
Por Carlos Ferreira de Araujo Junior
Cândido Costa foi um anarquista negro que atuou no Rio de Janeiro nas primeiras duas décadas do século 20. Não foi possível encontrar nem a data de nascimento nem a do seu óbito. Seguramente, João Cândido Costa nasceu no final do século 19. Operário alfaiate e carpinteiro, Costa também foi um brilhante orador operário, sendo bastante requisitado nas reuniões operárias, comícios e festas operárias do Rio de Janeiro. Cândido Costa representou o perfil da maioria dos proletários cariocas na Primeira República: negro, pobre, operário.
Cândido Costa emocionava as plateias operárias com seus discursos, cheios de gestos, às vezes exagerados, às vezes comedidos. Bastante conhecido na imprensa operária, também foi notícia na grande imprensa da época: “O sr. Candido Costa é um orador querido pela multidão. Com palavra naturalmente fácil, ele consegue, pela sua sinceridade, empolgar as massas populares.[1]” Os oradores operários instigavam os operários a participarem das reuniões, assembleias e greves. Quase sempre os oradores e palestrantes atuavam como “tradutores” de conceitos anarquistas de forma didática e prática. Os oradores usavam a linguagem do operariado do povo. Cândido Costa discursou várias vezes usando como tribunas improvisadas tamboretes, árvores ou os braços dos companheiros.
O anarquista negro participou do Primeiro Congresso Operário Brasileiro em abril de 1906, no Rio de Janeiro. O Congresso reuniu centenas de operários de todas as partes do país e mostrou a força do anarquismo. Neste encontro, Costa representou a Liga dos Artistas Alfaiates do Rio de Janeiro, onde se pronunciou contra a influência dos políticos nas associações operárias [2].
Na década de 1910, as “agitadas palestras” ocorreram com frequência nas reuniões operárias da Federação Operária do Rio de Janeiro, no Centro Cosmopolita e na Liga Anticlerical. Cândido Costa também discursou nos eventos em homenagem a Ferrer, nos protestos contra a carestia, nas festas do 1º de Maio, etc. Em outubro de 1911, Cândido participou de uma cerimônia em homenagem a Francisco Ferrer, pedagogo anarquista assassinado na Espanha. Durante o evento, Costa criticou um exaltado patriota xenofóbico da plateia com as seguintes palavras:
entre socialistas e anarquistas a palavra estrangeiro não tem significação; que estrangeiros são os politiqueiros e parasitas que aqui vivem do suor alheiro; que aqueles que mourejam e produzem, padecem e morrem com os bolsos vazios, mal podendo sustentar a prole, não são estrangeiros [3].
Em janeiro de 1912, Cândido Costa foi brutalmente espancado pela polícia em frente a Federação Operária do Rio de Janeiro. Os jornais anarquistas criticaram duramente a truculência da polícia:
Cândido Costa chegou a perder os sentidos devido a um pontapé que levou no ventre. Antes, como contou a quem escreve estas linhas, tinha pensado em atirar-se da janela do 2º andar à rua para assim livrar-se, mesmo pela morte, à sanha de tais feras [4].
Em 1913 o anarquista participou do Segundo Congresso Operário Brasileiro também no Rio de Janeiro. Cândido Costa se posicionou contra as associações beneficentes e mutualistas [5]. Em fevereiro de 1913, Cândido Costa participou do Comício Contra a Carestia de Vida em Catumbi. A tribuna foi improvisada e os palestrantes discursaram sobre caixões de madeira. Um conluio entre autoridades e contraventores do jogo do bicho ameaçaram impedir o discurso de Costa, mas diante da reação da plateia, as autoridades recuaram. O próprio Cândido Costa tentou acalmar a multidão [6].
Cândido Costa se posicionou contra a expulsão de estrangeiros do país.
vede, cidadãos, este contraste: enquanto o governo forja essa lei de exceção, para expulsar os trabalhadores estrangeiros que se revoltam contra as misérias que sofrem ao lado dos trabalhadores brasileiros, os argentários de todas as nacionalidades e todas as raças aí estão, enriquecendo fartamente à sombra dos poderes públicos e a custa do suor de nós todos, nacionais ou não, que produzimos tudo, num trabalho árduo e insuportavelmente mal retribuído [7].
Cândido Costa foi um ferrenho militante anticlerical. Durante um comício realizado pelo Centro Católico no Largo do São Francisco, Rio de Janeiro, Costa proferiu várias críticas a instituição católica. Esta atitude causou grande indignação entre os operários católicos que gritavam indignados “fora!” e “Cai no mangue!”. Objetos foram lançados contra Cândido Costa, um jornal da época narrou o ocorrido assim:
Um popular da cor preta galgou as escadas da Escola e dirigiu a palavra ao povo. O seu discurso foi violentíssimo, atacando o Partido Católico, que não era mais do que um “Partido de Cavações!”. Uma gritaria ensurdecedora se fez ouvir, tendo muitos indivíduos avançado em atitude agressiva para o orador, que comprimido pelo povo, tombou pela escada baixo. Houve bofetadas, pontapés, o diabo, tendo o orador retomado a palavra, protegido por um policial que apareceu no momento. (…) Cândido Costa, que é o nome do orador em questão, é carpinteiro e anarquista entusiasta. Terminado o seu discurso que anarquizou o comício, foi o orador carregado pelos seus correligionários até a esquina da rua dos Andradas de onde se dirigiram pela mesma até a Confederação Operária Brasileira. Ali falou de uma das janelas do edifício o anarquista Cândido Costa, dispersando-se em seguida os populares [8].
Ainda em 1915, representando o Comitê Popular de Agitação Contra a Guerra e pela Paz Mundial, Cândido Costa palestrou no dia do 1º de Maio. Na ocasião, o operário também defendeu a ação direta como tática de luta legítima do operariado [9].
Em julho de 1917, 30 mil operários entraram em greve no Rio de Janeiro. O Centro Cosmopolita organizou um comício em frente ao Teatro Municipal da cidade e convidou o libertário Cândido Costa para proferir uma palestra para os trabalhadores. Enquanto ele discursava, uma procissão de Santa Cecília passou em frente ao teatro marchando ao som de uma banda marcial. Os organizadores do evento pediram que Costa interrompesse o discurso por uns minutos. Mas o anarquista não cedeu:
O operário Candido Costa, que é ateu, insurgiu-se contra os pedidos, usando frases inconvenientes. O procedimento do orador deu causa a veementes protestos por parte de muitos operários; e teria, por certo, funestos resultados, se não fosse a rápida interrupção do comissário Júlio Rodrigues, que conseguiu, só a cabo de alguns momentos, apaziguar os ânimos [10].
Em 1917, durante uma palestra operária, Cândido Costa enalteceu as revoltas dos escravizados nas províncias de São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco, ocorridas no século passado [11].
A partir de janeiro de 1918, Candido passa a fazer palestras em assembleias e eventos como representante do Partido Socialista [12]. Neste mesmo mês, participa de uma palestra em homenagem a Lênin [13].
A partir da década de 1920, as notícias sobre Cândido Costa vão se tornando mais escassas. Em 1928, o periódico A Esquerda anunciou um Festival em Solidariedade a João Cândido Costa, que se encontrava bastante enfermo. O evento foi patrocinado pela União dos Alfaiates do Rio de Janeiro. A programação contava com uma conferência do professor Castro Rebello; uma peça teatral intitulada O Vizinho de Cima encenada pelo grupo teatral Germinal; e por fim, um concerto de um jazz band [14].
Não foram encontrados detalhes sobre o que aconteceu com Cândido Costa a partir deste fato. A notícia é encerrada com o lema “um por todos e todos por um!”, dos Três Mosqueteiros, obra do escritor francês negro, Alexandre Dumas.
REFERÊNCIAS
KARLLOS, Jr. Brasil Negro Insurgente: socialistas e libertários negros e pardos na Primeira República. Ed. Monstro dos Mares. 2025.
RODRIGUES, Edgar. Companheiros. Vol.01.
PERIÓDICOS
A ÉPOCA. data: 10/08/1913 P.4. N.284.
GAZETA DE NOTÍCIAS. Data: 19/04/1906.P.2.N.107.
A LANTERNA. 21/10/1911.P.2.N.109
A LANTERNA. 27/01/1912.P.2N.123.
CORREIO DA MANHÃ.12/09/1913.P.7.n.5339.
A ÉPOCA. 10/03/1913.P.2N.223
A ÉPOCA.10/08/1913.P.4. N.284.
A ÉPOCA. 15/01/1915.P.4.N.874.
A ÉPOCA. 04/06/1915.P.5. N.1014.
A ÉPOCA. 23/07/1917.P.1N.1837.
A LANTERNA. 15/10/1917. P.2.N.260.
A RAZÃO.17/01/1918.P.5N.395
A RAZÃO 25/01/1918.P.4N.403.
A ESQUERDA. 07/07/1928.P.4N.316.
[1] A ÉPOCA. data: 10/08/1913 P.4. N.284.
[2] GAZETA DE NOTÍCIAS. Data: 19/04/1906.P.2.N.107.
[3] A LANTERNA. 21/10/1911.P.2.N.109
[4] A LANTERNA. 27/01/1912.P.2N.123.
[5] CORREIO DA MANHÃ.12/09/1913.P.7.n.5339.
[6] A ÉPOCA. 10/03/1913.P.2N.223
[7] A ÉPOCA.10/08/1913.P.4. N.284.
[8] A ÉPOCA. 15/01/1915.P.4.N.874.
[9] A ÉPOCA. 04/06/1915.P.5. N.1014.
[10] A ÉPOCA. 23/07/1917.P.1N.1837.
[11] A LANTERNA. 15/10/1917. P.2.N.260.
[12] A RAZÃO.17/01/1918.P.5N.395
[13] A RAZÃO 25/01/1918.P.4N.403.
[14] A ESQUERDA. 07/07/1928.P.4N.316.
Biografia do autor.
CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).
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Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!