Rio não é mercadoria: a vitória indígena contra o Decreto 12.600 e o que ela ensina sobre ação direta

24/02/2026

Ontem à noite, depois de semanas de mobilização indígena e popular no Tapajós e em outras frentes solidárias pelo país, o governo anunciou a revogação do Decreto nº 12.600/2025 — decreto que abriu caminho para puxar rios amazônicos para a lógica de “corredores logísticos” e concessões, com dragagens e obras incluídas, sem regulamentação dos povos que vivem e existem com esses rios. A publicação no Diário Oficial da União (DOU) ocorreu hoje de manhã — e a luta, por isso mesmo, não terminou no anúncio de ontem: terminou só quando a revogação esteve formalmente publicada e seus efeitos, garantidos. Mas ficamos em alerta permanente, o Capital e os governos que fazem as leis para ele não costumam desarmar facilmente e voltam sempre a cometer os mesmos crimes nos mesmos lugares.

O que importa aqui — e o que o CCLA (Centro de Cultura Libertária da Amazônia) quer registrar com toda explicação — é que essa vitória não veio de gabinete, nem de promessas de ministro, nem de “mesa de negociação” montada para conflito frio. Veio do que sempre vem quando povos oprimidos enfrentam megaprojetos: organização autônoma, coragem, ação direta e capacidade de sustentar pressão real.

O que estava no jogo: quando o Estado chama “hidrovia”, os povos enxergam território e vida

O Decreto nº 12.600/2025, publicado em 28 de agosto de 2025, tratou de incluir empreendimentos do setor hidroviário no Programa Nacional de Desestatização (PND). Traduzindo o jurídico: é a porta administrativa para colocar rios e “hidrovias” na rota de concessões/privatizações, com tudo o que isso implica em obras, operações e reordenamento do território para atender cadeias de exportação.

No Tapajós, a denúncia dos povos foi direta: “rio não é mercadoria”. O que para o governo e o agronegócio aparece como “rota fluvial”, para quem vive do rio é água, comida, deslocamento, memória, espiritualidade, reprodução da vida. É também proteção contra máquinas de destruição que avançam com portos, grilagem, garimpo, contaminação e violência.

Havia um ponto jurídico-político que é, ao mesmo tempo, simples e explosivo: não existe consulta “livre, prévia e informada” se a decisão já foi tomada por decreto. Por isso, desde o início, a mobilização bateu em dois critérios inseparáveis: parar dragagens e revogar o decreto.

O protagonismo indígena: o que segurou a luta foi quem conhece o rio por dentro

A cobertura do conflito no Tapajós mostra algo que o Brasil insiste em esquecer: os povos originários não são “parte específica” como qualquer outro. Eles são assuntos políticos e guardiões de uma relação com o território que não cabe no mapa do mercado.

Desde 22 de janeiro de 2026, povos indígenas de mais de 14 povos do Baixo e Médio Tapajós sustentaram mobilizações prolongadas em Santarém (PA), com bloqueios e ocupações ligadas ao polo de exportação (incluindo a área portuária), direcionando diretamente um ponto nevrálgico: a logística do agronegócio. Isso não é “protesto simbólico”. É real interferência na engrenagem.

Ao longo de fevereiro, a pressão cresceu: mais gente, mais apoios, mais atos em outras cidades, mais repercussão. A mensagem também se sofisticou: não se tratava de um “problema local” — era uma disputa sobre o destino político da Amazônia e sobre quem decide o que é um rio.

É importante dizer sem rodeio: quando o Estado tenta importar megaprojeto, ele aposta no cansaço. A tática do poder costuma ser sempre a mesma:

• prometer reunião,

• mandar nota ambígua,

• “suspender” um edital (sem anular),

• anunciar “diálogo” (sem decisão),

• e, se a pressão diminuir, retome tudo depois.

Os povos do Tapajós enfrentam isso com a maturidade política: “suspensão não é anulação” — e a exigência de revogação contínua sendo condição para qualquer conversa séria.

A ação direta como método: por que ela funciona quando “pedir” não funciona

Ação direta não é “radicalismo por estética”. É uma política de tecnologia construída por quem sabe, pela experiência histórica, que o direito escrito não se cumpre sozinho.

No caso do Tapajós, a sequência é quase didática:

1. O governo empurra a política (decreto + agenda de concessões/dragagens).

2. Os povos denunciam (sem consulta, com risco ambiental e territorial).

3. A denúncia privada não basta — porque o capital tem pressa.

4. Vem a ação direta: ocupação, bloqueio, pressão no ponto certo (a logística).

5. Só então o governo recua: primeiro com medidas parciais (suspensões), depois com o anúncio de revogação.

A lição é objetiva: o Estado e as corporações recuperam quando o custo político e econômico fica maior do que o lucro esperado. E quem produz esse custo é organização coletiva sustentada no tempo — não “apelo” a boa vontade.

“Não confiar nos políticos” não é cinismo: é memória social

Quando o CCLA insiste que não deve depositar esperança em política, não é porque “tanto faz”. É porque, estruturalmente, a máquina do Estado é pressionada por interesses empresariais, por lobbies e por uma visão de desenvolvimento que trata a Amazônia como corredor de exportações.

A própria disputa em torno do decreto expõe isso: por semanas, a revogação apareceu como reivindicação central, mas o que vinha do outro lado eram movimentos de controle do conflito — notas, reuniões, “mediações” — enquanto o decreto continuava de pé.

Por isso, a postura correta é a que os povos praticaram na vida real:

• negociar sem desmobilizar;

• não trocar luta por promessa;

• não confundir anúncio com vitória;

• e manter a autonomia para, se necessário, manter a pressão.

Hoje o governo anunciou a revogação. Ótimo. Mas o movimento está certo em tratar isso como resultado da luta, não como presente de autoridade. A caneta só mudou de direção porque havia gente segurando a linha de frente.

O que a revogação significa (e que ela não resolve)

A revogação do Decreto 12.600/2025 — agora que foi publicada no DOU — é uma barreira importante contra a tentativa de institucionalizar a privatização/”concessionação” de rios amazônicos como política pública de infraestrutura.

Mas duas advertências são essenciais:

(a) A lógica do megaprojeto continua viva.

Hidrovia, porto, corredor de expedições — esses nomes voltam com novos decretos, novas portarias, novos estudos “técnicos”, novos editais. A forma muda; o conteúdo permanece.

(b) A vitória só será consolidada com vigilância e continuidade.

Se a publicação no DOU sai “daqui a dois ou três dias”, é exatamente nesse intervalo que o poder aposta para desinflar a mobilização e controlar a narrativa. A resposta precisa ser a mesma do Tapajós até aqui: permanecer mobilizado até a confirmação formal e até que os efeitos práticos sejam garantidos.

Por que essa luta diz respeito a todo o mundo

É tentador tratar isso como pauta “regional”. Não é.

A tentativa de transformar rios em “infraestrutura de mercado” é uma peça de um modelo maior: privatizar o comum (água, floresta, energia, conhecimento), quebrar resistências locais e importar “governança” empresarial em nome do crescimento.

Quando os povos originários derrotam um decreto desses, eles não defendem apenas suas aldeias. Eles defendem a ideia de que a vida vale mais que lucro e de que existem territórios que não serão convertidos em planilha. É uma luta que interessa a trabalhadores urbanos, ribeirinhos, quilombolas, estudantes, pesquisadores, movimentos sociais e qualquer pessoa que não aceite ver a Amazônia virar apenas rota de exportação.

O que o CCLA afirma, com os pés no chão: ação direta, autonomia e solidariedade

O CCLA não está aqui para romantizar o sofrimento. Você está considerando método e estratégia.

• Ação direta: quando atinge o ponto certo, muda a clareza de forças.

• Autonomia: sem ela, a luta vira escada para carreiras políticas e acordos por cima.

• Não confie em políticos: significa que não depende deles. A direção da luta deve permanecer nas mãos de quem está na linha de fogo.

• Solidariedade concreta: divulgar, apoiar financeiramente quando possível, participar de atos, produzir material, empresas e autoridades, defender lideranças ameaçadas.

E, acima de tudo, registrar o essencial: essa revogação foi arrancada, não concedida. Foi fruto de resistência prolongada — e isso precisa entrar na memória coletiva como exemplo de que é possível vencer.

Pós-escrito: sobre o “hoje” e o DOU

No momento em que escrevemos, a revogação foi anunciada, e saiu no Diário Oficial nas primeiras horas da manhã de hoje, assinado pelo vice-presidente da república, Geraldo Alckmin. O decreto original está disponível no Planalto, e a luta pela revogação foi registrada amplamente por veículos e organizações que acompanharam a mobilização no Tapajós. Quando a revogação se encontra publicada, ela passa a ser o documento definitivo para fechar o ciclo jurídico… mas a nossa vigilância tem que ficar sempre ao nível mais alto para combater de novo nas possibilidades de retomada dessa batalha.

cclamazonia.noblogs.org

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agência de notícias anarquistas-ana

olhando para
meu brea-se
de cerejeiras em flor

Allen Ginsberg

[EUA] Sobre o Irã

Por Malik Farrad Muhammad | 02/09/2026

“Sem deuses, sem mestres, sem fronteiras.” Foi assim que fui apresentado ao anarquismo no Tumblr quando criança. Até então, eu sabia, mas não poderia ter expressado isso de forma mais concisa. Cresci na pobreza e amava música, e a música expressava minha realidade mais do que qualquer outra coisa. Do álbum College Dropout de Kanye West, passando por Rage Against the Machine, até Toxicity do System of a Down, eu já sabia que devia questionar tudo, inclusive a autoridade, desde jovem, como minha mãe me ensinou, eu deveria resistir a qualquer professor que tentasse me obrigar a recitar o juramento à bandeira ou a pronunciar meu nome errado. É “Ma-lik”, não “Malik”, é “Muhammed”, não “Mohammed”. A autoridade das estruturas hierárquicas foi, portanto, imediatamente desconsiderada por mim. A religião foi questionada quando meu pai, um homem devoto, saiu pela porta pela última vez. Assim foi com ele, minha lealdade. Passei a vida inteira em instituições — escola, acolhimento familiar, cadeia, serviço militar, prisão, faculdade, núcleo profissional e trabalhos mão-de-obra — A única diferença que percebi foi o nível de acesso, vigilância e violência sancionada pelo Estado.

Minha primeira experiência com a falácia da autoridade foi uma manifestação que especifica após o assassinato de Trayvon Martin. Fomos ameaçados de suspensão, expulsão e violência por parte da segurança da escola e dos porcos se realizámos esse protesto. Então, quando me perguntaram, eu disse racionalmente: “eles não podem suspender todo o mundo”. Quando me perguntaram sobre os porcos da escola e as seguranças que nos atacaram, caso prosseguíssemos com a greve, eu respondi: “Se um porco tocar em um, então estamos todos brigando. E sempre somos mais numerosos que eles.” Na semana em questão, todos os dias, nos anúncios matinais, o diretor lança suas novidades. Todos os dias, eu enfatizova isso como mais um motivo para fazê-lo, desafiando os que me diziam para não fazê-lo. “Nosso povo está sendo assassinado. Como é que eu vou simplesmente para a aula?”, eu perguntei.

No dia, saiu flutuando pelo corredor enquanto ele se encheu de crianças saindo da sala de aula, passando por porcos, seguranças e o diretor. Subi na mesa e olhei em volta, para a frente unida e coletiva, e isso me fez relembrar o passado. A frente unida coletiva, aquela demonstração de nós, os muitos, contra eles, os poucos, me impactou profundamente, e eu percebi que a autoridade não é real. Não deriva do consentimento, mas sim da coerção e da ameaça de força e violência, e deve a violência estatal ou institucional ser superada, autoridade nada mais é do que uma palavra.

Quando li “sem deuses, sem mestres, sem fronteiras”, tudo fez sentido. “Sem deuses”, sendo muçulmanos, foi o que levou mais tempo para se adaptar, mas a ausência de deuses não significa, nem precisa significar, a ausência de fé ou espiritualidade, mas a ausência de estruturas hierárquicas organizadas que produziram guerras santas, jihad, abuso infantil e visões dogmáticas de gênero e sexualidade. Instituições religiosas que apoiam e legitimam funções estatais, dando crédito a entidades ilegítimas, são potencialmente opressoras.

“Sem mestres” é autoexplicativo, embora eu também tenha pensado imediatamente em escravidão, dada a minha ascendência. A expressão “sem mestres”, pelo menos para mim, também alude à construção da raça e à sua natureza de criar os Outros e oprimi-los justificadamente. E a ausência de fronteiras significa a ausência de estados-nação, a ausência de linhas invisíveis separando raças inventadas, pessoas que por acaso nasceram em determinado local geográfico.

O fio condutor de tudo isso é uma ordem. O ponto em comum, o cerne da questão, são as construções hierárquicas baseadas na coerção e na opressão. — gênero, sexualidade, raça, Estados-Nação, religião, todas as construções sociais hierárquicas destinadas a legitimar o ilegítimo e criar classes de Outros para oprimir. Se a apresentação é o problema, e eu acredito que seja, não importa como essa apresentação seja apresentada, nem onde ou porquê. Não importa. Uma disfunção é potencialmente mais perigosa, assim como o capitalismo é deficientemente ruim, e eles são simbióticos. Ao se submeter à remoção de um tumor, você não fica pensando em colocar no lugar do tumor. Não, você extrai aquilo que está te matando. O tumor é hierárquico, e jamais se poderá convencê-lo a se regenerar e parar de te matar.

Então, quando digo: “Estou ao lado do povo iraniano e não do regime iraniano”, é porque acredito no povo. Amo o povo, lutarei com ele, morrerei e matarei por ele. Jamais defendeu um Estado. Nenhum Estado é benevolente. Nenhum Estado está isento de opressão ou exploração. Eu não me alinho com nenhum Estado. O inimigo do meu inimigo é, na maioria das vezes, apenas mais um inimigo. O regime iraniano não quer que eu ou aqueles que amo vivamos aqui, assim como os EUA não querem, assim como a maioria dos Estados não quer. Ser inimigo dos EUA não te torna amigo do povo.

Em uma escala microscópica, a prisão está cheia de supremacistas brancos que defendem ideologias de opressão e violência contra mim e contra aqueles que amo. Se nos aliarmos a esses grupos odiosos contra os porcos fascistas daqui, mesmo que fosse possível para os brancos deixarem de lado seus privilégios, precisaríamos exterminar toda a comunidade supremacista branca imediatamente após o ocorrido. A razão é que eles ainda têm ideologias opressoras, ainda querem me matar. Deixar isso de lado momentaneamente não passa de oportunismo. Nem de longe se aproxima do altruísmo.

O financiamento iraniano aos combatentes pela liberdade na Palestina, no Líbano e no Iémen também não é altruísta, mas sim baseado numa necessidade oportunista de proteger o seu regime. Certamente não é segredo que os EUA querem romper o Irã há décadas. Eles estão sob avaliações. Eles foram alvo de ataques cibernéticos dos EUA, e Saddam usou armas químicas contra eles, armas essas fornecidas pelos EUA, e os EUA usando Israel como seu braço na região, juntamente com uma crença real, uma crença muito válida, de que Israel não deveria existir, cria um cenário propício para financiar pessoas que lutam e morrem longe de suas fronteiras, combatendo o imperialismo estadunidense por procuração, tudo isso sob o pretexto de uma boa ação. Tudo isso contanto que os combates permaneçam fora de suas fronteiras e que suas forças armadas não sejam utilizadas. E os Estados jogam o jogo da imagem e esperam que a imagem de tudo isso jogue a seus favores. No fim das contas, o regime iraniano, como todos os Estados, está determinado a proteger a qualquer custo, mesmo que isso signifique prejudicar os outros.

Eu [jamais] exaltaria o regime iraniano assim como eu jamais exaltaria qualquer Estado porque todos eles são protegidos e maus. E isso é um fato objetivo. Reivindicar um direito de governar usando a ameaça da força é mádade, e cada passo que um Estado deve tomar para preservar o mesmo e manter sua falsa autoridade é permeada de sangue e violência. Eu acredito no mesmo que os que vieram antes de mim, que todo o poder pertence ao povo. Eu acredito que aqueles que ainda se agarram a um Estado vêm de um lugar de privilégio. Para essas pessoas, elas possivelmente poderiam sobreviver ao Estado, talvez até prosperar. Para outros como eu — pessoas queer, pretas, marrons, mulheres de cor — a assimilação é impossível, passar despercebido é contaminado, e estar seguro é irrealista. Para pessoas como eu, que viram nosso povo ser assassinado durante toda a nossa vida, como uma pessoa que foi espancada até quase ser morta na adolescência por cães de ataque do Estado que cumpriu com sua função, como uma pessoa constantemente sequestrada pelo Estado, que esteve em instituições do Estado a vida toda, alguém que viu a situação como ela realmente é e guarda o amor revolucionário no coração, que se enche de raiva e força pra luta contra isso pelo povo — merda, para o povo, as únicas pessoas que importam , substituir um Estado por outros Estados não vamos salvar. Nós lutamos com as pessoas, não com o Estado. Porque nunca será o Estado que nos manterá seguro, e eu acredito que nosso foco não deveria estar em exaltar Estados desalinhados com os EUA, mas sim exaltar os lutadores pela liberdade ao redor do mundo, que estão assumindo ações ousadas e abertas contra seus Estados, como os russos explodindo as ferrovias para evitar uma máquina de guerra. [Nós deveríamos exaltar] eles e [imitá-los] aqui porque para libertar o mundo, os EUA precisam ser colocados na linha. 

Fazer nossa parte em ação radical direta contra os EUA é muito mais eficaz do que criticar ou torcer para o Estado do Irã. Me chame de aceleracionista ou idealista, eu só gosto de ser chamado de anarquista.

Exaltar o comunalismo, um comunismo desprovido de uma estrutura de governo hierárquica central, criaria uma posição melhor que exaltar os Estados. Um anarco-comunista ao menos pode considerar a ilegitimidade da autoridade e a necessidade da ausência de um Estado. Dizer empiricamente que um Estado comunista é melhor do que um Estado capitalista ou fascista é como dizer que um tiro na cabeça é melhor que uma cápsula de cianeto. Se eu só tiver uma escolha entre uma morte lenta ou rápida, acho que essa é uma escolha, mas talvez tenha uma terceira opção. Talvez você possa usar a imaginação para pensar fora da caixa que envolve o problema.

O Comunismo foi atacado pelo imperialismo estadunidense por décadas, sim, e o comunismo também pode fazer mal, por si só. Existem descendentes vivos do Grande Terror (ou Grande Expurgo), e assim como o comunismo teve que lutar para sobreviver, em seu estado centralizado, ele perseguiu e matou muitos. Assim como o capitalismo o fez. Não é que eles sejam os mesmos no âmbito da violência, mas os mesmos não resultam de opressão de muitos por poucos.

O argumento não deveria ser “bom, o comunismo não matou tantas pessoas quanto ao capitalismo.” Esse é o mesmo argumento falacioso usado para explicar porcos matando pretos, dizendo “bom, porcos matam mais pessoas brancas por ano”. O ponto é, porcos matam pessoas, o Estado mata pessoas. Essas entidades buscam o monopólio da violência e tentam legitimá-la como benevolência e em nome do bem maior.

Tenho certeza de que alguns russos desprezam a agressão [da Rússia] e também veem a provocação do Ocidente. Eles não estão do lado do Ocidente, estão do lado do povo. Tenho certeza de que os iranianos desprezam sua teocracia e também a agressão dos EUA, da mesma forma. Duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Não é preciso ser pró-Irã para ser anti-EUA. [Você pode ser] pró-povo em todos os lugares e anti-Estado em todos os lugares.

Você pode questionar os conflitos internacionais consideráveis ​​e tentar dividi-los em dois lados, mas o único lado que importa é o do povo. Os Estados oprimem e coagem através da violência contra o povo. Não importa como você analisa a situação, não importa a bandeira sob a qual você a encobre ou a estrutura hierárquica-econômica-centralizada na qual ela se insere. Seja sob um rei, presidente, parlamento, socialismo, capitalismo ou comunismo — o resultado final para o povo é o mesmo. Os Estados e a violência patrocinada por eles mataram mais pessoas do que quaisquer -ismos sob o que se posicionaram.

Fonte: https://malikspeaks.noblogs.org/post/2026/02/09/on-iran/

Tradução > Núcleo de Traduções Libertárias Ferrer y Guardia (NTLFG)

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neva lá fora
gato à lareira
silencioso na vila

Zezé Pina

Vitória indígena no tapajós!

Por FOB-DF

A luta dos povos avança com ação direta.

Após um mês ocupando a sede da empresa Cargill, em Santarém, no Pará, movimentos indígenas conquistaram uma grande vitória contra o agronegócio na Amazônia: O decreto presidencial 12.600, que privatizava a gestão das hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, foi revogado. Não apenas um marco de resistência, isso serve como inspiração, além de um alerta para os movimentos populares de todo o Brasil. 

Duas coisas aqui foram demonstradas: primeiro, que o governo federal de Lula e Alckmin, mesmo em ano de eleição, não se acanha em atacar abertamente a classe trabalhadora e os povos originários que finge defender. A proposta de privatização de rios inteiros tem o único propósito de atender aos interesses de empresas estrangeiras. Multinacionais bilionárias, que exploram brutalmente a população, extraindo lucros e matérias primas que apenas se acumularam em suas sedes localizadas nas principais potências do mercado mundial (no caso da Cargill, Mineápolis, nos Estados Unidos). Mais do que isso, trata-se de um ataque contra os povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos para os quais esses rios são uma parte fundamental de seu território. 

Segundo, que só a ação direta, popular e organizada é capaz de impedir os ataques do Estado e do Capital. Os movimentos indígenas não hesitaram em conduzir a ocupação, mobilizando apoio externo e inclusive bloqueando estradas como forma de protesto, independentemente da legalidade ou dos ataques da mídia. Sabendo exercer a pressão sobre o governo, entrando em conflito e aproveitando pontos de diálogo, sem se submeter às suas decisões só por se tratar de um governo “de esquerda”, com um ministério dedicado aos povos indígenas. A luta popular segue sendo a única maneira concreta de alcançar vitórias. 

Assim, precisamos cada vez mais seguir o exemplo dos indígenas do Tapajós. No campo e nas cidades, conduz campanhas de ação direta coletiva, para garantir e avançar os direitos do povo. Romper com essa ilusão cínica de que um governo pode representar ao mesmo tempo o latifúndio e os povos originários, a destruição ambiental e a sobrevivência da população. Entre exploradores e explorados não é possível existir convivência fraterna, apenas submissão ou resistência. 

Dia 24/02 nas ruas, estivemos nas ruas em defesa das matas e das águas, daqueles que nelas vivem e trabalham!

Avante a luta indígena!

Avante a luta popular!

lutafob.org

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O sol gerações.
pavio queima por um fio.
Verão que apodrece.

Flora Figueiredo

Com a FACA entre os dentes: 2026 será o ano da virada organizada!

Saudações, companheiros e companheiras! Que 2026 nos encontraremos com as trincheiras abertas e a disposição de luta mais afiada do que nunca. Enquanto o sistema enterra seus mortos e agoniza em mais uma crise, nós, da  Federação Anarquista Capixaba (FACA) , saudamos o novo ano não com a expectativa de reformas ou mudanças vindas de cima, mas com a certeza de que a nossa liberdade será construída pelos nossos punhos, dia após dia. Que este seja o ano de aprofundarmos as raízes da autonomia no chão capixaba, desenvolvendo cada bairro, cada escola, cada local de trabalho em um território livre da exploração patronal e da tutela estatal. A miséria do capital não tira férias, e por isso nossas lutas também não terão descanso!

A história já nos mostrou que um indivíduo se rebela, por mais feroz que seja, não é suficiente para derrubar os pilares da opressão. É por isso que a FACA reafirma seu compromisso inegociável com a organização séria e rigorosa. Não somos um mero agrupamento espontâneo; somos uma organização forjada na luta de classes, estruturada para atacar o sistema em suas múltiplas frentes. Sabemos que, para liquidar o capitalismo e o Estado, é preciso disciplina, tática e visão estratégica. A construção do poder popular não se faz com improvisos, mas com uma teimosia organizada de quem sabe que a vitória exige constância e dedicação total. Contra a fragmentação que o sistema nos impõe, respondemos com a força do coletivo!

Mas a luta não pode se limitar aos nossos quintais. O inimigo é global e organizado em redes de exploração e dominação, portanto, nossa resistência também deve ser internacionalista e coordenada. Por isso, a FACA é filiada à  União Anarquista Federalista (UAF) , construindo uma unidade tática e estratégica com nossos irmãos e irmãs de luta em todo o Brasil. E, através da UAF, nos somamos à  Internacional de Federações Anarquistas (IFA) , tecendo os fios da rebeldia que conectam os continentes. Do movimento operário na Europa às lutas territoriais na América Latina, passando pelas resistências antifascistas em todos os cantos, a IFA é a prova viva de que o anarquismo é uma força global, coordenada e preparada para dar o bote.

Que 2026 seja, portanto, o ano da virada. Um ano em que a cooperação entre as forças anarquistas se converteu em ofensiva direta contra o capital. A FACA segue de pé, com a faca entre os dentes, pronta para sabotar as engrenagens da exploração e construir, desde já, o mundo novo no casco velho da sociedade. Convidamos todos os inconformados e inconformados a abandonar a ilusão da passividade e a se juntarem à luta organizada. A hora é agora, a força é nossa e a vitória será de quem não pede licença para ser livre! Avante que o amanhã não espere! Pela UAF e pela IFA, até a completa destruição deste mundo de misérias!

Federação Anarquista Capixaba – FACA

fedca@riseup.net

@FacaBrasil

federacaocapixaba.noblogs.org

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Oferta Acadêmica
delgada talhada
de melão: a lua.

Luiz Bacellar

[Espanha] Chomsky, o caso Epstein e o mundo em que vivemos

Andamos colocando as mãos na cabeça com a descoberta de que Chomsky, o grande intelectual e não sei se agora ex-referente moral, tinha uma estreita relação com um tipo tão repulsivo quanto Jeffrey Epstein, de quem se diz que era pedófilo, de extrema-direita e muito provavelmente agente do serviço do Estado de Israel, entre outras finezas. Mais adiante, tentarei abordar algo sobre o caso Epstein, sobre o que está divulgando tantas notícias falsas que já se tornaram suspeitas, se não é uma estratégia para esconder os crimes muito reais que implicam pessoas poderosas demais. Mas, vamos a Chomsky, que, ao que parece, após um AVC severo há alguns anos, não pode neste momento defender-se da acusação de encobrimento de crimes mais repulsivos. É preciso dizer que Chomsky, afirmando que eu com intenção nada modesta, passarei para a história especialmente por sua faceta de linguista e sua teoria da gramática gerativa segundo a qual o ser humano possui uma capacidade biológica para a linguagem. Em outras palavras, é possível que tenhamos uma capacidade inata para a fala, o que infelizmente não garante sempre a lucidez e honestidade das palavras. Brincadeiras à parte, em outro espaço tentaremos nos empolgar e investigar o que Chomsky afirmou e suas controvérsias com, por exemplo, Foucault sobre o que se considera ou não natureza humana. Dito isto, vamos às outras facetas de Noam Chomsky, como o analista político e considerado figura da esquerda mais próxima do anarquismo. Podemos considerar Chomsky, simplesmente, um ácrata? Não sou ninguém para dar ou tirar identidades políticas, mas havia certos fatos que me justificavam algo decepcionantes. E é que seus elogios em certos momentos a regimes como os de Cuba ou Venezuela, embora posteriormente se retratassem, levantassem suspeitas para alguém com um mínimo de crítica libertária ao poder e ao evidente fracasso das “revoluções” feitas de cima para baixo. Na verdade, um de seus últimos livros é   Sobre Cuba. 70 anos de Revolução e luta  , que não li, mas cujo título faz pressagiar a tentativa de manter intacto o mito da revolução cubana frente à agressão imperial estadunidense. Deixarei claro, adiantando-me a certas críticas, que me parece um crime o bloqueio infligido à ilha pelo gigante norte-americano, agora agravado pelo repulsivo Trump, da mesma forma que me parece um crime o bloqueio que o regime cubano vem provocando em sua população há décadas.

Tem valor, por certo, a abundante obra de Chomsky denunciando os constantes intervencionismos criminosos dos Estados Unidos em outros países; embora na lúcida opinião de quem subscreve, de forma direta ou indireta, em alguns momentos tenha parecido fazer apologia de certos regimes igualmente criticáveis. O que podemos dizer da contribuição de Chomsky, explicitamente, ao anarquismo? Embora, obviamente, seja de agradecimento que uma figura intelectual reconhecida seja bem das ideias libertárias, devo dizer que também não me impressionou muito o que li dele nesse aspecto. Existe algo que me agradou sobre sua pessoa e foi quando soube que também havia escrito em certos meios   libertários   (não traduzir mal o termo para o espanhol, por favor, daí a confusão atual) de seu país associado, claro, à direita; Chomsky considerava que esses pseudolibertários de direita representavam uma deturpação do pensamento liberal clássico, em sua defesa da liberdade individual, cujos herdeiros autênticos seriam os anarquistas. Com certeza, isso fará com que franzir a testa a muitos libertários, mas eu gosto, o que fazer. Seja como for, há quem tenha certeza de que Chomsky foi um dos pensadores que revitalizou o pensamento libertador nos últimos tempos, embora me pareça dizer demais; ao anarquismo, também não faltam grandes contribuições teóricas, que não me pareceram ser as deste homem, o que o define sempre são suas práticas, para o bem ou para o mal, em ascensão ou declínio conforme as circunstâncias. O problema aqui agora com Chomsky, ao virem à tona prováveis ​​sombras em seu comportamento, é que se quis vincular seu reconhecimento faceta intelectual a uma certa condição moral irrepreensível. Lembremos o que este colunista brilhante escreveu há poucos dias sobre o   culto à personalidade  , que é possível, embora me custe dizer, que se estende às vezes também no campo libertador. Aliás, adentrando já no caso Epstein, o livro referenciado sobre Cuba foi escrito por Chomsky com um tal Vijay Prashad, que neste momento foi um dos que criticaram duramente o linguista, qualificando a sua atitude de imperdoável. Como certas vozes já estão muito bem a assinalar, a decepção agora com Chomsky (lógica, atenção, eu mesmo a sinto em certa medida) é diretamente proporcional a tê-lo considerado algo como um farol libertador nos últimos tempos.

Não sei se Chomsky foi um hipócrita ou, simplesmente, sua permanente relação com pessoas com poder (a quem dizia criticar, embora às vezes de forma bastante maniqueísta) o levou finalmente a perder o norte, a uma espécie de   estado de embriaguez   nesse mundo que o torna incapaz de ver a realidade (isso, aliás, acredito que é habitual no mundo de ricos e poderosos, o que não os desculpa em absoluto). Não sei, e não digo que me seja totalmente indiferente, mas não é para mim o mais grave do assunto. O importante é que no campo libertador, onde deveria existir uma constante reafirmação do pensamento livre e crítico, não se pode erguer monumentos a supostos heróis. Deixemos isso para outros imaginários de cultivo da bajulação e de louvores acríticos à autoridade! Podemos ter, por suposto, referentes morais, e é bom que assim seja, mas com os quais é preciso ser igualmente crítico. Não vamos jogar no lixo as obras e contribuições de Chomsky, mas tratamos sempre de colocar tudo na sua justa medida e compreender que, provavelmente não existe ninguém inatacável, mas que há certa tendência humana à   corrupção   de todo tipo. E o que podemos dizer, a nível geral, do caso Epstein? Se não me engano, são milhões de documentos relacionados e é tanta a desinformação e as notícias falsas a respeito que, como disse anteriormente, podem ser que tudo faça parte de um plano para encobrir o que havia de realidade no tráfico e abuso de menores. Uma trama que implica o atual presidente dos Estados Unidos, o iníquo e grotesco Donald Trump, junto com pessoas de seu círculo, mas também muito poderosa como é o caso do detestável e infame ex-presidente deste inefável Reino da Espanha, José María Aznar. Dir-se-á que nomes demais são esses documentos, sem que tenham que estar relacionados necessariamente com atos criminosos, embora Aznar (e sua família, atenção, incluindo seu gênero inteligente) apliquem em dois envios enigmáticos e também aludidos em várias graças por outras transações. Aliás, outro dos referenciais, e parece que com estas há provas mais sólidas de estar implicado, é Deepak Chopra. Para quem não o conhece, este sem-vergonha que passa por ser uma autoridade moral e um guru da consciência e da cura, sustentando diversas   magias   a respeito que só podem inquietar alguém com o cérebro bem oxigenado. Que tudo isso, se é que leva a algum lugar entre tanto ruído, sirva ao menos para fazer refletir essa parte da humanidade tão, tão ingênua.

Juan Cáspar

Fonte:  https://acracia.org/chomsky-el-caso-epstein-y-el-mundo-en-que-vivimos/

Tradução > Liberto

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em nosso universo
breve, passa, com pressa! e
graça, uma borboleta

Issa

[Itália] As formas do A

Esta história inédita em imagens é tanto uma viagem pela memória — desde quando os primeiros As circulados eram esboçados nos guardanapos de alguma osteria com a ajuda de um copo virado de cabeça para baixo — quanto uma viagem pelo imaginário contemporâneo através das vicissitudes de um símbolo que, em seu meio século de vida, se tornou um sinal internacionalmente conhecido por significar não apenas o anarquismo em sentido estrito, mas também a transgressão em todas as suas formas.

Nascido em 1964, em Paris, nos porões efervescentes de ideias e expectativas, o A circulado dá seus primeiros passos em Milão, em panfletos mimeografados cuja matriz era gravada à mão com alguma hesitação. O Maio de 68 então o faz rolar pelos muros de todo o mundo, onde começa a falar nas muitas línguas da anarquia.

Assim tem início sua vida pública, que levará o símbolo por vezes para longe de suas origens, sem jamais perder totalmente seus rastros e referências. Será especialmente a cultura punk que o levará até onde a força propulsora do anarquismo não conseguiu chegar. E é justamente esse salto do ativismo libertário para o imaginário contracultural que dará início às interpretações mais ousadas e aos usos — e por vezes abusos — mais bizarros.

Trata-se talvez de uma “dessacralização”? Não, afirmam seus pais putativos, Tomás Ibáñez e Amedeo Bertolo, convencidos de que, longe de ter sido concebido como um signo “sagrado”, trata-se, ao contrário, de um signo totalmente profano que, mesmo em suas “distorções”, continua a manter uma poderosa carga de revolta.

E eis então uma sequência de imagens que testemunham a criatividade ilimitada de um signo essencial e ao mesmo tempo eloquente, que atravessou o espaço e o tempo, mas também os tipos antropológicos, as

tendências éticas e estéticas, as expressões artísticas e a paixão libertária.

As imagens foram retiradas do livro fotográfico organizado por Gianluca Chinnici, A-cerchiata. Storia veridica ed esiti imprevisti di un simbolo (elèuthera, 2008), com contribuições de Fulvio Abbate, Pietro Adamo, Adbusters Media Foundation, Android Tattoo, Roberto Freak Antoni, Amedeo Bertolo, Chris Carlsson, Pino Cacucci, Marianne Enckell, Marco Philopat, Goffredo Fofi, Dori Ghezzi, Enrico Ghezzi, Matteo Guarnaccia, Tomás Ibáñez, Luciano Lanza, Maurizio Maggiani, Yoko Miura, Maria Nadotti, Clelia Pallotta, Marco Pandin, Andrea Perin, Ferro Piludu, Fabrizia Ramondino, Paolo Rossi, Marco Rovelli, Giorgio Triani, Luca Villoresi, Wu Ming 1, Salvatore Zingale.

Fonte: https://centrostudilibertari.it/it/forme-a-gallery

Tradução > Liberto

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Borboletas mil
Multiplicando jardins
São flores aladas.

Francisco Ferreira

Cartaz em solidariedade aos anarquistas indonésios

“Enquanto eles pedem paz, nós dizemos: que se foda tudo!”

A luta dos anarquistas indonésios rompe fronteiras e muros de prisão. Que toda revolta vá até o fim. Insurreição em todos os lugares!

Ar, solo e água envenenados. Servidão sem horizonte sob privilégios inalcançáveis. Dignidade hipotecada à humilhação de rações de crise. Essa desculpa miserável de vida, à mercê de qualquer um com riqueza ou cassetete para nos dominar, não dura para sempre. Mais cedo ou mais tarde, as coisas transbordam. O risco de enfrentar a morte nas ruas em chamas não garante resignação a uma vida que não vale o esforço de ser vivida.

Em muitas partes do mundo foi exatamente isso que aconteceu no último ano. Em nenhum lugar mais do que na Indonésia: uma sociedade baseada na extração de petróleo e minerais, cujo “progresso” pelo arquipélago se desenvolveu sobre os cadáveres dos povos indígenas. Nas cidades, a juventude, “excedente” desempregado da economia global, é condenada às favelas, vidas suspensas ao sabor do capricho de assassinos pagos da classe dominante. Ainda assim, como demonstram a resistência camponesa auto-organizada, a guerrilha papuana ocidental e os coquetéis molotov dos rebeldes urbanos, o Estado jamais conseguiu cumprir completamente sua tarefa: exterminar a memória, o espírito e a solidariedade em sua população.

Não é tão surpreendente, então, que em agosto de 2025 a sociedade exploda. Quando o cartel político decide conceder a si mesmo mais um aumento salarial em meio ao sofrimento generalizado, e um veículo blindado que perseguia um protesto em massa esmaga o corpo de um entregador local de motocicleta, o limite é ultrapassado. As ruas se enchem de fúria desenfreada, queimando e destruindo cada vestígio arrogante de um mundo que não cumpriu nenhuma de suas promessas, apenas ampliou um abismo de horrores.

Como voltar ao normal depois disso? No Nepal, em Madagascar, Marrocos, Irã e além, é aí que o impulso por liberdade esbarra em uma cerca de arame farpado. Não é apenas o trabalho ensanguentado da polícia e dos paramilitares, nem somente a língua bifurcada dos reformistas. É, acima de tudo, a falta de qualquer outra ideia do que a vida é e poderia se tornar. Enquanto não existir outro mundo além do de comprar e trabalhar, extrair e descartar, governantes e governados, apenas o fogo não pode derrubar todos os cercamentos do existente.

Alguns dentro da rebelião que envolveu a Indonésia não lutaram nem por reformas nem por mudança de regime naquele arquipélago saqueado. No lugar dessas desesperanças sem sonho, muitos continuaram, e outros descobriram, uma aventura inteiramente diferente: recuperar a vitalidade pessoal, empreender uma conquista insurgente da terra e da vida. No momento em que a confiança auto-organizada de uma insurreição e sua destruição jubilosa se perdem na hesitação, é aí que se planta a semente envenenada da qual sempre volta a crescer o reinado de novos tiranos e açougueiros. Não há nada a preservar nas relações sociais apodrecidas ao nosso redor: as máscaras, as mentiras, os mitos e narcóticos do Estado. Contra demandas frouxas e o duplo discurso dos políticos, ecoou uma conclusão direta: “Que se foda tudo!”

Hoje, juízes, torturadores, jornalistas e políticos enchem as masmorras indonésias com aqueles que acusam de despertar sua própria consciência, e a dos que os cercam, para essa visão de luta. Embora a paixão pela liberdade de alguns anarquistas na Indonésia seja visível há décadas, os que estão no poder se enganam sobre onde reside o perigo. Lá, como em qualquer lugar, o perigo é que sua ganância por riqueza e controle inevitavelmente semeia um desejo de vingança no coração das pessoas saqueadas. E se o fogo da raiva tocar o combustível da imaginação libertada, que não pode ser confinada e agora transborda de trás das grades para a atmosfera social, então, simplesmente, esses estimados líderes e toda a sua sociedade estarão arruinados.

Se sentimos solidariedade apaixonada com a rebelião, e especialmente com seus protagonistas mais ardentes, não é o sofrimento deste planeta concreto, com seus habitantes plastificados, que nos move, mas a luta vital para romper com ele sem olhar para trás.

inimigos jurados de todo Estado (A)

A LUTA DOS ANARQUISTAS INDONÉSIOS ROMPE FRONTEIRAS E MUROS DE PRISÃO

QUE TODA REVOLTA VÁ ATÉ O FIM.

INSURREIÇÃO EM TODOS OS LUGARES!

Fonte: https://actforfree.noblogs.org/2026/02/05/while-they-call-for-peace-we-call-for-fuck-everything-poster-in-solidarity-with-the-indonesian-anarchists-london-uk/

Tradução > Contrafatual

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livros cheios de palavras
estantes cheias de livros
colhi este instante

João Angelo Salvadori

[Holanda] Feira do Livro Queer Direct Action (Ação Direta Queer) 2025

_Feira do Livro Ação Direta Queer_

_14 de março de 2026_

_De Grote Broek (Tweede Walstraat 19)_

_Nijmegen, Países Baixos_

Ou QDAB, para abreviar, é uma plataforma feminista anarco-queer para compartilhar as ferramentas e visões que impulsionam nossa ação transformadora de base. Ela nos une para a organização prática, o compartilhamento de saberes e a construção de conexões entre coletivos.

Nos reunimos em um momento de ascensão do fascismo, aprofundamento da crise na saúde e na habitação, censura nas redes sociais, feminicídio contínuo e muito mais… realidades que tornam nossa solidariedade e colaboração urgentes. Por isso, damos as boas-vindas a todes es queers, aliades e grupos que estão aderindo à resistência.

Traga suas táticas, sua experiência e o trabalho em que já está envolvide. Estamos convidando grupos para destacar esforços, compartilhar desafios e fortalecer nosso movimento interseccional para nos levar adiante juntos.

Coletivos: Junte-se a nós ensinando sua prática, montando um estande e discutindo ações futuras. Voluntáries: Precisamos de pessoas para ajudar a preparar e apoiar o evento.

Envie um e-mail para qdab@riseup.net para participar.

Informações sobre o local:

De Klinker

O Politiek café de Klinker é o ponto de encontro de Grote Broek. É um restaurante orgânico e vegano (vegetariano), onde podem ser realizadas reuniões, noites informativas e exibições de filmes, e que também abriga uma biblioteca anarquista.

O De Klinker é gerido inteiramente por voluntários e é uma organização sem fins lucrativos. Quaisquer lucros são utilizados para apoiar causas e projetos dignos em todo o país.

Durante a semana, o De Klinker está disponível para reuniões, noites informativas e exibições de filmes.

Tradução > Lagarto Azul / acervo trans-anarquista

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Dia de chuva.
João-de-barro constrói ninho
No alto do poste.

Ângela Iachechen

[Porto Alegre-RS] 27/02 – Inauguração do Nosso Novo Espaço

Sexta-feira, 27 de fevereiro | a partir das 19h.

Em 2022, no bairro Bom Fim, nasceu nosso coletivo com o desejo de construir rede. Rede de trocas, de apoio mútuo, de fortalecimento da cena anarquista, principalmente entre dissidências e mulheres, mas também com companheiros cis dispostos a caminhar lado a lado na construção de novos mundos. Desde o início, sonhamos com um espaço que fosse ponte: para oficinas, debates, exibições de filmes, feiras, encontros, conversas potentes e articulações. Um lugar onde cultura, política e ação social não fossem separadas, porque não são.

No antigo endereço, construímos muito:

• loja grátis e fluxo constante de trocas anticapitalistas

• arrecadações e apoio durante a enchente

• ações de solidariedade no inverno

• festas, conexões e parcerias com outros coletivos

• encontros que conectaram muitos mundos

Agora, em 2026, estamos vivendo algo gigante: inauguramos nosso espaço físico próprio, construído em mutirão, com as mãos, o tempo e o afeto de quem acredita na coletividade como prática diária.

Nosso agradecimento profundo a cada pessoa que somou nos mutirões, limpando, pintando, carregando peso, organizando, doando materiais, divulgando, cozinhando, segurando as pontas e acreditando junto. Esse espaço é fruto direto da força coletiva. Ele existe porque vocês estiveram presentes.

E ainda queremos expandir:

• biblioteca comunitária

• sala multiuso para cursos e oficinas

• espaço de serigrafia

• salão para exibições, exposições e atividades diversas

Seguimos em construção.

Por isso, te convidamos para celebrar com a gente nessa sexta, a partir das 19h.

Pra lembrar o que já vivemos.

Pra sonhar fazendo o futuro no presente.

Pra fortalecer vínculos.

Pra se divertir, porque ser feliz também é revolucionário.

Vem somar. Vem construir com a gente. Bebidas não alcoólicas são bem vindas, traga as suas.

Nossa nova sede fica na Rua Barros Cassal, 316. Porto Alegre, RS.

agência de notícias anarquistas-ana

Morcego em surdina
morde e sopra o velho gato.
Não contava o pulo…

Anibal Beça

[Argentina] Morreu a companheira Susana “Susy” Del Mastro

Com profundo pesar nos despedimos da companheira Susana “Susy” Del Mastro, militante anarquista, construtora e lutadora incansável da liberdade em igualdade, que faleceu à noite (17/02).

Susy foi parte viva desta casa durante décadas. Desde muito jovem se vinculou à Biblioteca, herdando a tradição de luta de sua família e de seu tio, o companheiro Esteban Del Mastro, que também dedicou sua vida ao anarquismo e à defesa dos espaços de organização obreira e popular. Em tempos de perseguição, clausuras e silêncios impostos, sua presença manteve a continuidade de um projeto coletivo que nasceu em 1935 pela mão de trabalhadores e militantes que entenderam a cultura como uma ferramenta de emancipação.

Em nossa Biblioteca, Susy participou ativamente de inumeráveis iniciativas culturais e políticas. Foi a primeira secretária da instituição, impulsionou atividades, organizou encontros, acompanhou gerações de companheiras e companheiros e fez parte da memória viva do anarquismo em Buenos Aires. Seu compromisso não se limitou à gestão cotidiana: também foi protagonista em incontáveis lutas, sempre desde a convicção de que a organização e a solidariedade são o caminho.

Nos anos noventa, continuou sua militância integrando Mujeres Libres, aportando um olhar crítico e transformador sobre o lugar das mulheres em nossas lutas, recordando-nos que a emancipação deve ser também contra todas as formas de opressão.

Susy foi, sobretudo, uma companheira. Dessas que mantêm o fogo quando tudo parece apagar-se. Das que fazem da Biblioteca um refúgio, um lugar de encontro, uma oficina de ideias, uma trincheira de luta e um espaço de solidariedade.

Sua vida é parte da história desta instituição e do anarquismo argentino. Seu exemplo seguirá presente em cada livro emprestado, em cada palestra, em cada atividade e em cada gesto de rebeldia cotidiana. A melhor forma de recordá-la será seguir apostando na luta, organizar-nos, não resignar-nos e nunca baixar os braços. Esse é seu legado mais profundo. Seguirá acompanhando cada luta do povo trabalhador.

Acompanhamos com carinho e respeito a sua família, amizades e a todas as pessoas que compartilharam com ela o caminho da luta e a construção coletiva.

Companheira Susy Del Mastro,

Presente!

Agora e sempre.

Biblioteca Popular José Ingenieros

Tradução > Sol de Abril

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Os meus sentimentos
como origami no arame
sempre em movimento

Urhacy Faustino

[Reino Unido] A revista Freedom chama por textos sobre a questão do Anarquismo Preto

Convidamos ao envio de ensaios e reflexões, relatórios de ações e campanhas, relatos pessoais e outros textos de não ficção

Um combatente preto na Brigada Internacional CNT-FAI é uma das imagens marcantes para o movimento anarquista do século XX. Não sabemos o nome, de onde era ou o que o levou a lutar contra fascistas na Espanha, mas sabemos que ele existiu e era preto. Essa tem sido a história dos anarquistas pretos em todo o mundo, desconhecidos, anônimos, mas sempre dispostos a lutar por justiça e liberdade internacionais. O anarquismo, que começou como uma tradição europeia do século XIX, lentamente, e em modo de rizoma, espalhou a sua filosofia e prática por todo o mundo, e não foi diferente para o mundo das pessoas de ascendência africana.

Da Liga de Conscientização e do Grupo Anarquista Sudanês na África, até Martin Sostre e Kuwasi Balagoon no ventre das prisões imperiais dos EUA, estivemos aqui e atuamos, propondo teorias e agindo de acordo com elas. Crescemos em número, na última década, devido aos problemas únicos que o mundo enfrentou e ao fracasso da esquerda Estatal.

A Freedom vai dedicar a edição de Primavera de 2026 para celebrar os anarquistas pretos, destacar as nossas preocupações e ver o que o movimento do século XXI tem a acrescentar ao discurso que circula pelo mundo. Ao soldado desconhecido e a todos os anarquistas pretos que partiram, agradecemos. A luta continua.

Convidamos ao envio de ensaios e reflexões, relatos de ações e campanhas, relatos pessoais e outros textos de não ficção. Alguns dos possíveis temas:

– Relatos da organização recente do anarquismo preto (Reino Unido ou internacional)

– Histórias do anarquismo preto no Reino Unido

– Anarquismo preto e: luta de classes, ecologia, internacionalismo, LBGTQ+, precariedade etc. (Reino Unido ou internacional)

– Resenhas de ficção ou não ficção anarquista preta do Reino Unido.

Por favor, enviar artigos de entre cerca de 800 ou 1.600 palavras para editor@freedompress.org.uk

Prazo: 22 de março de 2026

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2026/02/18/freedom-seeks-contributions-to-black-anarchism-issue/

Tradução > CF Puig

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areia quente
pés descalços
corrida para o mar

Carlos Seabra

[Espanha] Milei contra a classe trabalhadora.

Na Argentina, a classe trabalhadora enfrenta há vários dias a decisão do Senado de aprovar o projeto de reforma trabalhista apresentado pelo presidente da nação, Javier Milei. Com 42 votos a favor (esta câmara tem 72 senadores, 3 por cada província), a reforma representará um retrocesso nos direitos trabalhistas e nas conquistas sociais fundamentais. De fato, a votação da última quinta-feira, 12 de fevereiro, ocorreu com numerosas manifestações nas ruas, que foram duramente reprimidas pelas forças de segurança do Estado argentino.

Se entrar em vigor, a lei concederá um poder quase total aos empresários: jornadas de trabalho de até 12 horas com a criação de um “banco de horas” à disposição da empresa, substituição das contribuições à Previdência Social por um “fundo de assistência laboral”, o que facilitará a demissão sem indenização, e a possibilidade de o empregador pagar parte do salário “em espécie”. A reforma também ataca a organização dos trabalhadores e das trabalhadoras, limitando o direito de greve e a ação sindical. Os acordos coletivos terão menos força do que a negociação individual, os sindicatos não poderão convocar nem realizar assembleias sem autorização do empregador, e as férias poderão ser fracionadas.

O presidente argentino defendeu sua reforma em nome da “flexibilização do mercado de trabalho, da redução dos custos de contratação e da criação de empregos”. No entanto, suas medidas não apenas beneficiarão os setores mais ricos da sociedade argentina, como também atingirão duramente a grande maioria da população, já bastante castigada por outras políticas neoliberais que o governo Milei implementou desde que chegou ao poder.

Enquanto isso, o mundo e grande parte da cidadania argentina começam a entender em que consiste realmente a deriva “liberticida”, e não “libertária”, de Milei. Sua política tem se mostrado a mesma política reacionária e ultraliberal de sempre, focada em produzir desigualdades e eliminar conquistas sociais e direitos trabalhistas. A única classe que sairá beneficiada será a que vive do sofrimento de milhares de pessoas, condenadas desde o nascimento a uma vida precária e miserável.

As principais centrais sindicais da Argentina, muito burocratizadas, rejeitaram a reforma de Milei, mas, apesar da convocação de greve, continuam depositando esperanças na negociação com as instituições estatais. O mesmo não ocorre com os sindicatos e organizações sociais anarcossindicalistas e ácratas. Estes já anunciaram que a única maneira de reverter essa aberração na sociedade argentina é a organização horizontal do povo e a ação direta. O tempo e as circunstâncias voltam a dar razão ao movimento libertário internacional: nenhuma conquista, nenhum direito é concedido pela bondade daqueles que concentram o poder político e econômico. Os avanços, as liberdades sociais, os direitos trabalhistas e políticos foram conquistados pela força. Essa força da qual a classe trabalhadora ainda parece não ter consciência.

Secretariado Permanente do Comitê Confederal da CGT

Fonte: https://cgt.es/milei-contra-la-clase-trabajadora/

Tradução > Liberto

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Por aqui passou
uma traça esfomeada:
livro de receitas.

Francisco Handa

[EUA] Declaração de aniversário de Oso Blanco

O aniversário do Oso Blanco é no dia 26 de fevereiro. Envie-lhe uma mensagem e leia a sua declaração de aniversário abaixo.

Byron Chubbuck #07909051

USP Atwater

Caixa Postal 019001

Atwater, CA 95301 – EUA

Irmãos e irmãs e todos os que lutam:

Estou prestes a completar 59 anos e este será meu 26º aniversário cumprindo pena nesta prisão federal. Os aniversários e feriados costumam ser muito vazios e frios, porque você obviamente está longe de sua família. Mas quando as pessoas se aproximam, quando irmãos e irmãs na luta se aproximam e escrevem para um prisioneiro político no seu aniversário, isso é extremamente poderoso. Mas quando você compartilha algo que parece ter sido escrito de acordo com um formato, ou como se tivesse sido escrito por um robô, isso é desanimador. Porque muitas vezes recebo mensagens de aniversário de pessoas que parecem não ter sinceridade. Sou um ser humano e gosto que as pessoas expressem amor humano com sinceridade. Quando escrevem, devem escrever algo que venha do coração, porque percebi a diferença e não sinto qualquer interação humana, uma vez que não expressaram emoções humanas reais. Muitas vezes é sempre a mesma coisa, as mesmas palavras, repetidas vezes, durante anos.

Se você está entrando em contato comigo no meu aniversário, deve expressar seus pensamentos verdadeiros. Não siga um formato, um conjunto de palavras que alguém disse para dizer. Quero que expressem seus corações verdadeiros, porque me dediquei à luta, à luta dos nativos americanos, à luta zapatista — e quero que expressem seus verdadeiros eus, seus corações verdadeiros, suas emoções verdadeiras.

Estou longe da minha família, e a carta chegará um mês depois de fevereiro, porque a polícia não me deixa receber correspondências e a retém por pelo menos esse tempo. As pessoas devem se manifestar de forma mais sincera, mais sincera, porque você está falando com alguém que está sofrendo por perder os aniversários com a família, com os amigos, com a comunidade.Você está falando com uma pessoa que está restaurada e exilada da sociedade e de todas as relações humanas.

Quando você entra em contato com um prisioneiro político e é o aniversário dele, isso é realmente significativo. Às vezes, ainda recebo cartões de aniversário dos meus amigos das ruas de Albuquerque, mas o fentanil matou 100 pessoas que eu conhecia no Novo México, e esse é um número real. E isso quase acabou com os cartões de aniversário que eu recebia das pessoas que conheciam nas ruas. Meus pais são muito velhos. Receba alguns parabéns de aniversário da família da minha irmã Cherokee em Oklahoma, na reserva de Tahlequah. Quando você entra em contato com um prisioneiro político, não é como um robô. Assim é como um ser humano real, com emoções reais e amor real. Porque eu percebi a diferença com o passar do tempo. E eu arriscaria dizer que a sociedade está realmente prejudicando a conexão entre as emoções humanas e coisas tão importantes como parabéns de aniversário.

Quando alguém entra em contato com você no seu aniversário, algo tão profundo e significativo quando você está na prisão cumprindo uma pena de muitos anos por suas ações políticas, isso é muito poderoso. Portanto, vamos manter a conexão humana com os presos políticos, porque eles estão aqui por você. Eles estão aqui para pessoas que querem um mundo melhor. Eles estão aqui para pessoas que sabem que precisam curar a Terra. E aqui pela luta para elevar o amor. Porque sem amor não haverá mudança, não haverá um mundo melhor, não haverá revolução — não sem amor.

Se eu tivesse um desejo de aniversário, desejaria que as pessoas se levantassem e realmente fizessem algo para acabar com a opressão. O que realmente se organizou. Que realmente acabaram com a opressão, a repressão e os abusos do Estado. Esse é o meu desejo de aniversário.

Amo todos vocês e agradeço muito. A todos que pegam uma caneta ou digitam uma carta, amo muito vocês. Eu nunca teria sobrevivido a esses 26 anos sozinho. Eu nunca teria sobrevivido a esses anos sem pessoas como Leonard Peltier, Tom Manning e Dr. Mutulu Shakur, com quem cruzei o caminho — e não sem pequenas coisas. Não sem pequenas coisas que significam muito — como aniversários.

Mais em https://www. freesosoblanco.org

Tradução > Reno Moedor

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agência de notícias anarquistas-ana

mostro sem disfarce
o tempo, a vida e o vento
marcando minha face

Cristina Saba

O Câncer Dourado

O capital não é ciclo, é câncer. É a célula
que devora o corpo todo em nome do crescimento.
Sua liturgia é o preço, seu templo é o mercado,
seus santos são os barões com sangue escorrendo
pelas fendas dos dedos que contam o planeta.
Transformam rios em números, florestas em saldo,
afeto em serviço, o sonho em dívida perpétua.
O trabalhador é madeira para sua fornalha abstrata,
queimado para mover engrenagens que só cunham correntes.
Mas escutem: o rangido da máquina é sua tosse.
O colapso vem no ritmo do lucro insaciável.
Nossa greve é o anticorpo, o boicote é a faca,
a assembleia direta é o novo organismo, vivo,
que cresce nas ruínas podres do seu espetáculo vazio.

Liberto Herrera.

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Bolha de sabão.
Bolha cheia de ilusão
O vento de mim levou.

Setsuko Geni Oyakawa

[Santos-SP] Chamado Para O Festival Cultive Resistência 2026!

O Festival Cultive Resistência é um encontro multicultural, libertário, que ocorre na Semente Negra, um espaço político cultural situado em meio a mata atlântica, em Peruíbe/SP. O evento acontece todo ano no feriado da páscoa, com 3 dias de diálogos, palestras, oficinas, debates, shows, distribuidoras, momentos de compartilhamento, aprendizado, ensinamentos, reflexão e ação.

No documentário “Festival Cultive Resistência 2025, feito por Juliano Angelin e Eri Vive (Peruíbe, 2025, Duração: 31 minutos), foi registrado o evento do ano passado, unindo diversas experiências e ideias de resistência e liberdade que estão em todas as partes deste planeta. Punks, anarquistas, feministas, indígenas, moradoras de espaços ocupados, pessoas que compartilham experiências de lutas inspiradoras, sugerem outro modo de estar e agir neste mundo.

No dia 1° de março de 2026, domingo, a partir das 17 horas, vamos exibir esse documentário na Cinemateca de Santos, na rua Min. Xavier de Toledo, número 42, no Campo Grande. O evento seguirá com um debate com os organizadores do evento e do Espaço Cultural Semente Negra, de Peruíbe.

DATA: 27 de outubro de 2024 (Domingo), às 17 horas;

LOCAL: Cinemateca de Santos

ENDEREÇO: Rua Min. Xavier de Toledo, número 42 – Campo Grande – Santos/SP

ENTRADA GRATUITA!!!

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Branco instante
entre verde e azul:
garça ou pensamento.

Yeda Prates Bernis

[Grécia] Sobre a alteração da lei e a reclassificação da “posse ilegal de armas” como crime grave

Comunicado do Coletivo pelo Anarquismo Social – Preto e Vermelho, membro da Organização Política Anarquista – Federação de Coletivos, sobre a alteração da lei e, especificamente, a reclassificação da “posse ilegal de armas” como crime grave.

A nova emenda sobre a posse de armas de fogo por pessoas e a imposição de penas severas, apresentada pelo governo e aceita com o apoio irrestrito do establishment político, constitui mais um passo na escalada da repressão que o movimento anarquista enfrenta. É uma ferramenta de manipulação, criminalização e extermínio de qualquer voz que ouse questionar a classe dominante, as políticas autoritárias e o sistema perverso que nos oprime diariamente.

Esta emenda não se limita à simples posse de armas, mas visa diretamente criminalizar combatentes e movimentos que resistem ao regime totalitário. Através da ambiguidade e do conceito extremamente amplo de “posse de arma perigosa”, busca-se criminalizar o próprio ato de resistência e autodefesa. Contudo, o elemento mais grave e perigoso desta emenda é a introdução do conceito de posse de arma diferenciada. Com essa brecha na lei, qualquer objeto, mesmo que não seja uma arma no sentido clássico, pode ser considerado uma “arma diferenciada” e acarretar penas mais severas, no contexto de uma manifestação pública. Uma bandeira ou qualquer objeto usado para fins defensivos em uma mobilização antifascista ou de qualquer outra natureza pode ser caracterizado como “arma” pela polícia, resultando em crime. Essa “brecha” legislativa abre espaço para a perseguição e criminalização do movimento e de qualquer manifestante que ouse se defender da violência das forças repressivas.

A acusação de porte ilegal de arma de fogo nada mais é do que uma ferramenta para o extermínio de combatentes. Ela é usada para aterrorizar aqueles que continuam lutando mesmo sob as condições atuais, contra àqueles que não se submetem à opressão e à subjugação. Em essência, essa emenda busca esmagar qualquer um que resista, tornando qualquer forma de resistência defensiva, mesmo a mais pacífica, um crime contra o Estado e o poder.

Não permitiremos que nenhum governo nos imponha as correntes do poder por meio de leis tão ardilosas! O combatente que é forçado a se defender e a defender seus camaradas contra a agressão furiosa do Estado e da polícia não é um criminoso, mas luta pelo direito à vida e à liberdade. Já testemunhamos muitas vezes as ações assassinas da polícia nas ruas, seja figurativa ou literalmente. Todos os meios de autoproteção contra essa escória são necessários e indispensáveis; não há a menor confiança nesses misantropos. O combatente que protege o povo que se manifesta nas ruas está, na verdade, protegendo-o do verdadeiro inimigo perigoso: a polícia e os fascistas que, de mãos dadas, aguardam o momento de um movimento covarde para confrontar o mundo da luta. Correr o risco de ser preso por portar a bandeira ou usá-la para se proteger da violência estatal é um evento absolutamente inédito e um abuso brutal de poder por parte do Estado.

A persistente tentativa de suprimir o movimento revolucionário e o ideal anarquista não nos deterá. Esta emenda nada mais é do que mais um exemplo típico da ditadura moderna da burguesia, que busca suprimir a consciência da sociedade, desmantelar qualquer tentativa de derrubar o sistema capitalista e proteger seu poder.

Por outro lado, a resistência é nosso dever. Como anarquistas, não ficaremos de braços cruzados, não renunciaremos às nossas liberdades. Cada nova lei de repressão é um novo campo de batalha. Não nos esqueçamos de que as guerras são vencidas por aqueles que não têm medo de resistir, que não recuam diante da opressão e não capitulam perante os poderes autoritários. Nosso caminho é inabalável e sem volta.

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A orquídea –
a cada instante
o silêncio é outro.

Constantin Abaluta