
Nas minhas vivências de punk bem velho e anarquista, quando a rapaziada me ensinou sobre a vida não ser binária, sobre sexo ser diferente de sexualidade, que também são, os dois, diferentes de gênero, que posso ter um gênero tal, e uma sexualidade outra, e que tudo isso eram espectros, igual a como se compreende o autismo, isso foi uma reviravolta fundamental na minha maneira de pensar e agir.
Nunca havia me identificado como homem hétero, cis gênero, mas também não me identificava como mulher. Essas novas ferramentas da linguagem, essa nova tecnologia que eu, velho ranzinza, aprendia agora, me caiu como um bálsamo. As pessoas já haviam me falado de disforia de gênero, mas nunca de euforia de gênero. Quando me compreendi e me afirmei não binário, elu, delu, senti enorme alívio e grande felicidade (se é que isso se refere a algo na vida), muita alegria e bem-estar de estar e ser eu mesmo, como sempre me senti.
Só que, nos meus restritos círculos sociais, encontrei dificuldade em que as pessoas compreendessem e me tratassem por “elu” e “delu”. Em inglês, “they” é usado para neutro, e isso é da gramática do inglês, desde época medieval. No português, ainda mais com a idade aparentando bem, me chamam de “senhor”. Eu brigava, “senhor, não, você, pô“. “Ah, mas é por respeito.” Eu retrucava que, “se é por respeito, tenho título, é Professor Doutor, então, me chame de professor, mas não me chame de senhor“.
Minha pinimba com a palavra “senhor” é antiga, não quero ser senhor de nada nem ninguém. Acredito numa Terra sem senhores.
Hoje, do nada, veio o “tu”. O “tu” é neutro! Ou deveria dizer “tu és neutro”? Enfim, nas diversas regionalidades do português, usamos o “tu” conjugando de maneira correta ou não. Mesmo havendo discrepância na conjugação, não me parece difícil que se use o “tu” por todos os lugares onde se usa o português. Eu não me sentirei mais um extraterrestre nesses momentos em que me canso de “educar” as pessoas sobre a vida não ser binária, eu não quero mais ser professor de ninguém, não leciono, não quero avaliar nem ser avaliado! “Tu”, pronto. Neutro. Neutrinho da Silva.
Este é o meu manifesto individual pelo uso do “tu” como pronome neutro, por uma Terra sem Senhores!
CF Puig
Carly Puig é tradutor, filósofo e historiador das ciências, escritor, editor e tem militado no anarquismo, principalmente em produção de textos, desde 1986. Punk velho, tem um “jardim suspenso” dentro de casa: uma caixa d’água cheia de plantas e peixes, num ecossistema funcional, sem limpeza nem trocas de água nem produtos químicos. Também tem sido ativista pela libertação animal e no salvamento dos oceanos.
agência de notícias anarquistas-ana
O vento é o tempo:
sopra varre levanta lambe
desfaz o que foi feito.
Thiago de Mello
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!