Café com Anarquia #1 | “Sacudamos o tédio. Anarquia, ciência, corpo”, de Camillo Berneri

Coluna esporádica com comentários de livros sobre anarquismo, movimentos sociais autônomos, políticas radicais e, por que não, literatura.

Por Maikon Jean Duarte | 01/02/2026

A elaboração de uma capa e a escolha editorial do título de um livro são trabalhos fundamentais para despertar a curiosidade da pessoa leitora. A produção editorial que inaugura esta coluna é um caso de acerto de mão cheia.

O livro foi lançado pela Editora Entremares em dezembro de 2025, com organização e tradução de Inaê Diana Ashokasundari Shravya, projeto gráfico e diagramação de Adriano Skoda, e prefácio de Alexandre Samis e Giovanni Stiffoni.

Sacudamos o tédio. Anarquia, ciência, corpo, de Camillo Berneri, conta com capa adaptada a partir de Trellis, de William Morris (1834–1896). É fácil ser capturado pelo excelente trabalho editorial da capa, que utiliza palavras nada usuais no vocabulário militante.

Camillo Berneri (1897–1937), nascido em Lodi, Itália, foi anarquista e professor. Teve uma vida curta, mas profundamente marcada pela causa da liberdade, no combate ao fascismo em seu país de origem e na Espanha. Sem fugir aos debates de sua época entre companheiros e companheiras de ideologia, como Errico Malatesta (1853–1932) e Federica Montseny (1905–1994), Berneri dialogou também com contemporâneos para além do anarquismo. Os próprios prefaciadores identificam em sua trajetória uma formação intelectual pouco típica no anarquismo daquele período, o que lhe permitiu incorporar diferentes elementos das ciências aos debates, análises e formulações anarquistas no combate ao capitalismo, às ditaduras bolcheviques e ao fascismo. Berneri acabou assassinado pela burocracia vermelha.

O trabalho de Inaê é bastante acertado ao organizar e traduzir Berneri, um companheiro anarquista que até hoje circulava majoritariamente por meio de edições em formato de cartilha, como as da Editora Combate, da FAG, Federação Anarquista Gaúcha. Ao reunir dezesseis textos divididos em três partes (anarquia, ciência e corpo), a organizadora e tradutora possibilita uma aproximação mais consistente às contribuições de Camillo. Inaê também organiza notas de rodapé: algumas pontuais e necessárias; outras suscitam questionamentos, como até que ponto dialogam efetivamente com a vida e a obra do próprio Berneri — caso do artigo de um professor da PUC e da necessidade de relacionar Michel Foucault com o anarquismo. É do jogo. Afinal, justamente por o anarquismo não ser uma ciência, mas uma ideologia política revolucionária, sua tradição esteve aberta a diferentes campos do conhecimento. Um detalhe pequeno diante do trabalho realizado.

Minha intenção é comentar, de modo breve, um ou dois textos de cada parte.

Anarquia

O exercício da análise de conjuntura e da escrita é difícil de caminhar juntas. Berneri realizou bem ambas as tarefas. É um escritor de mão cheia. Cria ótima frase, com ideias e argumentos potentes.

Na abertura da antologia, o artigo intitulado “Sacudamos o tédio duma espera covarde, indigna de nós”, publicado originalmente em 1929, é um chamado ao conjunto da militância anarquista para o combate ao fascismo. O primeiro parágrafo já dá o tom:

De vez em quando, um relâmpago fende esta noite, longa noite de torpor resignado para a multidão fascista, eterna noite de acossada impotência para as minorias combativas que vivem toda a tragédia da derrota e, contudo, bebem das fontes da fé, esperando se redimir dos erros e dos defeitos do passado com um espírito de sacrifício mais íntegro e disposto e com maior cautela.

Com coragem, inteligência e coordenação, Berneri convoca a mobilizar e a fazer o que está ao alcance de quem somos, para estarmos presentes nos momentos mais perigosos da nossa classe. A leitura provoca um questionamento direto sobre a necessidade de entrega da militância anarquista: organizar a própria vida em função do projeto de transformação social, em nível de dedicação total, independentemente das consequências. Ler em janeiro de 2026 é pesado. O contraste é duro quando encontramos um anarquismo tratado como futebol de quarta-feira, às 20 horas: se chove, faz calor, faz frio ou o dia de trabalho foi pesado não acontece — como se não vivêssemos sob o capitalismo —, a tarefa militante simplesmente não acontece.

No artigo “Por um programa de ação comunalista”, escrito em 1926 e publicado em 1937, Berneri traça um retrato da sociedade de classes e dos diferentes setores do trabalho, além de analisar seus comportamentos políticos. Ele pensa e propõe caminhos para o anarquismo fazer política revolucionária, diz o que é política e nós chama para meter a mão nela:

A política é cálculo e criação de forças que realizem uma aproximação da realidade ao sistema ideal, mediante fórmulas de agitação, de polarização e de sistematização, aptas para serem agitadoras, polarizadoras e sistematizadoras num determinado momento social e político.

A partir dessa e de outras considerações, como a história e a formação social da península Itálica, Camillo recorre a Proudhon, Bakunin e Pisacane (nome até então desconhecido por mim) como fontes para a constituição de um comunalismo autonomista, sindical e federalista para a revolução por aquelas bandas.

Nesse sentido, Berneri não tira propostas da cartola, como fazem abordagens ahistóricas e apolíticas. Afirma a política como cálculo e a necessidade concreta de criar forças para fazer acontecer. Está longe de ler o anarquismo como um caderno de regras preso ao passado. Pelo contrário: o anarquismo aparece como base sólida de seus elementos constitutivos, inserido no mundo real e voltado à revolução social.

Ciência

A partir de sua formação, Berneri mantém viva a tradição anarquista de dialogar com diferentes campos das ciências, algo perceptível nas partes dedicadas à ciência e ao corpo.

A edição teve o cuidado de incluir artigos sobre educação, uma decisão acertada, o que possibilita a circulação da obra em espaços diversos, tanto militantes quanto acadêmicos.

A liberdade aparece como uma preocupação central de Berneri. Exemplo disso é sua leitura e apresentação das possíveis contribuições pedagógicas de Jan Lighthart (1859–1916), compreendendo a educação como um ato de formação para a liberdade. Quando inicia um debate com Malatesta sobre o direito absoluto da escolha individual, o que estudar e qual área seguir, temos outro acerto editorial: a inclusão da resposta de Malatesta. Não tenho problemas com spoiler, mas, neste caso, não vou reproduzir os trechos, especialmente para você, compa, ir atrás da obra.

Corpo

A frase a seguir aponta um horizonte libertário:

A escola e a fábrica ou a oficina podem se unir quando o estudo deixar de ser uma questão de renda, de dinheiro.

É a partir desse eixo que Camillo aborda a questão do trabalho.

Berneri analisa o mundo do trabalho em diferentes tempos históricos e a divisão entre trabalho manual e intelectual. A sociedade futura precisa repensar o presente e o futuro da compreensão do trabalho e a falsa dicotomia que o atravessa.

Além disso, debate o que fazer com o trabalho não útil, tema recorrente na imprensa anarquista da península Itálica nas duas primeiras décadas do século passado. Segundo Berneri, ao tratar desse assunto, buscava-se apropriar dos dados econômicos para compreender quanto se produzia, quanto se arrecadava e quantos empregos eram gerados, inclusive para dialogar com os sindicatos do setor, nos quais a militância anarquista teria um papel central.

Fechar

Até onde sei, esta é a primeira antologia de Berneri em português brasileiro, lançada 98 anos após seu assassinato. Por mais Berneri por aqui.

[Mais artigo de Berneri, aqui.]

Fonte: https://vivonacidade.substack.com/p/cafe-com-anarquia-1?

agência de notícias anarquistas-ana

Só o Ipê vê, pasmo,
o tremor suado — orgasmo —,
borboleta treme e passa.

Alckmar Luiz dos Santos

Leave a Reply