Novembro de 2017, Rio de Janeiro, Brasil
O objetivo do II Seminário “Anarquismo: pensamento práticas insurgentes” é realizar uma reflexão, a partir da história e da sociologia, sobre os dilemas das insurgências e das revoluções. Tomando como base a ascensão e crise das revoluções do século XX (melhor ilustrada pela revolução russa, que completa seu centenário no ano de 2017) e seu legado para a análise das insurreições do século XXI, iremos discutir um conjunto de temas estratégicos, recorrentes nessas experiências revolucionárias e insurrecionais, e como os mesmos se relacionam ao estudo do sistema mundial e sua presente crise.
Os três temas fundamentais que irão organizar a discussão do seminário são: “Estado, Revolução e Autogestão no século XX”; “Nacionalismo, racismo e emancipação da mulher”; “Insurreições e crise do capitalismo no Século XXI”. Cada um desses temas se coloca numa fronteira complexa entre passado e present e.
Com “Estado, Revolução e Autogestão no século XX” pretendemos problematizar como as diferentes teorias da revolução (anarquismo, comunismo, socialismo, nacionalismo) levaram à transformação da história do século XX, especialmente, ao estabelecerem diferentes programas e políticas econômicas para enfrentar as crises do capitalismo. Ao mesmo tempo, iremos observar como, contraditoriamente, essas insurreições/revoluções terminaram por fundar novas vias de desenvolvimento capitalista autônomo, o que foi fundamental para o capitalismo superar crises mantendo a sua ordem. Os casos mais emblemáticos são Rússia e China, países que passaram por revoluções populares, mas, contraditoriamente, impulsionaram diferentes tipos de capitalismo de Estado, que hoje são fundamentais para a sobrevivência do capitalismo. As propostas de autogoverno e autogestão, apesar de transitórias, constituíram-se numa importante mola propulsora das insurreições e movimentos autonômicos, sobrevivendo muitas vezes nas entrelinhas da história oficial e ressurgindo sob formas variadas de resistência e ação.
Nacionalismo, racismo e emancipação da mulher, esse foi outro elemento fundamental para as revoluções do século XX. A questão nacional, racial e de gênero estiveram, e estão, mutuamente imbricadas. O conceito de Povo-Nação, em contraposição ao de Estado-Nação, foi elemento decisivo das diferentes lutas por reforma e revolução nas Américas, Ásia e África. O conceito de Povo-Nação materializou a autoinstituição social e encontrou, paradoxalmente, nos processos de independência e formação de novos Estados-Nação, sua negação. Assim, sob a égide do nacionalismo, se desenvolveram processos contraditórios. A luta pela emancipação nacional esbarrou no problema das minorias internas e no desenvolvimento de novas etnias dominantes, que usaram do racismo, bem como do fortalecimento de formas patriarcais, para realizar uma nova opressão e dominação. O entrecruzamento dessas questões (questão nacional, racial e de gênero) hoje são bem ilustradas pela revolução de Rojava, no Kurdistão. Por outro lado, tais lutas legaram diferentes visões e projetos políticos que marcam os movimentos sociais dos negros, mulheres e minorias, e estas foram integradas pelo sistema, com o surgimento de projetos da libertação da mulher e dos negros pelo mercado, equivalente do projeto de integração e libertação nacional pe la integração no sistema capitalista mundial. Por isso é essencial refletir sobre como o racismo e as formas de dominação patriarcal se relacionam às formas de luta, resistência e dominação.
Por fim, essa reflexão histórica a partir das insurreições e lutas do século XX nos levam à reflexão sobre as “Insurreições e crise do capitalismo no Século XXI”. Começando com a insurreição zapatista e o movimento “antiglobalização”, o presente século tem sido marcado por uma reorganização do capitalismo mundial e pela ascensão de um neoreformismo (chamado de “governos progressistas”, como na América Latina), e pela crise de antigos nacionalismos (como no norte da África). A ascensão e crise desse “neoreformismo” resultou num ciclo de insurreições na periferia capitalista, e depois em diferentes modos de ascensão do fascismo e de governos pró-imperialistas. Como as insurreições e crise do reformismo/nacionalismo do século XXI podem ser pensados criticamente? Este será outro esforço que realizaremos, ao fazer um balanço das insurreições das Américas, Europa e “Primavera Árabe”.
Desse modo, o II Seminário APPI trará contribuições de diferentes óticas sobre o estudo das insurgências e revoluções, buscando contribuir para a elaboração de uma teoria social “de baixo e da periferia”, que possa se contrapor aos poderes científicos hegemônicos.
Em breve divulgaremos a programação completa.
Organização: NEP (UFRRJ) e OTAL (UFRJ)
Contatos: nep@outlook.com.br
nepcpda.wordpress.com
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o nunca chegar.
Yeda Prates Bernis

Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!