
Por Daniel Pinós | 25/01/2026
Francisco Fernández, conhecido em círculos ativistas e intelectuais como Frank Fernández, faleceu em Miami, Flórida, no dia 18 de janeiro de 2026, aos 92 anos, devido a complicações infecciosas após sua hospitalização em cuidados intensivos. Sua morte representa uma perda importante para a historiografia do anarquismo cubano e, em geral, para a história social e política do Caribe.
Recebemos Frank em maio de 2004 na Maison de l’Amérique Latine de Paris para o lançamento de El anarquismo en Cuba, publicado pela CNT da região parisiense. Lembro-me de um momento intenso, marcado tanto pela força de suas palavras quanto pela hostilidade de um punhado de militantes do Partido Comunista do Chile, incapazes de aceitar as críticas que o livro dirigia contra a revolução castrista.
Em abril de 2015, em Santiago de los Caballeros, República Dominicana, reencontrei Frank no congresso fundacional da Federação Anarquista do Caribe e Centro-América, ao qual ele comparecia como delegado da IFA. Este reencontro, anos depois e em outro país, consolidou para mim a continuidade de seu compromisso e de nossa amizade.
Historiador autodidata, ativista libertário e intelectual no exílio, Frank Fernández dedicou a maior parte de sua vida à reconstrução crítica da história do movimento anarquista em Cuba, particularmente entre o final do século XIX e a primeira metade do XX. Sua obra se opõe explicitamente à historiografia oficial, seja ela liberal, nacionalista ou marxista-leninista. Rejeitando qualquer pretensão de neutralidade acadêmica abstrata, ele concebeu a escrita histórica como um campo de batalha, um espaço de confrontação política e memorial.
A originalidade de sua contribuição reside em seu método e sua postura epistemológica. Frank Fernández nunca se limitou a compilar fontes secundárias nem a reproduzir narrativas estabelecidas. Seu trabalho baseou-se em uma leitura minuciosa da imprensa anarquista cubana publicada desde a época colonial, em arquivos sindicais muitas vezes esquecidos e na reconstrução de experiências militantes apagadas pela repressão, pelo exílio ou pela marginalização política. Ele dedicou atenção especial às trajetórias de trabalhadores anônimos, mulheres anarquistas, intelectuais comprometidos, tipógrafos, leitores de fábricas de tabaco, ateneus populares e às formas de organização não hierárquicas que moldaram o movimento libertário cubano.
Essa perspectiva se sintetiza em sua obra principal, El anarquismo en Cuba (2000), traduzida para vários idiomas, que continua sendo uma referência essencial para qualquer estudo sério do movimento operário cubano. Nela, Fernández demonstra que o anarquismo não foi um fenômeno marginal nem um mero precursor ideológico, mas sim um ator central nas lutas sociais, trabalhistas e culturais da ilha. Ele desafia diretamente as narrativas teleológicas que subordinam a história do trabalho ao advento do Estado-nação ou à vitória do socialismo autoritário.
Sua outra obra importante, La Sangre de Santa Águeda (1994), ilustra seu interesse por acontecimentos traumáticos e pela violência estatal, analisados não como episódios isolados, mas como momentos reveladores das dinâmicas de poder social e político. Além dessas obras, publicou numerosos artigos na revista Guángara Libertaria, assim como em diversas publicações libertárias em espanhol e inglês, que constituem um corpus essencial para o estudo do anarquismo cubano no exílio.
Paralelamente ao seu trabalho historiográfico, Frank Fernández foi membro ativo do Movimento Libertário Cubano no Exílio (MLC-E). Participou da fundação e gestão da Guángara Libertaria entre 1979 e 1992, revista que desempenhou um papel central na reestruturação das redes anarquistas cubanas fora da ilha. Essa atividade se desenvolveu em um contexto particularmente hostil, marcado pelo predomínio de correntes políticas conservadoras e anticomunistas em Miami, assim como por pressões e ameaças provenientes tanto do exílio quanto do Estado cubano. No entanto, Fernández manteve-se fiel a uma postura libertária inflexível, rejeitando tanto o autoritarismo estatal quanto os compromissos ideológicos ditados pelo oportunismo político.
No plano intelectual, Frank Fernández defendeu uma história livre de figuras heroicas e narrativas épicas, centrada nas práticas sociais, nas subjetividades subalternas e nas formas concretas de emancipação. Insistiu na necessidade de escrever a história “de baixo para cima”, atento às dinâmicas de poder dentro dos próprios movimentos revolucionários, particularmente no que diz respeito às relações de gênero e às formas informais de poder.
A contribuição de Frank Fernández não se limita a um conjunto de textos. Reside também em um imperativo metodológico e ético: considerar a história como uma ferramenta viva, destinada a nutrir as lutas presentes em vez de santificar o passado. Nesse sentido, sua obra permanece aberta, convidando ao debate, à exploração e, por vezes, à crítica, em consonância com o espírito libertário que o animou.
O falecimento de Frank Fernández deixa um legado historiográfico considerável e um claro convite aos pesquisadores: continuar a exploração crítica da história social cubana sem sucumbir às narrativas hegemônicas e reconhecer plenamente o papel das tradições libertárias na formação dos movimentos de emancipação na ilha de Cuba e em sua diáspora.
Tradução > Liberto
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