
Quando me pediram para escrever este artigo, aceitei com entusiasmo e sem hesitar. Admito que adoro escrever e aproveitei a chance de trabalhar em algo que não fosse uma legenda de foto no Instagram. (Eu, é claro, busquei uma oportunidade de reflexão sobre o nosso trabalho). Reflexão é algo que fazemos todos os dias como uma pequena equipe de voluntários. À medida que ouvimos os comentários dos membros da comunidade, fazemos ajustes no fluxo de trabalho e construímos sistemas de organização mais eficientes, constantemente nas perguntas “o que funciona?” e “o que é ruim?” Ainda assim, essas são avaliações feitas em andamento, e recentemente temos tempo suficiente para pensar cuidadosamente sobre os aspectos ideológicos do trabalho. Vou ser honesto, acho a autocrítica de esquerda clichê, quase batida. Como estamos muito concentrados n’”aquilo que está mal”, permitimos aproveitar a chance de destacar coisas que não são mal. Se este artigo parecer doce demais, espero que seja moderado ao menos em comparação com a preponderância do oposto. Tenho dois objetivos para este artigo: Primeiro, espero refletir sobre o que sinto ser o (quase) anarquismo acidental do nosso espaço, e como se reflete na organização. Em segundo lugar, quero dar uma visão geral dos movimentos sociais dos depositantes atualmente ativos em Tóquio, com os quais colaboramos regularmente. Para isso, vou primeiro apresentar o Espaço NAMNAM. Fundado no verão de 2023, o NAMNAM é um espaço de arte comunitária Queer gerido com princípios anarquistas. Uma equipe inicialmente de três, o NAMNAM cresceu muito e bem rápido desde o início. Eu mesmo entrei no outono de 2023, a equipe agora é composta por 8 organizadores e diversos voluntários de apoio. Gerimos um pequeno espaço de galeria no lado oeste de Tóquio, no bairro chamado Koenji, onde fazemos praticamente de tudo, desde exposições até noites de karaokê. Sim, “funciona com princípios anarquistas” está em nossa assinatura, mas quando questionamos sobre o papel do anarquismo no trabalho, a minha ocorrência primeira foi minimizar os aspectos moldados por uma ideologia ideologia, me concentrando nas vibraçõesdos anarquistas que trazemos para o espaço. Sempre que algo quebra, ou que precisamos improvisar uma solução estilo Magaiver, ou quando precisamos flexibilizar algumas regras, ou quando improvisamos na hora, jogamos as mãos para alto e dizemos “somos anarquistas!” Nesse sentido, nossa abordagem na NAMNAM é descrita por uma atitude anárquica mais do que pela doutrina anarquista tradicional. No entanto, essa minha primeira ocorrência foi estúpida. Pensando no tema por mais de dois segundos, percebi que, embora o anarquismo não esteja explicitamente no centro de todas as decisões na NAMNAM, os princípios centrais do anarquismo permeiam praticamente tudo o que fazemos. Veja como: Primeiro, tomamos decisões baseadas no consenso. As decisões são tomadas coletivamente e o desacordo é respondido com discussão, em vez da regra da maioria. O consenso é uma armadilha clássica do anarquista, muitas vezes vista como uma abordagem mais quixotesca dentre as nossas abordagens.
Na NAMNAM, entretanto, o consenso parece funcionar (fato que me deixa constantemente perplexo). Tenho certeza de que os meus coorganizadores têm perspectivas diferentes sobre o funcionamento, e tenho certeza de que alguns deles apontaram que nem toda está decisão à altura desse padrão. Limitações de tempo, disponibilidade e energia significam que nem toda decisão é tomada com todas as partes presentes, nem tampouco todas as decisões são universalmente populares. Gostaria de pedir desculpas formalmente ao Calum por ter jogado o micro-ondas fora. No entanto, quando se trata de decisões importantes, como quais eventos realizados e quais projetos prioritários, seguimos em frente juntos.
Segundo, buscamos equilibrar os preços da justiça restaurativa com a nossa responsabilidade pela segurança comunitária. No outono do ano passado, codificamos nossa “política de segunda chance”. A política afirma que indivíduos que quebram as regras básicas têm uma chance de demonstrar crescimento e mudança. O erro é respondido com uma explicação clara das irregularidades, mas não com ostracismo imediato. No entanto, se alguém comete uma segunda infração, não é mais bem-vindo no espaço. Até agora, tivemos uma espécie. Ainda não há necessidade de aplicar essa política, pois ainda não houve nenhuma ocorrência que justificasse a intervenção. Esse está longe de ser um sistema perfeito. Discutimos longamente os prós e contras de estabelecer políticas mais longas e direcionadas, ou até mesmo fazer propostas específicas à regra para casos especiais. Por meio dessa discussão, percebemos que, como cada caso é único e requer sensibilidade específica para atender às necessidades específicas, uma política mais rígida acabaria prejudicando nossa capacidade de decisões tomadas no momento. Em vez disso, confiamos uns nos outros para abordar as situações no espaço com respeito e gravidade adequadas.
Terceiro, odiamos policiais
Por fim, o anarquismo fundamenta as decisões que tomamos em relação à programação. Temos um grande privilégio de consistência nos abordar, uma diversidade de pessoas e organizações trazem ao espaço projetos criativos, informativos e bem produzidos. Como gerimos um espaço físico, nós sedemos escritórios, exposições, arrecadações de fundos e reuniões. Assim, o espaço se tornou um elo de ligação para diferentes movimentos, alguns dos quais têm objetivos além dos nossos, mas aos quais servimos com alegria. Parafraseando Errico Malatesta, como anarquistas, reconhecemos que o poder não vem de cima na imposição da ideologia, mas de baixo, do encorajamento aos movimentos populares, e é esse imperativo que mais abraçamos com entusiasmo. Os eventos mensais do nosso espaço incluem: exibição de filmes indianos Queer e alternativos, arrecadação filantrópica para as famílias de Gaza em um café, um pop-up de venda de bolos para ajudar um membro da comunidade a economizar para adquirir sua própria loja, e uma noite de microfone aberto para poetas pretos. Também apoiamos uma campanha contínua pela liberdade de Chris Payne , injustamente presa em Tóquio. Além disso, durante todo o mês, ativistas locais e artistas visitantes fazem os próprios eventos no espaço NAMNAM. Em cada um desses eventos, cada vez mais pessoas se conectam umas às outras, expostas são a novas ideias e se comprometem cada vez mais com a comunidade. Vemos os frutos desse esforço no número crescente de pessoas que se voluntariaram tempo e recursos para dar apoio a campanhas locais e maiores.
Isso nos leva ao tema mais amplo da política de oposição em Tóquio. Sem dúvida, há estudiosos mais preparados do que eu para elucidar a dinâmica da atividade política de esquerda no Japão contemporâneo, mas farei o possível para dar uma visão geral. O anarquismo tem raízes profundas na história política japonesa, mas, junto com outros movimentos de esquerda adjacentes, teve acentuado declínio na segunda metade do século XX. Os movimentos sociais de oposição começaram a ressurgir lentamente após o terremoto de 11 de setembro e o desastre nuclear, mas nada atingido até agora patamares comparáveis aos anos 1960 e início dos anos 1970. As razões desse declínio são múltiplas (e são tema contínuo de estudos), mas, entre elas, estão a violência entre facções e a estigmatização bem-sucedida das manifestações públicas a favor do governo. Como resultado, os movimentos sociais contemporâneos são bastante isolados. Assim, o espaço NAMNAM está posicionado de forma única para pelo menos ser ponto de contato para movimentos de outro modo isolados.
Um dos movimentos mais ativos e sonoros é o de solidariedade à Palestina. Embora as atividades tenham crescido dramaticamente após os acontecimentos de 7 de outubro de 2023, o movimento anarquista no Japão data dos anos 1960. Hoje, é um movimento diverso, multifacetado e difuso de modo singular. Não há organização no centro ou na cabeça do movimento, em vez disso funciona como rede informal de grupos e indivíduos. Apesar da falta de divisão de trabalho, os diversos grupos adotam organicamente diversas táticas, incluindo eventos culturais, arrecadação de fundos e ação direta. Embora os protestos em Tóquio não tenham atingido os mesmos números daqueles em cidades de outros países, a maior participação hoje foi de aproximadamente 2.000 pessoas, eu diria que é dividido em outras localidades, se não for mais consistente. Como a censura e a perseguição da polícia foram significativamente menos agressivas em comparação com outros locais, a comunidade de Tóquio teve relativa liberdade para fazer as suas exposições, palestras, atuações teatrais de rua, workshops e feira de segunda mão sem repressão. Isso não quer dizer que não haja repressão. Houve prisões e estudantes que enfrentaram a carga de reprimenda burocrática. No Japão, os antagonistas mais ameaçadores são a ignorância e a apatia.
O movimento pelos direitos LGBT, por outro lado, tem feito progresso, vagaroso, mas cada vez mais estável. O casamento entre pessoas do mesmo sexo continua sendo ilegal no Japão, embora a decisão tenha sido julgada como inconstitucional em número crescente de tribunais regionais. Infelizmente, houve retrocessos. Notavelmente, nossa camarada e fundadora da WAIFU (uma rave inclusiva Queer e Trans) recentemente perdeu o processo dela pela igualdade no casamento. Elin, mulher trans casada com outra mulher, pediu o reconhecimento pelos tribunais do seu casamento tanto como sendo gay quanto como sendo legítimo. Elin foi impedida de mudar seu nome legal em documentação oficial, enquanto sua esposa Midori era relacionada como “esposa”. O governo sugeriu mudar a condição de Midori para “membro da família”, então, o casal entrou com processo. Infelizmente, Elin e Midori perderam seu processo no início de 2025. O caminho para a mudança institucional no Japão é lento, árduo e, às vezes, impossível de se obrigações, especialmente sem recursos adequados. Entretanto, a mudança das instituições, como sabemos, não é a única medida de progresso. A solidariedade Queer com a Palestina reforçou a energia de ambos os movimentos, aumentando o número de pessoas Queer que encontraram o seu lar político na organização de apoio à Palestina. O espaço NAMNAM serve para acolher essa interseção.
Cada vez mais, nosso trabalho nos traz o contato infeliz com o sistema de justiça criminal japonês. Em vez do que se pode imaginar, na capital, Kawaii, o sistema carcerário japonês é desumano e grosseiramente sem escrutínio. Os cidadãos japoneses em geral têm o mínimo conhecimento das práticas de encarceramento e sua falta de direitos. Ao serem detidas, as pessoas podem ser mantidas presas sem sentença por até 23 dias, com possibilidade de prorrogação. A detenção preventiva é uma norma, incluindo imigrantes em busca de refúgio. As organizações de Tóquio, incluindo Migrante Japan, Kosaten, e No Detention Yes Life, são incansáveis na defesa dos detentos. Como eu disse, nossos membros também estão envolvidos na campanha pela liberdade de Chris Payne, preto sendo detido em confinamento sozinho por um crime que ele não cometeu. As condições da sua detenção são aberrantes, e os tribunais, os policiais e os guardas aproveitam a elegância do sistema opaco não qual opera .
Agora, o que tudo isso tem a ver com o anarquismo? Como é o caso em quase todo o mundo, o Japão passa pela preocupação liderada pelo fascismo de direita. Na última eleição, Sanseito, partido antes marginal de extrema-direita, conquistou um tremendo número de quinze cadeiras no parlamento. Essa presença crescente, sua visibilidade e o arrebatamento da ideologia fascista são previsíveis em uma onda de aparente aumento da imigração e de queda econômica. O público japonês, há tempos considerado apolítico, ou politicamente apático, está mobilizado em torno da retórica anti-imigração, e das promessas de colocar “o povo japonês em primeiro lugar”. Enquanto isso, o genocídio israelense na Palestina continua com impunidade, enquanto as crianças no Congo trabalham nas minas para a Apple, comunidades inteiras no Sudão enfrentam a aniquilação, e o rico fica mais rico enquanto o planeta sofre. Em tempos como estes, embora seja difícil dizer o quanto “este tempo” é diferente dos tempos “do passado”. Eu mesmo me peguei pensando sobre os anarquistas antigos. Os elementos mais militarizados do movimento, os guerrilheiros que lutaram contra Franco, os camponeses de arroz que combateram Mussolini, e outros incontáveis que jogaram pedras na repressão. Isso pode fazer o cotidiano parecer sem cor em comparação. Postamos mensagens diretas no Instagram. Divergimos sobre o posicionamento do texto em um panfleto. Projetamos filmes ao ar livre para arrecadar dinheiro para uma ou outra causa. As microtarefas do dia a dia são tão inativas que as fazem, especialmente para uma comunidade cuja ética, linguagem e missão proposta é o legado de uma história de sangue. Como podemos ser anarquistas?
Acredito que, por princípio, o anarquismo é somente um nome para as coisas que já fazemos. As opiniões dos outros já são importantes para nós, então, nos governamos por consenso. Acreditamos no poder redentor da comunidade, por isso, adotamos práticas de justiça restaurativa em nosso espaço. Sabemos que não podemos fazer a diferença sozinhos, então nos juntamos a outros grupos, organizações e movimentos, formando uma gota em um balde que vai enchendo devagar, devagar demais. Odiamos a polícia. Vemos as injustiças no mundo e os nossos corações se partem, então, damos uma mordida. Uma mordida. No buraco que fica, construímos um espaço para nós e convidamos outros a entrar. Nós nos comprometemos. Não recuamos diante do pacto da comunidade. Aparentemente, isso nos torna anarquistas. O espaço NAMNAM é o que você obtém quando coloca as pessoas acima da ideologia, por isso, sei que a comunidade que construímos em torno desse espaço é robusta o suficiente para resistir a tudo o que vier.
Hana B
Fonte: https://organisemagazine.org.uk/2025/12/10/anarchism-is-what-we-call-the-things-we-do/
Tradução > CF Puig
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Marba Furtado
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!