
Desde o amanhecer, em dezenas de cidades francesas, o movimento “Bloquons tout” (Vamos Bloquear Tudo”) começou com o objetivo de fechar as rodovias ao redor das cidades e bloquear o trânsito. Em algumas regiões, isso foi alcançado fechando completamente estradas, rodovias e até cidades inteiras, enquanto em Paris, tentou-se bloquear o anel viário que separa Paris dos subúrbios. Os policiais estavam de prontidão, com 80.000 policiais espalhados em todo o país. A partir das 6h, começaram os bloqueios de lojas/empresas/supermercados como o Carrefour (também alvo em solidariedade à Palestina), estações de trem e escolas de ensino médio, em centenas de lugares. A ordem dos policiais era intervir imediatamente nos pontos de bloqueio, com espancamentos e prisões (mais de 500 prisões em todo o país).
É claro que as forças de repressão em muitos pontos se viram desorganizadas e surpreendidas pelo movimento, encontrando resistência e contra-ataques. Muitos dos bloqueios duraram horas, até o dia inteiro, enquanto outros foram rapidamente dispersos, transformando a “retirada” em passeatas espontâneas e alvos alternativos. As pessoas permaneceram nas ruas do amanhecer ao anoitecer, interrompendo a normalidade por todos os meios, desde fanfarras a confrontos. Algumas ações interessantes foram:
– O bloqueio do colégio Hélène Boucher, em Paris. Os estudantes do ensino médio entraram em confronto com a polícia, juntando-se à marcha espontânea que começou no anel viário de Montreuil, onde dezenas de barricadas foram montadas no início da manhã.
– O bloqueio de uma fábrica que produz peças de armas para Israel em Marselha – Sabotagem de antenas em Toulouse – O ônibus queimado – barricada em Rennes.
– O bloqueio das estações centrais de trem em Paris Gare du Nord e Gare de Lyon.
– O fechamento da estação Halles e de um shopping center no coração de Paris, o que pode ter acontecido por ordem da polícia, já que o local estava lotado de pessoas.
O interessante é que essas mobilizações mantêm um caráter espontâneo, não integrado às políticas dos sindicatos e da esquerda, que, ao mesmo tempo, têm feito o trabalho de pacificação social e de extinção de incêndios dos movimentos rebeldes. A multidão, composta por muitos jovens e pessoas que escapam à estrutura dos partidos, está voltando sua atenção e se auto-organizando por meio de assembleias abertas.
O modo de ação do movimento de 10 de Setembro concentra-se nos pontos de bloqueio, mas espalha-se pela cidade com muitas marchas espontâneas que conectam os pontos no mapa. A cultura da manifestação selvagem, isto é, marchas que surgem da vontade do povo de ir às ruas, são criadas pelo ímpeto da multidão em direções desconhecidas e com o objetivo de muitas vezes criar o máximo de caos possível até que as forças da repressão intervenham, infelizmente, desde o início. Essas marchas ocorreram durante todo o dia em Paris, como a que ocorreu no centro de Paris na tarde de quarta-feira. Dezenas de milhares de pessoas se moveram pelas ruas principais com um único pulso, e à medida que a multidão crescia, também crescia o barulho, os incêndios aumentavam e as vitrines das lojas não tinham escolha a não ser destroçadas. Enquanto as pessoas saltavam sobre as barricadas em chamas, os policiais preparavam seu gás lacrimogêneo para repelir a multidão.
No final da tarde, milhares de pessoas se reuniram na Place des Fêtes, onde, apesar da chuva, foi realizada uma assembleia aberta que decidiu bloquear a Porte de Lilas, uma artéria urbana para os subúrbios, durante a noite. O grande incêndio no meio da praça levou alguns anárquicos (ou até mesmo bêbados) a saírem às ruas em uma procissão “selvagem”, onde todas as lixeiras em seu caminho foram viradas, materiais de construção encontraram seu devido uso e as janelas de bancos, supermercados e imobiliárias foram quebradas. Moradores do bairro saíram às ruas gritando e atirando objetos nos policiais que lentamente cercavam a praça.
Os canais televisivos com seus comentários clássicos minimizaram o número de manifestantes, numa tentativa de silenciar o movimento. Os tribunais lotaram no dia seguinte, liberando a maioria das pessoas e aplicando pesadas multas, uma tática sem precedentes. A partir do dia seguinte, as assembleias abertas nos bairros e cidades lotaram, com centenas de pessoas que continuaram a propor ações criativas para os dias seguintes, até a convocação da greve geral em 18 de setembro.
Este movimento ainda não tem certeza de suas posições políticas, já que as opiniões variam da mudança de governo à queda do Estado. No entanto, os meios utilizados até agora são certamente a auto-organização, a espontaneidade, a imaginação ou a destruição, com o objetivo de bloquear o país.
VAMOS BLOQUEAR TUDO!
LIBERDADE NA PALESTINA
FODA-SE O MACRON, NÃO QUEREMOS PODER NENHUM.
Zbeul partout!
Compas anarquistas
> Foto: “Kyriakos X. Presente”. Escrito em uma janela quebrada de banco.
Fonte: https://athens.indymedia.org/post/1637570/
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agência de notícias anarquistas-ana
Não há céu nem terra,
apenas a neve
caindo sem parar.
Issa
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!