[França] Para acabar com Chomsky

Por Floréal | 05/02/2026

Num artigo¹ inicialmente publicado na revista L’Oiseau-tempête, republicado pelo jornal belga Alternative libertaire e posteriormente postado no seu próprio blogue, Claude Guillon já tinha destacado, de forma notável, em 2002, este tipo de engano que consistia em querer incorporar Noam Chomsky, este “anarquista de Estado”, nas fileiras libertárias, com o mesmo fervor temerário que outros, ou as mesmas pessoas, demonstravam em relação a Michel Onfray, essa outra impostura “anarquista”.

Em 2020, num artigo intitulado “A Queda de Noam Chomsky”², denunciei a cumplicidade deste intelectual com as ditaduras de esquerda na América Latina, em particular o regime de Castro³, uma cumplicidade baseada num anti-imperialismo que o levou a optar pela peste por ódio à cólera, o que, convenhamos, demonstra um nível de reflexão bastante patético em alguém apresentado por certos colunistas libertários como um dos grandes pensadores contemporâneos.

Alguns de nós, aliás, não esquecemos que, antes de tudo isso, Chomsky escolheu, entre todas as pessoas do planeta que foram alvo de censura, perseguição ou prisão por causa de seus escritos, defender os mais indefensáveis entre elas, os negacionistas Robert Faurisson e Vincent Reynouard, enquanto ele, que se interessava tanto por Cuba, nunca disse uma palavra sobre a famosa “Primavera Negra” de 2003, que viu o regime castrista condenar 75 dissidentes, incluindo 30 jornalistas independentes, a penas que variaram de 15 a 36 anos de prisão. Aliás, seria de se surpreender que essa tolerância chomskiana em relação ao negacionismo não o tivesse tornado definitivamente indesejável no mundo militante chamado radical, mas quando se sabe qual foi a atitude de uma parte desse mundo sobre o assunto, nada mais surpreende.

E agora volta a falar-se de Noam Chomsky devido ao caso Epstein. O seu nome aparece cerca de 6300 vezes nos documentos revelados pelo governo americano. Nicolas Casaux, conhecido pelos seus escritos pertinentes sobre ecologia e feminismo, entre outros temas, analisou cerca de uma centena deles e partilhou as suas conclusões nas redes sociais. Antes de concluir sua reflexão sobre a nocividade da adulação de celebridades e gurus, um traço bastante comum no meio militante, ele destaca dois aspectos inesperados em alguém que supostamente se situaria na esfera libertária.

A primeira consiste, para um anticapitalista declarado, em recorrer a um empresário bilionário, personalidade mundana e com relação privilegiada daquilo a que se chama, sem ironia, “a elite” (estadistas, políticos profissionais, famílias reais, estrelas do showbiz, etc.) para lhe confiar a gestão do patrimônio financeiro – cerca de 7,1 milhões de dólares, uau, nada menos! – que seu trabalho no seio do imperialismo odiado lhe permitiu acumular.

O segundo reside no apoio dado a alguém que na época enfrentava sérios problemas por estupros repetidos, proxenetismo e crimes contra crianças, crimes pelos quais Chomsky parece não se interessar minimamente. Geralmente, espera-se de um libertário, ou alguém que se diz tal, diante de tais horrores, algo diferente da mensagem que ele enviou ao seu amigo em fevereiro de 2019: “Observei a maneira horrível como você está sendo tratado pela imprensa e pelo público. É doloroso dizer isso, mas acho que a melhor maneira de proceder é ignorar. […] Isso é particularmente verdadeiro hoje, com a histeria que se desenvolveu em torno dos abusos contra as mulheres, que atingiu um ponto tal que o simples fato de questionar uma acusação é considerado um crime pior do que o assassinato.

Já é hora de todos aqueles que se dizem anarquistas pararem de ver Chomsky como um companheiro de luta aceitável. Deixemos que outros radicais do seu tipo o incorporem em seu discurso anti-imperialista.

[1] https://lignesdeforce.wordpress.com/2014/11/18/leffet-chomsky-ou-lanarchisme-detat/
[2] https://floralanar.wordpress.com/2020/04/25/le-naufrage-de-noam-chomsky/
[3] Para se ter uma ideia da quantidade de disparates que Chomsky era capaz de proferir sobre Cuba, basta ler a sua inacreditável entrevista aos jornalistas do jornal comunista L’Humanité após a morte de Fidel Castro em 2016.

Fonte: https://florealanar.wordpress.com/2026/02/05/pour-en-finir-avec-chomsky

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