[EUA] Esta loja vai fracassar: livraria punk quer atrair a comunidade

por Wulfe Wulfemeyer – 9 de janeiro de 2026

Se os moradores de Lawrence vão confundir os Ministérios Ecumênicos do Campus (ECM) com uma igreja, a diretora executiva Jessie Duke ao menos quer que pareça uma igreja selvagem. Por isso, ela abriu uma livraria punk e anarquista no prédio.

“Como o lugar se apresenta como uma igreja, muitas vezes as pessoas têm medo de entrar aqui”, disse Duke. “Há muita gente que se sente afastada disso, ou que tem traumas relacionados a estar em espaços religiosos.”

Duke afirmou que isso não impede que grupos religiosos realizem eventos no prédio comunitário do ECM, no campus da Universidade do Kansas (KU), caso a comunidade assim deseje. Mas ela não quer que a diversidade de iniciativas no local seja ignorada: Food Not Bombs, projetos de ajuda mútua, shows punk underground, almoços vegetarianos gratuitos toda semana, e a lista continua.

A nova livraria pode servir como isca para atrair o transeunte desavisado, mas Duke disse que não pretende fazer proselitismo. Em vez disso, o espaço funciona como uma loja física para sua editora punk e anarquista chamada Bread & Roses, fundada por ela em 2020.

O nome vem do clássico slogan socialista e do movimento trabalhista, que enfatiza a dupla necessidade das coisas básicas (o pão), mas também da beleza e da riqueza da vida (as rosas). Além de publicar seus próprios títulos, a Bread & Roses distribui livros de pequenas editoras com afinidades políticas em todo o país. Uma mistura desses títulos está atualmente exposta no ECM.

“Não imagino que vá haver muito movimento de clientes vindo só para comprar coisas, mas espero que isso faça as pessoas entrarem, e então elas caminhem pelo corredor e pensem: ‘Que lugar é esse?'”, disse Duke. “… E aí elas começam, tipo, a se misturar.”

Ao lançar uma rede mais ampla, ela espera também atrair pessoas de fora da bolha da KU, como moradores de Lawrence em geral e pessoas ligadas à Haskell Indian Nations University. Segundo ela, o ECM costuma receber grupos de lados distintos de questões políticas, e o centro pode servir como um espaço seguro de acolhimento e um terreno fértil para o diálogo.

“Eu só quero resolver problemas e fazer as pessoas em Lawrence se sentirem seguras”, disse Duke.

O ECM não é um centro comunitário tradicional, assim como a livraria Bread & Roses não é uma livraria comum. Ela fica instalada em um antigo espaço de capela, que ainda conserva seus vitrais elaborados, mesmo sem servir como local de culto há anos. Duke e a equipe da Bread & Roses quiseram transformar seus escritórios privados em um espaço público, para não ficarem guardando a beleza só para si.

A livraria e os escritórios convivem em duas salas. Prateleiras com livros usados à venda ficam ao lado do estoque de títulos, que serão embrulhados em jornais independentes, amarrados com bilhetes escritos à mão e enviados pelo correio aos clientes da loja online da editora.

O modelo de Duke provavelmente soa como um pesadelo para um empresário preocupado com o lucro. Quando divulgou a loja em um comunicado à imprensa, ela escreveu: “Esta loja vai fracassar”.

“Agora, é isso que parece certo, e é disso que precisamos, então vamos fazer mesmo assim”, disse ela. “Não importa se isso durar seis meses e depois tivermos que, tipo, empacotar todos os livros de novo.”

A maioria dos títulos disponíveis na Bread & Roses também pode ser emprestada na Biblioteca da Solidariedade, logo ali na esquina, dentro do ECM. Duke disse que também vende livros na Wonder Fair há anos e pretende continuar.

Adam Gnade, um dos autores mais vendidos da editora, ficou no caixa na noite de quinta-feira, após o lançamento oficial da loja na segunda-feira. Gnade escreve ficção autobiográfica que retrata o cotidiano, do pão do trabalho às rosas do amor.

Ele disse que visitantes costumam se surpreender ao encontrar livros fora de catálogo ou difíceis de localizar, além de títulos de pequenas editoras e edições limitadas.

“Muitos dos títulos que estão sendo vendidos aqui são livros que, em algum momento, provavelmente serão banidos neste período em que estamos vivendo, e vai ser cada vez mais difícil para as pessoas encontrarem certos títulos, especialmente livros sobre antifascismo”, disse. “Então ter algo físico, eu acho, é importante.”

Duke vê a loja como uma forma de pessoas curiosas aprenderem sobre as realidades dos movimentos sociais e do ativismo. Ela disse que nunca se empolgou muito em ler teoria anarquista. Em vez disso, se interessa mais por publicar manuais DIY, biografias e guias práticos que traduzam o pensamento político em ação concreta. Isso pode ser, por exemplo, um livro sobre como cultivar sua própria horta para promover soberania alimentar, ou um memorial escrito por uma ativista dos direitos dos animais.

Duke acredita que não há sede melhor para esses títulos do que o ECM.

“Enquanto eu estiver publicando e vivendo em Lawrence, teremos uma livraria aqui no ECM”, disse ela. “Mesmo que fôssemos um sucesso gigantesco, eu não procuraria um espaço maior e me mudaria para mais perto do centro, porque, no nível comunitário, sinto que é mais importante que esteja aqui.”

A Bread & Roses funciona de terça a domingo, do meio-dia às 19h, no ECM, 1204 Oread Ave. A entrada da loja fica no lado sul do prédio, logo ao lado do estacionamento.

Fonte: https://lawrencekstimes.com/2026/01/09/ecm-bread-roses-bookstore/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Na tapera velha
Há digitais nas paredes:
Registros humanos.

Antonio Cabral Filho

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