FICEDL

11 a 13 de setembro de 2026

Bolonha · Encontro Internacional dos Arquivos Libertários

De 11 a 13 de setembro de 2026, Bolonha sedia o encontro internacional dos arquivos anarquistas da rede FICEDL — a Federação Internacional dos Centros de Estudos e Documentação Libertários. Três dias para apresentar os acervos, compartilhar práticas de conservação e refletir juntos sobre o papel da memória dos movimentos. O convite está aberto a todos os arquivos anarquistas, a pesquisadoras e pesquisadores, e a todos que queiram colocar em rede a sua própria experiência.

Convite

Caras companheiras e caros companheiros,

Na onda do entusiasmo pelo sucesso da BOAB — Bologna Anarchist Bookfair (Feira do Livro Anarquista de Bolonha), em setembro de 2025, decidimos tentar dar novo fôlego a outro evento que já não se realizava há 10 anos. Temos, portanto, o prazer de convidá-los para um encontro internacional dos arquivos anarquistas da rede FICEDL — a Federação Internacional dos Centros de Estudos e Documentação Libertários (ficedl.info).

Além das entidades que já aderem à FICEDL, o convite se estende a todos os arquivos anarquistas, a pesquisadoras e pesquisadores, e a todos os interessados em colocar em rede sua própria experiência.

Nesses dez anos, muitas coisas aconteceram. Entre altos e baixos de atividades, a rede ReBal (Rede de Bibliotecas Anarquistas e Libertárias, rebal.info) continuou a crescer quantitativa e qualitativamente; alguns dos nossos arquivos entraram em contato com novas experiências, como a rede de arquivos anarquistas do Leste Europeu, graças à Balkan Anarchist Bookfair; e, de modo geral, o interesse pelas temáticas arquivísticas e pela construção da memória está cada vez maior, inclusive fora dos círculos estritamente anarquistas ou militantes, mas com um olhar muitas vezes voltado justamente para os arquivos anarquistas e sua experiência secular e original. Também do ponto de vista das práticas e das ferramentas que podemos utilizar para nosso trabalho e atividades, muita água passou por baixo da ponte.

Então, parece que realmente chegou o momento de nos reencontrarmos todos e todas para dois dias de conversas e trocas (e sim, também um pouco de farra!).

Convidamos vocês, portanto, para o encontro FICEDL 2026, que acontecerá nos dias 11, 12 e 13 de setembro de 2026 (começando na sexta-feira à noite até domingo à tarde) em Bolonha, no Círculo Anarquista Berneri.

O encontro foi pensado em modalidade participativa. Portanto, se vocês têm debates ou workshops para propor, manifestem-se! O tempo é limitado e, portanto, teremos que fazer escolhas, mas toda sugestão é bem-vinda.

Para aderir, ou propor debates e workshops, escrevam para xerri@bida.im; à medida que for sendo definido, compartilharemos o programa mais detalhado.

Junto com a adesão, pedimos também que nos informem se precisam de hospedagem ou de qualquer outra necessidade logística. Dentro dos limites de nossas possibilidades, será criada também uma caixa de auxílio mútuo para permitir que mesmo aqueles que precisam arcar com altos custos de viagem possam participar. Se tiverem essa necessidade, ou quiserem contribuir, avisem-nos e, assim que estiver operacional, daremos a todos instruções mais precisas sobre os procedimentos.

Pela rede FICEDL

A Biblioteca Elio Xerri (Círculo Anarquista Berneri) de Bolonha

Em colaboração com o Centro Studi Libertari / Arquivo G. Pinelli de Milão

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

em nosso universo
breve, passa, com pressa! e
graça, a borboleta

Issa

[México] Jornada anticarcerária e antiautoritária no marco do Agosto Negro e da Semana Internacional de Solidariedade aos Presos Anarquistas e Perseguidos

Em um mundo no qual se intensificam o autoritarismo, o fascismo, a causa de guerras entre Estados e contra os povos (sendo o jogo dos ricos). Se fomenta a destruição da vida selvagem, e se endurece a repressão contra os anarquistas, com condenações de prisão cada vez mais longas e isolamentos cada vez maiores nos cárceres…

Em um estado chamado México, onde aumenta a violência com o narcotráfico às comunidades, e no qual há milhares e milhares de desaparecidos, se agrava a precariedade e a miséria da vida…

Em Oaxaca, onde o Estado assassinou nosso companheiro anarcopunk Chava, também perseguindo e criminalizando nosso companheiro Miguel Peralta. Onde os megaprojetos com o turismo burguês destroem os territórios e ecossistemas. Onde comunidades, sociedade em geral, estão sendo cooptadas e domesticadas pela política da 4t [“Quarta Transformação”], disfarçada de “esquerda”.

Compartilhamos uma jornada anticarcerária e antiautoritária no marco do Agosto Negro e da Semana Internacional de Solidariedade aos Presos Anarquistas e Perseguidos, para compartilhar experiências desde dentro a luta contra o cárcere e contra a autoridade. 

Haverá práticas, atualizações de diferentes casos de repressão, encarceramento e perseguição, projeções, música, arte e outros materiais criados no marco da luta contra os cárceres e a sociedade carcerária. 

Pela memória de Luciano Balboa “Lupi”, Luciano Pitronello “Tortuga” e Belén Navarrete!

Em solidariedade com a luta negra contra a escravidão e sua instituição contemporânea, o cárcere!

Pela memória de Sacco e Vanzetti, anarquistas italianos assassinados pelo Estado yankie há 99 anos!

Pela liberdade absoluta de Miguel Peralta!

Vingança por Chava! 

E por todos os anarquistas do mundo caídos em combate, defensores do território e da vida! 

A memória é ativa e o conflito permanente! 

Fogo a todos os cárceres, físicos e mentais! 

Morte ao Estado!

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Nos olhos da libélula
refletem-se
montanhas distantes.

Issa

[Uruguai] Faixas em solidariedade com Juan Aliste

Faixas em solidariedade com Juan Aliste, preso no Chile pela expropriação de dois bancos e a morte do cabo moyano.

O companheiro se encontra enfrentando uma dura enfermidade, agravada pela deliberada postergação de sua atenção médica por parte da gendarmeria. Estendemos estas faixas em ambos os lados de uma ponte sobre a autopista que conecta o centro com os bairros do oeste, como gesto solidário com Juan e seu entorno, e para recordar que a luta contra o capital é uma e sem fronteiras.


Se os patrões nos roubam o corpo, o tempo e a liberdade, expropriar é recuperar nossas vidas.

Solidariedade com todos os anarquistas e subversivos presos nos cárceres do Chile: Mónica Caballero, Francisco Solar, Joaquín García, Felipe Ríos, Sebastián Moncada, Nicolás Araya, Rucio, Marcelo Villarroel, Aldo Hernández, Lucas Hernández e Carlos Calcina.

Que viva a solidariedade internacionalista!

Que viva a expropriação!

Saúde e Liberdade para o companheiro Juan Aliste!

Contra o capital: Recupera tua vida!

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

É quase nada
a cara da libélula:
somente olhos.

Chisoku

[Espanha] Faleceu o companheiro Pablo Serrano

Hoje, 16 de agosto de 2026, o dia amanhece com um vazio sufocante no peito. O companheiro Pablo Serrano nos deixou aos 72 anos, após uma dura doença. E não, não se trata de uma despedida comum, porque Pablo não era um homem comum. Ele foi um militante anarquista insurrecionalista, daqueles que entendem a rebelião não como uma teoria de salão, mas como um batimento diário, como o gesto que queima as normas e constrói laços afetivos nas frestas do sistema. Foi membro fundador da associação anarquista “L@s nuestr@s, l@s libres“, onde sua voz não era a mais alta, mas sim a mais certeira; onde sua presença não buscava protagonismo, mas sim impulso coletivo, apoio mútuo e a centelha que acende consciências, falando a partir dos fatos que definiam suas palavras.

Com o mais profundo respeito, erguemos o olhar para afirmar o que todos já sussurram nos recantos da assembleia: partiu alguém indispensável. Indispensável não por sua obra escrita nem por sua oratória, mas por sua maneira de ser. Pablo era daqueles que chegam mais cedo para preparar a logística e ficam depois para recolher os pedaços. Daqueles que colocam o corpo na linha de frente e o ombro para carregar quem cair. Trabalhador solidário, com a mão estendida ao companheiro e o punho cerrado contra toda autoridade.

Inabalável e indomável, ele transmitia liberdade mesmo durante os muitos anos em que esteve preso por sua prática revolucionária e insurrecional. Ele nos ensinou a recomeçar uma e outra vez, mesmo quando tudo parece um terreno baldio, e que a insurreição anarquista também faz parte do cotidiano: está no protesto contra o poder, no piquete contra a exploração, na manifestação pelos nossos direitos, na greve que mantemos, na okupação que defendemos, na ação direta libertária, no pão que compartilhamos e no sorriso que oferecemos, mesmo quando a luta se arrefecia.

Sua liberdade não era individualista, mas entrelaçada. Por isso ele era um dos nossos, dos livres que sabem que ninguém se salva sozinho e que a única autonomia possível é aquela que se tece entre iguais. Sua partida deixa um vazio na barricada, mas também um rastro de rebeldia que nos obriga a seguir em frente. Não choramos sua morte desde o derrotismo; transformamos isso em pólvora. Porque Pablo continua presente em cada gesto de desobediência, em cada recusa em se ajoelhar, em cada semente de futuro que plantamos sobre as ruínas do presente. O broto precisa crescer, as mãos precisam se unir. Não há mais medo.

Seus companheiros e companheiras sempre te lembrarão.

Que a terra lhe seja leve. Viva a anarquia.

L@s nuestr@s, l@s libres

Fonte: https://losnuestroslaslibres.noblogs.org/post/2026/08/16/fallecio-el-companero-pablo-serrano/

agência de notícias anarquistas-ana

Azul e verde e cinza –
Olhando bem, o céu
É de todas as cores!

Paulo Franchetti

A Fúria Necessária

Não vos venho trazer flores nem ilusões. Venho falar da verdade que muitos camaradas preferem adoçar para não assustar os recém-chegados: a repressão não é um acidente de percurso na luta anarquista; ela é a sua sombra inevitável, o eco metálico que a nossa ação provoca nas engrenagens do Leviatã. Quem sonha com uma revolução sem cicatrizes, sem sangue e sem cadeias, está a sonhar com uma aventura ou uma festa, não com a destruição da ordem burguesa. A tese que vos trago é dura, mas necessária: a repressão é inerente à nossa luta porque o poder não cede o seu espólio sem violência; ainda assim, mesmo que o terreno esteja minado, mesmo que as probabilidades sejam de aniquilamento, a luta deve prosseguir por todos os meios possíveis. A tensão entre a ordem burguesa e o mundo novo que carregamos em nossas entranhas não é um mal-entendido que se resolva com diálogos de salão; é um antagonismo ontológico, uma contradição irreconciliável. E é precisamente da superação violenta e radical dessa ordem que a vitória libertária há de surgir — o que, por sua vez, nos conduz, inexoravelmente, de volta ao fogo da resistência.

Comecemos pelo óbvio que os acadêmicos e os reformistas se recusam a ver: o Estado burguês não é uma entidade neutra, um mero árbitro de conflitos sociais. Ele é a comissão executiva dos exploradores, o guarda-costas armado da propriedade privada e das hierarquias que dela emanam. A sua essência é a coerção monopolizada. A lei que ele aplica não é a justiça; é a codificação da espoliação. Quando nos organizamos em conselhos livres, quando ocupamos terras e fábricas, quando recusamos a obediência e a servidão voluntária, não estamos a fazer um pedido de mudança; estamos a desferir um golpe na própria base de sua legitimidade. A reação do Estado a esse golpe não pode ser outra senão a repressão. Não é um “risco” calculado; é uma certeza física, como a queda de um corpo. A história está repleta de exemplos — desde a Comuna de Paris, afogada em sangue, até a Ucrânia Livre, esmagada pelo exército vermelho e pelos brancos; desde os mártires de Chicago até as celas de prisão que abrigam os camaradas de hoje. A repressão não é o “preço” a pagar; ela é a resposta natural do sistema à nossa existência.

Neste ponto, muitos se acovardam. Dizem: “O terreno é desfavorável. A burguesia está fortalecida. O proletariado está atomizado. Esperemos o momento oportuno.” Que covardia disfarçada de pragmatismo! Quando, pergunto eu, o terreno foi favorável para os oprimidos? Quando é que os donos do mundo se sentaram à mesa e disseram: “Agora estamos frágeis, podem atacar”? O terreno desfavorável é o único terreno que a classe trabalhadora conhece. A fábrica é desfavorável, a mina é desfavorável, o gueto é desfavorável. A história não é uma escada rolante que nos leva suavemente à liberdade; é um abismo que só se transpõe com um salto — e o salto exige pernas fortes, mesmo que o chão trema. Esperar por condições ideais é esperar pela morte da nossa própria iniciativa. É entregar ao inimigo o monopólio do tempo. A luta não se faz quando a vitória é certa; faz-se porque a vitória precisa ser conquistada, e a única maneira de torná-la possível é travá-la, agora, com as ferramentas que temos, mesmo que sejam apenas as nossas mãos nuas e a nossa vontade inquebrantável.

Agora, detenhamo-nos sobre essa tensão inevitável. O que é a ordem burguesa senão um sistema de mediações hierárquicas — o patrão sobre o operário, o homem sobre a mulher, o branco sobre o negro, o burocrata sobre o cidadão? É uma teia de comandos e obediências que se reproduz diariamente nas escolas, nas igrejas, nos quartéis e nos parlamentos. O anarquismo, em sua essência, é a negação absoluta dessa mediação. Nós não queremos reformar a cadeia, queremos quebrá-la. Não queremos um patrão mais humano, queremos a autogestão. Não queremos um Estado mais paternalista, queremos a federação livre de comunas. Essa negação não é uma abstração filosófica; ela se traduz em atos concretos: a desobediência, a greve selvagem, a sabotagem, a expropriação. Cada um desses atos colide frontalmente com o código penal burguês, com a sua polícia e com os seus exércitos. A tensão, portanto, é uma guerra de movimento perpétuo.

E é nesse embate, nessa dialética violenta, que reside a nossa esperança. Porque a superação da ordem burguesa não virá de um voto, nem de uma declaração da ONU, nem de um manifesto pacífico que pede gentilmente que os opressores se convertam. A superação virá da crise, do choque, do momento em que a repressão do Estado se torna tão brutal, tão descarnada, que o véu da legalidade se rasga e as massas veem o tigre por trás da máscara. É a repressão que educa as massas na escola da necessidade. É a violência policial que radicaliza o operário moderado. É a prisão do militante que inspira a rebelião da vizinhança. Nesse sentido, a repressão é uma faca de dois gumes: o inimigo a usa para nos imolar, mas nós a usamos como uma forja que tempera a nossa determinação e revela a verdadeira face do poder. Quanto mais o Estado aperta o cerco, mais ele demonstra que não tem argumentos, apenas balas. E quando uma estrutura só tem balas para oferecer, a sua queda é apenas uma questão de tempo e de fúria acumulada.

Mas atenção: essa vitória libertária, que emerge da superação da ordem, não é um ponto de chegada estático, um paraíso onde os problemas se dissolvem. Ela é um processo contínuo de auto-emancipação. E é precisamente por isso que a luta, e todos os meios possíveis para travá-la, se tornam a categoria central da nossa existência. Defender que a luta deve prosseguir “por todos os meios possíveis” não é um apelo cego à violência; é o reconhecimento de que, numa guerra de extermínio contra a nossa humanidade, temos o direito moral e histórico de usar todas as armas disponíveis. Se o Estado usa a leis para nos prender, usemos a ilegalidade para expropriar o que foi roubado. Se o Estado usa a mídia para mentir, usemos a palavra impressa e a ação direta para desmascarar. Se o Estado usa as balas, usemos as barricadas. A ética do oprimido não pode ser a ética do opressor. Enquanto eles têm a propriedade, nós temos a fome; enquanto eles têm o exército, nós temos o número; enquanto eles têm a tecnologia da vigilância, nós temos a solidariedade orgânica das ruas. A luta por todos os meios significa utilizar a greve geral como arma política, a ocupação como ato de justiça distributiva, a sabotagem como interrupção do lucro, e a insurreição popular como o momento culminante em que o povo, armado com a sua própria coragem, toma para si os destinos da vida social.

Reconheçamos, no entanto, a dureza do caminho. As derrotas são amargas. As fileiras se diminuem. Os camaradas tombam. E o terreno, muitas vezes, parece mais estéril do que nunca. A pergunta que ecoa nos porões das delegacias e nos exílios forçados é: “Por que continuar?” A resposta é tão simples quanto absoluta: porque parar é aceitar a morte em vida. Porque a interrupção da luta não é uma trégua; é uma derrota definitiva que consagra a ordem burguesa como eterna. A continuidade da resistência, mesmo em terreno árido, é a única garantia de que a chama não se apaga. Cada ato de rebeldia, por menor que seja, é uma negação prática do “fim da história” proclamado pelos ideólogos do capital. Quando um grupo de trabalhadores ocupa uma fábrica falida, mesmo que despejados no dia seguinte, eles plantaram uma semente: a semente da autogestão possível. Quando um bairro se organiza em milícias populares para enfrentar a repressão policial, mesmo que massacrados, eles escreveram uma página na memória coletiva que nenhum juiz pode apagar. A luta não se justifica apenas pela vitória final; ela se justifica pela dignidade que confere a cada instante da resistência. A vitória libertária virá, mas virá como um corolário de inúmeras batalhas perdidas, de inúmeros mártires, de inúmeros “fracassos” que, somados, constroem a subjetividade revolucionária.

Esta é a dialética cruel que nos move: a ordem burguesa não pode coexistir com a liberdade anárquica. Ela a perseguirá, a caluniará e a esmagará com todas as suas forças. Mas, ao fazer isso, ela gera o seu próprio antídoto. Ela unifica os dispersos, ela radicaliza os moderados, ela prova a sua própria incapacidade de resolver as crises que ela mesma cria. A superação, portanto, não é uma fuga da realidade; é um mergulho nela até ao fundo, até ao ponto em que a tensão se rompe e o novo emerge das cinzas do velho. E esse novo mundo — a sociedade federada, igualitária e livre — não será construído com preces, mas com os escombros do edifício derrubado.

Por fim, caros camaradas, não nos enganemos com o canto da sereia do realismo político. O realismo burguês é a aceitação da servidão. O nosso realismo é a consciência da força do inimigo aliada à certeza da nossa necessidade de o destruir. A repressão está aí, nos porões, nas delegacias, nos canhões. Mas a nossa vontade de resistir também está aí, nas oficinas, nos campos, nos bairros periféricos. Que a repressão nos encontre de pé. Que o terreno desfavorável nos encontre em movimento. Que a tensão nos encontre na trincheira. Porque a vitória libertária não é um prêmio para os prudentes; é uma conquista para os audazes. É a superação da ordem burguesa que nos trará a alvorada, mas essa superação exige que cada um de nós, agora, neste instante, empunhe a sua ferramenta, a sua palavra, o seu punho ou a sua inteligência para golpear as cadeias.

A luta continua. Não porque temos esperança de um amanhã fácil, mas porque o hoje, sem luta, é insuportável. Não porque o futuro nos garante o triunfo, mas porque o presente nos exige a rebeldia. A repressão é inerente, o terreno é hostil, a tensão é absoluta. Mas a resistência é a nossa essência. E enquanto houver um único explorado, uma única mulher oprimida, um único trabalhador acorrentado, haverá um anarquista a plantar a dinamite da liberdade. Avante, pois. A vitória é o próprio caminho, e o caminho é a luta até ao fim.

Liberto Herrera.

Fonte: https://libertoherrera.noblogs.org/2026/08/18/a-furia-necessaria/

agência de notícias anarquistas-ana

raios!
alguém rasgou
o terno azul da tarde

Alonso Alvarez

[Chile] “Juan Demarchi: a tempestuosa vida de um anarquista”

15/08/2026

Na lendária entrevista que Régis Debray fez com Salvador Allende em 1971, o então presidente do Chile afirmou que devia ao agitador anarquista italiano Juan Demarchi suas primeiras leituras teóricas de esquerda, especialmente as obras de Bakunin. Foi esse carpinteiro radicado em Valparaíso quem lhe ensinou, segundo Allende, a entender os profundos contrastes sociais que observava ao percorrer os morros e praças do porto de sua adolescência.

Manuel Lagos Mieres desmonta neste livro a redução historiográfica da figura de Juan Demarchi e nos revela a imagem profunda do carpinteiro e agitador anarquista italiano cuja trajetória marcou o movimento operário no Chile e na América do Sul no final do século XIX e na primeira metade do século XX. Sua vida foi marcada pela entrega à causa da emancipação social e pela resistência diante da perseguição constante da qual ele e os seus foram objeto de forma permanente.

Exilado de seu próprio país, Demarchi participou da criação de centros e bibliotecas populares no Brasil; foi fundamental para a constituição da Associação Continental Americana de Trabalhadores (ACAT) na Argentina. No Chile, lutou pela criação da Mancomunal de Operários do Carvão (Lota); presidiu a Liga de Inquilinos, liderando a Grande Greve de Inquilinos em 1919 e o Comitê Pro-Baratamento da Carne (Antofagasta). No porto de Valparaíso, foi membro destacado da seção chilena da Industrial Workers of the World (IWW) e membro da Federação de Carpinteiros. Durante seus últimos anos, em Santiago, continuou participando de concentrações operárias até pouco antes de sua morte (1943). Seu trabalho foi descrito por seus pares como uma “obra francamente apostólica”, dedicada ao bem-estar da comunidade e à emancipação da classe operária.

Como assinalamos, Salvador Allende definiu sua relação pessoal com Juan Demarchi como um vínculo fundamental em sua formação política inicial, descrevendo o anarquista italiano não apenas como um mentor, mas também como o homem que lhe abriu as portas para o pensamento teórico de esquerda durante sua adolescência em Valparaíso.

Allende destacou que Demarchi, apesar da diferença de idade entre eles (ele tinha cerca de 14 anos e Demarchi mais de 60), conversava com ele durante horas em sua humilde oficina de carpintaria, localizada perto da casa do futuro presidente e do Liceu Eduardo de la Barra, que o jovem frequentava. Durante aquelas tardes, o agitador ácrata lhe ensinava xadrez e emprestava livros, “essencialmente teóricos”, como os de Bakunin. Para Allende, aquelas longas conversas foram tão valiosas quanto os próprios textos, pois ele admirava “essa simplicidade e essa clareza que têm os operários que assimilaram as coisas da vida”.

O périplo de um anarquista

O livro de Lagos Mieres consegue rastrear em detalhe a trajetória de Juan Demarchi, desde seu exílio da Itália e seus primeiros passos como ativista fora de seu país, em outras nações europeias e no norte da África, e muito especialmente a partir de sua chegada à América do Sul. Foi em nosso continente que ele realmente se constituiu como um dos mais destacados “agitadores sociais” e incansável propagandista ácrata.

A pesquisa detalha a rota de Demarchi:

Chegou ao Brasil entre 1888 e 1891, estabelecendo-se no Rio de Janeiro, onde alternou seu ofício de carpinteiro com a exortação pública em comícios e assembleias. Lá foi perseguido e acabou chegando à Argentina em 1893, radicando-se em Buenos Aires até 1899. Integrou, dirigiu e fundou agrupamentos culturais operários anarquistas, especialmente sob os princípios organizativos de Errico Malatesta, promovendo a cultura como uma ferramenta para a emancipação. No final de 1898, Demarchi foi preso e acusado de conspirar contra o Estado, o que lhe rendeu a expulsão do país após passar pelas prisões na Patagônia argentina, onde costumavam confinar os “perigosos anarquistas”.

Foi conduzido à força até a fronteira com o Chile e estabeleceu-se em Punta Arenas, cidade na qual sua contribuição foi fundamental para organizar as primeiras sociedades de resistência e sindicatos magalhânicos, como a União Operária.

Continuou sua atividade em Lota e Curanilahue – onde trabalhou junto aos operários do carvão, contribuindo para a fundação de mancomunais – e depois em Arauco e Angol.

Em 1918, já estava instalado em Antofagasta, cidade na qual seu talento organizativo deu seus frutos mais duradouros, especialmente na Liga de Inquilinos, chegando a ser seu presidente em 1919, e no Comitê Pro-Baratamento da Carne (CPAC). Foi levado novamente à prisão e, posteriormente, expulso da cidade.

Então se dirigiu a Valparaíso, onde estabeleceu sua oficina de carpintaria em 1921. No porto, foi membro ativo da IWW (Organização Mundial dos Trabalhadores) e administrador do local da Federação de Carpinteiros (Ateneu Operário). Em 1926, foi expulso do país sob a Lei de Residência e retornou à capital argentina, onde chegou a residir durante quatro anos. Em Buenos Aires, colaborou na fundação do jornal Ação Direta, do qual também foi editor, e representou os operários chilenos na Associação Continental Americana de Trabalhadores (ACAT). A polícia argentina o prendeu em 1929 e ele foi novamente expulso, podendo retornar ao Chile graças a uma lei de anistia.

Mas a tranquilidade e a anistia duraram apenas até 1932, quando foi novamente detido e, desta vez, relegado à Ilha Mocha. Passou seus anos finais entre Santiago e Valparaíso, falecendo no porto em abril de 1943.

A historiografia e os preconceitos ideológicos

Como descreve e explica com numerosos exemplos Manuel Lagos Mieres em seu livro, a reconstrução da vida dos agitadores anarquistas no Chile é uma tarefa complexa, pois em seu caminho se erguem numerosos obstáculos e preconceitos ideológicos. Segundo o autor, os obstáculos com que teve que lidar para revelar a vida e obra de Juan Demarchi são:

• A hegemonia da historiografia marxista que, a partir da década de 1950, tem analisado e contado a História Social do Chile a partir de uma matriz ideológica que privilegia o estudo do proletariado industrial filiado aos partidos políticos da esquerda tradicional dominante (Comunista, Socialista), o que tem invisibilizado as correntes autonomistas.

• O “consenso” em torno de figuras fundacionais do mundo operário no Chile que, por exemplo, eleva Luis Emilio Recabarren ao pedestal de único “pai” e fundador do movimento operário, o que resulta na anulação dos feitos da corrente anarquista e de outros sujeitos sociais, como as mulheres lutadoras, que ficaram condenadas ao esquecimento.

• A redução à anedota à qual são submetidos os agitadores ácratas. No caso específico de Demarchi, os historiadores o mencionam apenas de passagem por sua especial vinculação com Salvador Allende, considerando-o um personagem “lendário e romântico”, sem reparar no projeto político que encarnava, nem nas formas de ação ou na transcendência histórica desse lutador social.

O personagem em escala humana

Manuel Lagos Mieres consegue, ao longo de todo o texto, manter presentes as características próprias da personalidade e a particular qualidade humana de Juan Demarchi. Segundo se depreende dos diversos testemunhos que dão sustento à obra, Demarchi caracterizava-se por possuir uma ética implacável, uma profunda vocação pedagógica e uma coerência absoluta entre seus ideais anarquistas e sua vida cotidiana. Além de ser um agitador, as fontes o retratam como um homem possuidor de uma mística moral tão grande que não hesitou em sacrificar de modo permanente seu bem-estar pessoal e familiar em prol da emancipação social.

Demarchi atribuía um valor fundamental à dignidade e independência por meio do ofício, pois via na carpintaria um trabalho “utilíssimo e saudável” que lhe permitia manter sua autonomia e praticar uma ética laboral antiautoritária, trabalhando livremente “sem explorar outros nem se deixar explorar”.

Embora o poder político e econômico da época o tenha classificado como um “agitador perigoso” – descrição com que se designou muitos de seus pares operários e anarquistas –, o que lhe custou numerosas detenções e reiteradas expulsões do país, seus companheiros o descreviam como um homem de costumes puros e laboriosos, que realizava uma “obra francamente apostólica”, centrada na emancipação dos trabalhadores por meio da cultura e da educação.

O livro está disponível no site da Ceibo Ediciones, ceiboediciones.cl, e nas principais livrarias do país.

Manuel Lagos Mieres. CEIBO EDICIONES

Fonte: https://resumen.cl/2026/08/15/libro-juan-demarchi-la-tempestuosa-vida-de-un-anarquista/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Na noite sem lua
o mar todo negro
se oferece em espuma

Eugénia Tabosa

[Taiwan] Chamada para submissões: Wanarchy Journal

O Wanarchy Journal《灣那其刊》é um novo zine anarquista bilíngue de Taiwan, dedicado à disseminação de ideias anarquistas localmente e à construção de solidariedade com companheiras, companheiros e comunidades oprimidas de todo o mundo. Estamos recebendo submissões escritas a partir de perspectivas anarquistas, anticapitalistas, antiautoritárias, socialistas libertárias e afins para nossa edição inaugural, com publicação prevista para o início de 2027.

O que estamos procurando

• Estudos de caso sobre o anarquismo em Taiwan e em outras partes do mundo

• Análises de questões e acontecimentos sociais, políticos e ambientais atuais

• Introduções a ideias, conceitos, correntes, organizações e figuras do anarquismo

• Artigos acadêmicos

• Resenhas de livros e filmes

• Trabalhos criativos (ficção curta, poesia, quadrinhos e arte)

• Traduções para o chinês tradicional de textos anarquistas

Idiomas

• Submissões em chinês tradicional ou inglês são bem-vindas!

• Todas as submissões em inglês serão traduzidas para o chinês tradicional, e vice-versa. As autoras e os autores também podem fornecer suas próprias traduções.

Prazo

• Envie seu resumo até 30 de setembro de 2026 para que ele possa ser incluído em nossa primeira edição impressa.

• Submissões atrasadas poderão ser consideradas para edições futuras. Todas as submissões aceitas serão publicadas em nossas redes sociais independentemente disso.

Processo de submissão

Envio do resumo: envie por e-mail um resumo de 300–500 palavras em chinês ou 150–300 palavras em inglês para anwan.tw@proton.me.

Avaliação: confirmaremos a aceitação da submissão no prazo de uma semana.

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Nome da autora/do autor

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Fonte: https://www.reddit.com/r/Anarchism/comments/1vbn70z/call_for_submissions_wanarchy_journal/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Não tenho certeza,
mas acho que os grilos gostam
da minha janela.

Humberto del Maestro

[Holanda] Feira do Livro Anarquista de Amsterdã

Junte-se a nós nos dias 21 e 22 de novembro para um fim de semana incrível, repleto de zines, oficinas e muito mais!

Somos o Coletivo ABFA e, neste ano (2026), estamos organizando a décima edição da Feira do Livro Anarquista de Amsterdã.

A Feira do Livro Anarquista de Amsterdã é um evento anual repleto de zines, livros, oficinas e muito mais!

Nosso objetivo é ser um evento tanto para que novos interessados tenham uma visão geral do anarquismo quanto para que anarquistas de longa data possam se encontrar e retomar os laços.

Para ser um espaço onde pessoas e lutas de todo o mundo possam se encontrar, lutar e construir um amanhã melhor!

>> Atualizações: anarchistbookfairamsterdam.org

agência de notícias anarquistas-ana

Na cidade, a lua:
a jóia branca que bóia
na lama da rua.

Guilherme de Almeida

[Chile] Pôster | Pela saúde e a vida de Juan Aliste Vega, preso subversivo

irmão • amigo • revolucionário • anticapitalista • pai • filho • expropriador
 
Combatente contra a ditadura e sua continuidade democrática, Juan passou longos anos na prisão devido às ações revolucionárias que empreendeu.
 
Em 2010, ele foi preso no contexto de uma expropriação bancária e de um confronto com a polícia. Após resistir a mais de 16 anos de detenção, sabemos que ele sofre de um câncer agressivo.
 
O Estado, em uma ânsia de vingança, se recusa a conceder qualquer benefício, regime alternativo ou libertação, transformando sua doença na prisão em uma sentença de morte.
 
Vamos lutar pela sua libertação!
 
Editorial Memoria Negra
 
Conteúdo relacionado:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/08/04/chile-sobre-a-situacao-de-saude-do-companheiro-juan-aliste-vega-por-francisco-solar-e-joaquin-garcia/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Sesta no jardim:
a borboleta me acorda.
Coça o meu nariz.
 
Anibal Beça

[Itália] Comunicado #1 (do The Anarchist Gardeners Club)

Território libertado (localidade desconhecida)

Em março de 2026, junto com algumas pessoas de confiança e afins no desejo de colocar em prática uma existência radicalmente outra em relação à da civilização capitalista, tecno-industrial e ecocida, ocupamos uma horta abandonada e abrimos um projeto de Horta Comunitária seguindo os princípios da Agricultura Natural teorizados por Fukuoka. Neste pequeno pedaço de terra que estamos tentando regenerar e ensilvestrar, além de autogerir como lugar também social e comunitário, estamos praticando uma verdadeira forma de resistência a uma cultura da Terra baseada na exploração, na produtividade, no saque dos recursos e na destruição de tudo o que não é útil às necessidades humanas. Uma Horta Comunitária que representa um bem coletivo contra a propriedade privada e o lucro de poucos proprietários de terras em detrimento das pessoas comuns. Este comunicado escrito pelo The Anarchist Gardeners Club encontra afinidade e cumplicidade com o que estamos tentando fazer aqui na província de Milão, entre bosques, riachos e horripilantes campos de monocultura. Leiam, divulguem, organizem-se e ajam pelos bens coletivos e pela autogestão da Terra!

Saudações da resistência clandestina.

Somos a rede insurrecional autônoma dos horticultores anticapitalistas, conhecida também como o clube dos jardineiros anarquistas.

Atingimos no coração a máquina tecno-fascista. Acolhemos com satisfação o colapso de um sistema capitalista moribundo. Curtimos uma cerveja com biscoitos na horta comunitária.

Nos inspiramos nos luditas, nos Levellers, nos Diggers, no movimento dos squatters autônomos, na A.L.F., nos zapatistas e no povo miúdo — aqueles elfos travessos da tradição popular. As autoridades não conseguem nos ver porque não acreditam em elfos. Somos praticamente invisíveis. Não temos uma estrutura hierárquica, nem porta-voz, nem sede; apenas muitos pequenos grupos que atuam separadamente, à procura dos alvos do capital e do Estado, e que colocam em prática o que sabemos fazer. Alguns de nós até assistem a “Gardeners World” toda sexta-feira à noite.

A AGC rejeita a modernidade. Consideramos a ideia de progresso tecnológico uma besteira. Somos camponeses. Sempre fomos camponeses.

Em 1381, nosso companheiro Wat Tyler marchou com seu exército de camponeses para as cidades e ocupou os palácios dos ricos. Entre as ruínas do capitalismo em fase terminal, marcharemos com nossos exércitos de camponeses para as cidades e ocuparemos os JARDINS dos ricos.

Se não temos terra, vamos tomá-la!

Consideramos o jardim um espaço intrinsecamente autônomo. Uma tela sobre a qual criamos, cultivamos e nutrimos. Consideramos a natureza e as infinitas relações simbióticas que nela existem como intrinsecamente anárquicas. Baseadas no auxílio mútuo, nas redes clandestinas, na solidariedade.

Cultivar uma horta é um gesto lindo e radical. Em um mundo de trabalhos de merda, conversas de merda e gente de merda, são justamente os gestos simples que são os mais radicais. Plantar flores. Cultivar hortaliças. Podemos produzir sozinhos nossa comida, nossos remédios, nossa felicidade, longe do vampiro sanguessuga chamado capitalismo.

Os bens comuns nos foram roubados, mas nós, pessoas comuns, continuamos aqui. A AGC promove a reivindicação e o cultivo de todo terreno disponível. Cada maldito campo de golfe é um alvo legítimo! Cada pedaço de terra de propriedade dos aristocratas é um alvo legítimo!

Cultivaremos tudo o que pudermos. Faremos florescer nas rachaduras. Lançaremos bombas de sementes em cada canto desolado do matagal. E enquanto fazemos isso, curtiremos uma cerveja e um biscoito.

Se quiserem se juntar à AGC, então OK, legal, vocês são dos nossos!

Se quiserem fundar uma nova célula autônoma da AGC, então OK, legal, façam isso!

Se quiserem contribuir com a propaganda da AGC e com futuras fanzines, então OK, legal, façam isso, caralho, pessoal!

AJAM, documentem, enviem-nos seus conselhos de jardinagem, suas perguntas sobre permacultura, seus encontros românticos perdidos nas hortas comunitárias. Nós queremos isso e vamos publicar. Espalhem a palavra. Fiquem de olho na primeira edição da fanzine AGC #1, saindo em breve.

Nos vemos na linha de frente (provavelmente na horta)

Todos os impérios cairão!

Todos os fascistas morrerão!

Todos os policiais são bastardos!

Todas as plantas são lindas!

Fonte: https://tupilaq.noblogs.org/2026/07/31/comunicato-1-da-the-anarchist-gardeners-club/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Após avaliar
três milhares de haicais:
Comi dois caquis.

Shiki

[Colômbia] 12ª Feira Anarquista do Livro e da Publicação de Medellín, 15 e 16 de novembro de 2026

Quando o neofascismo avança, nossa resposta é única: fraternidade e mais apoio mútuo entre os povos de Abya Yala.”
 
Hoje, o neofascismo ganha espaço nessas latitudes por meio do medo, da desinformação e da divisão; é por isso que devemos lembrar que nunca resistimos sozinhos, e isso é um ato de esperança. Nossa maior força continua sendo a organização, o cuidado coletivo e a solidariedade entre iguais.
 
Diante do ódio, respondamos com comunidade. Diante da violência fascista, com apoio mútuo. Diante do desprezo pelo outro, com a certeza de que nenhum povo se liberta isoladamente.
 
Que a fraternidade entre os seres em resistência de Abya Yala seja o caminho para defender a memória, a diversidade e o futuro que ainda estamos construindo.
 
12ª FEIRA ANARQUISTA DO LIVRO E DA PUBLICAÇÃO DE MEDELLÍN – 14 e 15 de novembro de 2026
 
Inscrições abertas! Este ano, além das propostas editoriais e artísticas, buscaremos criar espaços lúdicos para as crianças. Envie sua proposta pelo link anon.to/fnoRch.
 
Conteúdo relacionado:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/10/08/colombia-11a-feira-do-livro-anarquista-de-medellin-15-e-16-de-novembro/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
sopra o vento
sento em silêncio
sentir é lento
 
Alexandre Brito

[Itália] Antiespecismo, veganismo e crise climática

O verão que estamos vivendo está nos mostrando de forma tremendamente tangível o quanto nossas atividades destrutivas estão impactando o clima terrestre. Não há parte do mundo que não esteja sofrendo com desconfortos, ou mesmo verdadeiros desastres, climáticos. Em nosso país, ondas de calor tropical se sucedem, causando cada vez mais incêndios (quando não são criminosos), eventos climáticos extremos e fazendo diminuir assustadoramente o nível da água dos rios e lagos.

Nossa casa comum, a Terra, está doente e o vírus que a infectou somos nós. Um conceito mais que banal e totalmente evidente. Apesar de tudo isso, no âmbito antiespecista e vegano, este assunto tão dramaticamente urgente quase nunca é abordado. No entanto, toda vez que uma floresta pega fogo, morrem milhões de Animais, assim como também ocorre com deslizamentos, enxurradas, alagamentos, transbordamentos, longos períodos de seca e tempestades. As zonas climáticas estão mudando rapidamente e isso também significa o desaparecimento de muitas espécies animais que não conseguirão mais se adaptar ao novo clima. Como é que não paramos para refletir sobre tudo isso?

Questão Animal diz respeito a todas as áreas da ação humana, a todas as suas implicações e consequências, portanto, também e principalmente, aos desastres climáticos que estamos causando com a poluição, o enorme desperdício de energia, as atividades extrativistas, a poluição, a exploração dos ecossistemas e a antropização e destruição dos habitats naturais. Não considerar tudo isso sob uma ótica antiespecista e vegana, para tentar combater este fenômeno gravíssimo e complexo que produzimos diretamente, é simplesmente uma loucura.

Se a nossa função, enquanto pessoas humanas antiespecistas, é retirar os Animais da exploração humana e, por fim, chegar à tão almejada libertação, não podemos nos eximir de compreender o quanto a crise climática está impactando de forma devastadora a vida dos seres vivos terrestres.

Cada vez mais, a mídia nos mostra imagens de rios secos; toda vez que um rio desaparece, deixando apenas um leito vazio e seco, desaparecem também milhões de Animais, plantas, muitos outros organismos vivos que o habitavam e outros que dependiam de sua presença: quando um rio morre, com ele morre um mundo inteiro, é um grande e vital amigo que se foi. Não podemos ser tão estúpidos e insensíveis a ponto de não compreender isso.

Temos o dever e a urgência de incluir no leque de reflexões e intervenções do nosso ativismo conceitos básicos de ecologia: certamente não aquela especista, antropocêntrica e superficial que nos é empurrada diariamente, mas a ecologia profunda não antropocêntrica, útil para nos ajudar finalmente a entender o quão frágil e ameaçada está a rede da vida na Terra.

Adriano Fragano

Fonte: https://www.manifestoantispecista.org/web/antispecismo-veganismo-e-crisi-climatica/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

entre velhas páginas
uma folha ainda verde
da casa antiga

Alice Ruiz

Fascismo imaginário, a farsa eleitoral e a crítica anarquista

Uma leitura anarquista das eleições como engrenagem de reprodução do capitalismo e da produção de antagonismos imaginários

Por Rick Afonso-Rocha | 16/04/2026

A crítica anarquista às eleições burguesas, formulada por muitos autores, dentre os quais se destaca Errico Malatesta, incide sobre a própria forma da democracia representativa liberal. Longe de denunciar imperfeições ou desvios, o que se põe à mesa é o reconhecimento e a denúncia de que o processo eleitoral burguês constitui, a um só tempo, mecanismo de reprodução da dominação, de neutralização das contradições, de pacificação da luta de classes e de ocultamento do antagonismo real, inclusive pela maximização de antagonismos imaginários, a saber: direita vs. esquerda, família vs. perversão, cristianismo vs. destruição dos valores ocidentais, masculinidade cristã vs. ideologia de gênero, liberdade vs. marxismo cultural ou ainda retrocesso vs. progressismo, fascismo vs. liberalismo, direitos humanos vs. barbárie, cidadania vs. servidão etc.

Em nossa leitura, a eleição não abre possibilidades. Ao contrário, ela as fecha previamente, organizando a política como escolha controlada entre gestores da mesma ordem. Participar desse circuito não tensiona a exploração. Participar desse circuito legitima a exploração capitalista sob a forma de decisão. Cria-se a ilusão de que fazemos parte do processo, que podemos escolher, que somos nós que decidimos o futuro político e que a política exerce dominância sobre o econômico. E o econômico, mesmo quando pulula em nossas narinas, evidenciando a regra do jogo, é moralizado, reduzido à corrupção de alguns políticos, de modo a mobilizar a esperança no surgimento do eterno novo líder, da nova política, da política como gestão, da política como empreendimento.

O econômico sobredetermina. E não estamos falando de interesses ordinários individuais de alguns representantes das facções burguesas que financiam as eleições. O que vemos é um circo, um teatro. Nada se escolhe. Nada se decide. As eleições são uma farsa. Não exatamente porque são fraudadas. Não existe tal necessidade. A farsa eleitoral diz da ontologia da política burguesa, diz da democracia liberal e dos seus limites estruturais, diz da sua razão de ser e do seu funcionamento no edifício mercantil.

Essa engrenagem depende da produção contínua de uma cena de conflito. A polarização entre projetos institucionalizados funciona como encenação reiterada, na qual tudo aparece em disputa enquanto nada de estrutural se transforma. Nesse sentido, simula-se o antagonismo entre dois polos da institucionalidade burguesa. Sim, entre eles temos divergências em relação ao modus operandi de gerenciamento da ordem capitalista; temos interesses conflitantes entre as facções burguesas. Mas não há divergência quanto à exploração da classe trabalhadora nem quanto à destruição da natureza. Em tempos de, digamos, normalidade institucional (sempre temporária, dado as crises estruturais do modo de produção capitalista), esse conflito tende a explorar a linguagem humanista civilizatória, mascarando, necessariamente, sua política estruturante imperialista e colonial. Assume-se uma gramática “politicamente correta”. Fala-se em direitos humanos e em progresso. As eleições são dominadas por termos técnicos e temas menos “polêmicos”. Pauta-se a segurança pública, o investimento em educação e saúde. E os aspectos morais, via de regra, resumem-se às questões de corrupção e desvio do dinheiro público. No espectro político, emula-se a expansão do centro: centro-direita, centro e centro-esquerda. O discurso neoliberal impõe-se sem a necessidade de simular dissenso. A crítica ao neoliberalismo até é formulada, mas sem a necessidade de simular radicalidade.

Essa encenação, contudo, se intensifica precisamente em tempos de crise. E aqui a crise ultrapassa a noção de dado econômico; ela comparece como operador discursivo estratégico da exploração capitalista. A austeridade, tal como analisada por Clara Mattei, e a lógica da “doutrina do choque“, nos termos de Naomi Klein, não apenas respondem à crise, elas a produzem, a dramatizam, a administram e a exploram como condição de possibilidade para o avanço da ordem capitalista. Por isso, a crise é estruturante ao modo de produção capitalista. Nesse cenário, a ordem do capital fabrica e administra o dissenso. Simula-se uma radicalidade que não ameaça o sistema, mas o estabiliza. Inaugura-se a denúncia de um inimigo absoluto. O outro como perigo iminente, aquele que destruirá a família, a propriedade, a ordem moral. A linguagem eleitoral se moraliza progressivamente, deslocando o conflito da política ordinária (educação, segurança, saúde etc.) para o campo da moralidade (a ameaça existencial).

Inicialmente, setores da própria institucionalidade burguesa, que performam uma posição “à esquerda”, tentam conter essa deriva, recusando a moralização explícita. Mas essa contenção é provisória. Logo, reagem: “é preciso frear o “fascismo”, conter a barbárie iminente“. Passo a passo, institui-se uma pedagogia do medo e da esperança (que em outro momento chamei de deimopolítica). Seja o “comunista” que fechará igrejas seja o “protofascista” que levar-nos-á ao estado de selvageria. Nesse movimento, simula-se um rompimento do véu da civilidade liberal e emula-se um ataque à própria gramática que supostamente “sustentaria” o jogo (direitos humanos, legalidade, institucionalidade eleitoral…).

Nada disso representa um risco à ordem do capital. Encenação orquestrada. E isso não significa que seja intencional (plano arquitetado pelos porcos capitalista…). É o funcionamento automatizado da máquina capitalista que hegemonicamente produz nossa subjetividade útil à eternização da servidão voluntária e a defesa da nossa própria miséria. E é por romper com a intencionalidade e a subjetividade que é tão forte.  O que se produz, então, é uma política de inimizade fundada na imaginarização da destruição, seja ela atribuída ao “comunismo”, seja ao “fascismo”, ambos mobilizados como espantalhos funcionais à reprodução da ordem. A ordem se impõe como necessidade histórica, reiterando-se sob a forma de conflito permanente para se fazer eterna.

E aí temos a encenação “comunismo” vs. “fascismo”, esquerda vs extrema direita, progressismo vs. neofascismo… “Fascismo/comunismo”, nesse contexto, se impõem como construções imaginárias que sustentam o teatro do antagonismo. Funciona como dispositivo de gestão afetiva e política, garantindo a continuidade da farsa eleitoral e da institucionalidade burguesa.

Por isso, o progressismo, frequentemente mobilizado como uma das simetrias que alimentam o espantalho do “comunismo”, não rompe com essa lógica. Não pode romper, pois é produto da própria engrenagem que pretende administrar. Sua função não é superar a crise, mas geri-la sob novas formas, prometendo soluções estruturalmente impossíveis dentro da ordem capitalista. Para isso, o progressismo se apropria de signos históricos da luta dos trabalhadores, mas os reinscreve em uma gramática institucional que os esvazia de sua potência transformadora. Essa operação permite que tais signos, já neutralizados, sejam reidentificados como ameaça. É nesse deslocamento que o progressismo pode ser nomeado como “comunismo”, não como realidade histórica ou projeto político efetivo, mas como fantasma. Um fantasma que ao mesmo tempo em que mobiliza o medo, bloqueia a emergência de qualquer alternativa real.

Diante da impossibilidade, que não é falha, mas condição estrutural, de resolver as contradições do neoliberalismo, o progressismo (que é uma peça do neoliberalismo) também participa da fabricação de seu outro necessário: o inimigo do progresso e do desenvolvimento, frequentemente condensado na figura do fascismo iminente. Assim, a contenção do “perigo fascista” e a denúncia do “risco comunista” operam como dispositivos complementares de gestão da crise neoliberal. É nesse movimento que se estruturam ciclos ou ondas alternadas entre progressismo e conservadorismo. Esse vaivém não expressa uma ruptura, mas uma dinâmica interna de reprodução do próprio sistema. Cada polo justifica o outro, intensificando a superexploração e reiterando a necessidade de austeridade, sempre atribuída à destruição produzida pelo governo anterior. A aceleração progressista e a contenção neofascista são gêmeas siamesas que usam um simples pano para esconder sua outra parte. E, com isso, escamoteiam a superexploração do modo de produção capitalista.

Nesse regime, fascismo e comunismo operam como figuras imaginárias que orientam a adesão política, enquanto o fascismo real permanece ativo como base material da vida social (a democracia representativa liberal… a ditadura burguesa). A violência estrutural do capitalismo (a expropriação, a miséria, a coerção cotidiana) representa a normalidade e não uma exceção. A polarização encobre aquilo que se sabe e, ao mesmo tempo, se evita reconhecer… A ditadura da burguesia é a condição presente. É nossa ontologia do contemporâneo. Ela se manifesta na vida concreta, na forma como se trabalha, se vive e se é governado.

A democracia liberal aparece, então, como proteção, como limite civilizatório, enquanto administra a mesma violência sob formas reguladas e sob geografias específicas (favelas, prisões, zonas periféricas, em contenção de manifestações e protestos…). O fascismo imaginário não é a negação do fascismo real. Ele o organiza como algo a ser evitado, ao mesmo em que o mantém operando. E para isso, recorre a sua outra face, ao espantalho do comunismo imaginário. Vive-se sob coerção permanente, mas sustenta-se a crença na liberdade ou, ao menos, na aceitabilidade da própria servidão.

É nesse ponto que a oposição entre figuras como Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro revela seu caráter estritamente teatral. Trata-se, em verdade, de uma encenação que organiza afetos e produz a sensação de escolha. A alternância entre esses polos somente reafirma a estrutura da exploração, convertendo-a em objeto de disputa aparente. Para a classe trabalhadora, essa pseudo-polarização captura e seduz pela pacificação da luta de classes.

A institucionalidade burguesa sustenta-se nessa dramatização contínua. A cada eleição, reitera-se a narrativa de decisão crucial, de risco iminente, de necessidade de adesão. Essa guerra encenada estabiliza a exploração capitalista, renovando sua legitimidade. Nada no interior desse sistema aponta para transformação, porque sua função é precisamente impedir que ela se coloque.

Em um segundo momento, a depender das necessidades do sistema, o fascismo pode deixar de ser apenas espectro e se realizar como forma concreta de organização política.  E isso ocorre não como ruptura, mas sim como ecologia interna do próprio capitalismo, acionada quando conveniente à intensificação da exploração ou à contenção de crises mais agudas. No entanto, não é disso que se trata no presente. Observamos um discurso de contrainsurgência sem insurgência real. A memória histórica de alternativas radicais foi esvaziada; a potência simbólica da foice e do martelo já não mobiliza medo efetivo. Nunca se temeu tanto algo que já não, efetivamente, causa medo. Se produz o comunismo imaginário para que a revolução nunca aconteça. Fala-se em comunismo e ameaça de esquerda para impedir a proliferação de vozes radicais e de discursos antissistêmicos. Vivemos uma era de resistências controladas. Somos levados a ver resistência por todos os lados. O império das resistências subjetivas e individuais. Resiste-se a tudo, e exatamente por isso, nada ameaça estruturalmente o modo de produção. A gestão das resistências funciona a calar a luta.

Por isso, Agamben clamou a coragem na desesperança. Sendo a esperança uma outra dimensão do medo, da gestão afetiva em favor da manutenção da exploração, cabe-nos a coragem de não ter esperança, de abolir quaisquer afetos que nos capture pela utopia de que esse sistema trará alguma mudança. Cabe-nos, para além da solidariedade entre os explorados, da cooperação voluntária e do apoio mútuo, o ódio de classe e o ódio organizado na luta pela destruição dessa engrenagem, pois sabemos que não há esperança possível no seio do capitalismo.

A recusa anarquista dirige-se, portanto, ao próprio regime de representação e às formas de mediação que o sustentam. As eleições são, para nós, parte do problema. Ao suspender a crença nesse teatro, a crítica anarquista busca desorganizar o circuito que mantém a dominação como horizonte inevitável, recolocando a possibilidade de ruptura fora dos limites impostos pela ordem burguesa, fora da esperança e do medo.

O anarquismo, nesse ponto, não se deixa capturar pela coreografia emocional da “frente ampla”, nem pela pedagogia do medo e da esperança que exige adesão em nome de um mal menor. Há algo de profundamente cínico nessa convocação permanente. Pede-se que se escolha entre formas de administração da mesma violência, enquanto se dramatiza a exceção para ocultar a regra. O teatro é conhecido, o roteiro é repetido, e ainda assim se exige aplausos e adesões.

Não há ingenuidade aqui. Sabe-se perfeitamente o que está em jogo e é precisamente por isso que a recusa se impõe. Já se vive sob o fascismo burguês (a democracia liberal é a continuação do fascismo por outros meios), sob a ditadura da burguesia que organiza a vida, distribui a morte, regula a sobrevivência e impõe a normalidade da exploração. O que se apresenta como ameaça futura funciona como deslocamento calculado, uma ficção útil que transforma o presente insuportável em algo aceitável.

Para aqueles que são capturados pela farsa da frente ampla e que, de modo ingênuo, nos acusam de sermos responsáveis pelo retorno do fascismo ou de darmos munição à extrema direita, afirmamos: o fascismo não retorna, porque nunca deixou de existir na democracia liberal. Não vamos nos calar nem nos constranger diante dessas imposições morais da ditadura burguesa. Diremos, sem hesitação, que as diferenças entre Lula e Bolsonaro, no que diz respeito aos interesses da classe trabalhadora, só se tornam visíveis sob uma espécie de superlupa.

Não há possibilidade de adesão a um sistema que se sustenta na exploração que pretende apenas administrar. Não há escolha real quando as alternativas já foram previamente delimitadas. Recusar esse teatro não é abster-se da política; é recusar sua forma capturada, é romper com a linguagem que transforma a dominação em destino e a servidão em normalidade.

O que se observa, na prática, é que a distância entre regimes abertamente tirânicos e as democracias se estabelece muito mais em termos de intensidade do que de essência. A possibilidade de votar periodicamente pouco, ou nada, altera as estruturas fundamentais que organizam a vida social. As transformações que ocorrem tendem a ser superficiais, preservando o funcionamento de um aparato estatal que continua operando em favor da reprodução da ideologia burguesa. Esse mesmo Estado segue legislando conforme interesses específicos, mantendo mecanismos de expropriação e sustentando desigualdades por meio de políticas que preservam os privilégios da burguesia. A lógica de concentração de poder e riqueza permanece ativa, reproduzindo injustiças que não são eventuais ou acidentais, mas estruturais e persistentes ao longo do tempo. E isso se mantém porque tanto o Estado quanto a democracia carregam uma natureza classista. Não há possibilidade de reparo, de simples remendo. É como no meme em que alguém tenta conter o vazamento de um recipiente furado com uma fita adesiva. Uma solução precária diante de um problema que está na própria estrutura.

Diante disso, torna-se imprescindível e urgente recusar frontalmente a democracia tal como se apresenta e, com ela, tanto as formas abertas de tirania quanto os discursos de esperança que insistem em prometer redenção dentro da própria ordem capitalista. É preciso coragem para enunciar contra a democracia e seus aparatos de classe, como as eleições, desnaturalizando o constrangimento que nos impõe seu culto. É preciso dizer, sem rodeios, que essa democracia opera como tirania: a ditadura da burguesia.

Do mesmo modo, é preciso recusar o império das resistências subjetivas e individualizadas que a pós-modernidade consagrou e afirmar, sem ambiguidade, a centralidade da luta de classes. Uma luta que não ignora as contradições subjetivas (ao contrário, atravessa-as), mas que não abdica de sua primazia. Trata-se de construir um sujeito coletivo de luta capaz de incorporar as singularidades das opressões (sexuais, raciais, étnicas, de gênero…), compreendendo como o sistema fabrica guerras e antagonismos imaginários para perpetuar a exploração.

Isso não implica deslegitimar as chamadas “pautas identitárias”. Implica, antes, lê-las criticamente, reinscrevê-las no terreno da luta de classes e recusar tanto sua neutralização quanto sua captura por um purismo militante que, ao fim, também serve à ordem que pretende combater. E implica, sobretudo, combater sua redução a uma luta imaginária por reconhecimento e por direitos. É preciso fazer ver que o modo de produção capitalista explora e administra o próprio reconhecimento de humanidade, confinando-nos à disputa por direitos mínimos enquanto desativa e silencia os anseios revolucionários. É preciso afirmar, sem concessões, que não há horizonte de transformação nas engrenagens do capitalismo. O direito concedido hoje é o mesmo que será negado amanhã. O sistema opera pela gestão da inimizade, pela administração do medo e da esperança, fazendo desse vaivém um mecanismo de reprodução contínua. E as eleições figuram como uma de suas engrenagens centrais, peça-chave dessa encenação reiterada.

E aqui nos separamos, uma vez mais, de muitos dos companheiros comunistas. Ao nutrirem expectativas no partido, na liderança e na autoridade, acabam por acreditar na possibilidade de disputar a aparelhagem estatal por meio de uma encenação de luta já esgotada. Seduzidos pela lógica do mal menor, são levados a assumir, progressivamente, aspectos da própria institucionalidade que deveriam combater. Não raro, vemos essas figuras subirem em palanques para professar o voto crítico ou o voto de desconfiança. Não se trata, para nós, de desconfiança no sistema; nutrimos ódio a ele, e é precisamente essa criticidade que nos impede de votar:

“Primeiro que tudo, propaguemos os princípios socialistas, e em vez de impingir patranhas e dar falsas esperanças aos eleitores e aos não-eleitores, excitemos neles o espírito de revolta e o desprezo do parlamentarismo. Façamos de maneira que os pobres não vão votar, e que as eleições as façam lá entre si o governo e os burgueses, no meio da indiferença e do desprezo do povo; porque, destruída a fé na urna, nascem logo a vontade e a necessidade de fazer a revolução. Vamos aos ajuntamentos e reuniões eleitorais, mas para pôr a nu as mentiras dos candidatos e para explicar – e isto então sempre, sempre – os princípios socialistas, isto é, a necessidade de expulsar o governo e expropriar os proprietários. Entremos em todas as sociedades operárias, formemos outras novas, e sempre para fazer propaganda e falar a todos do que devemos fazer para nos emanciparmos. Cooperativas, associações de socorros mútuos, organização operária, congressos corporativos, tudo é bom terreno para nele se fazer propaganda, contanto que, naturalmente, uma vez lá dentro, não nos esqueçamos do fim que ali nos levou.” (Malatesta, 1915).

Diante da imposição moral do voto, há uma saída: a luta antissistêmica. A lembrança que a foice e o martelo, o arco e a flecha, a pá e a enxada… seguem erguidos, neste exato momento, em alguns lugares, pelas mãos daqueles que recusam o teatro cínico e perverso da burguesia e expressam nojo e ódio por todas as suas facções. Mesmo quando essa facção se apresenta pintada de classe trabalhadora, como um boneco de ventríloquo que explora um passado sindicalista que ele próprio traiu e abandonou.

A anarquia é a ordem, o governo é a guerra!

A propriedade é o roubo!

Nenhum deus, nenhum mestre!

Terra para quem nela trabalha!

Viva a comuna!

Paz entre nós, guerra aos senhores!

Rick Afonso-Rocha, Doutor em Letras: Linguagens e Representações (UESC), Professor na rede pública de ensino da Paraíba, Professor Substituto UFPE, Advogado, Anarquista, Pesquisador independente

Fonte: https://diplomatique.org.br/fascismo-imaginario-a-farsa-eleitoral-e-a-critica-anarquista/

agência de notícias anarquistas-ana

manhã de vento
na caixa do correio
apenas uma folha seca

João Angelo Salvadori

[EUA] O que é ação direta? 

Parece haver alguma confusão recentemente sobre o significado do termo ação direta.

Seu uso entre radicais ampliou a definição a ponto de torná-la sem sentido. Da maneira como é usada, alguém poderia pensar que significa simplesmente militante ou intenso, uma forma mais agressiva de manguear. Essa distorção do termo levou muitos a acreditar que algumas ações são ações diretas quando não são e vice-versa.

Ação direta significa o uso não mediado (também conhecido como direto) do poder (também conhecido como ação) para resolver um problema. O que significa não mediado? Significa eliminar o intermediário, não recorrer à autoridade, negociar, convencer ou pedir. Aqui está um exemplo: um grupo de amigos está com fome. Para resolver essa necessidade com ação direta, eles podem cultivar, colher, caçar ou roubar algum alimento e comê-lo. Isso é ação direta porque eles não buscam a ajuda ou permissão de ninguém responsável. Se eles marchassem pela rua com cartazes sobre como estão com fome, isso seria um protesto. Se eles pressionassem políticos ou capitalistas para lhes dar comida, isso seria lobby: eles estariam apelando às autoridades para alcançar seu objetivo, em vez de fazer isso eles mesmos.

Algumas pessoas podem querer abolir a polícia, então elas marcham pelas ruas fazendo discursos exigindo o fim do policiamento e bloqueando o trânsito, e algumas delas são presas após alguns empurrões com os policiais. Isso parece um protesto militante, mas não é ação direta. Se as mesmas pessoas começassem a desmontar a infraestrutura policial, ou atrapalhar o trabalho da polícia, ou ignorar as ordens policiais, isso seria ação direta. O que torna a segunda ação direta e não a primeira é que o segundo exemplo envolve pessoas começando a desmontar a própria polícia. No primeiro exemplo, os manifestantes não aboliriam a polícia por conta própria; em vez disso, eles agitariam as coisas e exigiriam que outra pessoa abolisse a polícia. O caráter chamativo, ilegal ou intenso de uma ação não é o que a torna uma ação direta. O que torna algo uma ação direta é a natureza imediata e auto-organizada do ato. É por isso que, quando os trabalhadores ocupam um local de trabalho com a intenção de administrá-lo eles mesmos, isso é considerado uma ação direta, mas se os trabalhadores ocupam um local de trabalho para influenciar políticas, isso é uma forma extrema de lobby. O mesmo pode ser dito sobre a destruição de propriedade: se alguém quebra a janela de um banco para pressionar os banqueiros a parar de investir nas forças armadas, é um protesto agressivo; se a mesma janela é quebrada com a intenção de causar danos ou interromper os negócios do banco, então é uma ação direta.

Quando os termos usados por rebeldes e ativistas têm definições e usos pouco claros e confusos, torna-se mais difícil comunicar, quanto mais compartilhar análises e discutir objetivos e intenções. Chamar os protestos de ação direta tem o potencial de limitar a imaginação, afinal, se alguém pensa que gritar e segurar cartazes é a maneira mais direta de participar da luta, essa pessoa exclui todas as possibilidades de assumir a responsabilidade de mudar literalmente a situação ou o ambiente que a oprime e explora. Quando há uma compreensão clara do que significa ação direta, fica mais difícil usar o termo para fazer algo parecer duro ou militante, e mais fácil olhar honestamente para as táticas usadas na luta e decidir por si mesmo se elas parecem eficazes (independentemente de serem ou não ações diretas).

Fonte: zine “Words Mean Things-A Compilation of Anarchist Articles”

Tradução > Reno Moedor

agência de notícias anarquistas-ana

O polvo num pote –
Sob a lua de verão
É tão breve o sonho

Bashô

[Espanha] Crônica de um encontro inesquecível em Salamanca

Instantâneo para a memória da décima oitava edição do Encontro do Livro Anarquista de Salamanca.
 
Foi possível obtê-lo graças a todas as pessoas que apoiaram na montagem da exposição sobre Ferrer i Guardia, e que o vento nos deixou algumas horas para desfrutar e conhecer este trabalho, que com certeza em alguns meses voltaremos a expor em outro lugar de Salamanca. Agradecemos às editoras e livrarias que, mais um ano, se aproximam com os mochilões repletos de livros e novidades em edições. Tanto foi assim que, entre todas, fica refletida na imagem mais de 50 metros de mesa, este ano formada por Madre Tierra, Ediciones Cimarrón, La Neurosis o Las Barricadas, Coletivo Wayra, Volapük Ediciones, CNT Salamanca, Sentimiento Ácrata, Aurora Negra e Karrazka Banaketak.
 
Nos nutrimos, refletimos, conhecemos e dançamos. Agradecemos a todos os participantes e palestrantes das atividades, com eventos como o Passeio Libertário em Zamora com um grande grupo de mais de 70 pessoas, em uma tarde fresca de verão, conhecendo vários pontos onde o anarquismo deixou sua marca na cidade e com um mapa atualizado que incluía descrições geniais em um papel desenhado pelo companheiro Edu. No sábado, em Salamanca, pudemos ouvir La Zurramba romper o silêncio, cujo instrumento geralmente é feito de osso e, em determinados lugares de Burgos, com a madeira do entorno e uma fina corda. Um objeto que, curiosamente, foi encontrado em todos os continentes e com o qual Moreno expressou uma seleção dos 25 poemas do livro, vindo das entranhas, e dedicando o ato ao companheiro Agustín Moreno Carmona (membro fundador da C.O.P.E.L., falecido há um ano).
 
Depois de uma pausa para encher a barriga, infelizmente não pudemos colocar aquele copo de gaspacho, a deliciosa tortilha, a peculiar típica tapa salmantina chamada “paloma”, a empada de pisto e o delicioso melão ou melancia.
 
Depois que o vento diminuiu e nos sacudiu, foi aquele sinal de que o Feo vai continuar contra ventos e marés e nos expôs que foi Zoowoman, A Filmoteca Maldita e, o mais importante no final, que são as pessoas e quem ele é, que nos traz, por meio de meios digitais, sem pretensão econômica e desde a vertente audiovisual, a divulgação da antropologia, do cinema e do trabalho de pesquisa, como ele nos explicou o que é ser pirata ou um corsário que, além de querer ficar com tudo o que você puder ter materialmente, quer roubar sua vida. Este companheiro do bairro de Gamonal teve a casa invadida para ser detido por pertencer a um coletivo horizontal e assemblear que compartilha um amplo e farto catálogo de filmes, especificamente o senhor e dono do Atlético de Madrid, algo tão horrível quanto o futebol, que ainda por cima, durante anos, financia grupos fascistas como a Frente Atlética e os assassinos do Blood and Honor. Por tudo isso, fiquem atentos ao caso para apoiar e nos solidarizarmos com o FEO. Há 15 anos, na cidade salmantina, formou-se o Coletivo Wayra, para nós um forte pilar sem cujo apoio grande parte de tudo isso não funcionaria. Desta vez, Pablo, com a reflexão intitulada “Quando o aluno é lixo”, nos mostrou como reciclar os materiais e componentes da natureza, além de uma ampla bibliografia de pessoas e seus livros que ajudaram todos esses anos a construir um projeto autogerido de educação livre. Atualmente, eles estão em busca de um professor ou professora do ensino fundamental com especialização em educação física ou música, sensibilidade para a infância e respeito às suas fases evolutivas. Se tiver mais interesse, entre em contato pelo e-mail: coletivowayrasalamanca@gmail.com
 
Nos visitaram desde Euskal Herria (Ermua) para expor a extensa e muito bem-sucedida pesquisa sobre a vida do anarcossindicalista zamorano Jacinto Toryho, recentemente editada em um livro pelo El Lokal com mais de 400 páginas. Toryho, natural de Villanueva del Campo (Tierra de Campos), abandonou os seminários para logo se formar em jornalismo, escrevendo em muitos dos principais jornais. E se há algo a destacar, foi quando, nos anos 1930, assumiu o cargo de redação do Solidaridad Obrera. A jornada se encerrou com uma dupla vinda de Gasteiz, que fez dançar e cantar todas as pessoas que estavam na Praça de Barcelona. Versos dilacerantes recitados por Santi Cobos refletiram a ânsia por liberdade após ter vivido em diferentes prisões do Estado Espanhol, em regime de isolamento F.I.E.S., e atualmente continuar em regime aberto, toda uma vida em torno do castigo. Juntamente com a grande dançarina de flamenco “La Pulga”, eles quebraram o tablado e as correntes que oprimem a sociedade e nos libertaram para dançar e cantar fortemente LIBERDADE.
 
Agradecemos ao Txori por ilustrar o cartaz desta edição, aos cozinheiros e a vocês que ajudam a recolher as mesas. Agradecemos ao Dani Melankronikam por nos presentear com os adesivos e nos abastecer com roupas estampadas a um custo tão baixo para podermos cobrir os deslocamentos ou possíveis gastos dos palestrantes. A todos eles e a muitos outros, que todos os anos nos ajudam, sem vocês isso não iria para frente.
 
A assembleia do Encontro do Livro Anarquista continua aberta a todas as propostas e à soma de pessoas que queiram se juntar para preparar a próxima edição, que será a de número 19.
 
Enquanto isso, e ao longo do ano, passaremos por diferentes localidades para apresentar o livro que escrevemos e editamos (e reeditamos) sobre a pesquisa do anarquismo na província de Zamora e a compilação e digitalização da imprensa libertária desde o final do século XIX.
 
Obrigado a todos e voltem em breve.
 
“Assentar os alicerces da liberdade indestrutível, da justiça social e da fraternidade e solidariedade operárias”
(J. Toryho)
 
Encontro Salamanca
https://encuentrosalamanca.blogspot.com
 
Tradução > Liberto
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
No ninho do sabiá
há quatro bocas
que não param de piar
 
Eugénia Tabosa