
Se os séculos anteriores ensinaram que o Estado brasileiro é uma máquina de triturar pobres, o período de 1950 a 2000 provou que ele opera com eficiência industrial. Sob a fachada de “desenvolvimento” e “democracia”, a lógica do terror não só persistiu — robotizou-se. Ditaduras e governos “eleitos” compartilharam o mesmo manual: onde houver resistência, enviem tanques, caveirões e esquadrões da morte. Este é apenas um apanhado geral — a lista completa exigiria um livro de lágrimas e balas.
A década de 1950 já sangrava sob a máscara da democracia. Em diversas favelas, que nesta época se expandiam, pobres eram mortos todos os dias e enterrados em cemitérios clandestinos, sob as mãos dos grupos de extermínios. Mas foi em 1955, com o Massacre de Formoso, também conhecido como o Massacre de Trombas e Formoso, que ocorreu na região do norte de Goiás (hoje Tocantins), envolvendo conflitos entre camponeses organizados e fazendeiros apoiados por forças policiais e jagunços, que, entre vários mortos, um aviso foi dado: reforma agrária seria guerra.
Com a ditadura instalada em 1964, o terror virou ciência de Estado. O Massacre do Araguaia (1972-1975) sintetiza a barbárie: mais de 70 camponeses, guerrilheiros e indígenas executados e desaparecidos na selva. Nas cidades, a Operação Condor financiava caçadas transnacionais, enquanto a polícia fazia trabalho sujo. Em 1969, o Massacre da Chácara São Bento (SP): 15 presos políticos executados com tiros na nuca. Em 1973, o Massacre de Quintino (RJ): 7 favelados metralhados por policiais em uma casa.
O ápice da crueldade institucional veio em 2 de outubro de 1992: o Carandiru (SP). 111 presos assassinados pelo Batalhão de Choque — muitos executados a sangue frio, de cócoras, com requintes de crueldade. O Estado não escondia mais: o massacre era espetáculo midiático. Nem mesmo a “redemocratização” freou a engrenagem. Em 17 de abril de 1996, em Eldorado dos Carajás (PA), 21 sem-terra foram executados pela Polícia Militar. Corpos mutilados, crânios estourados por cassetetes. O governo de Fernando Henrique Cardoso chamou de “incidente”.
Este apanhado superficial (1950-2000) escancara, uma vez mais, a mentira da “exceção” ditatorial. Do AI-5 à Constituição de 1988, o terror foi regra. Se em 1700 os bandeirantes matavam por contratos de terra, em 2000 eram jagunços, PMs e juízes que assinavam sentenças de morte. O Estado — democrático ou não — manteve sua função histórica: garantir, pela bala e facão, que os de baixo jamais desafiem a pirâmide de sangue e privilégios. Os nomes mudam (Araguaia, Carandiru, Eldorado), mas a vítima é sempre a mesma: o povo. Quinhentos anos não bastaram. Seguiremos contando os mortos até que a última pedra dessa máquina de moer gente seja reduzida a pó. A memória é nossa trincheira.
Liberto Herrera.
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agência de notícias anarquistas-ana
Sentado no banco
o gato finge
que é uma esfinge
Alvaro Posselt
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!