
O livro “Fraternalmente Emma” percorre a correspondência entre a ativista de origem lituana e o libertário espanhol Vidal Arabi, protagonista de um atentado falhado contra Franco.
Um oceano pelo meio. Um mar de esperanças, ilusões e incertezas. Uma viajem ao país que podia ter sido, mas que a morte impediu que fosse. Quando o terror franquista se instalava para ficar, a militante anarquista Emma Goldman – que chegou a ser classificada pelo governo dos Estados Unidos como sua inimiga número um – e o também libertário Antonio Vidal Arabi – integrante da Federação Anarquista Ibérica (FAI) e membro do serviço de inteligência da República – trocaram uma série de cartas que hoje formam um livro.
“Fraternalmente Emma. Cartas de amor e de guerra” (Editorial La Felguera) começa a aparecer nas livrarias com uma reedição ampliada e revista. Na sexta feira apresentou-se na Fundação Anselmo Lorenzo (FAL), onde os responsáveis desta obra destacaram as suas principais características. Servando Rocha, porta voz da La Felguera, resume-o ao [jornal] Público com as seguintes palavras: “sempre nos interessaram os livros que escondem outros livros”. Por isso embarcamos nesta reedição.
A vida da própria Emma Goldman (1864-1940) tem muitas histórias. Rocha não duvida ao defini-la como “uma das grandes figuras públicas”. “Emma visitou a Espanha em três ocasiões, duas delas durante a guerra civil”, recorda o editor e assim o testemunha o livro com diferentes fotos cedidas pela FAL. Não menos apaixonante – ainda que mais desconhecida – resulta a trajetória vital de vida de Vidal Arabi, o militante da FAI que participou na tentativa falhada da morte de Franco em 14 de julho de 1936, apenas quatro dias antes de chegar o golpe de estado.
Goldman e Arabi conheceram-se um ano depois, em Londres. Ali começou a crescer uma estreita relação de amizade e companheirismo que se plasmaria nas cartas recolhidas em “Fraternalmente Emma”. Segundo destaca Rocha, a própria aparição das missivas está cheio de simbolismo. “As cartas estavam guardadas numa mala que Vidal Arabi tinha deixado na casa de uma amiga, a pintora anarquista Janet Grove, na Inglaterra”, relata.
Nas cartas, relata Rocha, “reflete-se uma relação muito bonita e emocionante entre Emma e Vidal”. As missivas vão desde agosto de 1939 até dezembro de 1940, quando Emma estava a ponto de falecer. “A correspondência tem lugar num momento crucial: tinha acabado a guerra civil, a situação de refugiados e exilados é dramática e na Europa avança o totalitarismo”, destaca o editorial.
“Uma grande inspiração”
“Voltei muito cansada, mais cansada que nos meus regressos a Espanha. Ah, as minhas excursões no seu país maravilhoso. O espírito de nossos camaradas! A batalha heroica do povo espanhol é uma grande inspiração para mim. Não esquecerei esse tempo!” Escrevia a anarquista desde Toronto (Canadá), em 22 de dezembro de 1939, um ano antes da sua morte. “Que prodigioso país foi a minha Espanha. Quando estava em terras espanholas sentia-me mais jovem. Mas aqui não é o mesmo. Não há inspiração. Devemos encontrar a coragem e a esperança dentro de nós mesmas. E isto é tão difícil. Contudo, quando a Europa está raivosa e quando a nossa amada Espanha sangra por cem feridas, não há lugar, para mim, no qual pudesse trabalhar como quero”, continuava.
“Honestidade”
O prólogo deste trabalho está a cargo da historiadora Dolors Marín, que realizou distintos trabalhos sobre o movimento libertário. “Goldman dedicou-se até à sua morte a seguir os passos no exílio dos seus novos amigos espanhóis. As suas cartas dirigidas às companheiras de Mujeres Libres interessando-se pela sua trajetória vital, são um bom testemunho disso”, assinala a investigadora no seu texto.
Na realidade, recorda que “tentou organizar colônias infantis na Europa e continuou a escrever febrilmente, consciente de que aquele esforço revolucionário devia ser narrado e transmitido dentro da história. E fez com honestidade, defendendo o esforço dos espanhóis assediados pelos acontecimentos, mas também foi crítica com as próprias organizações e com os seus membros mais destacados”, acrescenta.
Nesse sentido, Marín sublinha que “a sua vinculação com Espanha marcou os últimos quatro anos da sua vida e devolveu-lhe a esperança na revolução anarquista que, durante uns meses, transformou o mundo e incluiu importantes mudanças na vida das mulheres”. “Faleceu em 1940 em Toronto – continua – depois de celebrar o seu 70º aniversário e com o seu pequeno corpo cansado de tantas viagens, giras, conferência, cartas e escritos”. Uma parte dessas cartas chega agora às livrarias.
Tradução > Ophelia
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