
Por Hajime Sugita | 09/01/2026
O filme premiado sobre Fumiko Kaneko (1903-1926), anarquista japonesa que morreu na prisão, será lançado em todo o Japão em 28 de fevereiro para comemorar o centenário da sua morte.
“Kaneko Fumiko” ganhou o prêmio de Melhor Diretor na categoria longa-metragem e outros quatro prêmios no New York International Film Awards em setembro passado.
O filme foi dirigido por Sachi Hamano, 77 anos, que lutou contra a discriminação de gênero na sua carreira, com mais de 300 filmes, incluindo pornografia.
“Eu pensei obstinadamente em ressuscitar Fumiko, que lutou sozinha contra uma nação, nos tempos modernos”, disse ela.
Kaneko nasceu em Yokohama e cresceu sem registro familiar, de acordo com “Kaneko Fumiko: Jiko, Tennoseikokka, Chosenjin” (Fumiko Kaneko: Eu, o Estado imperial e os coreanos), escrito por Shoji Yamada, professor emérito da Universidade Rikkyo, e publicado pela Kageshobo Publishing Co.
Abandonada pelos pais, Kaneko foi acolhida por uma família na Península Coreana, onde vivia um parente seu.
Depois de testemunhar o brutal domínio colonial japonês e o movimento de independência coreano, Kaneko começou a criticar fundamentalmente o Estado japonês.
Após regressar ao Japão, foi acusada de conspirar para jogar uma bomba no príncipe herdeiro.
Kaneko foi condenada à morte por traição, juntamente com Pak Yol, com quem vivia.
No entanto, ela não tinha conseguido nenhuma bomba, e o seu plano era inviável.
Um perdão imperial comutou a sua sentença para prisão perpétua, mas ela se suicidou, aos 23 anos de idade, numa prisão na província de Tochigi.
Kaneko era uma anarquista que se opunha ao sistema imperial e defendia que todos os seres humanos eram iguais.
O filme retrata os 121 dias que antecederam a sua morte, com base nas suas anotações na prisão, poemas “tanka” e registros do julgamento.
A própria diretora também tem lutado por igualdade.
Depois de se formar no ensino médio, Hamano mudou-se para Tóquio para se tornar diretora de cinema. Contudo, as produtoras de cinema só aceitavam homens com diploma universitário, como relata a diretora.
Alguns homens até riram das suas ambições “tolas”.
Hamano conseguiu emprego como assistente de direção na indústria de filmes pornográficos, mas ainda era alvo de bullying e assédio.
Começou a usar os óculos escuros característicos, que ela chama de “escudo para se proteger”.
Quando ia filmar cenas nas áreas locais, dormia com uma faca de cozinha debaixo do travesseiro para se proteger.
“Eu não conseguia entender por que as mulheres eram discriminadas a esse ponto”, lembrou Hamano.
Impulsionada pela raiva, continuou a carreira e tornou-se diretora aos 23 anos.
Certa vez, disseram-lhe que o público ficaria desanimado ao ver um nome feminino nos créditos.
Então, removeu o “ko” de seu nome verdadeiro, “Sachiko”. Ao se apresentar como Sachi como diretora, nome que soava mais masculino.
Em vez de retratar as mulheres como “capachos”, a diretora optou por mostrar mulheres autossuficientes, mesmo nos filmes pornográficos.
Hamano chegou a receber uma reclamação de um produtor por retratar uma protagonista feminina que age por iniciativa própria para tirar a roupa.
Os seus filmes regulares nos últimos anos incluem “Em busca de uma escritora perdida: vagando pelo mundo do sétimo sentido”, que apresenta uma lendária escritora.
“Lily Festival”, que enfoca a sexualidade de pessoas mais velhas, ganhou o prêmio Semi-grand prix e outros prêmios no Festival Internacional de Cinema Feminino de Turim.
Questionada sobre por que escolheu Kaneko como tema do seu último filme, Hamano respondeu: “Fumiko se opôs a coisas irracionais e lutou com todas as suas forças. Hoje, as coisas estão sem sentido, quando (os políticos) até mesmo fogem da responsabilidade pela guerra. Quero jogar uma bomba chamada Fumiko nos dias de hoje”.
Hamano não adere ao anarquismo.
Entretanto, afirma: “Fumiko defendia que todas as pessoas eram iguais pelo simples fato de serem humanas. Quero afirmar: ‘Resistam à autoridade e não fiquem em silêncio'”.
“Kaneko Fumiko” será lançado no cinema Eurospace, no distrito de Shibuya, em Tóquio, antes de estrear no Kyoto Cinema, em Kyoto, no Cine Nouveau, em Osaka, e em outros locais.
Fonte: https://www.asahi.com/ajw/articles/16222846
Tradução > CF Puig
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Sobre o monte liso
contra o céu uma só árvore.
Gesto de vitória!
Alexei Bueno
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!