[Uruguai] O problema não é Chomsky, somos nós

Por Raúl Zibechi – Kaosenlared (18.02.2026)

A adoração de personagens públicos, aos quais se atribuem enormes méritos, chegando a transformá-los em “quase deuses”, é um problema que se arrasta desde muito tempo atrás nas esquerdas e nos movimentos emancipatórios. Exaltam-se virtudes, mas nunca defeitos. Inventa-se uma realidade em tons de branco ou preto, excluindo matizes, os cinzas e tudo aquilo que possa ofuscar o personagem endeusado.

A própria palavra cinza é usada como adjetivo. “Uma pessoa cinza” é entediante, sem méritos, incapaz de nos atrair ou chamar nossa atenção, menos ainda algum tipo de admiração. No entanto, a realidade é pintada em múltiplas cores e é muito mais rica que o binário branco-preto. Com essa clivagem, na maioria das vezes pretendemos acalmar nossas incertezas, fugindo dos incômodos matizes que tanta insegurança nos provocam. Porque, admitamos, o ser humano branco e ocidental busca desesperadamente a segurança.

Muitas pessoas de esquerda admitem que o culto à personalidade de Stalin foi algo negativo, mas aceitam o culto a Lênin ou a Marx, por exemplo. Creio que neste ponto a cultura “emancipatória” das esquerdas é herdeira do caudilhismo e do culto aos reis tão presentes na história da humanidade, desde as primeiras sociedades até hoje. Com o agravante de que os cultos atuais se disfarçam de emancipação, mas no fundo são tão absurdos quanto a submissão aos reis e rainhas.

Ainda hoje vemos como esse culto continua fazendo seu tremendo trabalho de paralisia das sociedades, seja no apoio acrítico a Evo Morales ou Hugo Chávez, para citar apenas dois exemplos. Os processos progressistas da América Latina estiveram, todos eles, ligados a um caudilho, desde Néstor Kirchner até Lula, passando por Correa e os já mencionados.

No caso de Chomsky, sobressai a gravidade de seu estreito vínculo com o pedófilo-criminoso e milionário Epstein, mesmo depois de ele ter sido condenado e de se conhecerem suas façanhas. No entanto, se Epstein não fosse pedófilo-criminoso, algo teria mudado? Podemos validar que um personagem público das esquerdas tenha estreitos vínculos com um milionário? Não vale qualquer amizade, com qualquer pessoa, passando por cima das classes, das posições políticas e do status das pessoas. Sem esquecer que Chomsky cometeu outros pecados, como trabalhar para programas militares.

Uma pessoa como nós, os leitores desta página, pode relacionar-se com qualquer pessoa, com um Berlusconi, um Bolsonaro ou um Putin? Não me refiro a gente de baixo que tenha apoiado esses personagens, mas às relações com as elites dominantes, um estilo que se cultiva nos parlamentos de todo o mundo, quando deputados que estão em posições políticas opostas comem na mesma mesa e acabam se socializando nos mesmos espaços.

O caso de Chomsky é simplesmente repugnante. Mais grave ainda por se tratar de uma personalidade pública que deve dar o exemplo e pedir perdão quando erra. O que pretendo com estas linhas é pôr um espelho coletivo, como costumam dizer os zapatistas, para nos perguntarmos: E nós, o quê?

Quantos Chomsky existem em nossos cérebros e corações? Colocar toda a maldade no linguista é igual a colocar todos os méritos num caudilho, como Pepe Mujica, por exemplo. Sendo uruguaio, sofro cada vez que gente de baixo em algum canto do planeta me diz maravilhas de um personagem que, neste país, conhecemos e não admiramos, pelo menos quem isto escreve e grande parte de seus amigos.

O culto à personalidade revela, além disso, nosso proverbial individualismo, já que colocamos todos os valores positivos numa pessoa, mas não num coletivo. Fazem bem os zapatistas em cobrir o rosto, em igualar-se todos e todas com o passamontanhas e o paliacate. Observemos que toda a cultura capitalista gira em torno de pessoas, desde Messi até Trump, seja para endeusar ou reprovar. Mesmo no caso do zapatismo, não são iguais as atitudes que temos em relação ao subcomandante Marcos ou a qualquer uma das comandantas, incluindo quem isto escreve.

Talvez a lição que possamos aprender do caso Epstein-Chomsky é que devemos ser mais cuidadosos, mais moderados na hora de mitificar personagens. Mas, sobretudo, ser mais comunitários, destacar o coletivo e o simples, a inocência das meninas e meninos antes que o sistema os conduza à adoração das celebridades.

Fonte: https://redeslibertarias.com/2026/02/26/el-problema-no-es-chomsky-somos-nosotros/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

horizonte esmeralda
uma vela voga
em direção ao céu

Rogério Martins

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