Por Carne Ross – 18 de julho de 2017
Os caminhos do Anarquismo são inescrutáveis, mas começam todos pela consciência.
Acostumava acreditar no “sistema”: a estrutura política e econômica do que poderíamos chamar de democracia ocidental e economia capitalista. Trabalhei por ele: durante muitos anos fui diplomata de meu país. Renunciei ao cargo por causa da guerra do Iraque. Comecei uma viagem política. Já não acreditava no sistema que representava. Mas, o que funcionaria em seu lugar? Para minha grande surpresa entendi que o anarquismo é a resposta. Nunca pensei que acreditaria em ideias tão radicais. Mas agora penso que é a única filosofia política que tem sentido para o mundo de hoje, e os loucos são os que pensam que o sistema atual nos salvará (de si mesmo).
Mas, porquê o Anarquismo, e o que ele é? Esses 10 passos podem explicá-lo:
1. Ninguém sente que tem o controle sobre as coisas que lhe digam respeito: a nível local ou nacional, e muito menos internacionalmente. Esta frustração ajuda a explicar fenômenos como o Brexit e Trump e ainda a divisibilidade e volatibilidade da política de hoje.
2. A democracia “representativa”, onde poucos são eleitos por muitos não está funcionando. A desilusão com a política e com as instituições são altas. Muitas pessoas sentem-se marginalizadas: ninguém fala por elas. O acesso aos que estão no governo, os políticos, é muito mais fácil para aqueles que já tem poder e dinheiro.
3. O capitalismo moderno permite que poucos cheguem a ser grotescamente ricos. Para a maioria a renda e a riqueza diminuíram enquanto que os bens básicos, incluindo habitação, são mais caros do que nunca. A maioria está pior e não melhor. Os jovens não esperam viver melhor que seus pais, pelo contrário: frente a décadas de dívida estudantil e residências inacessíveis, podem esperar da vida muito menos do que eles. As cidades estão sendo arruinadas por especuladores imobiliários, para frequentemente as deixar vazias, obrigando os moradores a abandoná-las, destruindo comunidades inteiras.
4. O trabalho e a vida moderna, em minha opinião, não oferecem futuro (No future). A maioria do trabalho é chata e repetitiva. O progresso material é importante, mas não é suficiente (e em qualquer caso se limita cada vez mais a uns poucos). Muito da cultura contemporânea fala de um vazio profundo. Existe um desejo sincero, mas não expressado por algo mais. Chama-se propósito, ou seja, as coisas sem nomes que mais importam: as coisas de que os moribundos falam. A esperança de algo melhor murchou.
5. A sociedade está dividida. Os velhos estão ilhados. Os deficientes são jogados aos cuidados inadequados do Estado (Gandhi dizia: a sociedade pode ser julgada pela maneira pela qual trata os mais vulneráveis). Outras raças ou imigrantes são culpados. A inveja e ira predominam. Mas necessitamos uns dos outros. Só as relações dão sentido à vida, sozinhos não somos nada. O confinamento solitário é uma forma de castigo por uma razão.
6. A necessidade de recuperar o controle – o protagonismo – está no centro da crise. Em lugar de políticos desacreditados temos que decidirmos nós mesmos sobre as coisas que nos importam.
7. Isso significa democracia direta, uma volta a mais básica prática de democracia onde os cidadãos atenienses tomavam a palavra para debater e tomar decisões para a cidade. Hoje em dia os modelos de “democracia participativa” onde todos podem participar já estão sacudindo povos e cidades de todo mundo. Funciona. Quando todos tem uma opinião igual, as decisões resultantes – em saúde ou escolas – são mais justas: em uma cidade brasileira o número de escolas se quadruplicou. O debate e discussão promovem entendimento – sempre e quando se pratique cara a cara ao invés de online. A divisão e hostilidade política de partidos podem ser substituídas por uma cultura nova e mais tolerante de democracia que é criada e sustentada por sua prática (política de juntas). Nesses foros começamos a nos ver como indivíduos – pessoas reais com necessidades como as nossas – e não como etiquetas políticas. A corrupção perecerá quando as decisões forem tomadas a luz do dia.
8. Não pode existir uma democracia justa sem uma economia justa. A opinião dos ricos sempre será a mais importante. O livre mercado permitiu a exploração de muitos por poucos. A alternativa – a propriedade do governo – se mostrou ineficiente e não mais democrática se uns poucos tomam todas as decisões. Em seu lugar, as cooperativas incorporam a igualdade no modelo de negócio; todos que contribuem obtêm uma parte e uma palavra. Quando todos tem uma ação o negócio prospera e oferece aos seus sócios mais que salário: se transforma em uma empresa compartilhada. As cooperativas, especialmente quando trabalham juntas em uma economia, são tão competitivas quanto as empresas com fins lucrativos. Pense em John Lewis, ou Mondragón, a décima empresa espanhola que ajudou a transformar a região basca espanhola.
9. Pode-se começar com algo pequeno e depois o desenvolver. Requer esforço e ação, em contraste com o trivial ato de votar sobre os lemas fáceis a cada cinco anos. Não ocorrerá a menos que a construamos: a democracia é um processo, não uma utopia. Necessitar-se-á trabalho, aprendizagem e paciência. Novas formas de participação – foros locais nas escolas, hospitais ou na cidade – ganharão legitimidade, e poder, quando apareçamos, falemos e escutemos. As velhas formas de política terão que ficar espertas e eventualmente se afastarem. Os laços da sociedade voltarão a ser entrelaçados.
10. Isso é anarquismo. Não é o caos ou a “guerra de todos contra todos” ou um idealismo ingênuo. Promete uma ordem mais profunda criada desde baixo para cima, não imposta de cima para baixo pelo governo e as regras; é democracia radical – a volta da democracia às suas raízes: as pessoas tomam decisões sobre as coisas que lhes importam. Em lugar de um dividido grupo de pessoas que consomem e competem entre si, podemos começar a nos sentir novamente como parte de uma comunidade, com propósito compartilhado, revitalizado em um sentido de que, por fim, a mudança é possível e está em nossas mãos, somente nelas.
Carne Ross é um personagem do próximo documentário, Anarquista Acidental (Accidental Anarchist), que será transmitido pela BBC4 Storyville em 23 de julho. Carne fundou e dirige o independentdiplomat.org, uma consultoria diplomática independente e sem fins lucrativos.
Trailer do documentário: https://vimeo.com/199834602
Fonte: http://www.huffingtonpost.co.uk/carne-ross/10-steps-anarchy_b_17514484.html?utm_hp_ref=uk
Tradução > Liberto
agência de notícias anarquistas-ana
Janela de casa
O canto do sabiá
E o pôr-do-sol.
Luana Fernanda Ferreira – 15 anos

Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!