
Nós chamamos o evento de “Natal Anarquista”. Não é por causa da pompa, nem da pilha de presentes que você leva pra casa, nem mesmo por causa do bolo.
Vivemos num mundo dividido, caindo no protecionismo reacionário e políticas hostis incentivadas por populistas cheios de ódio. Ninguém tá encontrando inspiração no doomscrolling. Os autoritários e capitalistas, que buscam nos reduzir a consumidores inertes e conformados, prosperam quando as nossas comunidades estão atomizadas e desconectadas. Quando nós estamos apenas empurrando a vida adiante, olhando pra uma tela e desesperadamente tentando encontrar um momento de esperança, estamos presos em um ciclo de decadência.
Mesmo que alguma thread nos dê um escape temporário do enorme peso do mundo, dos horrores cometidos contra povos inocentes em terras distantes, das correntes políticas que roubam as nossas liberdades, e do puro fardo impiedoso de sobreviver ao capitalismo, depois de um turbilhão sufocante de coisas… aí você precisa acordar pra ir pro trabalho depois de algumas horas.
A gente caiu numa dependência profunda de fronteiras eletrônicas e as falsas promessas de plataformas de redes sociais em que, teoricamente, elas nos conectam, mas na verdade nos deixam sozinhos, divididos, e sem propósito. Estamos num oceano esmagador de pessoas, todas tentando se conectar desesperadamente, mas, em última análise, isoladas. Cada uma sozinha no seu quarto, fazendo doomscrolling, se sentindo desamparada diante do domínio terrível dos detentores do poder. Em outros lugares, a extrema-direita oferece um senso de pertencimento pela exclusão, unidade pelo ódio, propósito pela submissão, com mensagens de ódio profundamente enraizadas em desfiles enganosos – usando o amor de pessoas da classe trabalhadora e seu desejo natural por comunidade, espaço e lugar, para jogá-las umas contra as outras.
Contra isso, espaços anarquistas insistem numa forma diferente de pertencimento: um pertencimento construído com ajuda mútua, solidariedade, e a liberdade de pensar e agir junto. Nós chamamos o evento de “Natal Anarquista” porque a feira do livro anarquista local é a cura pra toda essa melancolia. É quando a família se junta, velhas amizades que você não vê há anos, aquela moça que você viu pela última vez em cima de uma árvore dois anos atrás, seu velho camarada daquela ocupação que você costumava visitar, e aquele cara que te mostrou Kōtoku Shūsui.
Então o que É uma feira do livro Anarquista?
Uma boa feira do livro parece uma feira misturada com a sensação de estar com amigos em um festival. É pura energia positiva e um sopro de ar fresco. Em qualquer uma delas você pode encontrar uma variedade de banquinhas interessantes com tudo, desde organizações ambientais até projetos de redistribuição de riqueza, desde ativistas locais de proteção animal até coletivos de arte, editoras radicais, e campanhas de solidariedade com camaradas que estão em terras distantes. As banquinhas são quase sempre complementadas por oficinas sobre diversos assuntos e uma variedade de atividades, sessões de reparo de objetos, comida vegana deliciosa – e bolo, claro.
Atualmente, estamos testemunhando um renascimento no Reino Unido e em todo o mundo, com novos encontros presenciais surgindo aos montes, e eventos já estabelecidos se tornando eventos de vários locais e de vários dias. Mais do que nunca, as pessoas estão saindo do scrolling infinito e se encontrando pessoalmente. Fazer isso, especialmente fora dos bares e cafés corporativos que tentam te explorar, é um ato de rebeldia. Pra ilustrar o ressurgimento da organização cara-a-cara, nós somos apenas um de uma dúzia de eventos que aconteceram nos últimos dois meses; no mesmo dia em Newport, há uma Feira do Livro Radical no Riverfront, na próxima semana a Feira do Livro Anarquista de Manchester vai acontecer no Museu da História do Povo, a Feira do Livro Radical de Edimburgo volta pro Assembly Roxy de 5 a 9 de Novembro, e Swansea sediará mais um Festival Comunitário Radical no dia 22.
Cada um destes eventos será uma variedade vibrante e empolgante de organização anarquista e socialista, educação radical, publicações populares. Cada uma é uma reafirmação de que ainda acreditamos em comunidade, curiosidade, e imaginação coletiva. Quer você tenha vindo com nada, ou com bastante dinheiro pra gastar, você voltará pra casa com uma pilha de coisas, terá compartilhado uma refeição com alguns novos amigos, terá rido, participado de debates, descoberto coisas novas, novas fronteiras na luta, e a tua mente estará fervilhando de novas ideias de projetos.
São eventos mágicos e potentes, e esse é o motivo pelo qual, de novo e de novo, anarquistas, socialistas, defensores da terra, lutadores sociais queer: ativistas de todo o espectro, comparecem. Mas mais do que isso, são as pessoas de fora que são as mais importantes pra mim. As pessoas que olham pro estado do mundo e sabem que o inimigo chega não de barco, mas de limusine; que veem a polícia agredir os jovens, que assistem o ódio maligno sendo disseminado e querem fazer algo a respeito.
Cada pessoa participa na organização de um evento como este a partir de um ponto de vista diferente. Essa multipolaridade de tendências políticas, interesses específicos e inclinações é benéfica e certamente faz com que o evento seja diverso e enriquecedor. Esta é a quinta Feira do Livro que ajudei a coordenar, e, pra mim, o mais importante são as banquinhas e unir as equipes, é sobre arte e tornar o anarquismo atraente, e, bom, principalmente, são as pessoas que nunca haviam ido a uma feira do livro que fazem todo o esforço valer a pena. Cada uma delas, em algum momento do dia, sentindo aquela chama de esperança, às vezes pela primeira vez. Eu me lembro de vários momentos da minha vida que foram como uma luz brilhante na escuridão: as conversas, zines, e pessoas que me fizeram acreditar que podemos fazer isso, podemos construir um mundo melhor. Junto.
Uma pequena recapitulação da Feira do Livro Anarquista de Bristol.
A feira do livro em Bristol percorreu um caminho meio instável. A edição recente começou em 2008; 26 banquinhas e 25 oficinas no Centro Comunitário de St. Werburgh com tudo, desde Princípios Anarquistas 101 até uma aula de Tai Chi. O sucesso consolidou o evento, que foi crescendo a cada ano. Em 2011, a Feira do Livro aconteceu logo após os protestos de Stokes Croft. Houve eventos durante toda a semana que antecedeu a feira, a polícia chegou a ameaçar fechá-la, e mesmo assim cerca de 1.500 pessoas compareceram pra aproveitar os 60 estandes e 34 eventos distribuídos em seis espaços, e algumas pessoas sortudas ainda conseguiram adquirir uma gravura de Banksy que se tornaria imediatamente lendária.
A feira do livro continuou. Ela teve seus altos e baixos; em setembro de 2017, o evento foi organizado por algumas pessoas novas, incluindo Anna Campbell. Depois de alguns anos no centro Trinity, ela voltou ao Centro Comunitário de St. Werburgh, e contou com mais de 30 banquinhas e 19 oficinas, e foi, segundo todos os relatos, um evento excelente. No mês de março seguinte, Anna seria assassinada pela Força Aérea Turca enquanto ajudava civis deslocados a fugir de Afrin.
Em maio de 2018, após uma mudança de local de última hora, a Feira do Livro aconteceu entre o Black Swan e o centro social BASE. Infelizmente, o evento entrou num hiato nesse ponto, embora tenha sido parcialmente substituído pelo fantástico Festival de História Radical de Bristol, que, com seu tom mais amplo e sua vibe meio diferente, se tornou um anfitrião acolhedor pra comunidade de organizadores de Bristol.
Aí, a Pandemia chegou, e o mundo inteiro entrou num hiato.
Nós todos nos deparamos com as realidades agridoces de buscar ajuda mútua vasta, linda e a nível de comunidade, em confronto com uma extrema-direita fortalecida e um governo indiferente, propenso a impulsionar a economia à custa da classe trabalhadora.
A Active Distribution foi a primeira a retomar as atividades após o lockdown com uma série de pequenas Feiras do Livro Radicais no Exchange. Assim, as pequenas faíscas de revolta e ousadia começaram a se espalhar. O círculo de tricô anarquista fez sua parte, e, no início de 2024, a Feira do Livro Anarquista de Bristol começou a reunir a turma, com uma mistura de rostos antigos e novos. Fizemos uma “mini Feira do Livro Anarquista” no fim do ano, e as pessoas ficaram entusiasmadas.
Então, aqui estamos…
Agora estamos propriamente de volta. As portas se abrem das 10:30 da manhã no Elmgrove Centre e fecharemos às 5 da tarde. Temos mais de 50 banquinhas de toda Bristol, do Sudeste da Inglaterra, do País de Gales e de todo o Reino Unido. Junto disso, há mais de 20 oficinas gratuitas com uma grande variedade de estilos e assuntos. Haverá atividades práticas sobre tudo, desde como lidar com oficiais de imigração, como consertar bicicletas, até como interagir com escudos antimotim de forma segura. Vamos explorar o político no pessoal com o debate “É Preciso Uma Aldeia Para Cuidar de Uma Criança”, TRH faça-você-mesma para pessoas trans, e escrita de testamento para radicais. Orientação especializada sobre o que tá acontecendo com o uso da lei do Terrorismo com protestos, e formas fáceis de lidar com a sua segurança digital. Ficar em dia com os trabalhos mais recentes sobre a Libertação da Pessoa com Deficiência ou as análises sobre Direito Fundiário, ou se juntar à plenária sobre luta eficaz no ambiente de trabalho com o sindicato de trabalhadoras do sexo e funcionários de hospital. Ouvir as pessoas da maioria global que estão se organizando na linha de frente contra o racismo encorajado, e os ativistas por trás da campanha que derrubou a estátua de Edward Colston. Ou talvez você apenas precise sentir a inspiração da Plenária de Motivos para Ser Otimista, que vai apresentar vitórias de campanhas regionais nos últimos cinco anos, com uma análise das táticas que nos levou a chegar onde chegamos.
Entre as atividades, você vai comer junto, compartilhar histórias, fazer planos. Espere por debates vibrantes sobre justiça habitacional, organização de bairro, e ecologia. Você vai bater um papo bebendo cerveja com camaradas mais velhos e veteranos do movimento, enquanto crianças folheiam fanzines ilustrados e correm umas atrás das outras por perto. Nesse murmúrio cheio de vida, você vai ouvir o eco das lutas de Bristol. Essa garota de Lawrence Weston falando sobre como ela não consegue encontrar trabalho, um organizador comunitário falando sobre o abismo de expectativa de vida de aproximadamente dez anos entre bairros mais ricos e bairros mais pobres, e um fervoroso morador de ocupação de Stokes Croft empolgado em contar desventuras da Fábrica Vermelha na época dos protestos.
Esses eventos são de família (em Bristol nós temos uma creche supervisionada e um espaço para crianças em uma brinquedoteca com brinquedos macios), e todo mundo é bem vindo, mesmo que seja só pra uma visitinha rápida. Venha dar uma espiada pela porta e faça a última coisa que o estado quer que você faça: começar a falar com seus vizinhos trabalhadores sobre os seus problemas, esperanças, sonhos, e como você acha que podemos chegar a um mundo melhor.
Leve as suas perguntas. Leve suas ideias. Leve a sua fome por mudança. Juntos nós vamos reafirmar que aqui, em Bristol, em carne e osso, ainda acreditamos que um mundo melhor é possível.
A gente se vê no Natal Anarquista.
Em solidariedade
Um Membro da equipe da Feira do Livro Anarquista de Bristol.
Fonte: https://organisemagazine.org.uk/2025/10/31/anarchist-christmas-in-bristol/
Tradução > Caio Forne
agência de notícias anarquistas-ana
Sol de primavera —
O despertar das flores
É quase um sussurro.
Paulo Ciriaco















Obrigada por compartilhar! Tmj!
opa, vacilo, vamos corrigir... :^)
compas, ollas populares se referem a panelas populares, e não a ondas populares, é o termo usado pra quando se…
Nossas armas, são letras! Gratidão liberto!
boa reflexão do que sempre fizemos no passado e devemos, urgentemente, voltar a fazer!