Ataque à Venezuela: um olhar horizontal e antimilitarista

Por Rafael Uzcátegui

Caracas acordou antes do tempo no dia 3 de janeiro. O som de aeronaves militares e as detonações dispersas quebraram a rotina noturna da cidade. Horas depois, a notícia da detenção de Nicolás Maduro e Cilia Flores por forças estadunidenses confirmaria que não se tratava de um episódio isolado, mas sim de uma virada histórica com consequências que transbordam as fronteiras venezuelanas.

O ocorrido na Venezuela durante aquela madrugada não pode ser lido unicamente como uma operação militar nem como uma mudança de liderança. Foi, antes de tudo, a constatação de um fracasso acumulado: quando as vias políticas se fecham durante anos e a comunidade internacional — incluindo os movimentos sociais — não exige uma resolução pacífica do conflito, a violência acaba ocupando o seu lugar.

Antes de começar o desenvolvimento da nossa argumentação, queremos deixar claramente expressa a nossa rejeição taxativa à intervenção armada dos Estados Unidos na Venezuela. O uso da “diplomacia da força”, armada e econômica, gerou um precedente preocupante para toda a América Latina, um continente que acreditava ter superado a época da Doutrina Monroe e o intervencionismo. No entanto, não estaríamos diante de uma “Invasão do Panamá” segunda parte, mas sim de algo mais turvo: uma detenção negociada, por parte de um governo autoritário, para se manter no poder. Numa perspectiva pacifista, o limite não é apenas político, mas também jurídico: a proteção da população civil. Nenhuma ação armada — por mais seletiva que se proclame — pode introduzir o medo e a violência na vida cotidiana de milhões de pessoas sem corroer, desde a sua origem, qualquer promessa de normalização ou estabilidade.

Geralmente, os conflitos desta natureza são compreendidos mediante um olhar vertical: o que fizeram ou o que disseram os principais atores políticos em disputa. Nós, por outro lado, propomos um olhar horizontal: entendê-los a partir das aspirações, demandas e desejos das pessoas que os sofrem.

O 3 começa no 28

A história do 3 de janeiro de 2026 começa em 28 de julho de 2024. Nesse dia, as autoridades venezuelanas ignoraram a vontade popular ao declarar fraudulentamente Nicolás Maduro como vencedor das eleições. Embora tenham se negado a dar os resultados detalhados até hoje — algo que era tradicional nos pleitos do país —, apesar de todos os obstáculos e da exclusão dos eleitores no exterior, teria participado 60% do eleitorado, com 7.443.584 votos para Edmundo González e 3.385.155 votos para Nicolás Maduro. A estratégia da oposição para demonstrar sua vitória — liderando um fenômeno político de fervor popular que lembrava a primeira candidatura de Hugo Chávez — foi acumular as atas de votação que cada mesa eleitoral entregava como comprovante dos votos emitidos.

O chavismo, como haviam divulgado alguns de seus porta-vozes, contava com um “piso eleitoral” de cinco milhões e meio de sufrágios, o que significa que cerca de dois milhões de pessoas que haviam votado anteriormente no oficialismo optaram por uma mudança. Enquanto María Corina Machado, como líder da oposição, tentava que a pressão da comunidade internacional obrigasse a reconhecer o verdadeiro resultado, os setores empobrecidos do país protagonizaram uma rebelião popular nos dias 29 e 30 de julho, na qual destruíram símbolos do autoritarismo e atacaram sedes policiais e de governos locais. Nesses dias, foram derrubadas e vandalizadas nove estátuas de Hugo Chávez, o que demonstrava a ruptura política e emocional dos bairros com o imaginário bolivariano. A resposta do governo foi feroz. O próprio Nicolás Maduro ordenou, pela televisão, a detenção de duas mil pessoas, inaugurando uma etapa que foi qualificada pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) como de “terrorismo de Estado”.

Nesse momento, diferentes organizações sociais do país enviaram mensagens, por diferentes canais, aos governos do Brasil e da Colômbia. Acreditava-se que a pressão dos governos progressistas, especialmente o de Lula da Silva, geraria uma saída institucional e pacífica para a crise. Também foram feitos muitos esforços para sensibilizar os movimentos sociais sobre as aspirações democráticas do povo venezuelano. Com exceções, a resposta majoritária foi o silêncio.

A fraude eleitoral e a repressão posterior geraram uma nova onda migratória, que incorporou a saída de diversos ativistas políticos e sociais venezuelanos. Diferentes pesquisas estimaram que, nessa data, cerca de 90 defensores de direitos humanos, jornalistas, sindicalistas e membros de movimentos de base haviam se incorporado ao exílio.

Para julho de 2025, um ano após as eleições, as denúncias de fraude haviam desaparecido das manchetes internacionais. O próprio Lula havia declarado que “Maduro era um problema dos venezuelanos”. A nova estratégia de Machado foi convencer os Estados Unidos de que deveriam tomar ações diante de um governo que permitia que 20% da produção mundial de cocaína transitasse por seu território. A recompensa por informações sobre Nicolás Maduro foi aumentada para 50 milhões, o chamado “Cartel dos Sóis” — uma estrutura criminosa para o tráfico de drogas da qual participariam altos funcionários venezuelanos — foi designado como organização terrorista e, no início de setembro, foram destacados diversos navios de guerra norte-americanos no mar do Caribe.

No entanto, Machado não era a única que negociava com os Estados Unidos. Desde o mês de outubro, meios norte-americanos descreveram como, a partir do Catar, vinham sendo realizadas aproximações entre as autoridades estadunidenses e venezuelanas. A primeira reunião teria ocorrido em abril, meses antes do início da operação “Lança do Sul” no mar do Caribe. Lá, uma delegação do chavismo teria apresentado uma curiosa proposta: deslocar Nicolás Maduro da presidência, mantendo-o no país, e conservar Delcy Rodríguez, que atuava como vice-presidente, à frente do Executivo. O pacote incluía o acesso às indústrias petrolífera e mineira do país e que os fiscais estadunidenses retirassem as acusações penais contra Maduro. Rejeitada esta, uma segunda proposta tinha como principal novidade o exílio de Maduro num país aliado, como a Turquia. Os meios informaram que esta também teria sido desconsiderada.

Em 1º de dezembro de 2025, a agência Reuters informou sobre o conteúdo de uma conversa telefônica entre Trump e Maduro. Segundo a agência, o mandatário venezuelano estava disposto a abandonar o país, desde que ele e seus familiares obtivessem uma anistia legal completa, incluída a eliminação de todas as sanções estadunidenses e o encerramento do caso que enfrenta perante o Tribunal Penal Internacional. Além disso, teria solicitado a suspensão de sanções contra mais de cem funcionários de seu governo. A Reuters acrescentou: “Maduro pediu à vice-presidente Delcy Rodríguez que dirigisse um governo interino visando novas eleições (…) Trump rejeitou a maioria de seus pedidos na ligação”.

Um anti-imperialismo imperialista

Alguns analistas sugeriram a possibilidade de um terceiro e definitivo acordo. Embora não haja evidências a respeito, surpreendeu a atitude de colaboração entre Estados Unidos e Venezuela, após o ataque, para manter na presidência do país Delcy Rodríguez.

No último trimestre de 2025, foi evidente uma campanha de lobby e na mídia, nos Estados Unidos, para promover sua imagem como uma pessoa “eficiente” e “moderada”. Delcy Eloína Rodríguez Gómez (Caracas, 18 de maio de 1969) é advogada, diplomata e política venezuelana que tem sido uma figura central do chavismo por mais de uma década. Iniciou sua carreira política na administração de Hugo Chávez e ocupou cargos-chave como ministra da Comunicação e das Relações Exteriores, presidente da Assembleia Nacional Constituinte e depois vice-presidente executiva da Venezuela desde 2018, além de liderar áreas estratégicas como economia e petróleo nos governos de Nicolás Maduro. Em seu cargo como vice-presidente, coube-lhe supervisionar o Serviço Bolivariano de Inteligência (SEBIN), a polícia política apontada por organismos internacionais como responsável por graves violações de direitos humanos.

No entanto, um personagem ainda mais influente na história do chavismo é seu irmão, Jorge Rodríguez. Psiquiatra e dirigente político, foi presidente do Conselho Nacional Eleitoral (2006–2007), etapa na qual conduziu processos eleitorais decisivos e consolidou seu perfil como operador político chave e de confiança do Executivo. Posteriormente, foi prefeito do município Libertador de Caracas (2008–2017) e, sob o governo de Nicolás Maduro, assumiu um papel ainda mais central como ministro da Comunicação e Informação e, desde 2020, como presidente da Assembleia Nacional de maioria governista. Jorge esteve à frente de todos os espaços de negociação, incluído o que finalizou com o chamado “Acordo de Barbados”, e foi muito hábil em construir uma plataforma de apoio à figura de sua irmã entre universidades, empresários, alguns políticos não governistas e setores da sociedade civil.

Apesar de durante vários meses Donald Trump ter anunciado seu interesse em neutralizar Nicolás Maduro, há elementos do ataque de 3 de janeiro que dão verossimilhança à hipótese de uma detenção negociada. A jornalista Sebastiana Barráez, especialista no tema militar, assegurou que nesse dia 50% da tropa se encontrava de “licença natalina”, algo inaudito nesse contexto. A ausência de uma defesa efetiva é o segundo elemento. Mas se nos afastarmos da área militar, que não é nossa especialidade, politicamente foi surpreendente a mensagem de Delcy Rodríguez quando não haviam passado 48 horas do pior ataque ao solo venezuelano por parte de outro país e da detenção do “comandante em chefe” de suas forças armadas.

A reviravolta na tragédia venezuelana não deixa de ser surpreendente. Um movimento que fez do anti-imperialismo sua principal marca de identidade anunciava agora um acordo de cooperação com os Estados Unidos. Estará por ver se essa reviravolta evidencia tensões internas no universo bolivariano. Por outro lado, segundo as declarações de Marco Rubio, secretário de Estado da Casa Branca, a agenda dos Estados Unidos para a Venezuela neste momento cumpriria três fases: estabilização, recuperação e transição. O significado concreto destas três palavras ainda está por esclarecer.

Solidariedade com as pessoas, não com os Estados

O enfoque do movimento antimilitarista internacional deveria ser condenar simultaneamente a intervenção armada e o autoritarismo e a repressão existentes na Venezuela. Embora tenha sido anunciada a libertação de presos políticos, quando este artigo é escrito, apenas 10% teriam cruzado o umbral da cadeia, sem liberdade plena e com uma série de direitos restringidos.

Na Venezuela, esta violência não irrompeu como um acidente nem como um capricho externo. É o resultado de uma sequência prolongada de decisões que desmontaram, uma a uma, as vias pacíficas de resolução do conflito: eleições sem garantias, criminalização do protesto, encarceramento de dirigentes, destruição da mediação e uso sistemático do medo como ferramenta de governo. Reconhecer esta cadeia não implica distribuir responsabilidades de maneira simétrica: quem controlava o Estado e seus aparatos coercitivos tinha uma obrigação maior de preservar as saídas pacíficas. Quando esse processo se completa, a condenação abstrata da guerra chega tarde e corre o risco de se tornar um álibi.

Durante muitos anos, a sociedade venezuelana recorreu a estratégias não violentas para recuperar sua institucionalidade democrática. E, apesar dos mortos, feridos, detidos, torturados e pessoas em desaparecimento forçado, boa parte dos movimentos sociais progressistas internacionais optou por olhar para o outro lado. Os ativistas venezuelanos fizemos grandes esforços para que as evidências, presentes nos relatórios de organismos internacionais de direitos humanos — começando pelos do Alto Comissariado da ONU, dirigido então por Michelle Bachelet —, fossem suficientes para despertar a condenação, em setores de esquerda, sobre os excessos do governo venezuelano. No entanto, não o foram.

Nunca é tarde, no entanto, para solidarizar-se com as demandas das maiorias venezuelanas. Além da libertação plena de todos os presos políticos e do desmantelamento da estrutura repressiva, nenhuma transição real para a democracia pode ocorrer sem a participação da própria população e das organizações sindicais e sociais, hoje grandes ausentes do conflito devido à repressão e ao medo.

Neste ponto, devemos fazer uma curta e enfadonha explicação jurídica. Delcy Rodríguez assume a presidência do país invocando que a ausência de Nicolás Maduro é uma “falta temporária”. Segundo o artigo 234 da Constituição, esta ausência temporária é suprida pela vice-presidência por um período de 90 dias, prorrogáveis por mais 90 dias. O artigo anterior, o 233, estabelece que quando ocorre a “falta absoluta”, a vice-presidência assume o controle do Executivo e é obrigada a convocar eleições num prazo de 90 dias.

É por isso que, embora Nicolás Maduro tenha sido objeto de uma entrega negociada, os Rodríguez manterão a campanha por sua libertação, na qual sugerem que haverá um breve regresso. Esta ficção lhes permite conservar o poder sem convocar eleições. Por isso, a possibilidade de uma consulta eleitoral — para que a população possa expressar, sem medo nem coação, sua opinião sobre quem deveria dirigir seus destinos — está no coração do conflito político iniciado após 3 de janeiro.

Mais de oito milhões de pessoas — quase um terço da população venezuelana — foram forçadas a abandonar seu país como consequência direta do colapso das condições de vida e da perseguição política sustentada. Diante desta realidade, o antimilitarismo não pode se confundir com a defesa abstrata de soberanias nem com a lealdade automática a governos que administram o medo e a expulsão. Seu lugar ético está ao lado das pessoas, não dos Estados. Praticar uma solidariedade verdadeiramente horizontal exige desprender-se das chantagens ideológicas que relativizam o sofrimento alheio em nome de causas geopolíticas. Caso contrário, o pacifismo corre o risco de degradar-se numa compaixão seletiva, mais próxima da caridade cristã do que de uma ética política da paz. Não pode haver mais comunicados sobre a intervenção armada em territórios sem incluir, no mesmo nível de importância, as demandas e aspirações de quem os habita.

Fonte: https://acracia.org/ataque-a-venezuela-una-mirada-horizontal-y-antimilitarista/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Na poça d’água
o gato lambe
a gota de lua.

Yeda Prates Bernis

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