
Se o século XIX terminou com o eco dos canhões em Canudos, o século XX inaugurou-se com o ranger de dentes da República contra seu próprio povo. De 1900 a 1950, a máquina estatal não apenas manteve a lógica do terror — aperfeiçoou-a com a frieza burocrática da modernidade. Sob a máscara do “progresso” e da “ordem pública”, chacinas datadas e documentadas provam: o Estado brasileiro é um carniceiro de fábrica, independente do regime que o vista.
A República Velha já escancarava suas garras. Em 1904, no Rio de Janeiro, o governo transformou a Revolta da Vacina em banho de sangue. Tropas dispararam contra moradores de cortiços que ousaram desafiar a invasão sanitária de suas casas. Centenas caíram nas ruas, sob o argumento cínico de “combater a barbárie”. Dois anos depois, em 1906, o massacre de trabalhadores rurais em São Paulo durante a greve dos colonos do café mostrou o pacto de sangue entre latifúndio e poder: sindicalistas foram metralhados a mando de fazendeiros, com a polícia servindo de escolta ao extermínio.
Nem mesmo a Revolução de 1930 interrompeu a engrenagem. Getúlio Vargas, ao chegar ao poder, logo revelou seu projeto: estatizar a violência. Em 1935, após a “Intentona Comunista”, o Estado desencadeou uma caça às bruxas. Prisões em massa, torturas no DOPS, e o massacre de presos políticos, incluso diversos anarquistas, no Campo de Concentração de Clevelândia (PA) em 1936 — onde dezenas foram executados na floresta — provaram que o “pai dos pobres” estava sedendo em triturar os rebeldes. Mas foi no sertão que a farsa desenvolvimentista mostrou seu rosto mais cruel: entre 1936 e 1937, o Arraial do Caldeirão, comunidade de camponeses cearenses liderada pelo beato José Lourenço, foi varrida do mapa. Aviação militar bombardeou casas de taipa, tanques esmagaram roçados, e 700 homens, mulheres e crianças foram degolados ou queimados vivos sob as ordens do interventor federal.
A Era Vargas aprofundou o terror como política de Estado. Em 1940, a Chacina de Pindaré (MA) executou 100 indígenas Timbiras que resistiam à invasão de seus territórios por madeireiros — uma repetição perversa das “guerras justas” coloniais, agora com certificado do SPI (Serviço de Proteção ao Índio). Até mesmo os trabalhadores urbanos, supostos beneficiários da CLT, sentiram o fio da navalha: em maio de 1945, semanas antes da queda de Vargas, a Chacina de São João do Meriti (RJ) deixou 12 operários têxteis mortos pela polícia durante greve por melhores salários. Sangue como moeda de troca para a “paz social”.
O período fecha com uma sinistra antecipação da ditadura que viria. Em 1950, na Ilha das Flores (RJ), 30 presos foram executados a tiros e facadas por agentes do Estado durante uma “revolta” encenada. O método — eliminação sumária de indesejáveis sob o pretexto da “segurança” — já era um protocolo. Cada década deste meio século teve seu massacre catalogado: 1904, 1906, 1936, 1940, 1945, 1950 (sendo certo que não citamos dezenas de outros…). A sequência não é acidente, é a assinatura do poder.
Esta continuidade histórica (1500-1950) esmaga qualquer ilusão reformista. Do pau-brasil ao aço das metralhadoras, o Estado brasileiro jamais alterou sua função essencial: esmagar corpos para proteger propriedades. Se no século XVI os bandeirantes agiam por alvarás, no XX eram ministros, generais e juízes que assinavam ordens de extermínio. A República, longe de ser ruptura, foi a herdeira direta da senzala e do pelourinho. Enquanto historiadores debatem “transições”, os mortos — de Caldeirão a Canudos, de Pindaré a Palmares — gritam a verdade: o terror é o DNA do Estado brasileiro. Desmantelar essa máquina não é questão política; é imperativo ético para qualquer um que ainda acredite na liberdade. O século XX apenas deu ao monstro colonial novas ferramentas. Cabe a nós, no século XXI, desligar sua fonte de energia.
Liberto Herrera.
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agência de notícias anarquistas-ana
Folha no rio
vai para o mar sem volta –
chorão se renova.
Anibal Beça
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!