
“Nosso filho Kyriakos sempre foi voltado para o bem. Ele se importava e valorizava todas as pessoas, sem hierarquia, e o que lhe interessava era ser, não parecer. Ele se preocupava em ajudar, cuidar de tudo, apoiar, ouvir, doar. Ele celebrava a vida todos os dias, com pequenos e grandes atos difíceis. Porque era isso que fazíamos em nossa família.
Conosco, ele aprendeu a compartilhar, a doar e, a partir de suas próprias falhas, aprendeu que nossa família faz parte de um todo: somos parte da sociedade – que geralmente sofre. Ele aprendeu que estamos JUNTOS. Lutamos sempre por justiça e igualdade e contribuímos de todas as formas.
Em nossa vida de combate, seu pai cuidava dos doentes – ele era médico no Serviço Nacional de Saúde – e eu, sua mãe, recebia os estudantes e os ajudava a se orientar no vasto mundo em que vivemos hoje; eu era professora em escolas públicas.
Ao longo de sua infância, mensagens chegavam de todos os lados indicando que ele estava se tornando uma pessoa afetuosa e de espírito brilhante. Ele foi aprovado nos exames acadêmicos e ingressou na PA.PEI (Public Association of Pearson Institute) para cursar Ciência da Computação, trabalhando simultaneamente, o que lhe permitiu ter condições de frequentar uma faculdade particular e também estudar Sociologia. Posteriormente, foi aceito na Universidade Livre de Berlim, para onde se mudou para estudar. Formou-se com honras, trabalhando ao mesmo tempo para não sobrecarregar as finanças da família.
Mas ele olhou ao redor, para o que estava acontecendo no mundo. Viu e sentiu que as pessoas sofriam com a ansiedade do dia a dia, com as dificuldades econômicas, com a exploração dos poderosos, com o racismo, com a guerra às portas, todos esses flagelos que, infelizmente, não estão ausentes das sociedades humanas. E por tudo isso ele se posicionou.
Ele escolheu lutar. Apoiou pessoas com problemas de saúde, problemas de moradia, imigrantes em sua adaptação. Participou de coletivos, de passeatas contra o racismo, contra a lei do mais forte. Para Kyriakos, não existia “nós” e “os outros”, existia JUNTOS. Porque ele sempre gostou de aprender, de ler, de expandir seus horizontes, de “ligar os pontos” e, por meio da discussão, chegar a novas conclusões, mas sem se tornar intransigente e dono da verdade.
Mas agora ele não está mais conosco. Sua perda é insuportável para mim e para o pai dele. Os dias passam, mas os momentos vêm e vão. Lutamos diariamente. Nossas vidas se dividiram em ANTES, na quinta-feira, 31/10/2024, às 14h40, e DEPOIS, na quinta-feira, 31/10/2024, às 14h40.
O que guardo agora em meu coração é sua amada companheira, sua alma gêmea, Marianna. Porque esses dois são muito parecidos. Assim como Kyriakos, Marianna são almas raras, têm um olhar sensível, são sábios, amorosos e honestos, e estão sempre presentes onde quer que sejam necessários. Com dignidade e consistência.
Não vim aqui para julgar o filho. Vim aqui para lhes dar a sua imagem e para sentirem a sua presença. Afinal, ele assumiu as suas responsabilidades da melhor forma. Esta luz que também nos chega, a nós, seus pais, como um raio que tenta preencher a fenda do tempo. São os seus amigos e amigas, os seus companheiros e companheiras, uma palavra que tem sido mencionada com tanta suspeita. Crianças que poderiam viver uma vida fácil e despreocupada, mas que, em vez disso, escolheram lutar, reivindicar, sentir a dor dos outros como se fosse sua, e que se mantêm lado a lado em solidariedade. Tal como o nosso filho. Sinto-me feliz por sentir que o meu filho viveu e vive plenamente entre eles. E assim a sua ausência torna-se uma presença.”
Conteúdos relacionados:
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/12/04/grecia-para-meu-companheiro-kyriakos-x/
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/11/15/poster-em-memoria-de-kyriakos-e-em-solidariedade-com-marianna-dimitra-e-os-outros-perseguidos-ou-acusados/
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/11/06/grecia-atenas-aqueles-que-caem-no-calor-da-batalha-nunca-morrem/
agência de notícias anarquistas-ana
Em cima da folha
Joaninha descansa
Que colorido!
Andréa Cristina Franczak
A autoridade dos que são contra não é menos autoritária que as outras e encontra, quanto a mim, uma sólida…
Em agosto me mudarei com a família para o espírito santo. Mudança a trabalho. O lado bom é que terei…
Discordo de chamarem aos regimes políticos onde existem eleições de "democráticos". Representatividade não é democracia. E regimes representativos, são elitistas;…
O conceito de liberdade como prática cotidiana e resistência constante às cercas — seja do Estado, do capital ou das…
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!