[Alemanha] Quem soltou os cachorros? Atualização: repressão a anarquistas em Munique

A promotora, Eva Firoozi, podia ter sido autora de romances. Uma daquelas autoras best-seller que, por causa do politicamente correto e da falta de humor, estragam o prazer da leitura, mas teria causado menos danos, pelo menos. Essa adição à equipe dos sonhos da Procuradoria Geral de Munique (General-SA), Reinhard Röttle, e o líder e fundador do partido ZET, Georg Freutsmiedl não foi à toa.

A nova chefe do ZET, Gabriele Tilmann, também não incluiu a defensora da justiça social só para preencher a cota de mulheres no cargo. Não, em Munique, como em toda a Baviera, “não há espaço para anarquistas, sem-teto em ocupações ilegais etc.”, segundo o sempre bem-humorado Franz Joseph Strauß. Se esses anarquistas não saírem da cidade por conta própria, precisamos de funcionários criativos como Eva Firoozi. Claro, para nosso grande pesar, nós anarquistas. Não por levar Eva Firoozi a sério, sequer por ter medo dela. Só estamos cansados de ler as suas acusações absurdamente mal escrita. Cheias de furos no roteiro; a lógica da história não bate, e os personagens são bidimensionais. Você não precisa ser estudante de literatura para perceber isso.

Se a procuradora geral Firoozi fosse só má escritora, poderíamos simplesmente ter ignorado os livros dela na livraria. Como promotora, porém, de alguma forma conseguiu nos forçar a ler as suas criações (nunca mais que 31 páginas) como leitura para dormir. A procuradora geral decidiu: acusou Manuel de incêndio criminoso de veículo ferroviário, seis betoneiras, uma carregadora de rodas, uma esteira com silo e tentativa de incêndio criminoso de um moinho de vento. Além disso, é acusado de diversos furtos e de associação com o “Hetzblatt gegen den Windpark” [jornal militante contra o parque eólico]. Nathalie também foi acusada, mas só de furto. Eva Firoozi promete que, se a sua moção para recorrer da decisão do tribunal distrital de não reabrir o caso “Zündlumpen” for bem-sucedida, combinará este caso com o caso maior. Ou era o contrário? Quem se importa.

Sim, mais uma vez, muita conversa sem parar e muita bobagem. Já ouvimos isso: Manuel é “membro da cena anarquista de extrema-esquerda” e “rejeita qualquer forma de governo estatal” etc. Aparentemente, também é primitivista. Por quê? Baseado no fato de que “vivia em um acampamento na floresta, construído por ele mesmo”. De qualquer forma, a maior parte da trama já é conhecida e pode ser encontrada no texto “Rebelião em tempos de vigilância policial total” e em outros textos sobre repressão em Munique. Seria perda de tempo repetir isso aqui.

Por que só acusar Manuel de incêndio criminoso, e não Nathalie? Por que só nesses três casos e não os seis de antes? A culpa é dos cães. Especificamente, os chamados cachorros diferenciadores de cheiro. É aqui que a coisa fica realmente estranha.

Como muitas das técnicas de investigação dos policiais alemães, o uso de cães que diferenciam o cheiro tem um histórico de fedor. Não, desta vez não estamos falando dos KZ [campos de concentração]. Cães diferenciadores de cheiro foram amplamente usados pela Stasi para procurar membros da oposição. Coletavam uma amostra à força em interrogatório, aplicando um tampão na região genital e guardando em um pote de conserva. Ou então, invadiam casas e colocavam um pano de algodão nas roupas. Espera aí, o KHK Wolf e o MEK não fizeram isso na cabana do Manuel e da Nathalie na floresta? Eles costumavam chamar isso de pseudociência no BRD. Pelo menos até a queda do muro. Especialmente nos últimos anos, sempre havia algum pseudocientista com o companheiro canino de nome estranho que afirmava que o cão podia farejar algo, para o qual não havia outras evidências. Agora, afirmam que o odor corporal de Manuel está em alguma “evidência”.

O arquivo da investigação diz que a equipe de vigilância e o já mencionado KHK Wolf da K92, que assumiu essa missão da Stasi, enfiaram algum tipo de lenço em sapatos, roupas etc., que atribuíram de forma relativamente aleatória a Nathalie ou a Manuel, encontrados na nossa casa.

Depois, mostraram a alguns cães que “indicaram” que o cheiro combinava com o cheiro das “evidências”. Isso já sabíamos. Novas amostras comparativas de cheiro foram obtidas no dia da prisão de Nathalie e Manuel, quando um chamado tratador de cães esfregou bruscamente um pedaço de pano no corpo dela, que o policial Florian Obermeier chamou de “sabonete corporal grátis”. Agora, fica estranho. Na acusação, Eva Firoozi escreve que, em 03 de março de 2025 os cães do “laboratório” da unidade de cães de serviço da Mittelfranken estabeleceram “uma conexão entre o cheiro nas evidências e o cheiro nos acusados.” Mas, então, precisaram admitir que: “a gravação em vídeo do cheiro diferenciando os cães em ação não pode mais ser encontrada.” Esse é o caso de Manuel. Para começar, os super farejadores nem conseguiram estabelecer conexão com Nathalie. Podemos facilmente imaginar o quanto a General-SA Firoozi deve ter ficado furiosa quando a KOK Jochen Meyer, que normalmente não é tímida, humilde, mas objetivamente, confessou a ela que os vídeos “se perderam no correio”. Felizmente, esse processo duvidoso é facilmente repetido. Os resultados podem divergir um pouco nos detalhes, mas para Eva Firoozi isso já é motivo suficiente para entrar com um processo contra Manuel.

A atitude anarquista dos dois (sim, os anarquistas de fato rejeitam o Estado, Sra. Firoozi) é estabelecida e enriquecida usando fragmentos de conversa tirados de contexto, obtidos ao longo de meses de espionar a cabana de Nathalie e Manuel, assim como citações de rascunhos de textos, emails etc. As leituras das longas listas de evidências chegam a dar sono.

Em 12 de janeiro último, a acusação foi apresentada ao juiz Dr. Blaschke da terceira divisão criminal do primeiro tribunal distrital de Munique.

Nesse tribunal se decidirá se o caso será incluído ou não no caso principal. Esse mesmo juiz anteriormente considerou a escuta telefônica de alojamentos sem mandado não ilegal porque, “segundo o princípio legal ex injuria ius non oritur”, o ocupante da casa “não tem direito ao artigo 13 da constituição” e recomendou utilmente que aqueles que não desejam ser vigiados ilegalmente “entrem com uma liminar clara contra todas as agências estaduais”. Deve ser muito divertido para esse juiz analisar todas as fitas de vigilância em áudio que transformaram a vida de Nathalie e Manuel em um assunto público e voyeurista do Estado. Aqueles que escolheram a jurisprudência conquistaram esse privilégio.

De qualquer forma, vamos deixar o legalismo aos juristas, preferimos manter o nosso anarquismo.

Fonte: https://actforfree.noblogs.org/2026/03/24/who-let-the-dogs-out-update-on-repression-against-anarchists-in-munich/

Tradução > CF Puig

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/03/25/alemanha-onda-massiva-de-repressao-contra-o-movimento-eco-anarquista/

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Eugénia Tabosa

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