[México] Comunicado em Solidariedade aos Protestos AntiFifa 2026

Oaxaca, territórios em resistência
29 de março de 2026

Expressamos nossa mais firme solidariedade às comunidades, coletivos e pessoas que ontem, 28 de março, tomaram as ruas da Cidade do México no contexto dos eventos prévios à Copa do Mundo de 2026. Desde as vias do sul até as imediações do estádio, sua presença tornou visível uma realidade que os discursos oficiais buscam esconder: que por trás da chamada “festa do futebol” existe um profundo processo de espoliação, exclusão e violência estrutural. As ações realizadas, como as “peladas” no asfalto e as manifestações no espaço público, não foram apenas atos simbólicos, mas uma denúncia direta contra um modelo que privilegia o espetáculo global acima da vida digna dos povos.

Nos solidarizamos especialmente com as mães que buscam seus filhos desaparecidos e com as famílias de pessoas desaparecidas que, com dignidade e dor, levantaram o grito “Não brinquem com a nossa dor”, lembrando que não pode haver celebração enquanto persiste uma crise humanitária marcada pela impunidade. Da mesma forma, reconhecemos a luta dos coletivos de bairro, organizações urbanas e moradores de bairros e colônias que denunciaram a “Copa do Mundo do despojo” e apontaram claramente que se trata de um “evento global com despejo local”. Suas vozes sintetizam o cansaço diante de políticas que priorizam interesses privados, investimentos especulativos e megaprojetos acima de direitos fundamentais como moradia, acesso à água e trabalho digno.

O que hoje se vive na Cidade do México não é um fenômeno isolado, mas parte de um processo mais amplo de turistificação e gentrificação que transforma os territórios em mercadoria. Sob a lógica dos grandes eventos internacionais, as cidades são reconfiguradas para o consumo, os custos de vida aumentam, as populações históricas são deslocadas e o tecido social que sustenta a vida comunitária é rompido. Esse modelo transforma bairros inteiros em zonas de investimento, expulsa quem os habita e redefine o espaço público como uma vitrine a serviço do capital.

Desde Oaxaca, sabemos que esse despojo não se limita às cidades. É o mesmo processo que avança sobre terras comunais e ejidais, que privatiza praias e costas, que impõe projetos turísticos, extrativistas e de infraestrutura em territórios de povos originários sem o seu consentimento. É uma lógica que desarticula comunidades, fragmenta territórios e coloca em risco formas de vida ancestrais em nome do desenvolvimento e do progresso. A Copa do Mundo de 2026, nesse sentido, nada mais é do que uma expressão visível de um sistema que mercantiliza a vida e aprofunda as desigualdades.

Diante disso, alertamos também sobre o uso da força pública, mecanismos de controle e contenção que buscam inibir a protesta e disciplinar as comunidades. A presença policial, os reordenamentos urbanos, a pressão institucional e as formas diretas e indiretas de despejo configuram um cenário onde a defesa do território é constantemente vigiada e, em muitos casos, criminalizada. Rejeitamos qualquer forma de repressão, ameaça ou assédio contra quem exerce seu direito à protesta e à defesa de seus direitos coletivos.

Reafirmamos que não há celebração possível quando se constrói sobre o despojo, o deslocamento e a dor. Não há evento global que justifique a perda de territórios, o rompimento do tecido social nem o silenciamento das lutas. O bairro, a colônia, as praias, a terra, os territórios e a vida não são mercadoria, e sua defesa é um direito legítimo dos povos.

Desde Oaxaca em rebeldia, seguimos convidando para o 2º Encontro Nacional contra a Gentrificação e Turistificação, nos próximos dias 18 e 19 de abril;

Frente de Organizações Oaxaqueñas (FORO)

Fonte: https://tierrayterritorio.wordpress.com/2026/03/29/comunicado-en-solidaridad-con-las-protestas-anti-fifa-2026/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana
 

Rua do tempo:
Imagem volátil
Em olhos opacos.

Abelardo Rodrigues

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