[Espanha] Almeida não encontra local para a estátua da anarquista Federica Montseny aprovada pelos chamberileros

Um informe municipal assegura que a Prefeitura de Madrid não encontra “nenhum local adequado” em Chamberí, seu bairro de nascimento, para a que se converteu na primeira ministra na história da Espanha, a quem foi acordado homenagear com um busto na edição de Orçamento Participativo de 2021.

Por Diego Casado | 30/05/2024

Nem nos Jardins de Concha Méndez, nem no Parque Santander, nem no de Enrique Herreros nem em nenhuma parte dos 4,68 quilômetros quadrados que abrange o distrito de Chamberí. A Prefeitura de Madrid não encontra nenhum lugar “ideal” para dedicar um busto à primeira ministra na história da Espanha, Federica Montseny, segundo um informe a que teve acesso este jornal e que se debaterá esta quinta-feira na Comissão de Qualidade da Paisagem Urbana.

A homenagem em forma de estátua foi aprovada pela própria Prefeitura em 2021 através da edição de Orçamento Participativo desse ano no distrito de Chamberí, onde nasceu Montseny em 1905. A proposta foi eleita ao ser a quinta mais votada pelos cidadãos desta zona central de Madrid e para sua fabricação e colocação se orçou a quantia de 18.000 euros.

Mas dois anos depois de conhecer os resultados desta votação popular, a equipe de Almeida resiste a colocar o monumento, segundo os documentos aos quais teve acesso Somos Chamberí. Em um informe prévio à Comissão de Qualidade da Paisagem Urbana, o conselho assegura que sua colocação é “inviável” porque descarta as localizações propostas pelo autor da ideia e a Junta de Chamberí manifesta que “não foi possível a localização de nenhum lugar que se considere ideal para sua colocação”.

Concretamente, a Prefeitura assegura que o busto não pode ir ao Jardim de Concha Méndez, na Rua Bretón de los Herreros “porque é dedicado a outra pessoa reconhecida da vida madrilenha” e “não resulta apropriado”. Tampouco pode situar-se no Parque Enrique Herreros por idêntico motivo. E nos parques Santander e do Canal se descartou por ser “propriedade da Comunidade de Madrid”. Assim que o grupo de trabalho de monumentos “considera inviável a solicitação”.

Nascida na Rua Cristóbal Bordiú, Federica Montseny (1905-1994) foi uma importante escritora e política espanhola, defensora do anarquismo. Em 1936, durante o governo de Largo Caballero na Segunda República, se converteu na primeira ministra do país ao assumir a pasta da Saúde e Assistência Social. Em seu breve mandato (até 1937) impulsionou pela primeira vez a descriminalização do aborto, cujo projeto de Lei não chegou a se aprovar ainda que sim na Catalunha através da Generalitat até as doze primeiras semanas de gestação.

Obrigada ao exílio depois da vitória franquista na Guerra Civil e a posterior ditadura, Montseny fixou sua residência em Toulouse, onde seguiu militando na CNT, a organização na qual estava filiada. Regressou à Espanha após a morte de Franco e continuou ministrando conferências e comícios até 1985.

Local para as estátuas militares

Mas Madrid lamenta que a Prefeitura não encontre espaço para este monumento. “É um veto a tudo o que Federica representa: as liberdades, os direitos das mulheres e a própria democracia”, denuncia sua conselheira Cuca Sánchez.

A edil acusa ao PP de “sectarismo ideológico” e assegura que “já alcançou os níveis de seus sócios do Vox”. Sánchez recorda: “Após demolir a marteladas a memória das vítimas da repressão da ditadura e do que foi primeiro ministro Largo Caballero, após levantar homenagens ao colonialismo da Legión, os tercios de Flandres ou os últimos de Filipinas, agora veta uma proposta cidadã aprovada nos orçamentos participativos de 2021”.

Almeida chegou à alcaldia em 2019 com a promessa de colocar uma estátua em Chamberí dedicada a Los últimos de Filipinas. Neste caso a Prefeitura encontrou local rapidamente: junto à Rua Alberto Aguilera, em um extremo da praça del Conde de Valle de Suchil, outro espaço do distrito dedicado à memória de uma pessoa que neste caso não foi um impedimento para receber o novo pedestal.

Muito perto desse mesmo lugar o alcaide permitiu a colocação de outra homenagem em forma de escultura: uma cabine vermelha em memória a Antonio Mercero, a pouca distância do lugar de rodagem de seu famoso filme.

Mais polêmica resultou a inauguração do monumento à Legión junto ao Passeio de la Castellana, outra estátua militar à qual o Governo de Almeida buscou uma localização em menos tempo do que está empregando para o busto da primeira mulher espanhola a dirigir um ministério.

Fonte: https://www.eldiario.es/madrid/somos/chamberi/almeida-no-encontra-local-estátua-anarquista-federica-montseny-aprovada-chamberileros_1_11404674.html

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/06/05/espanha-3-razoes-pelas-quais-federica-montseny-e-essencial-para-o-feminismo-e-o-anarquismo/

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O gato no cio
mia e remia
canta ao desafio

Eugénia Tabosa

[Espanha] Lançamento: Esboço de uma crítica à teoria e à prática leninistas, de Oscar del Barco

Editado por Pablo S. Lovizio

Introdução de Luis Ignacio García

O ponto de partida deste trabalho é o reconhecimento do fracasso da Revolução Russa, e seu objetivo é tentar entender esse fracasso. Partimos, portanto, de um fato que pode ser afirmado da seguinte forma: a Revolução de Outubro, por meio de um processo longo e dramático, encerrou uma sociedade baseada em novas formas de exploração. […] Sem exagero, podemos dizer que esse fracasso do projeto socialista em sua substância libertária e autolibertadora sempre foi conhecido; mesmo antes da revolução, houve quem alertasse, como Rosa Luxemburgo, que, a partir das premissas teóricas sobre as quais a organização revolucionária russa estava sendo construída, ela necessariamente terminaria em uma ditadura; e certamente não em uma ditadura dos explorados sobre os exploradores, mas dos líderes da organização revolucionária e dessa mesma organização sobre as massas populares. […]

Há decisões que a história metamorfoseia, produzindo resultados que não estavam na mente daqueles que as tomaram; caso contrário, a história seria translúcida. Não se trata, portanto, de julgar as intenções. E isso deve ficar claro: nosso objetivo não é seguir o itinerário dos sujeitos, mas o das forças, e quando nos referimos aos sujeitos, estamos realmente nos referindo a eles como formas dessas forças. Certamente, ninguém entre os líderes bolcheviques queria o fracasso da revolução, mas esse não é o problema; o problema é descobrir por que foram tomadas medidas que inevitavelmente levaram ao fracasso e quais eram as ideias que fundamentaram teoricamente essas medidas; ou seja, para nos expressarmos de forma paradoxal, qual teoria fundamentou o fracasso do socialismo.

Esboço de uma crítica à teoria e à prática leninista

Oscar del Barco

Editado por Pablo S. Lovizio

Introdução de Luis Ignacio García

ISBN: 978-84-126833-3-2

Páginas: 202

17,50€

https://terceroincluido.net/

Tradução > Liberto

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urubus desenham
no teto cinza da tarde
lentas espirais

Zemaria Pinto

Flecheira Libertária n. 763 | “Não há como “ressignificar” o terror do Estado.”

assimilados e uniformizados

A 28ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a maior e mais rentável do planeta, convoca o/a/es participantes a trajarem uniforme verde e amarelo. Em comunicado oficial, a entidade que organiza o evento declarou que Madonna e Pabllo Vittar, durante apresentação no show em Copacabana, “ressignificaram” a bandeira nacional, supostamente “apropriada pela ala mais retrógrada da sociedade, aquela que utiliza o amor à pátria como um disfarce para propagar o ódio”. Mesmo dentro do binarismo judaico-cristão, amor x ódio, qual bandeira nacional não celebra o monopólio do uso legítimo da força pelo Estado? Desde essas terras, empunhar a bandeira pela “ordem e o progresso” é aplaudir os mais de 500 anos de massacres, genocídios e etnocídios, e clamar por sua continuidade. Inclusive, é sob o tremular dessa bandeira que incontáveis existências não-heterossexuais são violentadas, torturadas e executadas. A camisa da CBF é campeã “do mundo”, deste mundo que possui ranking dos Estados que mais matam pessoas trans e travestis. Não há como “ressignificar” o terror do Estado. Essa bandeira é de quem apoia todas essas violências. Qual a ala mais “retrógrada da sociedade”: os patriotas sanguinários que coerentemente se embrulham na bandeira do Brasil ou as minorias democráticas que desejam ser o mesmo que toda essa merda.

Deus (ou Cristo), pátria e família LGBTQIA+

Na disputa por protagonismo identitário, na mesma semana da Parada, mercadologicamente chamada de Semana do Orgulho LGBT, ocorrerão dois eventos anteriores: a Marcha Trans e a Caminhada de Lésbicas e Bissexuais de SP. Es organizadorus da Marcha aderiram à convocação patriótica. Arrebanhades, também, pela esquerda, alegam que Madonna e Pabllo Vittar ressignificaram a bandeira ao utilizarem-na em um “contexto de amor e tolerância, distante do autoritarismo e da depredação”. Autoritarismo dos outros, claro, o delus, sob a condução da esquerda e o cada vez mais severo policiamento identitário, não. (Na Marcha do ano passado, teve até pregação de pastor evangélico LGBT). Tal qual a meta da Parada, a Marcha clama por democracia, mais e melhor representação política e mais segurança. Já as organizadoras da Caminhada não aderiram ao coro e consideram as cores verde e amarela vinculadas “à extrema-direita e ao fascismo”. Embora também rezem pela cartilha da segurança e peçam justiça por lésbicas assassinadas. Este ano, relembram a execução de Luana Barbosa por polícias, em 2016, e de Carol Campêlo, brutalmente executada, não se sabe por quem, no final do ano passado. Para elas, fica o recado das anarquistas que agitam as ruas mexicanas: “me cuidan mis amigxs, no la policía”. Aos outres, que algo desafine seu coro de hino nacional e de louvores em meio à música pop.

>> Para ler o Flecheira Libertária na íntegra, clique aqui:

https://www.nu-sol.org/wp-content/uploads/2024/05/flecheira763.pdf

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As flores na árvore
Esperam de branco
O fruto

Eugénia Tabosa

[México] Abstencionismo ativo contra a via eleitoral

Desde Xalapa, Veracruz…

Em 2 de junho de 2024, fazemos um chamado para não ir às urnas e para a desobediência permanente. É ridículo ver que, mesmo nos dias de hoje, alguém ainda acredita em processos eleitorais democráticos para eleger novos senhores. Quem busca e assume o poder, independentemente de ser mulher, homem ou qualquer dissidência de gênero ou étnico-racial, torna-se automaticamente nosso explorador e gerente do progresso assassino, escravagista e ecocida da sociedade industrial, estatal e capitalista. O saltitar de membros entre partidos com ideologias supostamente opostas, o conflito televisionado e viralizado nos noticiários e em “La mañanera” entre as oligarquias de esquerda e de direita e as coalizões mais absurdas (PRI-PAN-PRD, MORENA-PT-PVEM) demonstram o negócio vil de perpetuar cúpulas de poder. Parece mais do que óbvio que a via 4T [Quarta Transformação] continuará independentemente de quem quer que seja, [Claudia] Sheimbaum está se visualizando na cadeira e o Peje [Andres Manuel Lopez Obrador] já a mantralizou. Mas, no final, não importa, seja via 4T ou via direita, seja comunista ou revolucionário, seja cidadão e comunitário, o sistema continuará a fazer seu trabalho. A esquerda também assassina seus críticos, que nossos mortos não sejam esquecidos! Se nos próximos anos houver uma retomada da direita ao poder, isso não será surpreendente. O fascismo se fortalece quando o Estado/capital o considera necessário para continuar conduzindo os seus valores em direção à ordem e ao respeito pelo sistema, o panorama global reflete isso.

Liquide o cidadão dentro de você que o faz pensar que, ao participar das eleições e das instituições do Estado, você provoca mudanças; pelo contrário, você participa voluntariamente da gestão de seu controle e dominação. Se a via eleitoral fosse boa, ela seria proibida!

Não participe, boicote, abstenha-se, sabote, reocupe sua vida anarquicamente contra a lógica do poder, organize-se e desorganize-se quando necessário. Não há orgulho em ter amos.

Não vote, anarquize-se!

Alguns dias antes das eleições.

A n a r q u i s t a s

Nota da ANA:

As eleições gerais no México em 2024 estão marcadas para 2 de junho.

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A mesma paisagem
escuta o canto e assiste
a morte das cigarras

Matsuo Bashô

[Espanha] O curioso caso do tenente negro basco do Exército Basco

O comandante do batalhão anarquista Isaac Puente, Antonio Salón, depois de uma corte marcial e anos na prisão, estabeleceu-se em La Bañeza, onde os mais velhos não sabem de seu passado militar.

Por Iban Gorriti | 05·05·24

O País Basco também teve um Oliver Law em suas fileiras durante a Guerra Civil. Seu nome era Antonio Salón. Mas quem foi o primeiro e quem foi o segundo? Oliver Law (Texas, 1900-Jarama, 1937) foi um icônico comunista, sindicalista e ativista social que lutou com o Batalhão Lincoln na Espanha. Chegou a ser comandante e o primeiro comandante negro de uma unidade de tropas integrada por branca. Antonio Salón, por outro lado, era um jovem anarquista nascido em 13 de junho de 1897, de acordo com algumas fontes em Santurtzi e, de acordo com outras, em Madri. Na época, alcançou o posto de tenente no batalhão cenetista Isaac Puente. Enquanto o americano morreu em combate, o de ascendência venezuelana sobreviveu à guerra e morreu anos depois em La Bañeza, León, onde ainda hoje é lembrado como zelador de uma sociedade recreativa.

O pesquisador Miguel Ángel Fernández, natural de Zumaia e residente de Madri desde os 18 anos de idade, foi um dos primeiros memorialistas a se concentrar na pessoa de Antonio Salón Cubano. “Não era seu apelido, era seu segundo sobrenome”, ele confirma. No entanto, ele era conhecido pelo apelido de Soloir. “Enquanto documentava”, continua ele, “para um artigo sobre a repórter de Toulouse Cecilia García de Guilarte, notei uma foto dos oficiais do batalhão Isaac Puente, tirada em algum lugar da Bizkaia no início de 1937, e fiquei impressionado com o fato de que, entre os presentes na foto, ao lado de Enrique Araujo, a figura central e comandante da unidade, destacava-se um tenente negro. A curiosidade me levou a investigar um pouco mais sobre uma presença um tanto exótica para a época e o contexto”, disse à DEIA esse membro da Fundação Anselmo Lorenzo.

Suas anotações, assim como as da Enciclopédia do Anarquismo Ibérico, uma obra de referência do histórico militante libertário Miguel Íñiguez, lançam mais luz sobre esse morador de Santurtzi que trabalhou em Altos Hornos de Vizcaya desde muito jovem.

Quando a guerra começou, ele lutou no batalhão Isaac Puente, número 3 das Milícias Antifascistas da CNT e no décimo primeiro batalhão do Exército Basco. Aparentemente, ele também morava em Bilbao e forneceu um endereço em Gallarta para o arquivo de seu prisioneiro. Além disso, há relatos de que ele passou algum tempo em Lerma, talvez também como prisioneiro. Foi nomeado tenente em dezembro de 1936, depois de lutar na histórica batalha de Villarreal (Legutio). “Ele se destacou por sua coragem”, acrescenta Fernández. Meses depois, ele foi convocado para a viagem de solidariedade basca à ofensiva das Astúrias, na qual o conhecido comandante Saseta, entre outros, morreu, e da qual Salón saiu vivo.

Miguel Ángel Fernández ilustra isso com uma anedota contada pelo cronista Guilarte. No ataque a Oviedo, Antonio se envolveu em um evento que “nos mostra que ele também não era desprovido de humor e boa disposição”. Nas escaramuças sobre a conquista malsucedida da capital asturiana, um de seus companheiros de batalhão quase atirou nele ao confundi-lo com um membro das tropas mouras que lutavam como mercenários ao lado do golpe. “Salón, ao saber do incidente, jurou em tom de brincadeira pintar suas orelhas de vermelho e assim refletir as cores confederadas em seu rosto para não ser confundido novamente com o inimigo”, sorri a pessoa que já relatou essa curiosidade no site Ser Histórico.

Ao retornar, o anarquista continuou na linha de frente em Bizkaia e na área de Santander. Ele foi preso pelas forças de Franco em Santoña, e em 1º de fevereiro de 1939 foi condenado pelo 10º Conselho Permanente de Guerra de Bilbao a 15 anos de prisão pelo crime de “auxílio à rebelião”, comutados para seis anos e um dia. De acordo com seu registro de prisão, fornecido por Cabañas e assinado na Prisão Central de Astorga, naquela época ele era pai de uma menina de 12 anos.

O veredicto do julgamento sofre de alguns episódios desprezíveis. “A sentença, com uma pena de 15 anos de prisão por suas ações na guerra, mostra um discurso cheio de preconceitos: embora pertença à raça negra, é de nacionalidade espanhola e completamente desprovido de conhecimentos e dotes culturais”. Fernández se manifesta contra esse crime histórico: “Não conheço a capacidade intelectual de Antonio, mas estou convencido do fundo racista das afirmações contidas na sentença, porque precisamente o que sua história pessoal mostra é que desde muito jovem ele tinha um conhecimento inquestionável das lutas e aspirações da classe trabalhadora e libertária à qual pertencia”.

Iñaki Astoreka, responsável pela memória histórica da CNT em Bilbao, também reage a isso: “Na opinião dos franquistas, por ser negro, ele era um idiota, como não poucos pensam hoje em dia. No entanto, Antonio era membro da CNT e trabalhador da AHV em Barakaldo, e tinha muita clareza sobre a situação dos trabalhadores naquela época, com suas dificuldades, seus baixos salários, suas longas jornadas, etc. Por isso, lutou contra o fascismo em Bizkaia, Astúrias e Santander”, acrescenta o anarquista histórico.

La Bañeza

Salón acabou cumprindo pena em prisões em Bilbao e Astorga, uma cidade em León onde se estabeleceu após sua libertação. Ele morreu em La Bañeza, onde morava. O pesquisador José Cabañas é de Jiménez de Jamuz, uma cidade próxima a esse último município de León. Quando perguntado sobre o assunto por este jornal, ele diz que, quando criança, “com cinco ou seis anos, segurando a mão de minha mãe, cruzávamos com um homem negro de vez em quando em uma rua de La Bañeza. E eu me lembro muito bem disso, porque era muito incomum na época. Ele costumava estar vestido com um uniforme”, acrescenta.

Outro morador da cidade que o conheceu é Toño Odón Alonso. “Sim, havia um homem negro na cidade quando eu era jovem. E meu pai o conhecia e conversava com ele. Ele o chamava de Sr. Antonio. Ele era muito respeitado. Eu não sabia nada sobre seu passado na guerra. Ele usava uniforme e uma vez tirei uma foto dele. A roupa era da Sociedad Recreativa Bañezana”, diz o ex-técnico de cultura do conselho local. Outro vizinho que conhecia Salón de vista, Manuel A. Raigada, confirma outro fato: “Sim, eu não tinha nenhum relacionamento com ele, mas me lembro muito bem de Antonio, o negro, e que ele se casou. Ele tinha muita simpatia do público”.

A Fundação Anselmo Lorenzo conclui com o valor da pesquisa e do resgate de vidas como a desse basco. “Recuperar pequenas histórias como a de Antonio Salón ajuda a expandir o mosaico desconhecido de minorias racializadas no coração do movimento libertário” e em sua extensão da Guerra Civil no País Basco.

Fonte: https://www.deia.eus/historias-vascas/2024/05/05/curioso-caso-teniente-negro-vasco-8196384.html

Tradução > anarcademia

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no relâmpago
movem-se as vozes
do firmamento

Paladino

[França] Armas para Espanha

Baseado em uma tese, o livro de Pierre Salmon analisa um ponto cego na história da Guerra Civil Espanhola, a questão das entregas de armas da França. Este tema é ainda mais difícil de trabalhar porque está inscrito à margem da história oficial e porque se cruza repetidamente com os círculos obscuros – e por vezes até mafiosos – dos militantes que tentaram encontrar armas para Espanha.

O autor enfatiza a dificuldade de entrega de armas devido a contingências geopolíticas internacionais, como a não intervenção. A entrega de armas também variava de acordo com os grupos que defendiam a república, e a partir de outubro de 1936 o exército regular recebia armamentos da URSS – em troca de ouro do Banco da Espanha.

Do lado libertário, a questão do armamento da milícia é crucial. Nos primeiros meses, a possibilidade de contrabando de armas é relativamente fácil, mas é difícil encontrar os canais para adquiri-las. Em setembro de 1936, o governo Blum optou pela não intervenção, mas deixou a possibilidade de transportar armas para a Espanha. Pierre Salmon mostra como libertários e às vezes socialistas da tendência pivertista tentam transporta-las. Para as analisar, o autor recorre aos arquivos de apreensões que possam ter sido feitas na fronteira dos Pirenéus, uma vez que os funcionários aduaneiros e as forças policiais não aceitaram as instruções orais do governo Blum. Ele também fez uso extensivo dos arquivos da CNT para explicar quais ativistas podem ter participado dessa ajuda. Os resultados de sua investigação pintam um quadro impressionista, mas muito realista, de entregas clandestinas.

Anedotas não faltam. Como José Cervera, mergulhador e garoto, que foi preso pela alfândega em março de 1937 com uma caixa contendo 4.000 munições. A investigação rapidamente levou de volta a outro ativista libertário, Lucien Casier, que já havia sido suspeito pelas autoridades alfandegárias de ter contrabandeado armas para a Espanha no ano anterior. Além disso, ela explica que Paul Jouhaux, filho de Léon Jouhaux, usa suas conexões em círculos à margem da sociedade para obter ajuda financeira e encontrar armas. Jules Chazoff, depois Pierre Odéon e Louis Lecoin na França e Lucien Tronchet na Suíça, através de seu contato com os líderes da CNT, desempenharam um papel importante tanto na compra de equipamentos quanto na passagem de equipamentos militares.

Sem poder dar números, Pierre Salmon dá acesso a informações originais que oferecem um retrato fascinante desse aspecto pouco conhecido da Revolução Espanhola.

Sylvain Boulouque

Un antifascisme de combat

Armer l’Espagne révolutionnaire

Um antifascismo de combate

Armando a Espanha revolucionária

Pierre Salmão

Éditions du Détour, 2024, 254, p. €21

agência de notícias anarquistas-ana

festival de cores
e de excitantes sabores:
são frutas do outono

Otávio Coral

[Espanha] Tatu Circus Valência 2024

Tatu Circus Valência na okupa CSOA L’Horta (C/Diógenes López Mechó)

31 de maio, 1° e 2 de junho. Durante esses 3 dias acontecerão: palestras, espetáculos, rifas, comidas, distribuidoras de materiais, piercings, tatuagens e possivelmente mais coisas. Tudo o que é necessário para poder financiar a luta anticarcerária e para imaginar mais facilmente um mundo sem prisões, sem Estado e sem nenhum tipo de autoridade ou dominação.

Como em qualquer outro Tatto Circus, toda a arrecadação é direcionada para a luta contra as prisões e para questões antirrepressiva em geral, ninguém lucra sob este tipo de eventos e se participa na qualidade de militante e solidária. A essência mesma do evento não tem que ver tanto com a cultura da tatuagem, dos piercings e demais, mas fazer um evento social de grande escala com o qual fazer divulgação libertária e gerar os laços necessários para uma solidariedade revolucionária.

>> Mais infos: https://tatucircusvalencia.noblogs.org/

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Minha voz
Torna-se vento —
Coleta de cogumelos.

Shiki

[Grécia] Sabotagem em massa nas fechaduras do Airbnb em Exarchia

Na semana passada, realizamos uma ação de sabotagem em massa em mais de 215 fechaduras de chave em Exarchia, colando-as com cola como uma ação simbólica de protesto contra a extorsão de aluguel e a turistificação. Essa simples ação interrompeu, mesmo que superficialmente, a regularidade do Airbnb. Cada uma delas custa cerca de 45 euros e, se houver uma chave dentro, o custo e a insegurança dos proprietários aumentam. Ficamos encantados ao ver alguns turistas com suas malas sem conseguir entrar.

Como um problema bem conhecido, o Airbnb está nos expulsando de nossas casas em todo o centro de Atenas, com o aumento exorbitante dos aluguéis (nas casas que são deixadas para aluguel de longo prazo). Esses mais de 215 apartamentos poderiam ser o lar de famílias, estudantes, imigrantes, companheiros de viagem, pessoas de nossa classe. Em vez disso, em todos eles há turistas, nômades digitais e pessoas ricas. Exarchia continua sendo uma área residencial, mas com o risco de se tornar uma área de entretenimento para os indivíduos hostis acima citados.

O Estado está tentando nos expulsar de nossas casas e espaços públicos de todas as formas possíveis. Essas formas incluem grandes operações para “varrer” os migrantes, o despejo de migrantes e/ou ocupação de moradias, proibições de eventos e policiais por toda parte.

Não permitiremos nosso deslocamento dos bairros por meio de ações simples como a mencionada acima, mas também por todos os meios de mobilização. Ficamos aqui, ficamos nos bairros do centro de Atenas, criando relações de solidariedade e nos opondo coletivamente aos planos do Estado e do capital, uma vez que nós, e não os investidores, conhecemos as necessidades dos nossos bairros.

Fonte: https://athens.indymedia.org/post/1630585/

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A pipa corta o céu.
Desenha nas nuvens
O sonho de criança.

Estrela Ruiz Leminski

[País Basco] Iniciativa solidária em apoio financeiro a Claudio Lavazza e sua família.

Bolsas de pano, feitas de algodão 100% orgânico, produzidas de forma autogestionária, em colaboração entre o grupo “Borrokan” e vários indivíduos de Euskal Herria [País Basco], com o objetivo de arrecadar dinheiro para apoiar o histórico anarquista Claudio Lavazza e sua família, em vista de sua próxima libertação da prisão.

Elas custam 10 euros (8 euros para grupos de solidariedade).

Começaremos a distribuí-las em 15 de junho e cobriremos os custos de envio.

Para fazer o pedido: borrokan@canaglie.org

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/02/10/italia-liberdade-para-claudio-lavazza/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/05/20/claudio-lavazza-e-extraditado-para-a-franca/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/10/31/espanha-atualizacao-da-situacao-do-preso-anarquista-claudio-lavazza/

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Ah, lua de outono —
Andando em volta do lago
Passei toda a noite.

Bashô

“Há muitas formas de resistir ao opressor”

Instituto de Estudos Libertários (IEL) entrevista Luiz Alberto Sanz

Quem é Luiz Alberto Sanz?

Sou mestiço de muitas etnias, apesar da pele branca como papel de linho. Um subversivo que, após longa jornada, abraçou o anarquismo. Fui cineasta, jornalista, estivador, educador, professor e pesquisador de Jornalismo e Artes Cênicas, além de outras coisas. Tenho sangue romani (Caló), indígena, sefardita, africano, andaluz, visigodo, galaico (o celta do noroeste da Península Ibérica) e quem sabe o que mais.

Descendo, na nona geração, da caló Victória do Santo, nascida em 1652 em Santa Maria de Torres Novas, Santarém, Portugal, cuja neta, Izabel, casou-se com o capitão João Carneiro da Fontoura, neto da judia sefardita María Taveira de Magalhães, que descendia de Abraham ben Eliyahu Senneor (Segovia, 1412-1493), último rabino-mor da Espanha. Abraham se convertera forçado pelo decreto de Alhambra (1492)1, tinha 80 anos e passou a se chamar Fernán Nunes Coronel. Dizem alguns especialistas que no pouco tempo que lhe restou viver, continuou a praticar clandestinamente a fé de Abraão. Era, portanto um marrano. Há muitas formas de resistir ao opressor, como mais tarde nos ensinaram, indígenas e africanos, sincretizando religiões originárias com o cristianismo, como os cristãos haviam feito ao assimilar à sua nova fé tradições e ensinamentos romanos, gregos, persas e dos ditos “bárbaros”.

Desse casal, Izabel e João, nasceu Francisca Veloza da Fontoura, que veio a se casar com o Capitão Francisco Barreto Pereira Pinto, em cuja descendência aparecerão os Barreto Leite que se juntarão aos Sanz, imigrantes andaluzes com raízes valencianas, vindos de Alhama de Granada, entre os quais nasci. Para esse cadinho, meu avô João, um Barreto Leite, trouxe para uma família de caramurus2 uma esposa farroupilha, Gonçalina Corrêa de Barros de Azevedo. E vice-versa. Este novo ramo está mais caracterizado pelo inconformismo e a revolta, marcas do capitão farrapo Serafim Corrêa de Barros, que somou-se às tropas revolucionárias aos 18 anos, em 1835, e lutou até a derrota da República de Piratini, em 1845.

É interessante falar dos Sanz, uma família de imigrantes andaluzes pobres e republicanos que sempre viveram do seu trabalho. José Antonio Sanz Lopes, pai do patriarca Alberto Sanz Navas, era vendedor de tecidos em Alhama de Granada, chegou como pedreiro ao Brasil e morreu de gastrenterite em sua casa à Praia do Retiro Saudoso 37, no Caju, em 1898. Época em que a situação sanitária na Corte Imperial era assustadora. Seu filho Alberto Sanz Navas foi trabalhar na construção das Estradas de Ferro Complementares das Linhas Estratégicas do Rio Grande do Sul e conheceu em Pelotas Isaura Dourado Affonso Alves, neta do advogado abolicionista Joaquim José Affonso Alves.

O sangue indígena vem de colonizadores ainda não claramente identificados na minha árvore genealógica. A descendência negra evidencia-se claramente nas fotos de meu avô João Baptista Barreto Leite e no parentesco com o primo e contemporâneo Paulo Barreto (João do Rio), de quem minha mãe tinha orgulho de lembrar.

Mas quem conhece a História do Brasil, por pouco que seja, sabe que antepassados mais antigos (Serafim e Joaquim José Affonso Alves possivelmente em menor grau), como os Ornellas e Vasconcellos contribuíram para ou protagonizaram a quase completa extinção dos povos originários e a exploração dos africanos e crioulos3 escravizados, bem como o massacre do povo paraguaio.

>> Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui:

https://ielibertarios.wordpress.com/2024/05/27/instituto-de-estudos-libertarios-entrevista-luiz-alberto-sanz/

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Folhas do ciclame
ao vento pra lá e pra cá –
um coração pulsa.

Anibal Beça

[São Paulo-SP] 10 anos de Laboratório de Educação Anarquista

Neste ano, o Laboratório de Educação Anarquista completa 10 anos de atividades!

Para comemorar, temos o prazer de convidar todxs para um piquenique!

Atividade para crianças e seus adultos.

02/06, DOMINGO

Local: Gramado do Instituto Butantã (https://maps.app.goo.gl/EiWzPu3x4eXkGeNa7)

Confiram o cronograma:

13h30 – Jogos corporais “A liberdade só existe se for para todxs!”

15h – Lanche coletivo + Roda de conversa

15h30 – Produção coletiva de Histórias

Contribua trazendo comida vegana e bebidas para o lanche solidário.

Em caso de chuva, o evento será cancelado.

bibliotecaterralivre.noblogs.org

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lesma no vidro
procura uma sombra
que seja ela mesma

Alice Ruiz

[EUA] Lançamento: Jesus e os abolicionistas | Como o cristianismo anarquista empodera as pessoas, de Terry J. Stokes

A anarquia não é só caos? Como ela poderia ter a ver com o cristianismo?

Inúmeras pessoas, inclusive (e às vezes especialmente) as de origem religiosa, estão explorando ideias radicais. A pandemia, o movimento de libertação dos negros, o desastre climático – todas essas preocupações estão nos levando a perguntar: “Nosso sistema realmente funciona? O capitalismo é ético? Essa é a única maneira de construir uma sociedade?”

Perguntas como essas levaram o autor e pastor Terry Stokes à filosofia política da anarquia. É verdade que todos nós temos uma imagem assustadora em nossas mentes sobre a anarquia: que ela exige caos, violência e desordem. Mas a anarquia, na verdade, exige o fim do domínio, não violência de rua. A anarquia busca capacitar pequenas comunidades de pessoas para que cuidem de suas próprias necessidades em nível local, tornando assim o Estado obsoleto. Trata-se de construir sociedades nas quais as pessoas são colocadas acima do lucro e os sistemas são construídos com base na ética da justiça e da igualdade. Para Stokes, isso se parecia muito com os fundamentos da fé cristã.

Em Jesus and the Abolitionist [“Jesus e os abolicionistas”, em tradução livre], Stokes apresenta aos leitores a antiga prática da anarquia e como ela se cruza com as crenças e os valores cristãos. Vemos como as crenças sobre Deus, a humanidade, a interação divino-humana, a Bíblia e mais podem ser iluminadas e fielmente reformuladas por meio de uma lente anarquista. Esse ponto de vista, que Stokes chama de cristianismo anarquista, busca abolir os sistemas tirânicos que não reconhecem os valores mutáveis de nossa época e que desempoderam as pessoas. A visão de Stokes de um futuro cristão anarquista apresenta uma teologia e um viver caridosos, baseados em cooperação voluntária, na bondade de todas as pessoas e na fé em Deus. Podemos construir um mundo ético – um mundo construído sobre estruturas de cuidado – e a anarquia pode justamente ser uma improvável chave para fazê-lo.

Jesus and the Abolitionists

How Anarchist Christianity Empowers the People

Terry J. Stokes

Editora Broadleaf Books

ISBN 9798889830818

ISBN Digital 9798889830825

Páginas 173

Preço $26.99

broadleafbooks.com

Tradução > anarcademia

agência de notícias anarquistas-ana

A garoa cai.
Cintilam poças na rua
à luz dos faróis.

Zuleika dos Reis

[Espanha] O anarquismo no mundo árabe, “uma semente que pode germinar a qualquer momento”

Georges Saad, professor aposentado de direito da Universidade Libanesa, e Laura Galián, professora no Departamento de Estudos Árabes e Islâmicos da UAM, revisam passado, presente e futuro do movimento libertário no mundo árabe.

Por Miguel A. Fernández | 01/01/2024

Ao longo da história existiram —ainda existem— práticas libertárias que respondem a formas próprias de projetos emancipatórios, antiautoritários e descentralizados em diferentes lugares da geografia planetária. A pouco que mergulhemos, descobrimos experiências desse tipo na China, Japão ou Índia, realidades como a do comunalismo africano e a Awareness League nigeriana que nos descobriu Sam Mbah, ou as mais recentes relacionadas com os governos autônomos do Zapatismo em Chiapas ou o confederalismo democrático no Curdistão, que em suas práticas diárias bebem na rica filosofia política libertária. Mas o certo é que, mais além destas últimas, muitas outras foram esquecidas e marginalizadas na história oficial do anarquismo canônico. E as experiências anarquistas no mundo árabe e islâmico são um bom exemplo disso.

Georges Saad é professor aposentado de direito da Universidade Libanesa. Proveniente da tradição marxista em seu país, se uniu ao grupo Union des Travailleurs Communistes Libertaires durante seus estudos na França nos anos 80, e na sua volta ao Líbano fundou a que talvez seja a primeira agrupação autodeclarada anarquista do sul do Mediterrâneo: Al-Badil al-taharruri (Alternativa Libertária) de tendência anarco-comunista. Traduziu numerosas obras da teoria anarquista ao árabe, entre elas O anarquismoda teoria à prática de Daniel Guerin. Por sua parte, Laura Galián é professora no Departamento de Estudos Árabes e Islâmicos da UAM e participa em grupos de investigação como Ideologias e expressões culturais árabes ou o projeto CONEMED: Conceitos Emancipadores no Mediterrâneo: Memória, Tradução e Trânsito em sua Diacronia. Aproveitando a visita de Saad a Espanha para ministrar uma conferência na Fundação Anselmo Lorenzo, nos reunimos com ambos com o fim de aprofundar um pouco na realidade tão desconhecida como sugestiva do anarquismo no mundo árabe.

Para o libanês, podem-se rastrear fenômenos protoanarquistas no mundo islâmico entre os cármatas, movimento sincrético surgido do islã ismailí em seu desafio à desigualdade social; também entre os nizaríes ou assassins (conhecidos em castelhano como os assassinos), corrente herética do ismailismo, ou inclusive em pensadores e poetas laicos como Aboul Alaa al Maarri e Omar Jayyam. Em todo caso, o anarquismo, entendido como ideologia internacionalista, libertária e europeia, não chegará ao sul do Mediterrâneo até final do século XIX através de trabalhadores e exilados, principalmente italianos, mas também de outras zonas do Império Otomano, como gregos ou armênios, que encontraram na região um lugar de acolhida onde continuar sua atividade subversiva. O próprio Enrico Malatesta participou na revolução de Urabi de 1882. Também graças a instituições educativas como a Universidade Popular Livre em Alexandria, continuadora dos preceitos da Escola Moderna de Ferrer i Guardia.

Após a revolução russa e a expansão do comunismo, o anarquismo deixa de ter influência na região e já não voltaremos a ter notícia dele até o período de entre guerras, com os movimentos contraculturais e após a II Guerra Mundial, com a presença na Argélia de grupos anarquistas franceses ou exilados espanhóis. Precisamente na Argélia é notável o caso do anarcossindicalista Saïl Mohamed, voluntário no Grupo Internacional da Coluna de Durruti, que não concebia o anarquismo em termos puramente europeus e entendia que a sociedade rural argelina, especialmente a de sua terra natal, a Cabilia, praticava um anarquismo sem denominá-lo explicitamente assim, pois contava com uma comunidade organizada, descentralizada e com aversão à organização colonial ou nacional.

O desaparecimento de todas estas experiências e muitas outras da história libertária se deve seguramente a uma razão histórica relacionada com o auge do socialismo e sobretudo do nacionalismo e sua preponderância nos processos descolonizadores, mas Galián opina que, além disso, existe uma visão eurocêntrica causadora de que não tenham sabido ler-se experiências que, apesar de não declarar-se anarquistas em si mesmas, tiveram como base a horizontalidade, o antiautoritarismo, o ser descentralizadas e fazer uso de uma maneira ou outra da tradição libertária. “E aí é onde há que dar ênfase. Há autores que dizem que uma coisa é olhar o anarquismo com o A maiúsculo, que chega da tradição europeia ou um anarquismo, que na realidade está muito mais enraizado nas maneiras de resistência locais, nesses repertórios diferentes aos europeus, mas que também se podem ler como anarquistas”.

Será com a Guerra dos Seis Dias em 1967 quando o anarquismo volta a ressurgir, se bem que timidamente, como uma resposta à derrota não só militar mas também simbólica do socialismo árabe que havia defraudado as expectativas de emancipação e liberação individuais e coletivas, mas florescerá especialmente a partir das primaveras árabes, que Galián prefere chamar revoluções “porque eles mesmos se chamam revolucionários e assim qualificam as revoltas de 2010-2012: não contam com um líder, são horizontais, descentralizadas, não há um partido ao mando, o objetivo não foi uma democracia liberal”. Precisamente esse é um dos erros habituais que se cometem na hora de analisar ditas revoltas: não houve processos de transição democrática, mas é que talvez essas revoluções tampouco aspiravam a uma democracia liberal tal e como a entendemos na Europa. “Nós pensamos que é êxito ou fracasso lendo desde aí. Mas é que essas experiências fizeram que a politização de muitos jovens e de muitas pessoas se processaram através do anarquismo”.

As experiências libertárias da ribeira sul não escapam tampouco a suas contradições e na prática sua composição é majoritariamente masculina: “Depois das revoluções, que começaram sendo bastante mistas, em um momento determinado, sobretudo do Egito, mas também da Tunísia, a prioridade era a luta de classes e a de gênero ficou estacionada”. E haveria cisões nas quais as mulheres montaram suas próprias organizações fora do movimento anarquista. “Há anarquistas no Egito que me assinalaram grupos anarcofeministas, ainda que elas não se declarassem como tal porque viam o anarquismo como uma ideologia estritamente masculina; isto acontecia no Egito, e na Tunísia, onde sim encontramos alguma organização anarcofeminista declarada, mas trabalhavam de maneira independente, com suas prioridades. É verdade que o movimento feminista teve uma eclosão bestial e uma nova geração pode estar relacionada também com um ideário libertário, mas nos grupos autodenominados anarquistas é uma questão que não está resolvida”. Uma visão que compartilha Saad: “Sim, há uma consciência feminista importante, cada vez mais mulheres, muito jovens, e graças a internet, descobrem as mobilizações feministas da Espanha, Estados Unidos ou França e tomam referências. Mas desde o ponto de vista dos direitos e o tema legal fica muito trabalho pela frente”.

O movimento anarquista tunisiano é, sem dúvida, um dos poucos movimentos emancipatórios árabes que, após a revolução, encontrou oportunidades para sua continuidade e expansão. Não em vão, La Commun Libertaire tunisiana foi a encarregada, com o apoio da Federação Anarquista Francesa, de acolher o Primeiro Encontro Anarquista do Mediterrâneo celebrado na Tunísia em março de 2015 coincidindo com o Foro Social Mundial (FSM). Seu fim era “criar uma rede de intercâmbio de informação, projetos e solidariedade entre os anarquistas do Mediterrâneo” à margem da linha oficialista do FSM.

Ao final o encontro serviu para pouco mais que um intercâmbio de experiências. Galián, que esteve presente, é crítica: “O encontro era uma oportunidade, em um contexto pós revolucionário onde havia tido uma eclosão dos anarquismos em diferentes contextos do mundo árabe, e se convidou aos grupos que existiam no Egito e outros lugares do sul a participar no encontro. Também a todos os grupos anarquistas e organizações do norte. Tudo o liderava a França, que também é algo do que se poderia falar. Ao final foi um encontro de anarquistas tunisianos, os egípcios do Movimento Libertário Socialista não puderam vir porque já havia um processo de repressão que lhes impediu de ir por motivos de segurança, houve algum argelino, mas que não representava nenhuma organização… Aí havia já um desequilíbrio e tampouco existia uma ideia clara de qual era o objetivo. Os europeus tinham a ideia de compartilhar informação, mas os tunisianos e egípcios tinham claro que aquilo era uma maneira de continuar o processo revolucionário. Como primeiro encontro de discussão, recriou um espaço onde se refletiram discrepâncias entre os libertários de ambos os lados do Mediterrâneo e as chaves da descolonização do anarquismo, que giraram em torno a duas perguntas fundamentais: que é o anarquismo? e qual é sua história? Perguntas que ficaram inconclusas e são fundamentais na configuração da prática ativista e na possibilidade de incorporar novas experiências à história do anarquismo, sem maiúsculas e sem que esta história se converta em canônica, que não reproduza as dinâmicas de poder do anarquismo europeu”.

A repressão posterior às revoluções fez muito pelo desmantelamento de algumas iniciativas libertárias, mas como bem assinala Saad, mais além da superfície, “a semente segue aí, tal e como se demostrou no Líbano após a explosão no porto de Beirute em 2019, que somado à saturação social contra a casta política e a crise financeira, foi a chispa de um levante popular contra a classe dirigente e todo o sistema político, corrupto e incompetente. Dita semente pode germinar a qualquer momento. Haverá que prestar atenção, também desde a Europa”.

Fonte: https://www.elsaltodiario.com/anarquismo/anarquismo-mundo-arabe

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

sobre um ramo seco
uma folha se pousa
e trina ao vento

Rogério Martins

Perdeu sua filha e morreu fuzilada na Revolução: Margarita Ortega, a anarquista esquecida pela história do México

Margarita Ortega participou nas fileiras do Partido Liberal Mexicano, o qual era dirigido pelos irmãos Flores Magón

Por Miguel Flores | 07/10/2023

A Revolução Mexicana foi um dos eventos da história do México que mudaram o rumo do país, em princípios do século XX. Na história oficial se mencionam nomes de grandes heróis nacionais que participaram nesse movimento armado que conseguiu derrubar o governo de Porfirio Díaz Mori, presidente do país por mais de 30 anos, no final do século XIX e princípios do XX.

José Doroteo Arango Arámbula, mais conhecido como Francisco Villa; Francisco I. Madero; Emiliano Zapata; entre outros, são os nomes que se mencionam desta etapa revolucionária. No entanto, existem nomes de mais partícipes no movimento que foram esquecidos ou simplesmente, não são mencionados pela história oficial.

Os irmãos Flores Magón foram dos partícipes mais destacados na Revolução, e inclusive, os consideram como precursores do movimento. Mas algo que quase não se menciona ou do qual se fala muito pouco, é que eram anarquistas radicais que buscavam erradicar qualquer forma de governo, pois para eles, o Estado representava repressão.

Os Flores Magón conseguiram que muitas pessoas no país se sentissem identificadas com seus ideais e se unissem a eles. Estes foram denominados como magonistas. Uma das magonistas mais destacadas, que teve um duro final e que lutou até o último de seus dias a favor dos mais desprotegidos, foi Margarita Ortega Valdés, que passou de ter uma vida acomodada, estar casada e ser uma pessoa normal a participar no movimento revolucionário e perder uma filha por defender seus ideais.

Margarita Valdés Ortega nasceu em 1871 em Sonora. Foi uma anarquista mexicana integrante do Partido Liberal Mexicano (PLM) dos irmãos Flores Magón.

Ela pertencia a uma família rica do norte da Baja California, mas em 1910 decidiu renunciar a seus privilégios e se filiou ao mencionado partido, cujo fim era estender uma revolução anarco-comunista na República Mexicana.

Ortega participou nas fileiras do PLM como guerrilheira, propagandista e enfermeira. Se diz que era especialista no uso de armas e uma grande ginete de cavalos. Também transportava armas, munições, provisões e correspondência para seus companheiros durante a tomada de Mexicali, em janeiro de 1911.

Depois que os maderistas derrotaram os membros do PLM na Baja California, Ortega foi expulsa de Mexicali junto com sua filha Rosaura Gortari, por Rodolfo Gallegos sob as ordens de Francisco I. Madero. Margarita e sua filha cruzaram o deserto até Yuma, Arizona, onde foram presas por agentes de imigração para serem deportadas ao México. Mas conseguiram escapar e refugiar-se em Phoenix, Arizona, onde ambas mudaram seus nomes para evitar serem identificadas por autoridades do México ou Estados Unidos, pois ambos perseguiam os magonistas.

Devido às más condições que tiveram ao cruzar o deserto, Rosaura adoeceu e morreu em Phoenix, o que significou um duro golpe para Margarita, já que além de ser sua filha, era sua companheira de luta. Ortega continuou organizando guerrilhas do PLM no norte do estado de Sonora ao lado de Natividad Cortés, também integrante do PLM.

Ambas foram apreendidas em 1913, na fronteira de Sonora por Rodolfo Gallegos, que agora estava sob as ordens de Venustiano Carranza. Nesse momento Natividad foi fuzilada e Ortega foi levada a Baja California para que fosse presa pelas forças de Victoriano Huerta.

Em 20 de novembro desse mesmo ano, foi presa e torturada por quatro dias pelos huertistas, para obrigá-la a delatar seus companheiros, que preparavam uma revolta ao norte de Sonora, algo que não conseguiram. Se diz que a deixaram de pé por quatro dias, sem poder recarregar-se ou sentar-se, e quando o esgotamento a vencia, era golpeada para que se pusesse de pé de novo.

Foi fuzilada em 24 de novembro de 1913.

Fonte: https://www.infobae.com/mexico/2023/10/07/perdio-a-su-hija-y-murio-fusilada-en-la-revolucion-margarita-ortega-la-anarquista-olvidada-por-la-historia-de-mexico/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

pousada na lama,
a borboleta amarela,
com calor, se abana

Alaor Chaves

[Espanha] “As Sem Mestres. Escritoras esquecidas e silenciadas dos anos trinta”, de Antonio Orihuela

A cultura anarquista construiu, desde o começo do século XX até a Guerra Civil, um relato emancipador sustentado por um movimento social de uma amplitude que hoje nos parece quase inverossímil.

Sua potência transformadora se enraizava nas relações com o escrito e o publicado, o que possibilitou a produção cultural de grupos tradicionalmente excluídos destes meios.

Não foram poucas a mulheres, muitas delas jovens, autodidatas e com ofícios agrícolas ou industriais, que participaram na produção de uma literatura social-revolucionária, que alcançou êxitos inusitados de distribuição e vendas as mãos editoras pequenas, quase marginais.

Neste ensaio nos centramos nas autoras que publicaram na coleção La Novela Ideal, da editora anarquista La Revista Blanca. Tratava-se de folhetins de 32 páginas com novelas curtas vendidas a preços acessíveis ao bolso dos trabalhadores e com tiragens superiores a 10.000 exemplares. Entre 1925 e 1938 surgiram mais de meio milhão de títulos, em muitos casos, reeditados, que demonstram uma vitalidade e força que contrastava com o silêncio com o qual aquela experiência se deparou, o cruel e persistente silêncio franquista.

Frente uma historiografia oficial baseada nas cômodas ideias de gerações burguesas e feminismos pacificados, esta obra rende homenagem as autoras que, através de seus escritos em La Novela Ideal, defenderam, desde abaixo, a possibilidade de outras vidas, a potência da escrita para gerá-las e a intervenção não delegada no político através da cultura.

Las sin Amo. Escritoras olvidadas y silenciadas de los años treinta

Autor: Antonio Orihuela

Editorial:

La Oveja Roja

Número de páginas: 470

Ano: 2024

PVP: 20,00 euros (IVA incluído)

laovejaroja.es

Tradução > 1984

agência de notícias anarquistas-ana

Venta. Folhas correm.
Fico preocupado e penso
na volta pra casa.

Thiago Souza

[Espanha] Solidariedade com as “6 de la Suiza”. Manifestação em Xixón em 15 de junho.

Como você já sabe, seis companheiras da CNT Xixón foram condenadas a três anos e meio de prisão por “coação grave” e “obstrução da justiça”, além de uma multa de 150.000 euros. A sentença absolutamente absurda é um ataque direto às ferramentas sindicais que a própria lei prevê para a defesa das trabalhadoras. É um ataque que criminaliza as formas tradicionais de protesto social e sindical.

No dia 18 de junho, a Suprema Corte decidirá sobre o recurso do qual dependem as seis companheiras do conflito com a confeitaria La Suiza da CNT de Xixón que poderão ir para a prisão por causa de uma sentença política de juízes conservadores que pode transformar novamente os piquetes, tão úteis em setores como o de hotelaria, em crimes.

É um novo capítulo de uma “sentença de banco” que as companheiras vêm sofrendo há mais de três anos e na qual a CNT está colocando suas forças para contestar a sentença e a absolvição das companheiras.

A próxima ação é uma manifestação de toda a CNT convocada para o meio-dia de sábado, 15 de junho, em Xixón, para denunciar a sentença e apoiar as companheiras após um processo tão longo. Temos certeza de que essa manifestação será tão massiva quanto as anteriores realizadas em Xixón e Madri, e que as ruas serão uma maré de pessoas pedindo a absolvição de nossas companheiras.

FAZER SINDICALISMO NÃO É CRIME!

ABSOLVIÇÃO SEIS DE XIXÓN!

Fonte: https://comarcalsur.cnt.es/solidaridad-con-las-6-de-la-suiza-manifestacion-en-gijon-el-15-de-junio/

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agência de notícias anarquistas-ana

A pedra
nada pergunta ao rio
sobre água e tempo.

Yeda Prates Bernis