
Por Marc Vandepitte | 24/02/2026
A Ucrânia sangra, a Rússia resiste e a Europa paga a conta. Após quatro anos de guerra, impõe-se uma pergunta: continuar com a loucura bélica ou encontrar a coragem para buscar a paz?
De invasão rápida a guerra sem fim
Em 24 de fevereiro de 2022, Vladimir Putin deu a ordem de invadir a Ucrânia. A Rússia talvez esperasse uma vitória rápida; mas esta não chegou, em parte devido à forte resistência da Ucrânia, que Moscou havia claramente subestimado.
Na fase inicial da guerra, houve oportunidades reais para entabular negociações de paz. Segundo o ex-primeiro-ministro israelense Naftali Bennett, essas tentativas foram, no entanto, ativamente obstaculizadas pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha. O ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, Lloyd Austin, declarou sem rodeios que o objetivo era “enfraquecer a Rússia“.
A Ucrânia foi utilizada para eliminar ou enfraquecer um adversário estratégico sem ter que enviar tropas próprias. A partir desse momento, a guerra passou de um conflito sobre território ucraniano a um projeto geopolítico.
Devido à forte ingerência da OTAN, o que começou como um conflito entre dois países vizinhos se transformou em uma guerra por procuração. A Ucrânia atua tragicamente como carne de canhão para os interesses estratégicos do Ocidente.
O Ocidente forneceu maciçamente armas pesadas e impôs duríssimas sanções econômicas. Paralisou-se o comércio, cortaram-se os vínculos energéticos e congelaram-se os ativos russos no exterior. Era preciso colocar a economia russa de joelhos, mas não ocorreu.
A Rússia transformou com sucesso sua economia em um eficiente sistema de produção de guerra e encontrou saídas para seu comércio através de rotas alternativas, o que não significa que a Rússia não tenha experimentado uma forte pressão, mas a estratégia de ruptura econômica total não deu o resultado desejado. Moscou resistiu e continuou a guerra.
Tornou-se uma guerra total de desgaste. As linhas de frente quase não se moviam, mas cada mês trazia novas mortes. Em ambos os lados, acumularam-se as perdas. Segundo estimativas, 1,2 milhão de militares russos e quase 600.000 soldados cranianos morreram ou ficaram feridos. A Europa vive assim sua guerra mais mortífera desde a Segunda Guerra Mundial.
A guerra foi mais intensa do que nunca no ano passado. Em 2025, a Rússia lançou mais de 54.000 drones, cinco vezes mais que no ano anterior. Devido à escassez de mísseis de defesa antiaérea, impactaram mais projéteis e o número de civis mortos aumentou 30%.
Recentes ataques com mísseis hipersônicos Oreshnik, que mal podem ser interceptados, paralisaram a capital durante dias. A vida cotidiana é marcada por cortes de eletricidade e água, frio extremo e uma ameaça constante. As perdas também são enormes do lado russo; Moscou paga um alto preço por limitados ganhos territoriais.
Um alto preço
A Ucrânia paga o preço mais alto nesta guerra. As cidades estão em ruínas e milhões de pessoas foram deslocadas, tanto dentro quanto fora do país. A infraestrutura está destruída e a economia, desarticulada. O país se mantém de pé graças ao apoio estrangeiro; sem essa ajuda, desmoronaria a base social, econômica e militar.
A situação também não se vê bem no plano militar. Desde o segundo mandato de Trump, desapareceu por completo o apoio financeiro dos Estados Unidos. Outros aliados, como a UE e o Canadá, tentam compensá-lo, mas o total da ajuda militar comprometida caiu ao nível mais baixo desde o início da invasão.
Embora o exército russo tenha dificuldades com operações complexas, Putin dispõe de superioridade numérica. Kiev, além disso, enfrenta uma grave escassez de efetivos e deserções. Se as coisas não mudarem, existe a ameaça de que haja um cenário semelhante ao da Primeira Guerra Mundial, no qual as linhas defensivas podem colapsar repentinamente.
As pesquisas entre a população mostram um sentimento ambivalente. Uma maioria da população ucraniana quer resistir, mas 72% aceitaria um plano de paz que congele a linha atual do front, desde que existam garantias de segurança e não se reconheça oficialmente o território ocupado.
Do lado russo, a situação não é simples, mas é melhor que a da Ucrânia. Apesar das grandes perdas, Putin ainda pode contar com um apoio considerável entre sua população. Parece surtir efeito a propaganda de Putin, que apela à restauração do poder da Rússia. Além disso, o Kremlin tenta ocultar na medida do possível os verdadeiros custos da guerra, como o número de baixas.
Desde o início da invasão, seu índice de aprovação se manteve constantemente acima de 80%, embora se devam considerar com a devida cautela as pesquisas em um sistema político desse tipo. No entanto, pode-se assumir que Putin conta com um front interno relativamente estável.
Devido às sanções e aos grandes esforços bélicos, a economia russa não tem vida fácil mas, em qualquer caso, não se pode falar de uma queda livre. O Banco Mundial prevê para 2026 um crescimento de pouco mais de 1%, assim como em 2025. A médio prazo, no entanto, existe a ameaça de estagnação e danos duradouros.
A União Europeia também não sai ilesa. Enquanto a indústria armamentista registra lucros recordes, o resto da UE enfrenta as consequências da política de confronto. Dispararam-se os custos energéticos devido às sanções, o que solapa fundamentalmente a competitividade das empresas europeias. Trocamos nossa energia relativamente barata da Rússia pelo caríssimo gás natural liquefeito (GNL) procedente dos Estados Unidos. Passamos assim de uma dependência a outra. Além disso, a Europa fica com os custos exorbitantes de uma guerra que não pode vencer e que ajudou a prolongar.
Saída
Putin persegue neste momento dois grandes objetivos. Em primeiro lugar, manter a Ucrânia fora da OTAN. Essa é uma linha vermelha estratégica e um motor por trás da lógica de desgaste. Em segundo lugar, um “grande acordo” com os Estados Unidos. Quer fechar um grande pacto no valor de centenas de bilhões de dólares sobre a exploração de petróleo e metais raros, entre outras coisas. A Europa fica à margem e observa impotente.
Para manter aberta a margem de negociação com os Estados Unidos, Moscou evita por enquanto uma escalada extrema. A guerra não se resolve, mas se gerencia, enquanto a Rússia aposta no tempo e na superioridade numérica.
Uma possível saída é o “cenário coreano“, que significaria não uma paz real, mas um conflito congelado. A atual linha de frente se converteria então em uma linha de demarcação. Ambas as partes se retirariam alguns quilômetros para formar uma zona desmilitarizada de amortecimento. As garantias de segurança deveriam impedir uma nova escalada. Não é em si mesma uma solução “justa”, mas em uma guerra sem um cenário realista de vitória, pode ser uma maneira de deter o derramamento de sangue.
A Europa em uma encruzilhada
Ao seguir docilmente os Estados Unidos, a Europa deixou de construir uma estrutura de segurança equilibrada na qual a Rússia também pudesse ter um lugar após a queda da União Soviética. Agora que está sendo abandonada por Washington, surge uma oportunidade histórica de seguir um rumo próprio e independente.
A Europa enfrenta assim uma escolha histórica. Trump e o complexo militar-industrial impulsionam a militarização do continente europeu. Por enquanto obtêm eco: a maioria dos líderes europeus continua apostando na dura política de confronto com Moscou, enquanto que Washington já a deixou de lado.
Esse caminho de guerra não fará senão aumentar as tensões no continente europeu e, além disso, solapa nossa prosperidade. Os esforços bélicos previstos custarão aos países europeus centenas de bilhões de euros, em detrimento das pensões, da saúde, da educação e da transição ecológica da economia.
Será a Europa finalmente capaz de seguir um rumo próprio e independente à margem dos Estados Unidos e escolher a prosperidade e uma estrutura de segurança equilibrada no continente, ou nos deixaremos arrastar pela febre de guerra? A resposta a esta pergunta é crucial para o futuro que nos espera.
Marc Vandepitte é membro da Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade (REDH).
Tradução > Liberto
agência de notícias anarquistas-ana
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