Entre o bloqueio e o capitalismo de Estado: crise social, transição intra-oligárquica e protestos na Cuba contemporânea

Entrevista especial com Eleuterio Ascaso, militante anarquista cubano e integrante do Taller Libertario Alfredo López, concedida a Cassio Brancaleone no dia 13/03/2026 para o Instituto de Estudos Libertários (IEL)
 
Pergunta > Como você analisa a intensificação do cerco e das sanções da administração de Donald Trump, especialmente em seu segundo mandato, sobre a economia cubana, no marco do embargo que os Estados Unidos mantêm há mais de seis décadas? Que efeitos estruturais esta política incide na reprodução social e nas condições de vida da maioria da população?
 
Resposta < Olha, antes de tudo, é preciso dizer que esta situação de bloqueio internacional por parte do governo dos Estados Unidos da América — supostamente contra o regime daqui, a República de Cuba — tem, como bem diz a pergunta, mais de seis décadas.
Agora, é absolutamente verdade que, neste momento, depois que Trump declarou que Cuba é supostamente uma “ameaça extraordinária” para a segurança dos Estados Unidos (colocando entre aspas, que é como deve ser), as coisas aqui em Cuba pioraram muitíssimo. Ou seja, não significa de forma alguma que antes estivessem bem. Antes estava mal, mas agora está pior. Não há combustível para o transporte mais elementar, tanto dentro de Havana quanto fora, em outras províncias.
Agora mesmo, nas redes sociais, está viralizando o vídeo de um brother lá de Aguacate, município de Madruga, província de Mayabeque, que montou um polaquito (um Fiat Polski, um Fiat polaco) com um conversor de carvão a gás; algo que era muito utilizado na Alemanha nazista durante a guerra, entre 39 e 45. Bom, eu interpreto que basicamente o que ele faz é converter o carvão em CO, monóxido de carbono, um gás altamente venenoso, e com isso alimenta o motor do polaquito. A situação é pesada.
Há outras questões também de importância crucial, como, por exemplo, o fato de uma pessoa poder ter dinheiro no cartão bancário, mas não ser possível convertê-lo em espécie, e muita gente recebe em dinheiro vivo. Porque, entre outras coisas, esses sistemas bancários não funcionam quando há apagão, e os apagões aqui são diários. Nem funcionam quando falta luz no local onde estão os servidores do sistema bancário, que não coincide necessariamente com o lugar onde o banco está. Ou seja, nada feito; é preciso “navegar”, inventar (dar um jeito), ver como se converte esse dinheiro eletrônico do cartão em um dinheiro que se possa consumir. Nessa questão da transferência, nem todos os negócios podem comprar via transferência, porque o Estado também exige que paguem em dinheiro vivo dentro da venda por atacado.
Eu devo ressaltar algo muito importante: o bloqueio norte-americano é um fato de classe. Isso é uma questão de classe! As pessoas que dirigem a megacorporação cubana GAESA e outras personalidades da alta burocracia não sentem o bloqueio. O bloqueio norte-americano ataca as pessoas de abajo; ataca trabalhadoras, trabalhadores, aposentados, cuidadores e cuidadoras — ataca a nós. Somos nós quem mais sofremos por essas medidas de “ameaça extraordinária” ditadas pelo governo de Donald Trump e pelas medidas de bloqueio que já existiam antes.
Isto é questão de classe. Em Cuba existe uma oligarquia. Essa oligarquia governa. Essa oligarquia vive bem, não vive como vive o povo. Essa oligarquia se desloca em carros norte-americanos de última geração. E é aliada da nova burguesia que está surgindo em Cuba — uma burguesia privada, privatista, que também dirige esses mesmos carros. Eles ganham dinheiro através do processo de “compradoria”; é uma burguesia compradora, fundamentalmente de importação. Ganham seu dinheiro, constroem suas casas luxuosas em todos os lugares de Cuba, mas é uma classe social que não tem nada a ver com o precariado.
O precariado é a maioria do povo cubano. O precariado muitas vezes é obrigado a trabalhar até 16 horas, sobretudo as mulheres, sem qualquer garantia de direitos para essa burguesia que anda por aí em carros norte-americanos e motos de última geração. Quando uma dessas mulheres, das que trabalham 16 horas para essa burguesia, fica grávida, não há direito trabalhista que a proteja. Ela tem ou que abortar ou sair do trabalho. Assim funciona a realidade jurídica da Cuba “realmente existente”. Acredito ter sido suficientemente claro sobre esse caráter classista do embargo/bloqueio norte-americano.
Quando eu digo que não existem marcos legais para proteger quem trabalha, obviamente não é totalmente assim. Obviamente existe legislação trabalhista, há um novo Código de Trabalho que foi aprovado há pouco tempo. Mas a questão principal está nos procedimentos. Ou seja, a lei adjetiva (o direito processual), como se diz no Direito, não é algo que funcione bem em Cuba.
Basicamente, em quase todos os ramos do ordenamento jurídico — talvez apenas no Direito Penal e em algumas coisas do Direito Civil — as leis adjetivas funcionam. Mas, por exemplo, no Direito Trabalhista é complicado ganhar uma disputa contra o empregador, especialmente quando o empregador está empoderado em termos de classe; eu me referia basicamente a isso. Não é que não existam leis, como uma “desregulação” que esses pseudo-libertários inventaram, ou como a que existe na Bielorrússia, onde você tem que assinar o contrato todo ano porque não existe contrato de trabalho permanente.
Teoricamente, em Cuba, sobretudo no âmbito estatal, quem trabalha pode reivindicar alguns direitos, mas no mundo da iniciativa privada, especialmente nos pequenos negócios, isso não é assim. E aqui entra a questão do precariado, que é muito importante. O precariado em Cuba é uma classe social que surgiu nos anos 90, quando desapareceu a ajuda e o apoio da União Soviética e do CAME (ou COMECON).
Basicamente, os salários continuaram no mesmo nível de antes, mas os mantimentos desapareceram. O que se comprava pela libreta (caderneta de abastecimento) começou a ser em quantidade e variedade muito menores. Agora já quase não se vende nada pela libreta. Tenhamos em conta que, nos anos 80, a libreta era algo que garantia um nível mínimo de bem-estar: vinha proteína, carne, produtos enlatados, frutas, etc. Tudo isso desapareceu em grande parte nos anos 90.
Os salários não aumentaram. E isso significa que as pessoas tiveram que começar a “resolver”, como se diz em Cuba, por outras vias — basicamente através da economia informal — as suas necessidades. Por isso eu falo de precariado. Eu sei que a precarização existe no mundo todo, está ocorrendo em praticamente todos os países, não é? Mas o grande ponto disso em Cuba é que o salário normal de um trabalhador ou trabalhadora do Estado geralmente está abaixo da linha da pobreza.
De fato, esse dado sobre a linha da pobreza foi informação confidencial durante muito tempo. Agora já existem estimativas de diferentes economistas e, bem, o salário estatal (e o setor estatal ainda é o que mais emprega força de trabalho hoje) está geralmente abaixo da linha da pobreza, salvo algumas exceções.
O salário na economia privada pode até estar acima, mas aí a precarização entra por outro lado, por onde eu já comentava: a vulneração dos direitos. Ou seja, nos negócios privados, o trabalhador não tem o que o Estado garante no setor público. Geralmente não há férias (ou são muito poucas), nem licença-maternidade ou paternidade. Também não há auxílio-doença quando alguém adoece. Todas essas coisas no setor privado estão muito vulnerabilizadas. É muito fácil demitir um trabalhador, e o trabalhador sabe que não pode espernear, porque assim se expõe ainda mais.
Além disso, todo o tema dos sindicatos em Cuba está muito precarizado também. Não quero dizer que não existam. No setor público, a maior parte da força de trabalho é sindicalizada, mas no privado não. Além disso, no setor privado inventaram um “modelinho cômico” de sindicato vertical, como costumava ser no fascismo, em que o patrão e os empregados pertencem à mesma seção sindical. Obviamente isso não funciona quando existe, porque muitas vezes nem isso existe.
Eu só queria pontuar isso porque, para falar do bloqueio como uma questão de classe, é indispensável entender o que é o precariado em Cuba.
 
>> Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui:
 
https://ielibertarios.wordpress.com/2026/03/18/entre-o-bloqueio-e-o-capitalismo-de-estado-crise-social-transicao-intra-oligarquica-e-protestos-na-cuba-contemporanea/
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
Por aqui passou
uma traça esfomeada:
livro de receitas.
 
Francisco Handa

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