[Espanha] Como ganharam a batalha da memória


Por que uma dívida exigível nunca foi exigida? Por que nenhuma administração pediu qualquer reparação ao Estado italiano pela intervenção fascista de 1936-39? Um Estado italiano que ainda hoje reclama da Alemanha indenizações pelos crimes de guerra de 1944.

800 aviões de combate, entre caças e bombardeiros. Um exército terrestre de cerca de 75.000 homens. Artilharia, blindados, submarinos e navios de guerra. Hospitais de campanha, veículos de transporte, combustível, técnicos.

Realização da ponte aérea para levar as tropas coloniais de Marrocos à Andaluzia. Bloqueio do Mediterrâneo para impedir o abastecimento da República. Bombardeios de saturação em cidades e povoados para semear o terror na “retaguarda”. Destruição sistemática de infraestruturas civis ao longo de toda a costa catalã e valenciana. Ocupação de Maiorca, com massacres de opositores.

Os militares italianos enviados por Mussolini não foram um mero episódio da “guerra da Espanha”, mas sim, junto com os nazistas, um trunfo decisivo para o sucesso do golpe de estado franquista.

E, no entanto, ninguém, desde a morte do ditador, reclamou ao Estado italiano qualquer ressarcimento ou reparação, nem mesmo simbólica. Uma anomalia, já que após a II Guerra Mundial, na conferência de Paris de fevereiro de 1947, a Itália teve que ceder territórios à Iugoslávia, França, Grécia, retirar-se das colônias, desmantelar grande parte do exército e da marinha e pagar indenizações econômicas à Iugoslávia, Grécia, União Soviética, Etiópia, Albânia. Egito e Líbia receberiam compensações mais tarde (a Líbia em 2010).

Este “esquecimento” incompreensível perdura ainda: as últimas leis de memória “democrática” dedicam 4 linhas genéricas ao papel das potências do Eixo, apesar das provas aportadas pela pesquisa historiográfica, talvez pela dificuldade de encaixá-lo no relato de uma “guerra civil, entre irmãos”.

O livro “Desarmados e cativos” recolhe a experiência – a partir de 2007 – de campanhas e iniciativas dirigidas a obter “verdade, justiça, reparação e garantia de não repetição” efetivas, denunciando a manipulação da história em que se baseia a narração oficial da transição e as cumplicidades que tornaram possível a aceitação, inclusive por parte de entidades memorialistas, da incrível impunidade de que gozaram e gozam pessoas, empresas e instituições que criaram ou consolidaram seus próprios privilégios durante a guerra e o franquismo. Uma manipulação da história que implica a anulação de violações gravíssimas e imprescritíveis de princípios fundamentais do direito internacional (o reconhecimento de dívidas de guerra ou a perseguição dos crimes de lesa-humanidade) e dos valores que devem inspirar uma sociedade formalmente respeitadora dos direitos fundamentais (da dignidade humana, não subordinável à razão de estado).

As reparações ainda são exigíveis, por via diplomática e judicial, apesar das anistias (a Itália também fez uma e, no entanto, seus tribunais julgam os crimes nazistas), e também não estão sujeitas a prescrição. E desde 2008, realizaram-se campanhas com propostas concretas para exigir ressarcimentos por via penal e civil (na Itália). Por que, então, as vítimas catalãs (e dos outros povos do estado) são as únicas que não receberam qualquer reparação por parte dos governos que sucederam ao regime fascista de Mussolini? Governos de uma República antifascista que até 1967 (Mussolini havia sido executado em 1945) cobrou de Franco o material bélico enviado ao bando golpista pelo fascismo italiano.

As culpas das cínicas autoridades italianas são evidentes, mas ainda mais sangrentas, se possível, são as responsabilidades das administrações, instituições, partidos e organizações sociais do estado espanhol.

A inibição de ministérios espanhóis e da diplomacia desse estado na hora de tutelar os direitos de seus cidadãos agredidos pelo fascismo internacional é a enésima demonstração de que o reino da Espanha mantém uma continuidade orgânica com o regime franquista e não com a agredida República (a intervenção italiana foi denunciada como ilegal pelos governos republicanos nos fóruns internacionais). Resulta, no entanto, incompreensível a passividade da Generalitat e das outras instituições catalãs (Câmaras Municipais, Parlamento), já que são continuadoras daquelas que então reclamaram a condenação da pirataria de aviões e navios italianos. Interpeladas reiteradamente ao longo destes anos, em nenhum momento quiseram empreender iniciativas legais ou políticas e nem sequer acompanhar vítimas intencionadas a fazê-lo. Uma prova também, mais uma, de uma “cultura” política para a qual a ideia da administração e da política como serviço a uma sociedade/cidadania soberana é retórica vazia, simples marketing eleitoral.

Infelizmente, tudo deve ser dito, as campanhas objeto do livro “Desarmados e cativos” também não tiveram o apoio, para além das habituais adesões simbólicas, por parte das organizações e dos espaços libertários, autônomos e das esquerdas radicais, seja por desconfiança em relação a iniciativas não surgidas nos respectivos âmbitos, ou seja, por outras, inexplicadas, razões.

De modo que, após anos de tentativas falhadas e em meio à indiferença geral, também se fecha esta possível brecha na narração hegemônica da guerra de 36/39, consolidada a golpes de leis de memória democrática que branqueiam o regime de 78 e enésimo escárnio para as últimas sobreviventes, meninas então, daquela barbárie, que vão deixando este mundo sem ter recebido justiça e reparação de nenhum tipo.

Fonte: https://federacioanarquista.wordpress.com/2026/02/11/com-han-guanyat-la-batalla-de-la-memoria/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Este álbum de fotos:
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Edson Kenji Iura

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