
Por Satish Kumar (sobre a resistência não violenta)
A revista Resurgence (hoje, Resurgence & Ecologist) nasceu em 1966, quando a Campanha para o Desarmamento Nuclear (CND) e o Comitê dos 100 estavam profundamente empenhados em protestos não violentos contra a corrida às armas nucleares. Bertrand Russell e centenas de outros ativistas pela paz tinham sido presos por causa da sua resistência à bomba. O editor que fundou a revista Resurgence, John Papworth, era na época uma parte integrante do movimento dessa resistência. A Resistência Internacional à Guerra (War Resisters’ International), juntamente com o seu jornal Peace News, situava-se na frente da ação direta não violenta com vista a parar a guerra fria, simbolizada pela bomba atômica.
Tinha eu então 25 anos quando li que, aos 90 anos, o velho Russell tinha sido lançado na prisão por ter protestado contra a bomba. Foi para mim uma inspiração tão grande que parti da Índia a pé com o meu amigo E. P. Menon, sem um centavo nos nossos bolsos mas com a coragem da convicção e confiança nos nossos corações. Dirigimo-nos às quatro capitais nucleares do mundo, Moscou, Paris, Londres e Washington, para protestar e resistir à corrida às armas.
O equivalente nos Estados Unidos ao movimento europeu era a luta contra o racismo, que resultou também na prisão de grande número de ativistas. O próprio Martin Luther King foi preso 29 vezes por se recusar a obedecer ao sistema da discriminação social. O meu amigo e eu tivemos a honra de nos encontrarmos com esse lutador da resistência não violenta. King era a encarnação do amor e da ação radical. Disse-nos: “As pessoas querem que eu me esforce por uma mudança gradual, mas justiça adiada é justiça negada.”
Quando King se empenhou na resistência não violenta, chamaram-lhe criminoso, mas agora ele é um herói nacional e a sua imagem ilustra a Sala Oval da Casa Branca.
Nelson Mandela sofreu na prisão durante 27 anos e acabou por se tornar presidente da África do Sul. Fiquei de tal forma impressionado com a prisão de Mandela que me juntei ao Movimento Anti-Apartheid e me postei em protesto diante da Embaixada da África do Sul com o meu amigo Canon Collins.
Todos esses heróis da resistência não violenta aceitaram de livre vontade as consequências das suas ações. Estavam preparados para sofrer pela causa. Mahatma Gandhi chegou mesmo a dizer: “Entrarei na prisão como o noivo ao entrar no quarto nupcial.”
Emmeline Pankhurst e o movimento das sufragistas faziam parte da nobre tradição de resistência não violenta que afirma que os fins nobres devem ser alcançados por meios nobres. É por isso que os ativistas não violentos estão preparados para assumir o sofrimento para si mesmos em vez de infligir sofrimento aos seus oponentes. Esse ideal continua a inspirar muita gente no nosso tempo. A luta contra a corrida armamentista, contra o racismo e contra a catástrofe climática é um contínuo. O Greenpeace pôs em prática exemplos cintilantes de ação direta não violenta. O movimento Rebelião Contra a Extinção atraiu pessoas de todas as idades para se prontificarem voluntariamente a serem presas, já que estão preparadas para sofrer pela salvação do nosso precioso planeta Terra. Greta Thunberg sentou-se na rua em Estocolmo arrostando com o ridículo e a chacota, de forma a lembrar-nos da estupidez da civilização industrial. Vandana Shiva e Jane Goodall são heroínas ativistas que se entregaram à luta, ao longo de toda a vida, para restaurar uma cultura e uma agricultura regeneradoras.
A história da resistência não violenta é tão longa quanto inspiradora, entusiasmante e enérgica. Para tornar a vida sagrada, nós, os ativistas não violentos, fazemos sacrifícios, mas fazemo-lo com prazer e com amor. A revista Resurgence celebrou esse ativismo ao longo dos últimos 56 anos. Possa ela continuar a fazê-lo pelos próximos 56 anos.
>> Satish Kumar é autor do livro Pilgrimage for Peace, no qual conta a sua marcha de 8 mil milhas em expressivos pormenores. Ver: shop.resurgence.org/books
Fonte: https://aideiablog.wordpress.com/2022/05/11/resistir-a-guerra-recusar-a-corrida-as-armas/
agência de notícias anarquistas-ana
Noite de desejo!
O amor penetra e ilumina
Quando a luz se apaga…
Clície Pontes
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!