
Kafka, diante de uma manifestação de trabalhadores, observou: “Essas pessoas são tão autoconscientes, tão autoconfiantes e tão bem-humoradas! Elas são donas da rua e pensam que são donas do mundo. Mas estão se iludindo. Atrás deles estão os secretários, os burocratas, os políticos profissionais, todos os sultões modernos que estão se preparando para tomar o poder […]. A revolução se evapora, resta apenas a lama de uma nova burocracia. Os grilos da humanidade torturada são feitos de papéis ministeriais” (Löwy, Redemption and Utopia, 1997:85). Kafka aponta, assim, para um fato fundamental das revoluções modernas: sua tensão entre o radicalismo que inspira sua aparição e a submissão à Ordem que habita seu interior oculto, onde se encontram os políticos profissionais, os gestores da revolução, os estadistas. Um político realista diria: “O que se pode fazer, as coisas são assim”. Mas essa tentativa de neutralizar o perigo nas palavras de Kafka não diminui o fato de que ele estava certo ao formular algo verdadeiro a ser levado a sério: a revolução bem-sucedida é o prelúdio do crescimento do Estado; e quando o Estado cresce e se organiza de forma mais eficiente, a contrarrevolução começa.
As revoluções modernas são certamente paradoxais: por um lado, elas podem ser habitadas por um desejo real de libertação das correntes e do destino que são impostos, da realidade esmagadora que não se quer mais tolerar; mas, por outro lado, aproveitando esse impulso, o princípio da ordem estatal renasce nela, o retorno ao canal, a reconstrução do que é negado. A revolução moderna está muito ligada à própria modernidade, com seu crescimento industrial e técnico, a explosão populacional e tudo o que a acompanha. O grito de “Liberdade!” deu lugar, com muita frequência, ao aperfeiçoamento do Estado, ao desenvolvimento técnico desenfreado e ao produtivismo econômico brutal, e ignorar isso a essa altura é imperdoável; hoje, até certo ponto, vivemos no rescaldo de um mundo no qual as mudanças revolucionárias não descarrilaram, mas contribuíram (talvez, apesar de alguns revolucionários) ativamente para tecnificar o Estado, para tornar a administração mais poderosa do que nunca, para nos prender à sociedade tecnoindustrial. O triunfo de uma revolução não significou nada além dessa reconstrução da mentira, abriu o caminho para os burocratas com suas funções ministeriais que, em nome da revolução e de suas conquistas, passam a julgar e subjugar, a impor uma ordem revolucionária que, como se sabe, não passa de uma nova forma da mesma velha dominação que se justifica com o rótulo de “revolucionária”. Pode-se e até mesmo deve-se denunciar um governo não progressista e reacionário, liberal ou democrático; mas que ninguém pense questionar um governo instalado pela revolução!
Hoje não se pode mais denunciar qualquer governo ou a ordem capitalista e ficar satisfeito. Isso não pode ser levado a sério; e se for levado a sério, deve ser porque não estamos à altura das exigências das circunstâncias e porque estamos perdidos na névoa de informações. A própria ideia de governo progrediu: não somos mais oprimidos por um governo tirânico dentro das fronteiras nacionais, nem somos apenas presas do capitalismo transnacional. O Estado, como princípio organizador da sociedade, tornou-se mais tecnológico, mais eficiente, mais abstrato; o governo que nos ameaça pretende reduzir toda a vida à Administração do Homem, pretende ser um governo total que, tendo destruído e arruinado os mecanismos da própria natureza, pretende repará-los transformando-se em uma nova natureza, completamente artificial, técnica e humana. Não é apenas a sua existência como um espécime humano em uma cidade que depende dessa administração, mas também os peixes, as águas dos rios e as montanhas. O homem não pode mais voltar atrás, retirar-se e parar de intervir: mas é precisamente essa sua intervenção constante que tem o efeito de estragar as coisas, o que, por sua vez, o força a intervir ainda mais para remediá-las com seus avanços técnicos e científicos. Assim, ele está em um círculo vicioso que o leva a aumentar seu poder sobre a natureza e a se trancar em uma prisão.
Outra revolução composta de documentos ministeriais não pode resolver nada importante hoje. Os apelos ao caráter revolucionário do anarco-sindicalismo, do leninismo ou do maoismo são risíveis. A observação de Kafka é ainda mais valiosa por ter sido feita há mais de um século, na época das revoluções, e por ter visto sua contradição em um momento em que se acreditava que a revolução traria um mundo melhor. Cabe a nós levar em conta esses tipos de lembranças do passado e as circunstâncias nos obrigam a ter uma lucidez semelhante para enfrentar a realidade de hoje. O fato de sermos ou não capazes de responder a essa demanda terá seu papel, se já não for tarde demais para a lucidez.
Fonte: https://ovejanegrarevista.wordpress.com/2024/06/03/por-el-aniversario-de-la-muerte-de-franz-kafka/
Tradução > anarcademia
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Miranda
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!