[Espanha] A (incrível) história de Hildegart Rodríguez

A história de Hildegart Rodríguez (codinome de Carmen Rodríguez Carballeira) é de fato incrível, por vezes a realidade supera a ficção e foi o que aconteceu no país que chamamos de Espanha; um ser vivo concebido para ser moldado a um objetivo específico. Hildegart nasceu em Madri em dezembro de 1914; sua mãe Aurora, desde o momento da sua concepção decidiu que Hildegart seria um modelo para a transformação radical da sociedade, para a revolução sexual, a libertação do proletariado e, ironicamente, para a emancipação da mulher.

E desde cedo os métodos avançados de ensino de Aurora deram resultado; Hildegart foi desde tenra idade uma autêntica menina prodígio: com apenas 8 anos, já dominava vários idiomas e com 14 entra para a universidade para estudar Direito, acabou por ter três carreiras, pois também era jornalista e escritora, com uma infinidade de artigos e livros, além de atender a conferências ainda na adolescência. É preciso dizer que o sistema educativo de Aurora Rodríguez já havia funcionando antes, quando o empregou com seu sobrinho, que precocemente aprendeu a tocar piano com grande habilidade e acabou se tornando um famoso músico conhecido como Pepito Arriola.

Mas voltando a Hildegart Rodríguez e seu pensamento e atividades políticas, elas começam em 1928, aos 13 anos, ao acabar o bacharelado; é preciso dizer que se nesse momento apostou pelo socialismo, foi por influência de diversos professores universitários e pela CNT, o sindicato anarquista, que estava na clandestinidade durante a Ditadura de Primo Rivera; sua mãe Aurora, parecia querer que sua filha se juntasse ao anarquismo, mas respeitou sua decisão, esperando que sua própria evolução a levasse até o movimento libertário. Hildegart entrou para a Juventude Socialista e na UGT, sindicato ligado ao partido.

Em abril de 1931 quando a II República chegou a Espanha, surgiu um período de esperança que parecia abrir um horizonte mais próximo para transformação social e econômica de um país extremamente atrasado; no novo regime, conviveram diferentes setores políticos, mas a frustração das expectativas revolucionárias dos mais radicais, entre os quais se encontrava o movimento anarquista, não tardaria a surgir. Um jornal madrilenho, La Tierra, será um dos porta-vozes destes setores radicais, abertamente libertários (com a CNT como principal referência), de um republicanismo revolucionário crítico para com o desenvolvimento de certos acontecimentos, que pareciam ser maquiagem de uma mera mudança política sem revolução social.

Hildegart Rodríguez, em 1932, já estará fora do Partido Socialista, descontentou seus líderes com seu pensamento revolucionário; ainda que tenha recebido bem a República, logo considera que a política do partido não coincide em nada com seu pensamento transformador. Hildegart, já fora das fileiras socialistas, se converterá em colunista de La Tierra e escreverá numerosos artigos compartilhando a crítica já mencionada a timidez da República, e ao apoio, e apostando pela revolução social.

Se diz que outro motivo para a baixa de Hildegart do Partido Socialista foi a política de Largo Caballero, ministro do Trabalho, que beneficiava o sindicato aliado, a UGT, com a marginalização da CNT e sua principal linha de ação direta. Hildegart apostava também em uma frente sindical unida (algo que seria levado a prática anos mais tarde) e considerou, inclusive que a política repressiva do governo republicano era uma continuidade do regime anterior com a formação de uma nova força de ordem: a famosa Guardia de Asalto. Essa frente única, formada pela UGT e a CNT, encarnaria para Hildegart a síntese das tendências sindicalistas garantindo sua independência de qualquer partido, prescindindo de dirigentes e lutando em diversos âmbitos pela revolução social.

É preciso dizer que Hildegart, apesar de muitas críticas a Marx (o acusava de ter copiado a maior parte de seus pensamentos dos socialistas utópicos), se considerava um marxista sem partido; apesar disso, acreditava que a futura revolução na Espanha não seguiria a linha da doutrina de Marx, já que pensava, já havia se mostrado errada. Já foi dito que o pensamento de Hildegart podia encontrar-se no meio do caminho entre o socialismo revolucionário e o anarquismo com a militância no Partido Democrático Republicano Federal, dirigido por Eduardo Barriobero com certa afinidade com sectores anarcossindicalistas.

Aurora Rodríguez, mãe de Hildegart, professava um anarquismo de viés individualista e daí pode derivar as simpatias da filha para o campo libertário. Enquanto a, digamos, ortodoxia anarquista poderia desaprovar a militância de Hildegart em um partido político, ela considerava que a revolução seria interclassista; também, é preciso relembrar que Eduardo Barriobero, dirigente do partido citado, também era militante cenetista. A própria Hildegart explicou em um artigo que o PRDF onde militava não era um partido burguês, nem exclusivamente sindicalista; de alguma maneira, criticava assim a imposição de uma classe sobre a outra, também e preciso dizer que sem dúvidas apostava na luta de classes como fator histórico, assim como pela desaparição final do Estado (o que aproximaria o marxismo ao anarquismo).

Um dos fatores que atraiam Hildegart ao anarquismo era seu desejo por educar a classe trabalhadora, compartilhando elogios a publicações tão valiosas dos libertários. Outra tática viável para Hildegart era a ação direta, que colocava em oposição as leis sociais promovidas pelo Partido Socialista. É preciso dizer, no entanto, que Hildegart nunca se considerou totalmente anarquista, já que não desdenhava a tática parlamentarista, por exemplo, sempre que tiveram fins verdadeiramente revolucionários; apesar disso, acreditamos que se dizer que estava mais próxima da CNT, por considerá-la a organização que o país precisava para uma transformação social radical, para administrar as fábricas e a terra de maneira mais efetiva que o Estado.

O individualismo libertário teve também uma óbvia influência em Hildegart preservando assim a liberdade de pensamento e ação de cada um na sociedade; uma forma de preservar as melhores qualidades de cada indivíduo apoiar o coletivo. Apostava, como não poderia ser de outra maneira, pela solidariedade, mas que teria mais origem no biológico do que no social, e era uma decidida partidária da reforma de cunho sexual. Particularmente, acredito que falamos de uma figura importante e original no contexto da II República Espanhola, tratando de sintetizar socialismo, anarquismo e republicanismo federal dentro de uma estratégia decididamente revolucionária. Infelizmente, o final de Hildegart foi trágico, morta pela sua própria mãe, uma pessoa supostamente libertária, mas terrivelmente autoritária e assassina que havia dado a vida para moldá-la à sua vontade.

Aurora considerou que diversos fatores tratavam de afastar sua filha do seu lado; entre eles, uma possível paixão por um jovem advogado e um suposto complô internacional que Hildegart abandonaria a Espanha. Além disso, se para pai de sua filha Aurora escolheu um homem são e supostamente sem vícios, mais tarde descobriu que não era assim e que levava una vida de vícios, por isso estava convencida que sua filha poderia seguir o mesmo caminho; esta visão era parte de suas teorias eugenistas, segundo as quais somente deveriam se reproduzir os indivíduos saudáveis.

Com apenas 18 anos, em junho de 1933, Hildegart Rodíguez foi assassinada por sua própria mãe. Aurora Rodríguez se entregou voluntariamente a polícia para ser julgada e condenada a 26 anos de prisão; sempre defendeu que não foi presa por nenhuma loucura, algo que deu origem a todo um debate entre psiquiatras. Por exemplo, o reacionário Vallejo-Náera considerou que se tratava de um exemplo que as ideias progressistas levavam ao crime, algo absolutamente sem sentido. Quando em julho de 1936 acontece a insurreição militar, paralelamente estourava a revolução social e os milicianos abrem as portas das prisões, Aurora se viu em liberdade; em princípio se pensava que havia morrido na guerra, mas tempos depois seria descoberto que morreu de câncer nos anos 50 no centro psiquiátrico de Ciempozuelos.

Muito se escreveu sobre este caso. Eduardo Guzmán, jornalista libertário de enorme interesse (recomendo fervorosamente seus três livros de memórias), também foi redator do La Tierra, havia seguido o caso em seu desenrolar tratando, tanto da mãe quanto de Hildegart: escreveu em 1973 em Aurora de Sangre, que se estrutura através das três conversas que teve com Aurora Rodríguz na prisão feminina de Madri. É neste livro que se baseia o filme de 1977, escrito por Rafael Azcona e dirigido por Fernando Fernán Gómez, Mi Hija Hildegart, que não é uma obra perfeita, mas é de grande interesse. Para aprofundar o pensamento político dessa mulher, tristemente desaparecida muito jovem, recomendo o artigo “El pensamiento político de Hildegart Rodríguez“, em Germinal. Revista de Estudios Libertarios.

Capi Vidal

Fonte: http://acracia.org/la-increible-historia-de-hildegart-rodriguez/

Tradução > 1984

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entre as folhas
de um livro-de-reza
um amor-perfeito cai

Guimarães Rosa

[Bélgica] Milhares de instalações de petróleo e gás abandonadas no Mar do Norte, diz De Tijd

Milhares de instalações de petróleo e gás estão abandonadas no Mar do Norte, causando poluição e outros perigos. Fala-se em mais de 23.000 poços, cerca de 8.500 km de oleodutos e 62 plataformas de petróleo, informou De Tijd no sábado.

O jornal se uniu à organização holandesa Follow The Money e ao meio de comunicação norueguês NRK para mapear o “cemitério no Mar do Norte”.  O levantamento mostra que quase uma em cada dez plataformas de petróleo e gás no Mar do Norte não está mais em operação. Fala-se que centenas dessas infraestruturas deixarão de ser utilizadas nos próximos anos. Além disso, 20% de todas as tubulações que são construídas não estão mais em uso, assim como 85% dos poços. Essas instalações são de propriedade de grandes empresas como BP, Shell, Equinor e TotalEnergies.

No entanto, há uma obrigação internacional para que essas plataformas abandonadas sejam desmanteladas. Mas estes são frequentemente projetos tão dispendiosos e complexos que os proprietários beneficiam de derrogações por parte dos países em causa. O custo é estimado em 30 mil milhões de euros entre 2020 e 2030, tanto para empresas como para países onde as instalações permanecem offshore.

Fonte: https://www.rtbf.be/article/des-milliers-d-installations-de-gaz-et-de-petrole-a-l-abandon-en-mer-du-nord-selon-de-tijd-11200308

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No outono as folhas
Caem e o caminho
Tapete se transforma

Dalva Sanae Baba

Vídeo-teatro: “Kropotkin, uma visão feminina”, com Cibele Troyano

Dia 03/06, 16 horas, no Centro de Cultura Social Vira-Lata Caramelo, Santo André – SP

Kropotkin, uma visão feminina é uma peça de teatro, em formato de vídeo, composta por quatro cenas,  nas quais quatro mulheres que conviveram com Kropotkin contam a sua própria história e a dele.

São elas:

1- Uliana, governanta da família e que, após a morte de Catarina Kropotkin, mãe de Kropotkin, foi a principal responsável pela criação dele e de seu irmão Alexandre.

2 – Sophia Perovskaya, amiga de Kropotkin nos anos de sua juventude e condenada à morte por ter participado do assassinato do Czar Alexandre II.

3 – Sofia Anánieva Kropotkin, que foi a mulher e companheira de Kropotkin por mais de 40 anos.

4 – Catarina, a enfermeira que cuidou dele nos últimos meses de sua vida.

A exibição do vídeo, que tem duração de 45 minutos, será seguida de debate com Cibele Troyano, atriz e anarquista, que escreveu o texto e que interpreta as quatro mulheres.

Centro de Cultura Social Vira-Lata Caramelo

Rua Sumaré, 732, Vila Metalúrgica, Santo André – SP

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Hermética música
há no silêncio da lágrima
que salga o mar.

Fred Matos

[Espanha] Eu não voto, me organizo.

Eu não voto, não submeto minha vontade a políticos de nenhum governo.

Eu não voto, prefiro não fortalecer a partitocracia, abstenho-me ante a oligarquia dos partidos políticos e da podre social-democracia. Não pretendo colaborar com a indigna participação em um engano tão óbvio.

Eu não voto, prefiro não participar da mentira, da armadilha e do engano, para não legitimar regras do jogo endemicamente corruptas.

Eu não voto, não sou um indivíduo apático e passivo, me preocupo com as questões sociais que me afetam, assim como a meus companheiros, familiares, vizinhos etc. É por isso que opto por não ceder, por meio do direito de voto, nem minha voz nem o consentimento para agir em meu nome por meio de um sistema que é corrupto em sua raiz.

Eu não voto, não quero me manchar voluntariamente com o sangue, a tortura e a violência que podem ser praticados por Estados, bancos e exércitos (leis, prisões, orçamentos, corrupção, guerras…).

Eu não voto, não quero participar das decisões sinistras que, sem dúvida, serão tomadas em favor dos interesses empresariais contra a classe trabalhadora.

Eu não voto, não quero participar de um sistema que subsidia traidores profissionais, como partidos, sindicatos e suas lideranças.

Eu não voto, prefiro me organizar com outras pessoas de forma horizontal, como iguais, para lutar e poder mudar as coisas, praticando o assembleismo, a autogestão e a ação direta.

Eu não voto, não quero ser um servo passivo e delegar as questões importantes que dizem respeito à minha vida e aos meus coletivos a partidos políticos, empresas, bancos, entidades coorporativas e instituições remotas que não posso influenciar de forma alguma.

Eu não voto, nem acredito na história ridícula do voto útil ou do mal menor, não apoio nem escolho o mal em nenhum grau. Não me parece pouca coisa fazer o que considero certo em consciência e, portanto, começar retirando meu apoio moral e respeito por toda essa farsa.

Eu não voto, prefiro ter minha consciência livre de contribuir e reforçar esse sistema de servidão mediante minha participação eleitoral. Prefiro manter minha personalidade e, a partir daí, buscar alternativas, agir, criar, pensar fora e livre das amarras desse consenso podre.

Eu não voto, pois, ao não participar da farsa eleitoral, não dou meu consentimento, nem dou licença ou cheque em branco aos oligarcas de qualquer cor.

Eu não voto, não acredito na dicotomia das já inexistentes esquerdas e direitas, não acredito nas promessas absurdas da social-democracia, dos globalistas, dos pós-modernistas, dos liberais e de outros charlatães da moda, para a aceitação de seu jogo na sociedade e de suas regulamentações horríveis.

Eu não voto, a moral e as leis que prevalecem são produto do capital e da sofisticada rede de totalitarismo e corrupção instalada no Estado para controlar as massas por meio da sociedade de consumo capitalista e para enganar os mais insatisfeitos com a falsa ideia de reforma.

Eu não voto, prefiro exercer a responsabilidade e manter a decência.

Eu não voto, não negocio com terroristas.

SEU VOTO NÃO MUDA NADA,

SUA LUTA MUDA TUDO.

CNT-AIT Toledo

https://toledo.cnt-ait.org

NOTA: Em 28 de maio acontecem eleições regionais e municipais na Espanha.

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Por este caminho,
Ninguém mais passa —
Tarde de outono.

Bashô

[Espanha] 28M Abstenção ativa

As eleições municipais e regionais de 28 de maio de 2023 estão se aproximando em meio a um novo bombardeio de propaganda eleitoral. Nesse contexto, nós, trabalhadores e trabalhadoras, estamos nos perguntando o que fazer.

Por um lado, observamos como as opções políticas mais reacionárias estão se fortalecendo, enquanto a última legislatura colocou mais uma vez na mesa as limitações que as forças supostamente mais progressistas têm quando se trata de implementar políticas que ponham fim à constante degradação das condições de vida da classe trabalhadora.

Nós, libertários e libertárias, reafirmamos mais uma vez que a única saída para a grave crise para a qual o capitalismo está nos arrastando é a auto-organização da classe trabalhadora. Essa auto-organização deve ter vários objetivos. O primeiro é o desenvolvimento de práticas de apoio mútuo e ação direta que empreguem ao máximo a força da que dispomos para que a classe trabalhadora possa interromper a deterioração de nossas condições de vida em todas as áreas (trabalho, moradia, pensões, saúde etc.). Dessa forma, criar nossas próprias estruturas e espaços com valores antagônicos aos do Estado, do capital e da autoridade. São essas práticas de apoio mútuo, diante dos problemas cotidianos, e essas estruturas com as quais nós, a classe trabalhadora, nos equipamos, que podem nos permitir acumular a força necessária para avançar rumo à transformação social.

Essa é a direção que nós, anarcossindicalistas, damos ao sindicato e a razão pela qual, diante da via institucional, estamos comprometidos com a abstenção ativa e a auto-organização.

Você escreve o futuro quando se organiza para transformá-lo!

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/28m-abstencion-activa/

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Canta o bem-te-vi
no galho da goiabeira:
mesma saudação!

Ronaldo Bomfim

[Espanha] Lançamento: “Madri, vermelho e preto”, de Eduardo de Guzmán

Eduardo de Guzmán nos leva à Madri que surpreendeu o mundo e foi o orgulho da Espanha antifascista. Em seu estilo magistral, com o tom elevado de quem escreve uma reportagem de trincheira, vivendo e lutando ao lado do povo de Madri, ele documenta dia a dia a resposta dos trabalhadores ao golpe de estado fascista (18 de julho de 1936), o ataque ao quartel La Montaña, a coragem das milícias, que se tornariam a base do Exército Popular. Cada página vibra ao ritmo da luta para libertar Madri e as terras de Castela da barbárie nacional-italiana-alemã, já às portas da cidade naquele novembro histórico cuja defesa custou a vida de Durruti.

Ele descreve como a resistência e as colunas de Madri foram organizadas, irradiando-se dos sindicatos, ateneus, casas do povo, estações de rádio, organizações, bairros de trabalhadores… Ele transmite a coragem da Madri confederal e popular, que conquistou, à custa da vida de seus melhores militantes, uma muralha de corações. Grande parte do governo republicano fugiu para Valência. E sozinhos, com o apoio solidário dos povos da Espanha, dos voluntários e das Brigadas Internacionais, mostrou sua coragem de lutar pela liberdade e pela revolução social. Em pé de guerra, como um penhasco de resistência, os verdadeiros salvadores de Madri foram os trabalhadores.

Inclui um tributo inédito ao jornalismo de combate (escrito e gráfico) nas frentes de Madri. Eles arriscaram suas vidas para informar e levar a imprensa às trincheiras. Um bom número deles morreu lutando e outros morreram em campos de concentração e no exílio.

Madrid, rojo y negro

Eduardo de Guzmán

Contém 130 desenhos e fotografias, a maioria deles inéditos.

Coleção Lo que no debe decirse, 9 (dedicada aos pioneiros do jornalismo

de combate).

ao jornalismo de combate pioneiro).

240 páginas

Preço: 21 euros.

ISBN: 978-84-126464-0-5

Maio de 2023

www.lalinternasorda.com

Tradução > Liberto

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Anoitece
Atrás da colina
O sol adormece

RôBrusch

Devotos da moralidade

Ao elaborar reflexões acerca da pena capital, Albert Camus sugere análises irruptivas acerca dos desdobramentos relativos à devoção das pessoas aos juízos morais. Foi corajoso ao afirmar que as recorrentes repetições de repressões e de violências, como a própria pena de morte, derivam das divinizações produzidas pelos seres humanos em nome de pretensões redentoras.

São pretensões que “justificam” o sacrifício, a matança, as estigmatizações.

Os pontilhados libertários sugeridos por Camus, no entanto, não devem estar circunscritos ao tema abordado naquela ocasião: a pena capital.

Suas inquietações residiam na recusa às subordinações de cada ser às vontades absolutas de quaisquer pessoas, instituições ou grupos, cujas justificativas baseiam-se, de modo recorrente, em dicotomias como “bom” ou “mau”, “certo” ou “errado”, “legal” ou “ilegal”, “moral” ou “imoral”.

Nos marcos da contemporaneidade, os anseios voltados à moralização dos demais são visíveis nas diferentes esferas da vida, como nas redes sociais, nas escolas, nas universidades, no trabalho.

Foi, em certa medida, o período no qual as pretensões moralizadoras provinham, apenas, das autoridades superiores, como os governantes, o soberano da sala de aula, os pais, os sacerdotes.

Hoje, tais aspirações amplificaram-se e provêm dos vínculos “equivalentes” ou horizontais entre amigos, namorados, “companheiros” de ativismo, seguidores de redes sociais etc.

A norma da vez é ser democrático e, portanto, inclusivo, pluralista. Cada um deve estar adequado ao vocabulário das elites secundárias que, subordinadas às elites principais, participam proativamente da governança contemporânea.

Os termos, as condutas e os conteúdos compartilhados devem estar em consonância com as recomendações “sagradas” – e, portanto, morais – dos manuais democráticos. Desobediências às normas e às leis instituídas por meio da formalização de novos direitos de minorias são passíveis de punição.

Punições estas que podem ocorrer nos marcos do direito ou nos tribunais “informais”, como as redes sociais, grupos de amigos, famílias convertidas à lógica democrática.

Ocorre que, independentemente da face “simpática”, o progressista de plantão mostra-se um cidadão-polícia “eficiente”.

Seu crachá está condicionado ao monitoramento do cumprimento, por parte de seus pares, das recomendações proferidas pelos manuais comportamentais das elites secundárias – lideranças e ativistas feministas, ambientalistas, LGBTQIA+, antirracistas e, inclusive, muitas e muitos que se autointitulam antifascistas. Todos são adeptos da moral progressista.

E repetem-se, de maneiras distintas, as repreensões às condutas classificadas como moralmente incorretas, inclusive aos mortos.

“cancelamentos”, revisões e “correções”

Segundo o léxico, cancelar significa tornar (algo) nulo, sem efeito, sem valor. Eliminar ou riscar o que está escrito com a finalidade de dissolver seu efeito.

O termo “cancelamento” vem do latim cancellare (cobrir com barras, grades), verbo derivado de cancelli, diminutivo de cancri (barras), que possui a mesma raiz de carcer (prisão).

Além da palavra cancelar, cancelli é a raiz de outras palavras como cadeia, aprisionar e prisioneiro.

Vemos, com base na própria etimologia da palavra, que os “cancelamentos” não estão dissociados da linguagem e da cultura punitiva.

Perspectivas libertárias não devem estar voltadas à procura das supostas “origens” do que se convencionou chamar de cancelamento. Enfatiza-se, no entanto, que a adoção acentuada do termo remete ao ano de 2017, momento no qual o movimento #MeToo amplificou-se.

Essa campanha irrompeu nas plataformas digitais e repercutiu nas mídias tradicionais de grande parte do chamado Ocidente. Mulheres de diferentes lugares, lideradas por figuras da cena artística e cinematográfica estadunidense, passaram a relatar e compartilhar em redes sociais casos em que sofreram violências sexuais, notadamente em seus ambientes de trabalho.

O principal desdobramento desse movimento foi a série de denúncias contra o produtor de Hollywood Harvey Weinstein, que resultou em seu “cancelamento”.

Desde então, ocorreram “cancelamentos” das mais variadas formas e matizes, de modo que essas práticas punitivas advindas das redes sociais se desdobraram e recrudesceram em outras.

Constata-se que, ao menos desde 2020, a editora HarperCollins, responsável pela edição dos livros de Agatha Christie, está promovendo revisões de trechos redigidos pela escritora britânica.

Agatha Christie não foi o único alvo.

Recentemente, na comemoração dos 50 anos da vida e obra de Pablo Picasso, o pintor voltou a ser alvo de ativistas feministas e suas posturas de “cancelamento”. Em 2021, Picasso já havia sido mencionado pelo movimento #MeToo na França, que não tardou em recriminá-lo devido às suas relações com as mulheres.

Ativistas feministas o descreveram como um “minotauro” e um “gênio violento” que teria destruído a vida de suas companheiras.

Vale lembrar que, no final de 1971, galerias e livrarias que expuseram obras e retratos de Picasso em homenagem ao seu 90º aniversário foram atacadas pela extrema direita espanhola.

Devido às suas aspirações políticas e à obra Guernica, invenção artística de combate ao fascismo e que retrata o horror inerente à guerra, Picasso foi rechaçado constantemente pela ditadura franquista.

Nas redes sociais, onde os rótulos genéricos são frequentemente adotados, o artista Paul Gauguin também é alvo de acusações.

Com base na noção de “lugar de fala”, que visa, entre outras coisas, legitimar discursos de “cancelamento”, ativistas acusam Gauguin de promover o colonialismo e de objetificar e sexualizar os corpos das mulheres do Taiti presentes em suas obras.

Parecem ignorar, propositalmente ou não, toda a existência potente de Gauguin em vida, suas relações com outros artistas como Camille Pissaro e Vincent Van Gogh e, principalmente, com Flora Tristan, escritora, militante franco-peruana e sua avó. Ela foi uma das precursoras do movimento sindicalista e das perspectivas de liberdade das mulheres, cuja incidência sobre a existência de Gauguin foi significativa.

O escritor dândi e libertário Oscar Wilde, recusando quaisquer repreensões às invenções artísticas, afirmava que a obra de arte deve provocar inquietações no espectador.

Em sua obra A alma do homem sob o socialismo, livro no qual explicitou sua perspectiva anarquista, Wilde não hesitou em afirmar que “sempre que uma sociedade, ou governo de qualquer espécie, tenta impor ao artista o que ele deve fazer, a Arte desaparece por completo”. Para ele, uma obra de arte é “o resultado singular de um temperamento singular”.

Os anseios moralizadores dos humanitaristas contemporâneos ultrapassam, arbitrariamente, as linhas do tempo da História. Revisam e “corrigem” obras e criações que reproduzem noções, gestos e comportamentos atrelados a um momento determinado a partir das diretrizes politicamente corretas do momento.

Compreender cada momento significa, entre outras coisas, debruçar-se sobre as produções literárias, artísticas, embates históricos entre as forças sociais. Caso contrário, inviabiliza-se análises relativas aos costumes, às relações, crenças e práticas que preponderavam em momentos históricos anteriores.

A prepotência dos ativistas, pelo visto, adquire contornos a-históricos.

São condutas cujo odor remete ao stalinismo, ao fascismo e ao nacional-socialismo, que não tardaram em revisar, menosprezar e, censurar e destruir produções que não correspondiam à moral preponderante, seja a proletária ou a da “raça pura”. Não há moralismo que não asfixie o diferente, os “moralmente incorretos”. Não há cultura sem a troca. A identidade é mais do que uma estultice.

Fonte: hypomnemata 267, Boletim eletrônico mensal do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária, do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP –  no. 267, maio de 2023 – www.nu-sol.org

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na rua deserta
brincadeira de roda
vento se sujando de terra

Alonso Alvarez

[República Tcheca] 10ª Feira do Livro Anarquista de Praga, 27 de maio

A 10ª Feira do Livro Anarquista de Praga acontecerá no sábado, dia 27 de maio, mais uma vez em Holešovice, no jardim do Cross Club (Plynární 1096) e também no espaço comunitário Zdena (Tusarova 41).

Como nas edições anteriores, editoras e distribuidoras de literatura anarquista tcheca e estrangeira comparecerão ao evento.

Reuniões com autores, autoras, editoras, diversas organizações, grupos e coletivos do movimento antiautoritário é uma parte importante do encontro.

A feira do livro é o lugar ideal para se encontrar, fazer amigos e amigas e iniciar alianças, colaborações e novos projetos.

>> Mais infos:

anarchistbookfaircz (A) riseup.net

anarchistbookfair.cz

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Hora do almoço.
Pela porta, com os raios de sol,
As sombras do outono.

Chora

O Brasil é um país conservador

Os mais de 500 anos de existência da região definida como Brasil, mantiveram os contornos conservadores de exploração e opressão.

De todas as possibilidades de desenvolvimento econômico, social e político. controle dos grupos dominantes, exploradores e opressores mantiveram uma constante, mesmo quando estiveram e estão em disputas internas pelo poder e controle dos destino de nossas riquezas, das quais pouca coisa fica para a população brasileira, que não tem suas necessidades básicas atendidas como educação e saúde.

Nesse ambiente conservador, os grupos políticos submetidos às regras institucionais, formam partidos políticos que em sua maioria não chegam a ser ou ter alguma base progressista. Sim, alguns em seu início tiveram alguma influência ou um esboço mais radical de inspiração do que seria uma esquerda, com alguma demanda popular, mas que não deixam de ser apenas estruturas populistas e demagógicas. Na medida que houve o crescimento e profissionalização desses partidos, perdem suas características populares e sociais, tornam-se organizações de legalização do Estado e de sua manutenção, com uma diferenciação muito pequena a ponto de poderem conviver nos ambientes parlamentares sem dificuldades.

As estruturas partidárias brasileiras giram de fato apenas no que podemos entender de direita girondina, uma vez que o conceito politico de direita e esquerda estão associados aos grupos políticos situados na assembleia francesa durante, durante sua revolução regicida.

Uma esquerda de vínculo mais profundo com as pessoas exploradas e oprimidas,  de luta direta para uma transformação mais radical e por isso, longe da esfera eleitoral partidária, se mantém ainda reprimida. Mesmo assim, em mais de uma vez, essas vozes discordantes foram às ruas e mostrou sua capacidade de contestação diante de uma sociedade refém dos grupos de poder opressores e exploradores.

Ainda nos resta revolta e radicalidade para não nos dobrarmos a essa submissão plena. Submissas, levantemos, só a luta nos torna dignas e livres!

anarkio.net

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voltando com amigos
o mesmo caminho
é mais curto

Alice Ruiz

[Itália] O matemático anarquista: a história de Renato Caccioppoli, neto de Bakunin

Poucas pessoas conhecem Renato Caccioppoli, exceto nas salas semiescuras da matemática. Ele foi um dos maiores matemáticos do século XX em nível internacional. Louco, com aquela loucura que só os matemáticos têm, tímido, melancólico, brilhante a ponto de ser considerado o Einstein italiano.

Mas Caccioppoli não era apenas um matemático talentoso, ele era neto do revolucionário russo Bakunin. Sua mãe era, na verdade, Giulia Sofija Bakunin, filha de Michail Bakunin. Sua mãe, Giulia, tornou-se a segunda italiana a se formar em matemática no final do século XIX, logo após sua irmã, Maria Bakunin, ter se formado em química; e ela foi a primeira mulher na Itália.

Como um filho da arte, Renato explorou a matemática pura. Em Nápoles, onde nasceu em 1904, recebeu o apelido de o’Genio. Seu campo era a análise matemática. Caccioppoli não gostava de arquivar e terminar o trabalho, mas preferia lidar constantemente com novos problemas e, com sua intuição genial, muitas vezes estava à frente de seu tempo, abrindo novos caminhos para o avanço da ciência. Seus trabalhos foram, portanto, de grande importância tanto pelos resultados alcançados quanto pela ampla contribuição de novas ideias e novas direções com as quais influenciaram profundamente a atividade científica de toda uma geração de analistas.

Para citar um de seus trabalhos, em 1932 ele provou um resultado muito importante (a analiticidade das soluções de equações elípticas com coeficientes de classe C^2) que conseguiu resolver o 19º problema de Hilbert. O problema também foi abordado e ampliado por John Nash (o matemático americano “louco” que ganhou as manchetes com o filme “Uma Mente Brilhante”, estrelado por Russell Crowe).

Libertário e refratário a qualquer restrição imposta, em 1938 ele fez um discurso contra Hitler e Mussolini, na ocasião da visita do ditador nazista a Nápoles; junto com sua companheira, Sara Mancuso, ele cantou a Marselhesa na versão anarquista em público, depois do que começou a falar contra o fascismo e o nazismo, infelizmente na presença de agentes infiltrados do OVRA (o serviço secreto fascista). E, por essa ação, ele foi preso em um asilo. Ele só foi liberado depois de alguns meses graças à sua tia Maria Bakunin, porque ela era considerada a maior química italiana.

Infelizmente, o asilo e a profunda depressão que se seguiu o levaram a um período de enorme desânimo. Renato Caccioppoli, o’Genio, deu um tiro na cabeça em 8 de maio de 1959, com apenas 55 anos. Assim morreu o neto de Bakunin, o grande matemático anarquista italiano esquecido nos livros de história.

Foi somente em 1992, graças ao filme do diretor Mario Martone “Morte di un matematico napoletano” (Morte de um matemático napolitano), que ele foi parcialmente reavaliado.

Fonte: https://frecceinversi.wordpress.com/2023/05/15/il-matematico-anarchico-storia-di-renato-caccioppoli-il-nipote-di-bakunin/

Tradução > Liberto

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Calor e chuva
Caminham pela janela
Lágrimas de outono

Yumi Kojima

[Grécia] 7ª Feira do Livro Anarquista de Patras, 25, 26 e 27 de maio de 2023

Os livros anarquistas são armas contra o totalitarismo moderno

A Feira do Livro Anarquista acontecerá em três dias, com debates, apresentações, exposições, atividades culturais… e, claro, com o fim de que se divulguem os livros e as edições do movimento anarquista. Todos os dias haverá uma exposição de cartazes políticos sobre vários momentos do movimento anarquista-antiautoritário, bem como distribuição de produções musicais do movimento.

O objetivo do festival é pôr em destaque a riqueza das ideias anarquistas, antiautoritárias e libertárias, a difusão das propostas anarquistas na sociedade e em particular entre os jovens da cidade, em uma época em que prevalece a propaganda estatal contra os que resistem de uma maneira auto-organizada e desde baixo, enquanto que o racismo, o canibalismo social e a fascistização parecem ser as únicas alternativas de uma sociedade em crise.

A feira do livro é organizada no Espaço Auto-Organizado Epi Ta Proso (c. Patreos, 87)

epitaprosw.espivblogs.net | anarchistbookfairpatras.wordpress.com

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gota na água
faz um furinho como
prego na tábua

Carlos Seabra

[Espanha] Homenagem em Madri a Melchor Rodríguez, “O Anjo Vermelho”

No último sábado, 20 de maio, no Sacramental de San Justo, o Movimento Libertário realizou um ato de homenagem a Melchor Rodríguez, o último prefeito da Segunda República Espanhola em Madri e um proeminente líder anarcossindicalista durante a Guerra Civil. O evento ocorreu no âmbito de uma conferência sobre sua figura, da qual a CGT participou juntamente com as organizações CNT e Solidaridad Obrera, a Fundação Salvador Seguí e a Fundação Anselmo Lorenzo, o Ateneu Libertário de Carabanchel-Latina e o Ateneu Libertário de Lavapiés. Uma demonstração de unidade que os presentes saudaram no contexto da Confluência Anarcossindicalista recentemente acordada pelas três forças anarcossindicalistas do estado espanhol.

Ao meio-dia, com um céu nublado que anunciava tempestades escuras que não cessavam, cerca de trinta pessoas das organizações organizadoras e alguns parentes se reuniram em frente ao túmulo do homem conhecido como o “Anjo Vermelho”, por sua defesa dos direitos dos prisioneiros após o levante militar contra o governo da República. O jornalista Alfonso Domingo, autor de um livro e de um documentário sobre a figura de Melchor Rodríguez, foi o primeiro a falar. Domingo lembrou que dentro do nicho está o cadáver envolto na bandeira vermelha e preta da CNT, como testemunha de um enterro “comovente” que ocorreu em 1972 em condições inéditas durante o regime de Franco. Ele também destacou que, embora a homenagem fosse “talvez tardia”, ele esperava que fosse uma oportunidade para divulgar as ideias de Melchor e seu “compromisso com a vida dentro da loucura que foi a Guerra Civil”. O próximo orador foi Miguel Ángel Pradera, da Fundação Anselmo Lorenzo. Ele destacou como Rodríguez “fez mais do que o excepcional” nos anos em que viveu e pediu que sua carreira fosse reivindicada para “as gerações futuras”. Em um tom semelhante, falou Miguel Gómez, da Fundação Salvador Seguí, que escolheu um fragmento do poema Palabras para Julia, de Rafael Alberti, para iniciar sua declaração. Gómez associou a figura de Melchor Rodríguez à de Salvador Seguí, que agora está comemorando o centenário de seu assassinato em Barcelona, para imaginar o que as duas figuras históricas pensariam sobre o que o Movimento Libertário alcançou até agora: “Eles não ficariam muito felizes. Portanto, como há pessoas aqui das três organizações, vamos trabalhar nisso (na confluência) e tenho certeza de que eles concordariam conosco”, disse ele para encerrar sua vez de falar.

Em seguida, falaram os representantes do Ateneu Libertário de Carabanchel e do Ateneu Libertário de Lavapiés. O primeiro enfatizou a ideia de Melchor Rodríguez como representante e inspirador do “humanismo anarquista” e do “ideal de humanidade acima de qualquer divisão”. O segundo mencionou a “honra” de ter um vizinho em Lavapiés como o líder anarquista e lembrou como o bairro na época de Melchor Rodríguez era um “território muito animado, com muitas pessoas que pensavam em construir um mundo melhor”. Depois deles, foi a vez de Juan Javier Herrera, da CNT, falar, que destacou a “coerência com suas ideias” do homenageado. “Ele acreditava em um mundo diferente, acreditava em um mundo em que a organização da sociedade fosse entre pessoas livres, entre iguais, e isso tinha que ser demonstrado e ele o demonstrou com suas ações”, disse o representante da CNT, acrescentando que Rodríguez “sabia ficar do lado dos prisioneiros, mesmo que fossem fascistas”. Por fim, como os demais presentes, ele fez um apelo à unidade anarcossindicalista: “Devemos trabalhar para que o Movimento Libertário volte a ser o que foi na Espanha. Esse seria o melhor tributo que poderíamos prestar a Melchor Rodríguez”. O próximo a falar foi Crescencio Carretero, do sindicato Solidaridad Obrera. Para Carretero, há três elementos que devem ser fundamentais para a atual unidade de ação: “Remar juntos, remar na mesma direção e remar no mesmo compasso. Essa é a única maneira de o anarquismo irradiar para o resto da sociedade”, e ele terminou enfaticamente com o grito “Viva Melchor Rodriguez e viva a anarquia”. Dentro do mesmo bloco de organizações, Carmen Arnaiz, Secretária de Ação Social da CGT, destacou que “os ideais anarcossindicalistas receberam uma excelente representação nessa pessoa, que nos deu um exemplo de vida, de honestidade e de viver como se pensa”. E acrescentou: “esse é o caminho certo a seguir nesses tempos de individualismo, para divulgar as ideias anarquistas e a beleza do anarquismo”.

As palavras finais do evento foram para os representantes da família. O primeiro a falar nessa última seção foi Rubén Buren, bisneto de Melchor Rodríguez, que lembrou que em casa “falavam baixo” quando se referiam ao ex-prefeito libertário de Madri. Ele também lembrou a figura de sua avó Amapola, filha do líder anarquista, e o poder da palavra como motor de mudança, mesmo que para isso “seja preciso falar com o inimigo”, porque, como ele ressaltou, “falar de Melchor é falar de humanismo”. Como todas as pessoas que participaram do evento, Rubén Buren também elogiou a confluência anarcossindicalista, “nós anarquistas nos caracterizamos por pensar, por refletir” e acrescentou: “vamos todos nos unir com suas variáveis”. No final de seu discurso, ele leu uma parte do poema que sua avó Amapola costumava lhe contar e que reproduzimos no final do artigo. Finalmente, Rosa Bustos, sobrinha-neta de Melchor Rodríguez, falou no final. Ela encerrou a jornada relembrando o bom humor de seu tio-avô e como “ele colocava todos nós, crianças, em seu bolso”. Ela também se lembrou de uma dúvida que não entendia quando era criança: “Por que falar tão baixinho sobre ele?”, e então ressaltou que sempre se gabava de seu tio-avô anarquista. O tributo terminou uma hora e meia depois de ter começado, com todos os presentes cantando A las barricadas.

E se um pária da terra

pergunta: o que é o anarquismo?

o que o anarquismo tem?

você mesmo lhe explicará

como indica sua doutrina;

Anarquia significa:

Amor, poesia, igualdade,

Fraternidade, Sentimento, Liberdade

Cultura, Arte, Harmonia,

Razão, guia supremo;

Ciência, a verdade exaltada,

Vida, Nobreza, Bondade,

contentamento e alegria.

Tudo isso é ANARQUIA

e anarquia HUMANIDADE.

Melchor Rodríguez (Sevilha 1893, Madri 1972)

Fonte: https://rojoynegro.info/articulo/homenaje-en-madrid-a-melchor-rodriguez-el-angel-rojo-2/

Tradução > Liberto

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/23/espanha-lancamento-el-angel-rojo-melchor-rodriguez-el-anarquista-que-salvo-a-sus-enemigos-de-alfonso-domingo/

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É quase noite –
As cigarras cantam
Nas folhas escuras.

Paulo Franchetti

Abaixo o ajuste fiscal do governo Lula-Alckmin

O governo Lula-Alckmin(PT-PSB) através do seu ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), levou ao congresso a chamada proposta de “Novo Arcabouço fiscal” – NAF. Esse projeto na prática é um novo teto de gasto, e na realidade a própria existência dele já demarca um ajuste fiscal permanente que penaliza as trabalhadoras e trabalhadores, sobretudo a população trabalhadora negra, principalmente as mulheres.

O fato é que não há nenhuma necessidade econômica para construção desse novo teto de gasto a não ser pressão política dos capitalistas de origem nacional e internacional, principalmente os que detém os títulos da dívida públicas e os grupos financeiros que comandam a economia global. A proposta chegou ao congresso e já foi aprovado, a pedido do Governo Lula, a urgência do projeto. O relator da proposta no congresso é o deputado federal Cláudio Cajado (PP-BA), que foi aliado do governo Bolsonaro e apadrinhado de Artur Lira (PP-Alagoas). O relator já fez alterações na proposta original e conseguiu deixar pior.

A eleição de Lula-Alckmin teve como ponto principal salvar a República de 1988, e salvar essa república é favorecer a classe dominante que controla a política econômica desde então. Nesse sentido, o NAF é só um desenvolvimento fiscal da “Regra de ouro”, da “Lei de Responsabilidade Fiscal” (de 2000) e da Emenda Constitucional 95 (“tetos de gastos”), que congelou por vinte anos, em 2016, os gastos sociais.

Neste sentido, o NAF está totalmente associado ao consenso de economia neoliberal que é a base dos planos de estabilização econômica, como é o Plano Real. Esse consenso entende que: 1) as políticas de estabilização são feitas para ganhar a confiança do mercado na manutenção de tal regime; 2) a política fiscal deveria ser conduzida com o objetivo de gerar um superávit primário necessário para o equilíbrio das contas públicas; 3) ganhar a confiança do mercado acerca desse propósito; 4)  à política monetária deve ter o objetivo único de manutenção da estabilidade de preços, por meio de metas de inflação pré-determinadas por um banco central independente e  5) caberia ao Estado garantir uma ambiente de negócios para favorecer os capitalistas. Nesse sentido, os gastos estatais devem ser direcionados para a manutenção da ordem, da segurança pública e das fronteiras; o cumprimento das leis e contratos; a proteção à propriedade privada e aos direitos de propriedade.

A social-democracia e seu reformismo degenerado é incapaz de sequer fazer o mínimo, que é apresentar as trabalhadoras e trabalhadores brasileiros uma proposta econômica que diminua a desigualdade social e melhores as condições de vida do povo. Muito pelo contrário, as forças políticas socialdemocratas que sustentam o governo Lula estão amarradas ao pacto de conciliação de classe e temem de medo diante de qualquer possibilidade de alguma mobilização ou levante popular. São hoje defensores incontentáveis da ordem burguesa, dos patrões.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://lutafob.org/9778/

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por uma só fresta
entra toda a vida
que o sol empresta

Alice Ruiz

“Violência e Educação: Perspectivas Anarquistas”

Diante dos recentes e inúmeros ataques que professores, alunos e a comunidade escolar estão sofrendo: como enfrentar essa situação? Quais são as propostas anarquistas para a questão educacional?

Venha participar desse debate público na Biblioteca Municipal Alberto Sousa, em Santos (SP), no dia 03 de junho, sábado, às 15 horas, com a presença do companheiro Rodrigo Rosa, professor e membro da Biblioteca Terra Livre de São Paulo (SP).

  • Data: Sábado, 03 de Junho de 2023, às 15 horas
  • Local: Biblioteca Municipal Alberto Sousa
  • Endereço: Praça José Bonifácio, número 58, Centro – Santos (SP)

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dou de comer ao gato:
o ronrom
estridula sem cessar

Ross Clark

[Espanha] Vídeo | Em época de eleições…

Em época de eleições, não se deixe enganar por fumaça.

Desde a CGT, pedimos aos trabalhadores que não se deixem enganar por políticos profissionais, que se organizem em um sindicato solidário, honesto, participativo e autogestionado a margem de qualquer partido político, poder ou religião.

Organizem-se na CGT e deem-lhes fogo!

>> Clique aqui para ver o vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=BhmoZU1X5LA

O sufrágio universal é a expressão mais ampla, enquanto mais refinado, charlatanismo político do Estado, é, sem dúvida, um instrumento perigoso, que exige que aqueles que usam a grande habilidade e competência, mas, ao mesmo tempo, se estas pessoas aprender a usá-lo, pode se tornar o caminho mais seguro para fazer as massas cooperar na construção de sua própria prisão.” Mikhail Bakunin

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/05/22/galicia-voce-quer-uma-mudanca-nao-vote-neles-jogue-os-fora/

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Lua cheia.
Me dá, me dá!
Chora a criança.

Issa

A Primeira Jornada de Pesquisa sobre Mulheres Anarquistas será realizada no México

• Organizada pela Rede de Pesquisadoras sobre Mulheres Anarquistas, em aliança com o Instituto Nacional de Antropologia e História, e Mora

• Decorrerá de 22 a 26 de maio no Instituto Mora e no Departamento de Estudos Históricos do INAH.

Neste século, a historiografia sobre a participação das mulheres no movimento anarquista vem crescendo, como uma onda cuja crista se ergue e traz à tona biografias submersas no esquecimento. Esse boom pode ser visto na Primeira Jornada no México de Pesquisa sobre Mulheres Anarquistas, que acontecerá em dois locais.

O encontro acadêmico é organizado pela Rede de Pesquisadoras sobre Mulheres Anarquistas, com o apoio do Ministério da Cultura federal, por meio do Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH), e do Instituto de Pesquisas Dr. José María Luis Mora. Neste último, localizado na Plaza Valentín Gómez Farías nº 12, bairro San Juan Mixcoac, será realizado nos dias 22, 23 e 25 de maio de 2023, enquanto a Direção de Estudos Históricos do INAH (Allende 171, bairro Tlalpan Centro), nos dias 24 e 26.

A programação inclui 45 conferências, quatro delas magistrais, que acontecerão das 12h às 18h, e também serão transmitidas no canal da Coordenação Nacional de Antropologia no YouTube (youtube.com/@antropologiacnan), e no perfil do Facebook Institutomora (https://www.facebook.com/Institutomora/?locale=pt_BR).

Como expressou o vice-diretor de História Contemporânea do DEH, Alejandro de la Torre Hernández, “considerando que o anarquismo é um movimento e uma filosofia política que contempla a emancipação dos oprimidos de todos os seus jugos, um dos pontos-chave de sua agenda do século XIX tem sido a libertação das mulheres, a luta pela emancipação feminina. Isso dá muita força a essas investigações”.

“São quatro dias para três séculos”, comenta, já que as apresentações abordarão vários períodos desde o século 19 até o presente, regiões e problemas que cercam os anarquistas, fornecendo material valioso para reconstruir sua história e sua participação, muitas vezes silenciadas.

“Há uma galeria de ‘personagens’, algumas famosas como Luisa Michel, Emma Goldman, Margarita Ortega Valdés, Juana Belén Gutiérrez de Mendoza, Francisca J. Mendoza, até Flora Tristán, remontando à pré-história do socialismo latino-americano; mas outros precisam ir além do anonimato porque foram fundamentais na projeção e reprodução das lutas por meio de seu trabalho de propaganda”, sustenta o historiador.

Nesse sentido, destacou, no caso mexicano, a publicação de Gabriela González Phillips, Anarquistas mexicanas. Escritoras no alvorecer do século XX e a biografia de Ethel Duffy Turner (1885-1969). Uma existência no limite, movida pela Revolução, na qual Margarita Vásquez Montaño reconstrói uma trajetória complexa, repleta de contradições e lugares, ações e interações desde a esquerda, além da figura de seu marido, John Kenneth Turner, autor de México Bárbaro.

Ela também mencionou as contribuições à etno-história das mulheres anarquistas na Argentina, feitas por Laura Fernández Cordero, que abrirá o dia com a apresentação magistral Da história das mulheres aos estudos de gênero. Uma releitura crítica do anarquismo.

As outras conferências são: Posições políticas na trajetória de vida de Juana Belén Gutiérrez de MendozaA caneta como arma: um contraponto intelectual entre Blanca de Moncaleano e Luisa Capetillo e Mulheres anarquistas na Revolução Mexicana, das especialistas Ana Lau Jaiven, Jorell Meléndez e Ana Ribera Carbó, respectivamente.

Além disso, será apresentado o livro Revolucionárias, Rebeldes e Anarquistas: Mulheres no Partido Liberal Mexicano, coordenado por Luis F. Olvera Maldonado.

As conferências serão dadas em onze mesas temáticas que, a partir da ação das mulheres, “darão um panorama do anarquismo na América, indo dos Estados Unidos ao Caribe e, claro, ao México, onde contribuiu com táticas, discursos e a radicalização da Revolução. Da mesma forma, na América do Sul, especificamente no Río de la Plata, na Argentina, houve uma implantação muito forte do anarquismo nos movimentos operários, a partir do recrutamento de mão de obra migrante”, concluiu De la Torre Hernández.

Fonte: https://www.inah.gob.mx/boletines/se-llevara-a-cabo-la-primera-jornada-en-mexico-de-investigacion-sobre-mujeres-anarquistas

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se andava no jardim
que cheiro de jasmim
tão branca do luar

Camilo Pessanha