Flecheira Libertária 774 | “Além de adoradores de caudilhos, são também entusiastas das prisões, da polícia, das Forças Armadas…”

sobre o que falam na américa latina

As eleições no país que conta com as maiores reservas de petróleo do planeta, mais uma vez, despertaram a atenção dos rebanhos de seus respectivos pastores no Brasil, assim como em outras localidades da América Latina. Os adoradores dos caudilhos cuja retórica é apenas uma caricatura do velho caudilhismo latino-americano reiteravam e reiteram que se trata de uma luta contra o imperialismo, retomando o velhaco mantra do século XX. Falam que, caso seja necessário, é preciso reprimir, prender, calar. Enfim, além de adoradores de caudilhos, são também entusiastas das prisões, da polícia, das Forças Armadas, sobretudo nos casos nos quais a nomenclatura remeta a um prócer qualquer. Mobilizam-se conforme sua fé e a sua fé na política, embora, nesse caso, com um palavrório um tanto quanto envergonhado.

negócios na américa latina

Em meio às violências perpetradas pelo Estado venezuelano contra os que saíram às ruas ao longo dos anos – e que não se restringem aos apoiadores da oposição – e os mesquinhos interesses políticos dos chamados antichavistas, Estados e a coligação opositora local, de ultradireita e alinhada aos reacionários da região, não tardaram em sugerir negociações. Afinal, a política não deixa de ser um negócio para aqueles cuja aspiração é governar e sustentado pelos aprisionados pelo costume da obediência.

gostam do mesmo

No final das contas, stalinistas, progressistas, liberais, conservadores e os reacionários gostam do mesmo com mais ou menos ternura. Os adeptos dos tiranos que substituíram a cruz pela foice e o martelo – ou pela espada de Bolívar – falam, abertamente, que a repressão é também revolucionária, sempre e quando houver uma contestação à sua ditadura. Os reacionários, todavia, estão comemorando os “feitos” do autocrata de El Salvador, com toques de recolher, com incontáveis execuções e construções de pequenas gigantescas prisões. Os dissimulados, muitos deles colunistas, palpiteiros dos grandes jornais e que se autoproclamam moderados, têm medo de gente, clamam pela segurança nas ruas, porém não hesitam em reiterar: ‘por favor, mantenham as câmeras no uniforme da polícia’.

>> Leia o Flecheira Libertário 774 na íntegra aqui:

https://www.nu-sol.org/wp-content/uploads/2024/08/flecheira774.pdf

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agência de notícias anarquistas-ana

trigo dourado
pelas mão do vento
é penteado

Carlos Seabra

[Espanha] Ajuda doméstica

Por CNT La Felguera

Extraído da CNT nº 438

A humanidade está enfrentando o desafio do cuidado a partir de uma perspectiva neoliberal que ataca profundamente os valores e princípios básicos de uma sociedade que torna rentável o apoio e o cuidado de nossos idosos.

O serviço de assistência domiciliar está em uma profunda situação de privatização que tem repercussões tanto para as pessoas que acessam esse recurso quanto para os próprios trabalhadores.

As trabalhadoras envolvidas nesse setor são principalmente mulheres e se enquadram em duas categorias diferentes: de um lado, assistentes sociais encarregados de coordenar, gerenciar e organizar o serviço e, de outro, assistentes de assistência domiciliar, que são os principais protagonistas, sendo os mais próximos das pessoas dependentes e com funções de cuidado como limpeza, alimentação, controle de medicação, apoio emocional…

As multinacionais que concorrem a licitações públicas para esse serviço estão mais preocupadas com a geração de renda do que com a situação dos dependentes e dos trabalhadores, ao que os conselhos locais não respondem com um controle exaustivo do serviço e com a implementação de melhorias para ambos os grupos (trabalhadores e dependentes).

A plataforma de serviços de assistência domiciliar das Astúrias vem denunciando há vários anos situações de injustiça e abuso por parte dessas empresas. As mais importantes são o reconhecimento de doenças ocupacionais, tanto ergonômicas quanto psicossociais, o coeficiente de redução para aposentadoria antecipada e a remunicipalização do serviço.

Suas reivindicações também incluem a discordância com a quilometragem para trabalhadores em áreas rurais, pois esses trabalhadores usam seu próprio carro para se deslocar de uma casa para outra. As empresas utilizam o “método google” para pagar o valor da quilometragem, que consiste em calcular os quilômetros utilizando o GOOGLE MAPS, levando em conta que esse APP não reconhece estradas rurais em alguns locais e que não leva em conta imprevistos como animais, semáforos ou trânsito. Infelizmente, essa situação também teve repercussões para os dependentes, já que os novos acordos dos conselhos locais decidiram subtrair cinco minutos do tempo de serviço para que os trabalhadores tenham mais tempo para viajar. O sistema tem medo de exigir das empresas o tempo de deslocamento correspondente e prefere cortar os direitos das pessoas mais vulneráveis.

Por outro lado, os trabalhadores também denunciam o banco de horas. Método usado para disfarçar horas extras como horas comuns… esse banco é usado como saldo de horas, vale tudo pelo banco de horas, reduz-se a jornada de trabalho no que diz respeito aos contratos, mas trabalha-se mais horas incluindo-as no famoso banco de horas. Quando um dependente não tem serviço porque tem uma consulta no hospital, a tendência empresarial é descontar essa hora de serviço do trabalhador, gerando um banco horas negativo. Alguns trabalhadores se propõem a usar essa hora para outra pessoa ou para apoiar outro colega no serviço, mesmo assim, é uma situação injusta, pois eles não se recusam a realizar o serviço e, às vezes, a empresa cobra a hora inteira e eles só recebem 15 minutos dessa hora.

Em relação ao reconhecimento de doenças ocupacionais, essa é uma demanda contínua que causa sérios problemas, pois muitas trabalhadoras veem suas capacidades físicas ou mentais reduzidas devido a esforços contínuos e tarefas repetitivas que levam ao desenvolvimento de doenças que não são reconhecidas nem avaliadas pelas empresas ou pelas inspeções médicas. Destacar a incoerência de um sistema que afirma valorizar o trabalho de cuidado, realizado principalmente por mulheres, mas que, no final das contas, não é capaz de estimar as doenças que esses trabalhos acarretam e que aumentam a diferença de gênero no reconhecimento de doenças ocupacionais.

Do ponto de vista do gerenciamento de serviços, nós, assistentes sociais, também somos muito limitadas. A cada ano ou dois anos, vemos uma mudança de empresa, o que implica uma mudança de metodologia, sistema de computador, diretrizes e, em muitos casos, de pessoal. Na maioria dos casos, também nos é confiado o gerenciamento de serviços de plantão telefônico. Enquanto os conselhos locais solicitam às empresas um número de telefone de contato das oito da manhã às dez da noite, de segunda a domingo, as empresas aceitam esse serviço, sobrecarregando os coordenadores de serviços, que muitas vezes não descansam e precisam gerenciar os incidentes a qualquer hora do dia, seja no almoço, no descanso, na academia ou dormindo.

As empresas que gerenciam esses serviços não se especializaram em serviços de assistência social e de saúde, mas, após a crise dos tijolos em 2008, elas puderam redirecionar sua atividade de trabalho para negócios em expansão para continuar aumentando seus lucros e especulando com o serviço, as pessoas e os trabalhadores.

Este é o meu caso, no qual fui demitida em 17 de novembro de 2023 após comunicar minha gravidez ao chefe do serviço de assistência domiciliar nas Astúrias. Eu estava trabalhando como coordenadora do serviço de assistência domiciliar para o conselho de Siero e estava grávida de 5 meses. Quando isso aconteceu, entrei em contato com a CNT Felguera, que me deu total apoio. A CNT entrou em contato com o chefe de RH para informá-lo sobre a ilegalidade da demissão e para exigir a reintegração imediata. No entanto, a resposta da pessoa que deveria garantir boas relações trabalhistas e conciliação dentro da empresa (ainda mais em uma empresa certificada como “Empresa Responsável”) foi uma recusa total em me readmitir e, com uma atitude arrogante, ele encerrou a ligação e desligou o telefone.

O serviço oferecido pela Ingesan OHLA, empresa a quem foi adjudicado o serviço do conselho de Siero, que deveria ter um forte caráter social e de atendimento ao público, não esquecendo que é responsável por garantir o atendimento dos nossos e das nossas idosas, está focado, como todas as empresas que concorrem aos nossos serviços públicos, em obter a máxima rentabilidade, sobrecarregando de trabalho os seus trabalhadores. Esses serviços, que deveriam ser públicos para garantir o respeito e a qualidade do atendimento aos usuários, assim como aos seus trabalhadores, são terceirizados para multinacionais em prol de uma “otimização” que só se reflete em aumento de lucros para seus acionistas.

Portanto, a CNT La Felguera exige a minha reintegração ao meu trabalho, bem como a supervisão efetiva da prefeitura de Siero nas práticas trabalhistas para evitar o abuso das multinacionais e as repercussões no serviço prestado à população. No momento, estamos aguardando o julgamento que ocorrerá no dia 6 de março, no qual esse conflito trabalhista será resolvido de forma judicial, já que a negociação verbal não foi possível.

Mesmo assim, isso serviu para continuar a levantar muitos casos de abuso, com mais mulheres trabalhando no SAD ou em casas de repouso, onde sofrem condições semelhantes. Com baixos salários, sem reconhecimento de doenças relacionadas ao trabalho, com jornadas de trabalho precárias e sem intervalos para descanso.

Seguimos na luta!

Eles por dinheiro, nós por dignidade.

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/la-ayuda-a-domicilio/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Saci Pererê
fuma seu cachimbo
à sombra do ipê

Carlos Seabra

 
 

[Espanha] Lançamento: “¿Por qué soy anarquista?”, Louise Michel

“Converti-me em uma anarquista quando me enviaram à Nova Caledônia, em um barco do estado, com o fim de conseguir que me arrependesse por ter lutado pela liberdade. Eu e meus companheiros estivemos fechados em jaulas como leões ou tigres durante quatro meses. Não vimos mais que céu e água, com uma ou outra vela branca de um barco no horizonte de vez em quando, como a asa de um pássaro no céu. Esta impressão e a extensão foram avassaladoras. Tivemos muito tempo para pensar a bordo, e através da comparação constante das coisas, os acontecimentos e as pessoas; tendo visto agir, nossos amigos tão honrados da Comuna, que, temendo ser terríveis, só sabiam usar suas vidas para a luta; cheguei rapidamente à conclusão de que as pessoas honradas no poder são incapazes, e que os desonestos são monstros; que é impossível aliar a liberdade com o poder, e que uma revolução cujo objetivo seja qualquer forma de governo não seria mais que um engano se só caíssem umas quantas instituições, porque tudo está atado por cadeias indestrutíveis no velho mundo, e tudo deve ser arrancado pela raiz pelos cimentos para que o novo mundo cresça feliz e esteja em liberdade sob um céu livre”.

“Por qué soy anarquista”

Louise Michel

Rústica, 64 páginas. 17 cm x 12 cm.

editorialimperdible.com

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Sem ter companhia,
E abandonada no campo,
A lua de inverno.

Roseki

Sobre a anarquia que virá

Apesar de todas as inércias, / impotências e comodismos eleitorais, / há entre nós alguns bravos, / indignados e inconformados / com tudo que atualmente se impõe como fato.

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Para eles, não importa o governo / e a constituição, / tudo vai sempre mal onde / mansamente servem ao Estado / e obedecem cegamente / a lei e a ordem do Capital.

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Apesar dos tantos e mansos rebanhos / que embriagam e calam a multidão / alguns ainda seguem resmungando e transgredindo na contramão.

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Há entre nós, felizmente, / alguns poucos loucos e delirantes / que sonham honestamente / com uma grande rebelião.

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Contamos, não duvidem, / com sinceros revoltados / que ousam dizer não / e inventam contra todo circo midiático / outra realidade, / outra forma de organização e sociedade.

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Cotidiana e bravamente, / em suas pequenas trincheiras / eles apostam e aguardam, / contra todas as vanguardas, / o porvir de uma grande insurreição.

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Acreditam sem fé ou esperança / na festa dos grupelhos e párias / que testemunharão a queda / da nossa república autoritária e oligárquica / diante da soberania do sem nome da multidão.

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Um dia seremos um povo / na autonomia e anonimato dos múltiplos rostos / que inventarão a ordem de uma grande e fecunda anarquia.

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O mundo / será, então, para todos / em uma terra sem amos / ou demagogos.

Carlos Pereira Júnior

agência de notícias anarquistas-ana

Caminho do mar:
A navalha no meu rosto
corta que nem gelo.

Antonio Cabral Filho

[Espanha] A UNED rouba parte do salário da pesquisa

Foto do Sindicato EP: Manifestação em frente aos Tribunais de Jovens Pesquisadores em 2022 | Extrato da CNT nº 438

A seção sindical da UNED decidiu denunciar e acionar a UNED judicialmente após repetidas solicitações para mudar a prática de extrair a contribuição patronal do salário bruto dos pesquisadores. Trata-se de uma gestão irregular, segundo o sindicato, do orçamento que o Ministério das Universidades coloca a serviço dos centros para requalificar e melhorar a situação de emprego dos pesquisadores de pós-doutorado. Programas como “Margarita Salas” ou “María Zambrano”, que promovem ajudas para melhorar as condições de trabalho da pesquisa para atrair talentos e evitar que todos os pesquisadores de pós-doutorado tenham que procurar uma carreira em universidades fora da Espanha.

São programas nos quais, no papel, os beneficiários podem contar com 2.800 euros na Espanha ou 3.500 euros para trabalhar no exterior, mas que algumas universidades reduzem entre 26% e 30% ao extrair os custos de recrutamento que qualquer empresa paga por seus trabalhadores. Essa é uma redução muito considerável quando se trata de trabalhar em países de alta renda ou em cidades tão estressadas como Madri ou Barcelona, o que faz com que muitos pesquisadores tenham que abrir mão desses contratos. “Temos alertado sobre isso desde 2022, quando uma assembleia de pesquisadores do programa ‘Margarita Salas’ se reuniu com o Vice-Reitor de Pesquisa e o Vice-Reitor de Pessoal Docente da UNED”, diz Mario Aragón, porta-voz da CNT Comarcal Sur.

Nos últimos três anos, algumas universidades conseguiram reverter essas práticas ou assumiram o custo diretamente desde o início. Esse é o caso da Universidade do País Basco (UPV/EHU), que não reduziu tanto os salários; outras, como a Universidade Politécnica de Madri, que pagou a taxa patronal, ou a Universidade de Salamanca, que acabou cedendo à negociação e também pagou a taxa patronal. Esse não é o caso da UNED, onde a Seção Sindical solicitou repetidamente uma mudança nessa forma de lidar com os custos de recrutamento, mas não recebeu nenhuma reação da universidade pública. Por esse motivo, a CNT denunciou essa questão e a levará ao tribunal em junho.

“Uma das principais críticas das associações e sindicatos de pesquisadores na Espanha é a falta de estabilidade no emprego”, diz Gomer Nuez, pesquisador de pós-doutorado da UNED e membro da seção sindical da CNT-UNED. “Os contratos temporários e a insegurança no emprego dificultam o planejamento de pesquisas de longo prazo, desestimulam o investimento em treinamento contínuo e afetam negativamente a produtividade. As associações defendem a implementação de medidas que garantam contratos estáveis, incentivando assim a continuidade da pesquisa e o desenvolvimento de carreiras científicas sólidas. É com esse objetivo em mente que nascem as bolsas de reciclagem que agora são objeto de reclamações e denúncias.

Para as assembleias e associações de jovens pesquisadores, é apenas mais uma pedra no caminho. É uma questão de programas que, por sua vez, são baseados no mérito. Como uma roda de gângsteres, a equipe de pesquisa deve ter “pontos” por ter participado de projetos, publicado, treinado, etc. Onde eles conseguem os recursos para fazer isso antes de serem contratados? A resposta é “trabalho gratuito”. A precariedade, como eles apontam, começa antes do doutorado, quando as bolsas para essa fase de treinamento não chegam a todos, longe disso. Apenas alguns terão apoio financeiro para fazê-lo, enquanto outros terão de combinar empregos assalariados com o doutorado. Isso já é uma desigualdade de classe e de oportunidade que os sobrecarregará ao longo de suas carreiras. “A carreira de pesquisador apresenta desafios e limitações importantes em nível socioeconômico e de classe, tanto para entrar quanto para permanecer nela”, explica Cristina Rodríguez Prada, presidente da FJI/PRECARIOS.

Da parte da CNT, a opinião é positiva, pois acreditam que é possível que um tribunal lhes dê razão, já que tiveram decisões judiciais a esse respeito no passado.

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/la-uned-roba-parte-del-salario-de-investigacion/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

lua n’água
entre pétalas
alumbra o abismo

Alberto Marsicano

[Equador] Jaime Guevara: O anarquismo é o único caminho para a liberdade

Jaime Guevara, conhecido como El Chamo Guevara, gravou mais de 500 canções e quer continuar gravando

Por Alfredo Cárdenas | 12/04/2024

Seus olhos castanhos e profundos — protegidos por suas sobrancelhas espessas — brilham e tremem quando fala de música, de poetas, de escritores e de suas incontáveis lutas que muitas vezes o levaram a um canto sujo e frio de uma prisão. As marcas em seu rosto revelam seus 69 anos. Com sua voz grave, às vezes áspera — recorrendo às células íntimas de sua memória e com generosa amabilidade — conta sua história.

– Como prefere ser chamado: cantautor, músico, lutador social, anarquista?

Não gosto de rótulos, prefiro que me digam: olá Chamo, como você está?

É Jaime Guevara, conhecido como El Chamo Guevara, um homem que afirma que o anarquismo é o único caminho para a liberdade e que — com sua música — defendeu as causas dos desaparecidos — como os irmãos Restrepo — dos trabalhadores, dos jovens, dos indígenas, dos LGBTI…

Junto com outros artistas, criaram a Coordenadora de Artistas Populares (CAP), que com seu lema: “Se os ricos têm artistas para suas festas, os pobres têm artistas para suas lutas”, realizavam peñas ou festivais para ajudar a restabelecer a saúde de amigos e apoiavam na libertação de presos da organização Alfaro Vive ¡Carajo! (AVC).

– Desde quando te chamam de El Chamo Guevara?

Desde o início da década de 70. Tínhamos um grupo de hippies. Uma tarde cheguei onde estava o grupo e um deles disse: — olha, aí vem o chamo — todos concordaram com uma gargalhada —. Desde então fiquei batizado como El Chamo Guevara. Nasci em 21 de dezembro de 1954.

– Como foi sua infância?

Muito bela. Minha infância foi no parque de San Marcos. Na fonte, costumávamos brincar com barquinhos de papel. Os fazíamos com coberta ou sem coberta. Em frente ao parque estava a igreja onde a maioria dos meus irmãos foi batizada. Éramos sete, agora somos seis, um morreu. Lembro de San Marcos com particular prazer. A rua Junín, as varandas floridas como na canção: Balcón quiteño, balcón florido…

No parque não havia balanços, nem gangorra, nem escorregador. Com frequência, cruzávamos o barranco onde hoje é La Marín, ignorando os terríveis odores, vendo de passagem as famílias de catadores de lixo que abundavam, íamos para o bairro Obrero brincar.

– Como era na escola, rebelde?

Meu primeiro professor foi o licenciado Avellaneda, sempre o lembro. Ele me ensinou a ler.

Havia dois paralelos: o Bolívar e o Sucre. Eu era do Sucre. Os professores avaliavam a boa conduta, o paralelo vencedor tinha direito ao passeio de fim de ano.

– O Sucre ganhou?

Não. O Bolívar ganhou. Com alguns amigos formamos o Clube Secreto, queríamos imitar o FBI.

À luz de uma pequena lâmpada e nessa onda clandestina, nos reuníamos para planejar ações. Com luvas do uniforme de parada para que não copiassem nossas impressões digitais — com letra ruim e má ortografia — naquela sexta-feira escrevemos uma carta de protesto ao reitor. Na segunda-feira, na formação, o reitor diz: venham as crianças: Pozo Guevara… nos chamou a todos do Clube Secreto. Aí foi meu primeiro interrogatório, diz rindo.

– Mas como o reitor descobriu?

Esse foi o mistério, mas descobrimos o dedo-duro e o executamos — diz com uma gargalhada.

– Como se chamava o dedo-duro?

Germán Rodas, o da Secretaria Nacional Anticorrupção atual — diz entre risos.

O potente sol do final de março inunda as ruas de Quito, as edificações de La Mariscal não conseguem amenizar o calor com sua pequena sombra das 14:00. O ambiente é sufocante e a brisa se foi. De repente, El Chamo Guevara desce de um táxi com uma mochila e sua infalível guitarra. Quando chega ao elevador do edifício, descobre que está em manutenção.

– Chegou como mandado por Deus, diz.

Quer que eu te ajude?

A mala, por favor.

Começa a subir. Para no terceiro andar para se recompor.

– Quer que eu ajude com a guitarra também?

Não, não. Minha mulher posso emprestar, mas minha guitarra não — diz rindo.

Finalmente chega ao oitavo andar, ofegante. Assim que entra, pega uma pílula e um copo com água. “Sou escravo desta farmácia”, diz apontando para um espaço com vários frascos de medicamentos.

Seu pequeno apartamento tem uma parede cheia de livros e outra repleta de pôsteres de shows: Rock do furacão, Pelos irmãos Restrepo, Rock debaixo d’água, Blues ao grão, Canto solar… Junto à janela, há um sofá grande, sua poltrona está plantada debaixo dos pôsteres. A guitarra que foi para a prisão está ao lado dele. Outras duas descansam entre os livros e a janela. Há um gravador, CDs e fitas cassete…

– Como foi sua aproximação com a música?

Desde criança eu ficava grudado no rádio do meu pai, um aparelho grande de mogno. Meu tio dizia: ali está o prédio de Obras Públicas, aqui está o Palácio do Governo… têm as luzes acesas porque para eles é noite. Via uma cidade dentro do aparelho, com essa imaginação que a infância te dá.

Depois ouvi uma canção que me impactou. Soou a voz de um cantautor basco, Patxi Andión, cantando Rogelio. Fala da relação humana entre dois amigos. Um tinha se saído muito bem na vida e o outro nem tanto. “Rogelio era uma boa pessoa e um bom amigo e poderia ter continuado sendo, mas a amizade é coisa dos homens e os homens mudamos” Patxi Andión.

Quando cresci, ouvi os Beatles. Minha família é muito querida, está na minha alma, mas era muito conservadora, não tinha discos dos Beatles em casa. Nas poucas vezes que conseguia sintonizar no rádio, tomava frases literais como: “Is bin a jar deir nais” — diz rindo —. Não era inglês nem nada, mas me iludia. Trata-se da canção “A Hard Day´s Night”.

Depois ouvi Led Zeppelin, Black Sabbath, muito depois chegou Pink Floyd. Os discos trazíamos importados da Colômbia. No nosso grupo, fazíamos uma vaquinha para ir comprar um disco em Ipiales, Colômbia, pegando carona. Nosso primeiro disco foi dos The Doors, nos reuníamos para ouvir em uma espécie de ritual, todos em silêncio, com respeito absoluto pelo rock.

– Você me disse que sonhava com uma guitarra, como conseguiu uma?

Meu maior sonho era a guitarra, mas minha mãe dizia que todos os músicos se tornam bêbados, meu pai, que se tornam um bando de vagabundos.

Meu pai era advogado. Naquele tempo se dizia que a família ideal devia ter um militar, um sacerdote, um médico, um engenheiro.

– Então, como conseguiu?

Certo dia, minha cunhada apareceu com uma pequena guitarra argentina com cordas de metal.

— Jaime — disse ela —, isto é seu, em casa ninguém a usa.

Peguei e comecei a praticar. Naquele tempo vendiam — nas esquinas — livrinhos de guitarra fácil e cancioneiros.

Minha guitarra estava sempre salpicada de sangue porque eu tocava com minhas unhas nas cordas de metal. Meus dedos sangravam. Não sabia que existiam vitelas nem palhetas.

Aos 13 anos entrei no colégio Montúfar e no recreio ouvi: “Vengo desde el barrio chico desde mi cuadra de calles alargadas” de Piero. Passado o tempo, cheguei a conhecê-lo e cantei com ele várias vezes.

Em 1974, aos 20 anos, apresentei meu Recital Sons do Vento na Casa da Cultura Equatoriana. Foi muito difícil conseguir a sala Benjamín Carrión por minha aparência de hippie.

Tenho uma anedota que enche meu coração de ternura. Meu pai se opôs com tanta veemência a que eu fosse cantor, no entanto, quando um dos meus irmãos conseguiu uma guitarra de muito boa qualidade e ainda não a havia terminado de pagar, o fabricante disse que se não pagassem naquele dia iria buscá-la. Com o coração apertado, deixei a guitarra e fui para o colégio. Quando voltei, a guitarra ainda estava lá. Perguntei — Por que ele não levou a guitarra? — Seu pai pagou — disse minha mãe. Tenho uma canção chamada “O pai do músico” que fala sobre isso, diz enquanto seus olhos brilham.

A guitarra que minha cunhada me deu terminou quebrada sob uma tijolada quando tentamos fazer o primeiro festival de rock na Universidade Central em 1974 mesmo. Daí surgiu a canção “Senhor proibicionista”.

Eu tinha um certo conflito entre ser pintor e ser músico. Eu era ouvinte na Faculdade de Artes da Universidade Central. Naquela época, graças à ioga, eu abominava o álcool e, na inauguração, não dei nenhuma bebida alcoólica, nem mesmo o típico vinho de honra, nada. Dei água de velha, diz ele com um sorriso.

– Quantas músicas Chamo Guevara já gravou?

Mais de 500, de todos os tipos, cores e sabores.

– Como era sua casa naquela época?

Era uma época influenciada pela religião. Na minha casa, três das minhas tias eram freiras franciscanas e, do lado do meu pai, havia um tio que era padre dominicano. Nós os amávamos muito, mas você não podia questionar a religião. Antes de comer, eles nos obrigavam a rezar.

Comunismo era uma palavra ruim. Quando alguém falava em comunismo, era para denegri-lo.

A palavra sexo era impronunciável em casa.

– Com que idade você teve sua primeira namorada?

Quando eu tinha 15 anos, ela se chamava Silvana.

– Cantava para ela?

Claro que sim. Eu fiz uma serenata para ele na cozinha da minha casa.

– Você concorda em ser um anarquista?

Claro que sim. Anarquismo é luta. É o ideal de uma sociedade livre, solidária, sem a necessidade de estado ou governo. Nós nos opomos à autoridade, porque a autoridade gera corrupção.

– Você acha que o socialismo funcionou, especialmente o chamado socialismo do século XXI?

Acho que a humanidade tem buscado a forma mais harmoniosa de viver. Em certos momentos, ela entrou em contradição absoluta com o socialismo e passou para o lado do fascismo.

No caso dos representantes do socialismo do século XXI, eles fizeram isso com ilusão, mas chegaram ao poder e começaram a circular os milhões e disseram: isso é bom, vou ficar aqui por mais um mandato, melhor dois, depois três. O poder corrompe e o poder total corrompe totalmente.

El Chamo Guevara confronta o poder:

Tive um forte confronto com (Rafael) Correa. Eu tinha acabado de sair de uma padaria para comprar leite e pão. Vi a comitiva real, diz ele com ironia. Então, lancei um yucazo. Os carros e as motocicletas pararam bruscamente na rua Yaguachi. Três policiais com fuzis desceram e apontaram suas armas para mim. -Fique quieto”, disseram eles, enquanto Correa descia. -Se vocês têm algo contra mim, venham aqui”, gritou Sua Majestade, enquanto fazia uma pose de lutador de rua. -Deixe-me atender o senhor”, disse eu aos policiais. -Se você se mexer, vamos arrebentar suas bolas”, eles me ameaçaram. -Eu fiquei quieto porque ainda queria tê-las inteiras. -Esse bêbado vai para a cadeia”, gritou Sua Majestade. -Você acha que eu tenho medo de você”, também gritei. -Eu mesmo entrarei na carruagem”, disse eu, andei alguns passos e quis entrar na caravana presidencial. Não, deixe-o ir em um carro de patrulha”, disse alguém de dentro. Eles me deixaram com dois policiais, o carro-patrulha nunca chegou. Eles falavam em código, repetindo SPR, SPR, depois descobri que se tratava do Sr. Presidente da República.

El Chamo Guevara na prisão.

“Eu poderia ter completado as dez vezes na prisão, mas não o fiz. Cheguei perto. Meu violão tinha cerca de cinco”, diz ele com uma risada. Mencionamos algumas.

A primeira vez foi quando eu tinha quinze anos, por causa da minha aparência, entre outras coisas, o cabelo comprido. As pessoas me olhavam de forma errada. Alguém chamou a polícia. Essa foi minha primeira prisão.

A segunda foi durante as greves nacionais na época do triunvirato militar.

Em outra ocasião, em um protesto durante o governo de (Oswaldo) Hurtado, eles me prenderam e me colocaram em um tripé (pernas abertas, mãos cruzadas atrás das costas e a cabeça no chão, como se formasse uma terceira perna), e aí, sim, pauladas. Fui espancado, esbofeteado, batido, cuspido, insultado, até que um deles me acertou no crânio. Vi luzes até me dar conta de que estava sendo carregado por um policial até a cela. Eu havia desmaiado. Eu tinha cerca de 28 anos de idade. A partir de então, fui diagnosticado com um angioma cavernoso na cabeça, o que me causou epilepsia.

No CDP, eles nos faziam fazer fila todas as manhãs, e na nossa frente havia um guia que perguntava: qual é o seu nome, por que você está aqui? Eles respondiam: por roubo, por morte, por manifestações. Na parte de trás havia outro guia sussurrando: aqui estão as ayoras (sucres, dinheiro) se você quiser ser uma bicha na cela. Naquela época, a homossexualidade era proibida e considerada um crime. Os gays eram levados para um determinado segmento do CDP, retirados à força e trancados para serem estuprados pelos outros prisioneiros.

Eu gostava muito de ir para a prisão com outros artistas. Em junho, nos velhos tempos, antes da década, eu gravava, ganhava – diz ele, desenhando aspas no ar -, havia a semana do prisioneiro, eles traziam artistas, havia danças entre os prisioneiros e lembro que me pediram para cantar Los fluviomarinos, uma música que compus com base no relatório científico da polícia sobre o desaparecimento e a morte dos irmãos Restrepo, que dizia: os meninos foram jogados no rio Machángara no carro Trooper da família e lá foram devorados pela fauna fluviomarinha.

– O que você acha da liberdade?

Sem liberdade não há vida. É praticamente a morte.

– E quanto à democracia?

É uma conquista, um certo passo que a humanidade deu após o período feudal, mas, como sempre, aqueles que estavam no poder rejeitaram totalmente a democracia.

– Durante qual presidência foi mais difícil participar de protestos?

Sem dúvida, durante a presidência de León Febres Cordero. Correa era apenas mais um homem repressor.

A saúde de El Chamo Guevara:

Eu tinha um carma ruim na minha saúde. Epilepsia, herdada na prisão, devido a uma pancada na cabeça. Há dez anos, eu estava a caminho de El Dorado em um ônibus – eu não sabia que estava competindo com outro ônibus – que deu um salto feio e vários passageiros – embora estivéssemos sentados – pularam dos assentos. Caí de costas e quebrei a coluna e o joelho. Eu me recuperei da coluna, mas meu joelho ficou ruim. Fiz uma música chamada Pobrecitos los buseros, é uma espécie de vingança. Eu tinha hepatite B, foi uma doença muito difícil de superar, mas consegui.

– Depois de tantas experiências, músicas, doenças, o que mais falta para você fazer?

Quero gravar muitas músicas que já foram feitas e também adaptações de outros cantores e compositores de outros países.

Recentemente gravei um tango chamado “El extremista”, ele diz e imediatamente canta a capela.

O extremista é o único culpado por esses dias instáveis para nossa bela paz?

 Tenho em mente fazer uma música chamada El muñeco de cartón, referindo-se ao presidente Daniel Noboa Azin.

A luz pálida que entra pela janela avisa sobre a chuva naquele dia de final de março. A conversa termina, ele se levanta e mostra suas pernas muito longas enfiadas em uma calça jeans, seus sapatos de salto alto estilo montanha, seu moletom preto, seu lenço palestino vermelho e preto, seu cabelo grisalho que cai até o meio das costas e sua sempre presente boina preta. Ele parece um pouco cansado, respira fundo e estica o braço direito como se quisesse dizer que isso é tudo por hoje.

Fonte: https://www.eluniverso.com/noticias/ecuador/jaime-guevara-el-anarquismo-es-el-unico-camino-a-la-libertad-nota/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

luzes da cidade —
uma folha de papel
cai não cai na brisa

Alexander Pasqual

[Espanha] Livro | Severino Campos. Uma vida por um ideal

Às vezes chamado carinhosamente de “o pequeno jacobino”, Campos nos conta a história de sua vida aqui.

Nascido em 1905, ingressou na CNT em 1918. Pertenceu ao grupo de afinidade O Produtor, e em novembro de 1931 ingressou no CR da CNT catalã.

Estas memórias, escritas aos 91 anos, não podem deixar de nos mostrar um Campos já sumido em certo declínio intelectual. No entanto, são um dos poucos testemunhos remanescentes da atuação dos Grupos de Defesa Confederal.

Exilado após a guerra, estabeleceu-se na América do Sul e mais tarde no México. Retornando à Espanha após a morte do ditador, ele reviveu suas antigas glórias, sendo diretor do Solidaridad Obrera em 1979 e editor de 1982 a 1983.

Em 25 de março de 2006, ele morreu no México.

>> Baixar o livro aqui:

https://www.solidaridadobrera.org/ateneo_nacho/libros/Severino%20Campos%20-%20Una%20vida%20por%20un%20ideal.pdf

Fonte: https://www.portaloaca.com/historia/biografias/libro-severino-campos-una-vida-por-un-ideal/

agência de notícias anarquistas-ana

Na tarde de neve
Passa desaparecendo
Um só guarda-chuva.

Yaha

[França] Ser anarquista (1934) – Fernand Planche (1900-1974)

Uma declaração apaixonada do que significa ser um anarquista.

Ser anarquista significa, acima de tudo, ser bom; significa pensar, sonhar e discutir sem sectarismo.

Significa odiar tudo o que causa sofrimento, lágrimas e morte.

Significa conceber e explicar as coisas de forma clara, simples, sem medo das consequências e sem esperança de lucro.

Significa rejeitar tudo o que é feio, mesquinho, desumano, servil ou dócil.

Significa aproximar-se de tudo o que é belo, bom, orgulhoso, justo, amigo da liberdade e da verdade.

Significa seguir um caminho reto, sem se distrair com ameaças, insultos ou apelos à traição.

Significa ser útil, inclinando-se aos sofrimentos de seus semelhantes; um lutador, guiando aqueles que se rebelam; um pensador, vislumbrando a aurora de um dia melhor.

Significa acarinhar o amante, guiar os passos vacilantes da criança, reverenciar a velhice, ajudar os que estão ao seu redor.

É não se limitar a nenhum horizonte, a nenhuma fronteira; é querer ser irmão de todos os seres humanos, sem distinção de raça, idioma ou cor.

É escalar montanhas, correr pelas planícies, entregar seu corpo à pureza do riacho, aos raios benéficos do sol.

Significa saborear os belos frutos maduros, morder o fruto ainda mais belo do amor; fazer dos animais uma segunda família, fiel, amorosa, afetuosa.

Significa viver intensamente sem preconceitos, sem respeito aos costumes antiquados, inveja, ressentimento ou ódio; viver duas vidas significa viver duas vezes.

***

Quantos pensavam que eram anarquistas, mas estavam cegos pela visão deslumbrante. Para eles, o egoísmo banal assumiu o controle, e uma sinecura falsamente nutritiva pôs fim ao belo sonho que haviam vislumbrado; eles não foram feitos para esse sonho fantástico, para esse apostolado.

Mas quantos também foram anarquistas sem saber, todos os nomes que, depois de uma vida de coragem, bondade, rebeldia e generosidade, deixaram uma lembrança na história, foram dignos de nosso nome, e também os eclipsados que lutaram, sofreram e morreram para que a humanidade pudesse avançar.

Vá em frente, meu amigo, você que me lê e talvez esteja indeciso, não hesite mais, a mais bela causa lhe é oferecida.

Leia, reflita, observe, discuta, analise, compreenda e lance-se à luta; as satisfações superarão em muito as tristezas e, na alvorada de sua vida, antes que seus olhos se fechem para sempre, quando em um instante o filme de sua existência se desenrolar em uma retrospectiva breve demais, nenhuma preocupação escurecerá sua testa, nenhum arrependimento obscurecerá seus lábios, exceto o pesar pelo fato do sonho estar se interrompido e encerrando.

Fonte: https://libertamen.wordpress.com/2024/07/24/ser-anarquista-1934-fernand-planche/

Tradução > anarcademia

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lá se vão as garças
vão pairando sobre o rio
vão cheias de graça

Gustavo Felicíssimo

[Espanha] Lançamento: “¡Guerra a la Guerra!”, de Ernst Friedrich

Traduzido a mais de quarenta línguas desde sua publicação original em 1924, ¡Guerra a la Guerra! é já um clássico do antibelicismo global, um demolidor apelo no qual a fotografia funciona como terapia de choque.

Apresentamos a primeira edição em castelhano de um foto livro concebido como arma de conscientização massiva. Terminada a Primeira Guerra Mundial, o militante pacifista Ernst Friedrich compilou centenas de fotografias procedentes principalmente de arquivos militares e médicos. Eram a cara oculta do conflito armado, as imagens que os governos e agências propagandísticas haviam considerado impublicáveis por sua extrema dureza e contundência. Decidido a desenhar um livro que desmontasse o heroísmo da guerra, Friedrich nos leva do cume à tumba, dos soldadinhos de chumbo aos imensos cemitérios dedicados aos caídos na Grande Guerra.

Vemos-nos ante uma das obras mais impactantes de todo o século XX, acompanhada também nesta edição de um ensaio introdutório no qual se discute a ideia de autenticidade ou verdade associada ao meio fotográfico, o auge dos foto livros na Alemanha de entre guerras ou a apaixonante história de vida de Ernst Friedrich -fundador do mítico Museu  Anti-Guerra de Berlin, arrasado pelos nazis em 1933 e reconvertido em centro de detenção e tortura das SA.

Respeitando sua formulação original e seu espírito internacionalista, todas as edições de Guerra à Guerra! Incluem os textos em quatro idiomas diferentes. Nesta ocasião: castelhano, inglês, francês e alemão.

Ernst Friedrich

Ernst Friedrich nasceu em Breslau em 1894, militando desde muito jovem no movimento obreiro e antimilitarista, e cumprindo condenação em 1916 por atos de sabotagem contra a indústria armamentísta. Em 1924, sendo já uma figura destacada, publicou Guerra à Guerra!, e, meses mais tarde, inaugurou em Berlim a primeira sede do Museu Anti-Guerra, um importante espaço político-cultural até a chegada dos nazis ao poder, quando arrasaram o lugar e Friedrich foi detido.

¡Guerra a la Guerra!

Ernst Friedrich

Introdução de Erica Grossi

Edição e tradução de Ander Gondra Aguirre

Páginas: 304 en B/N

18.50€

sanssoleil.es

agência de notícias anarquistas-ana

Livro nas mãos
O poeta declama
Chapéu na cabeça

Conceicao Chaves

María “La Jabalina”, anarquista espanhola

Recordamos nossa jovem lutadora da anarquista Coluna de Ferro, conhecida por sua coragem e valentia, como La Jabalina, foi uma das poucas mulheres fuziladas pelo fascismo franquista em Valência, no paredão de Paterna, nos anos posteriores à guerra civil. María Pérez La Cruz, torturada e assassinada em 8 de agosto de 1942.

Incorporada à Coluna com 19 anos, combateu na frente de Teruel, decidida a enfrentar os fascistas e ao mesmo tempo fazer a revolução. Foi presa em 1939. Com a cabeça raspada, os fascistas a fizeram marchar pelas ruas de Sagunto e depois suportou surras, torturas e abusos durante três anos no cativeiro.

Viu seu último amanhecer em 8 de agosto de 1942, quando foi conduzida ante um pelotão de fuzilamento em Paterna.

A memória desta miliciana sempre esteve presente, em sua família e no Movimento Libertário.

Breve biografia de María aqui:

Heroínas: María la Jabalina anarquista española (heroinas.net)

Estima-se que umas 30.000 crianças foram roubadas e suas identidades alteradas nas prisões e hospitais espanhóis durante e depois da guerra civil, pela ditadura franquista.

O filho ou filha de María Pérez La Jabalina foi um deles:

The Stolen Child of Francoism’s Last Female Shooting Victim, María Pérez Lacruz (katesharpleylibrary.net)

Sua lembrança permanece, NÃO ESQUECEMOS!!!

Fonte: https://memorialibertaria.org/maria-la-jabalina-anarquista-espanola/

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/03/06/espanha-lancamento-hq-maria-la-jabalina-de-cristina-duran-e-miguel-a-giner-bou/

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O pássaro procura
os filhotes, o ninho.
Galho caído…

Rodrigo de Almeida Siqueira

[Argentina] Anarcocapitalismo?

“Anarcocapitalismo”, “fascismo”, “neoliberalismo”, “imperialismo”, “colonialismo”, “extrativismo”… eles não sabem mais o que dizer para manter o “bom nome” do modo de produção capitalista a salvo. Para não chamá-lo pelo que ele é.

Não estamos nos referindo aqui aos atuais defensores rudes do capitalismo, mas a seus defensores mais sutis, seus supostos reformadores ou supostos controladores, que se concentram na parte dessa sociedade que não lhes agrada ou em alguns de seus “excessos”. Assim, temos os autoproclamados anticapitalistas que chamam certos aspectos de capitalismo e não vão ao cerne da questão, bem como os seguidores do bom capitalismo que só precisa de uma limpeza de seus aspectos mais prejudiciais, que eles preferem chamar de outra coisa. O progressismo peronista é a encarnação mais palpável e atual deste último, razão pela qual tem sido o principal partido da ordem nas últimas décadas, enquanto os primeiros se limitaram a ser o seu vagão, o que é cada vez mais evidente diante do “avanço da direita”.

Cristina Fernández de Kirchner destacou, com relação à agricultura e à mineração, que se trata de “um setor que tem crescimento, mas que, à medida que se desenvolve em nosso país, fala de um plano extrativista, ou seja, a tomada de todos os recursos naturais sem valor agregado, sem tecnologia, sem industrialização, em outras palavras, pré-capitalista, porque me lembra a Argentina do Vice-Reino do Rio da Prata, onde eles tomaram toda a riqueza e não deixaram nada, portanto, em vez de anarcocapitalismo, me parece anarcocolonialismo”.

Não há aqui nenhuma tentativa de cooptar os movimentos sociais, como algumas pessoas pensam quando compartilham com um funcionário a terminologia que consideram ser a sua própria. Se o principal gerente das duas últimas décadas de um estado que representa um espaço de acumulação de capital baseado principalmente na produção primária fala de extrativismo e colonialismo, isso nos diz mais sobre os termos usados do que sobre a pessoa que os usa ou sobre o setor que ela representa.

O discurso de um dos líderes da oposição política ao atual governo não é muito diferente do discurso da esquerda e de boa parte dos movimentos sociais. Mas não se trata de uma “apropriação” de discursos, mas de uma perspectiva que, por mais equivocada que seja, pode ser compartilhada com o peronismo, progressista ou não. E não faz sentido relembrar o envolvimento do peronismo em cada uma das transformações do capitalismo local, incluindo o chamado “neoextrativismo progressista” do kirchnerismo, se então abraçarmos a lógica do mal menor.

Em vez de se enredar em discursos, é mais pertinente analisar o lugar da Argentina e da região na divisão internacional do trabalho, bem como as características da reprodução do capital e do proletariado, a fim de compreender o conteúdo das lutas que estão ocorrendo e suas perspectivas. Caso contrário, na ausência de reflexão, a esperança política e estatista, o nacionalismo de esquerda e peronista, estará sempre à mão para manter a ordem capitalista.

Há algumas edições, refletimos sobre o slogan “a pátria não está à venda”. Lá, destacamos algo tão básico quanto fundamental: aqueles de nós que não possuem nada não podem vender algo que não nos pertence. Envolver-se na defesa dos interesses de algum setor da burguesia impede uma compreensão e uma luta que se oponha à exploração, mas, além disso, não foi demonstrado que isso necessariamente leve a uma melhoria nas condições de venda de nossa força de trabalho.

Insistimos na necessidade de questionar a normalidade com que uma sociedade de classes com que se aceita e celebra a propriedade privada dos meios de produção. Onde é necessário vender nosso tempo e energia, nossa força de trabalho, para sobreviver. Onde não podemos decidir coletivamente o que e como produzir. Onde o dinheiro é o mediador de todas as atividades e vínculos humanos. Onde impera a falta de sentido, ou melhor, a razão capitalista para casas vazias enquanto muitos dormem nas ruas e tantos outros estão superlotados. Onde toneladas de alimentos disponíveis são jogadas fora. Onde cada vez mais a população é excedente para as necessidades do capital.

Tudo isso não está abertamente em questão, mas apenas quem administra toda essa privação e alienação em nível local. Quem governa para atender aos interesses de um ou outro setor burguês.

boletinlaovejanegra.blogspot.com

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Leve escorre e agita.
A areia. Enfim, na bateia
fica uma pepita.

Guilherme de Almeida

[França] Reivindicação de sabotagem das linhas de TGV algumas horas antes da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris 2024.

Eles chamam isso de celebração? Nós a vemos como uma celebração do nacionalismo, uma produção gigantesca de subjugação de populações pelos Estados.

Sob o pretexto de diversão e convívio, os Jogos Olímpicos oferecem um campo de testes para a gestão policial de multidões e o controle generalizado de nossos movimentos.

Como todos os grandes eventos esportivos, eles também são uma ocasião para cultuar os valores que sustentam o mundo do poder e do dinheiro, da competição generalizada, do desempenho a todo custo e do sacrifício pelo interesse e pela glória nacional.

A exortação a se identificar com uma comunidade imaginária e a apoiar o lado ao qual supostamente se pertence não é menos prejudicial do que o incitamento permanente a ver a própria salvação na saúde da economia nacional e na força do exército nacional.

Atualmente, é preciso uma dose cada vez maior de má-fé e negação para não enxergar todo o horror gerado pela sociedade de consumo e pela busca do chamado “bem-estar ao estilo ocidental”. A França gostaria de usar esse grande evento como uma vitrine de sua excelência. Somente aqueles que decidiram colocar antolhos e tolerar o evento poderão se iludir sobre seu papel virtuoso. A eles, oferecemos nosso mais profundo desprezo.

A influência da França depende da produção de armas, cujo faturamento a torna a segunda maior exportadora do mundo. O Estado tem orgulho de seu complexo militar-industrial e de seu arsenal “made in France”. Espalhar os meios de terror, morte e devastação pelo mundo para garantir sua prosperidade? Isso é besteira.

Para o desgosto dos ingênuos que ainda acreditam em fábulas democráticas, o Estado francês também usa sua panóplia repressiva para confrontar sua própria população. Para reprimir os tumultos que se seguiram ao assassinato de Nahel pela polícia em junho de 2023 ou para tentar deter o levante anticolonial de Kanaky mais recentemente. Enquanto ele existir, o Estado nunca deixará de usá-lo para combater aqueles que desafiam sua autoridade.

As atividades das empresas francesas em todo o mundo tornam cada vez mais evidente a devastação social e ambiental causada pelo sistema capitalista. A devastação necessária para reproduzir a organização social atual e a devastação inerente ao progresso científico e tecnológico. Um progresso que só vê na cadeia de desastres passados, presentes e futuros uma oportunidade de dar um salto adiante.

A empresa petrolífera TOTAL continua a saquear e a pilhar novas regiões em busca de petróleo e gás de xisto (África Oriental, Argentina, etc.). Sob o pretexto de seu novo rótulo verde, a indústria nuclear e a exportação do know-how nuclear francês garantem, mais cedo ou mais tarde, um planeta irradiado e, portanto, literalmente inabitável. Mais uma crise a ser gerenciada pelos promotores do átomo. Eles não podem prescindir de sua cooperação com o Estado russo por meio de sua gigante Rosatom e do apoio de seu exército para esmagar a revolta no Cazaquistão em 2022, um importante fornecedor de urânio. O mineral que alimenta os 58 reatores da França.

Então, qual é o custo humano, social e ambiental de alguns poucos privilegiados viajarem rápido e longe pelo TGV? Muito alto. A ferrovia não é uma infraestrutura insignificante. Ela sempre foi um meio de colonizar novos territórios, um pré-requisito para sua devastação e um caminho pronto para a extensão do capitalismo e do controle estatal. A construção da linha Tren Maya no México, na qual a Alstom e a NGE estão colaborando, é uma boa ilustração disso.

E quanto às baterias elétricas, essenciais para a chamada “transição energética”? Fale sobre isso, por exemplo, com os trabalhadores da mina de Bou-azeer e com os habitantes dos oásis dessa região marroquina que estão pagando o preço dessa corrida do ouro do século XXI. A RENAULT extrai os minerais necessários para aliviar a consciência dos ambientalistas das metrópoles, à custa de vidas sacrificadas. Converse com os “povos da floresta” da ilha de Halmahera, no nordeste da Indonésia, os Hongana Manyawa, que se desesperam ao ver a floresta onde vivem destruída no altar da “transição ecológica”. O governo francês, por meio da ERAMET, está envolvido na devastação de terras antes intocadas. Da mesma forma, ele não quer se livrar das rochas da Melanésia para continuar extraindo o precioso níquel.

Pararemos por aqui com o impossível inventário das atividades mortais e predatórias de cada Estado e de cada economia capitalista. De nada adiantaria sair de uma vida monótona e deprimente, uma vida de explorados, e confrontar a violência dos Estados e dos líderes religiosos, dos chefes de família e das patrulhas policiais, dos patriotas e das milícias patronais, bem como a dos acionistas, empresários, engenheiros, planejadores e arquitetos da devastação em curso.

Felizmente, a arrogância dos governantes continua a se chocar com a raiva dos oprimidos rebeldes. Dos tumultos à insurreição, em demonstrações ofensivas e revoltas, por meio de lutas diárias e resistência subterrânea.

Que a sabotagem das linhas de TGV que ligam Paris aos quatro cantos da França, os gritos de “mulher, vida, liberdade” do Irã, as lutas dos amazonenses, o “nique la france” da Oceania, o anseio por liberdade no Levante e no Sudão, as batalhas que continuam por trás dos muros das prisões e a insubordinação dos desertores em todo o mundo ressoem neste dia.

Àqueles que criticam o fato de esses atos estragarem a estadia dos turistas ou atrapalharem as viagens de férias, respondemos que isso ainda é pouco. Tão pouco comparado ao evento do qual desejamos participar e que pedimos de todo o coração: a queda de um mundo baseado na exploração e na dominação. Então teremos algo para comemorar.

Uma delegação inesperada

Fonte: https://www.briega.org/es/opinion/reivindicacion-sabotaje-lineas-tgv-horas-antes-ceremonia-apertura-jjoo-paris-2024

Tradução > Liberto

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/07/11/franca-protestos-contra-as-olimpiadas-de-paris-uma-betoneira-para-turistas-e-a-especulacao/

agência de notícias anarquistas-ana

Ufa! que parece
que a gente vai caminhando
com o sol às costas!…

Jorge Fonseca Jr.

[Espanha] “Por um mundo sem gaiolas para meus amigos animais”. Carta da prisão de Estremera.

Transcrevemos a primeira carta recebida de um camarada que está preso em Estremera, Madri. Ele compartilha conosco algumas reflexões sobre sua própria prisão e também preocupações e posições sobre a prisão de animais não humanos. Achamos que foi uma bela carta e uma bela história, com a qual termina “O menino que amava os animais”.

Junho de 2024. Prisão de Estremera (Madri)

Muito obrigado por escrever para mim. Para mim, é uma injeção de apoio, pois me sinto um pouco solitário. Ainda mais agora que perdi o contato com X e outros amigos.

Eles me disseram que você recebeu meus desenhos e que eles faziam parte de sua exposição. Eles eram apenas uma parte de um texto com dez desenhos de animais, que eu intitulei “animalmente”. É uma crítica ao confinamento de gigantes enjaulados, a partir de uma perspectiva animalesca. Começa assim: “O homem, homo-sapiens, é o único animal na natureza que constrói prisões e as mantém com orgulho. O único que engana e captura prisioneiros por martírio, por ódio, desprezo, vingança, arrogância, por prazer ou puro negócio…”. Também tenho outros textos inéditos, como “negócio-prisão”, “a cultura do medo” ou “a sociedade da punição”, e desenhos anti-prisão.

Também continuo a lutar com minha caneta para denunciar os abusos e as deficiências dessa prisão em Estremera. O que estou fazendo de melhor é a questão médico-sanitária, já que estamos sendo privados de nosso direito à saúde, bem como a evidência de abusos na prisão e algumas das maldades de seus tiranos-prisioneiros. E, nesse sentido, me sinto ainda mais sozinho. O coletivo de prisioneiros dificilmente faz qualquer exigência. A maioria não tem consciência de seus próprios direitos, demonstrando pouco interesse e fazendo pouco esforço para mudar a situação. Uma triste e perigosa involução carcerária vem ocorrendo há algum tempo. Como eu digo, “os prisioneiros de hoje não são como os do passado, e muitos dos do passado mudaram”, ou assim eu penso. O prisioneiro de hoje é mais hostil ao próprio prisioneiro e mais companheiro do carcereiro.

Eu me identifico muito com o que você diz, que às vezes parece que você está em outra dimensão. Sempre me senti assim. Nunca entendi o sistema ou muitas de suas pessoas, ou o desejo de aparecer, ou de dar mais importância ao ter do que ao ser, ou a cultura do medo, ou a sociedade da punição. Nunca entendi as guerras, nem o quarto escuro, nem os maus-tratos aos animais.

Por um mundo também sem gaiolas para meus amigos animais. Eu lhe envio uma mensagem. Um grande abraço.

Cherra.

O menino que amava os animais

Tive uma infância adorável, com uma exceção: felizmente, eu era diferente. Por isso, meus pais me amavam loucamente e faziam de tudo por mim, tanto que às vezes era difícil para eles me pegarem.

Meu pai frequentemente me levava a touradas. Eu era branco e confuso, não sabia onde me esconder. Não sabia como me expressar. Então meu pai dizia à minha mãe: “O menino não gosta de touradas”.

Meu pai me levou ao circo para ver os elefantes, que para outras crianças eram majestosos. Para mim, eles também estavam acorrentados. Eu também não sabia como me expressar. Meu pai disse à minha mãe: “O menino não gosta do circo nem dos elefantes”.

Nos fins de semana, meu pai me levava ao zoológico, as crianças riam, eu chorava. Eu me escondia e fingia estar doente. Então meu pai disse à minha mãe: “O menino não gosta do zoológico nem dos animais”.

Quando eu tinha cerca de seis anos de idade, finalmente me expressei. Soltei todos os animais da casa de campo do vilarejo: as galinhas, os patos, os leitões e o lindo cavalo. Minha mãe disse ao meu pai: “Você está errado, o menino adora animais”.

Fonte: https://lacorda.noblogs.org/post/2024/07/30/por-un-mundo-tambien-sin-jaulas-para-mis-amigos-los-animales-carta-desde-la-prision-de-estremera/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Quando a chuva pára
Por uma fresta nas nuvens
Surge a lua cheia.

Paulo Franchetti

[Argentina] “De La Patagonia Trágica a La Patagonia Rebelde. Crónica de una película”, um livro de Horacio Ricardo Silva

Amigos e amigas, companheiras e companheiros: no mês passado completaram cinquenta anos da estreia de “La Patagonia Rebelde”, um dos grandes clássicos do cinema argentino de todos os tempos, aquela fiel adaptação que realizou Héctor Olivera dos dois primeiros tomos de “Los vengadores de la Patagonia Trágica”, de Osvaldo Bayer. Nosso querido amigo Horacio Silva – escritor, jornalista, historiador – nos deixou um livro inédito magnífico sobre este legendário longo metragem, ícone da cultura rebelde setentista: “De La Patagonia Trágica a La Patagonia Rebelde. Crónica de una película”. Com algo de atraso (o lançamento não pode ser na quinta-feira, 13 de junho, a data do cinquentenário), compartilhamos hoje o livro completo, em formato eletrônico PDF. É um material de acesso totalmente livre e gratuito. Valoriza-se a leitura e se agradece a difusão! Oxalá em um futuro não tão longínquo, se a situação econômica da Argentina melhora, se possa editar o livro em papel.

O prólogo foi escrito por nosso companheiro Federico Mare, também editor e revisor do livro. Nossa profunda gratidão para com a companheira de Horacio, Sonia Balzano e com seu filho Germán Silva. Sem sua predisposição, sem sua ajuda, sem seu trabalho, nada de tudo isto teria sido possível.

Saúde e RS!

http://www.librosdeanarres.com.ar/#!/producto/110/

https://kalewche.com/wp-content/uploads/2024/07/SILVA-De-la-Patagonia-Tragica-a-la-Patagonia-Rebelde.pdf

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Ao virar a esquina,
Saindo de trás do prédio –
A lua cheia.

Paulo Franchetti

Novo vídeo | Massacre em Douradina e a Resistência Kaiowá e Guarani

Em julho e agosto de 2024, as aldeias e retomadas Kaiowá e Guarani na Terra Indígena Panambi – Lago Rica, nos territórios ocupados pelos estado do Mato Grosso do Sul, tem sofrido ataques armados a mando de latifundiários. Dezenas de pessoas ficaram gravemente feridas. A Força Nacional esteve presente, mas permitiu as agressões contra a comunidade indígena. O Ministério dos Povos Indígenas enviou representante, que solicitou que as vítimas do massacre fossem mais pacíficas.

Embora o governo federal de Lula e seu Partido dos Trabalhadores afirme defender a luta dos povos indígenas, investe muito mais no agronegócio e outros projetos que ameaçam suas terras e modo de vida, do que na defesa desses territórios.

Seja sob governos de direita ou de esquerda, o massacre continua. Pois o genocídio indígena é um dos pilares do Estado Brasileiro. Desde sua criação. O Estado depende do crescimento econômico contínuo e por isso precisa aniquilar as vidas e culturas indígenas que protegem as florestas, para assim poder explorar suas terras e recursos. Nenhum governo vai mudar isso.

Para que os povos indígenas possam viver, o Estado deve morrer.

Vamos somar forças nos territórios e nas cidades, para queimar as instituições que botam fogo na floresta. Junte-se às mobilizações contracoloniais e as frentes de contrataque. Antes que seja mais tarde ainda.

>> Assista o vídeo aqui:

https://kolektiva.media/w/oSEEwDFdY2ozWHUSs6NVjp

agência de notícias anarquistas-ana

cai, riscando um leve
traço dourado no azul
uma flor de ipê!

Hidekazu Masuda

[México] Reivindicação de ação contra a “Torre del Bienestar”: “Decidimos agir diante da devastação capitalista”.

No domingo, 4 de agosto de 2024, detonamos uma bomba feita de dinamite, pólvora e gás butano nas instalações da chamada “Torre del Bienesta ” na Cidade do México. Decidimos agir diante da devastação capitalista que se impõe, NÃO VAMOS CEDER. Eles não podem nos oferecer nenhuma “esmola”, nós continuaremos agindo. Até o fim.

Não queremos a depredação civilizatória deles, queremos ser selvagens, nos unir à natureza. E nós somos a natureza se defendendo, e… nunca vamos parar. Nem nós nem nossas filhas seremos seus servos, nem seus cozinheiros, nem seus objetos de estupro. Preferimos lutar, lutar até o fim deles ou o nosso. Não temos medo deles.

Mas sua ordem predatória não será imposta. O “candidato” mexicano só oferece mais depredação. Nós lutaremos contra isso.

Coordinadora Informal de Mujeres Anarquistas contra la depredación Civilizatoria. Agrupamos a Coordinadora de mujeres anarquistas para la defensa de nuestro cuerpo-territorio (sul) e o Comando Feminista Informal de Acción Antiautoritaria (centro-sul).

Estamos juntas agora contra sua “civilização” predatória. Norte, centro e sul do México.

Liberdade aos prisioneiros anarquistas!

Liberdade a Mônica Caballero

Francisco Solar Liberdade!

Alfredo Cóspito Liberdade!

Não descansaremos até que a última jaula caia!

agência de notícias anarquistas-ana

No meio da noite,
A voz das pessoas que passam —
Que frio!

Yaha