
Este ano decidimos como tema GENTRIFICAÇÃO e NECROPOLÍTICA, algo que está acontecendo muito nesse território.
O que é GENTRIFICAÇÃO? É o processo de expulsão por diversos meios, da população trabalhadora da região, e aos poucos, vai sendo tomada pelos mais ricos. Com a retirada de pessoas mais pobres, o bairro fica mais atrativo para as empresas, com rendimentos maiores. Há a demolição das casas das antigas moradoras para dar lugar a torres de apartamentos e comércios elitizados. Também há a pressão dos mercados imobiliários, no aumento dos aluguéis e para que as pessoas vendam suas casas.
Estamos vivendo desalojos de territórios de luta e ancestrais, dando lugar ao concreto cinza que só serve aos poderosos. Bairros sendo invadidos por condomínios de luxo como Alphaville na Restinga, ou mesmo a destruição de florestas para dar lugar a negócios como a Floresta do Sabará sendo destruída pela companhia Zaffari. Também a gentrificação se fez e ainda se faz presente tanto nas diversas ameaças e expulsões forçadas do Quilombo Kédi pela companhia Zaffari, quanto do Quilombo Areal da Baronesa e a Ilhota da década de 60. Da Vila Tronco, com as magníficas “obras da Copa” revelando as redes de esgoto, à Vila Dique, cujos moradores caminham 10 km até o posto de saúde mais próximo. Nas últimas décadas, a cidade tem visto a expansão de grandes empreendimentos imobiliários com grande número de casas ou diversas torres, como o Terra Nova Nature. Em outubro de 2015, a Câmara de Vereadores de Porto Alegre aprovou uma alteração no Plano Diretor, para autorizar a construção de condomínios de luxo, mais de duas mil casas e um polo comercial em uma área de 426 hectares que faz parte da Fazenda do Arado, propriedade localizada entre os bairros Belém Novo e Lami. Nesse território está a Retomada da Ponta do Arado, da etnia Mbyá Guarani, que vem lutando para a demarcação de seu território ancestral. Em 2025 o museu Joaquim José Felizardo e a prefeitura de Porto Alegre desalojaram a Kasa Okupa ContraKultural Jiboia, um espaço Contra-cultural Anarquista para dar lugar a um suposto anexo que sabemos muito bem que será mais um espaço de comércio e de food-trucks para os visitantes do museu. Também em 2025 a prefeitura derrubou galpões na Vila dos Papeleiros e no bairro São Geraldo, com grande truculência, na região do 4 distrito, que foi “revitalizada” para atender às altas demandas de lucro em bares e casas de festas. Todas essas obras de “revitalização” que não é nada mais nada menos que capitali$mo.
Espaços PÚBLICOS que faziam parte da vida da população estão se tornando espaços PRIVADOS, como mesmo o próprio Cais Mauá e também a Usina do Gasômetro. A privatização da companhia elétrica – CEEE Equatorial, e também a tramitação de um projeto para privatizar inclusive o LIXO de Porto Alegre, excluindo as pessoas que são principais responsáveis por fazer a reciclagem e contribuem diretamente com o meio-ambiente, como as pessoas catadoras, que sobrevivem diretamente desse trabalho. Já se está falando de privatizar também o DMAE, que é público e que lida com a distribuição, reabastecimento e tratamento de água e esgoto da cidade.
O que é NECROPOLÍTICA? Necropolítica é um conceito cunhado pelo filósofo Achille Mbembe que faz referência ao uso do poder social e político para decretar como algumas pessoas podem viver e como outras devem morrer; ou seja, na distribuição desigual da oportunidade de viver e morrer no sistema capitalista atual. A necropolítica é mais do que o direito de matar, é também sujeitar pessoas à morte por diversas formas, como a escravidão, o apartheid, a colonização da Palestina, e à preconceitos que levam à morte, como a homolesbotransfobia, xenofobia, racismo, machismo, capacitismo, etc. Nesse contexto de gentrificação desse território, todas essas políticas e práticas que estamos discutindo se relacionam à Necropolítica, uma política de extermínio e morte estimulada pelos “avanços capitalistas”.
Se faz importante e necessário esse debate e a construção de práticas e estratégias para o combate. Nós nos organizamos com base no ANARCOFEMINISMO, a partir da horizontalidade, da autogestão, do apoio-mútuo, da autonomia para construir um espaço onde possamos re-pensar nossos modos de ser e estar no mundo e a como RESISTIR aos enfrentamentos com o poder. Rechaçamos veementemente a forma como a cidade vem se desenvolvendo, este território cada vez menos popular, menos dos quilombos e dos povos originários, menos das matas e florestas, menos de outres animais que aqui habitam, menos da ocupação das ruas, menos das mulheres e população LGBTQIAP+, menos dos movimentos artísticos =contra= culturais, e mais das empresas, mais dos poderosos, mais de quem já detém muitos privilégios, mais da urbanização, mais do empilhamento de pessoas, mais do concreto cinza e sufocante.
Ocupamos as ruas desde sempre com nossa arte e luta, e temos sido reprimides e sufocades, nos restringindo cada vez mais ao âmbito privado, particular, PAGO. A quem serve esse suposto desenvolvimento? A quem serve esse tipo de cidade? Isso sem falar da grande enchente que passamos em 2024 e que até agora a política da cidade continua sendo a de DEVASTAR AINDA MAIS o ecossistema que já está em colapso.
Chamamos à essa Feira Anarquista Feminista a denunciar e ativar novas estratégias de RETOMADA e RE-OCUPAÇÃO DA CIDADE, para o combate ao sistema que quer nos destruir. Chamamos à articulação de ideias, propostas, movimentos, coletividades, artes e manifestações a construir y desconstruir esse território. Nos unirmos entre mulheres e dissidências a partir das nossas lutas e ativar nossas vidas. ESSE TERRITÓRIO TAMBÉM É NOSSO!
Blog: feiraanarquistafeminista.noblogs.org
Instagram: @fafpoa
Contato: fafpoa@riseup.net
agência de notícias anarquistas-ana
Sem pátria, sem hino,
o chão que pisamos é
o único altar.
Liberto Herrera
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!