[EUA] A livraria anarquista que não devia existir

de Carl Craft

Fifth Estate N° 417, Inverno de 2025

Wooden Shoe, em inglês, Sapato de Madeira, é uma loja estande anarquista de visibilidade pública, fundada em 1976 e que, usando projeções capitalistas, não devia existir. De modo inacreditável, continua funcionando. Muitos visitantes compartilham histórias dos pais quando eram hippies ou punks jovens, que frequentavam a South Street na Filadélfia, e vinham ao Shoe para aprender sobre o sistema.

Como descreveu um voluntário atual: “Uau, eu tinha em torno de 20 anos, saindo da Nova Esquerda inicial, da SDS que virou vanguarda, da mobilização em massa contra a Guerra do Vietnã, curioso em relação a anarquismos, e procurando um projeto e prática anarquista ou pelo menos, alguma tentativa. O início do Wooden Shoe me propiciou esse tipo de projeto em colaboração com outros. Agora, com quase 70, voltei para a Wooden Shoe como voluntário.”

De acordo com o Bureau de estatísticas sobre o Trabalho dos EUA, a expectativa média de vida de um novo negócio é em torno de 8,5 anos. Então, como o Wooden Shoes permaneceu ativo por quase 50 anos? Existem diversas explicações.

A loja, totalmente gerida por voluntários, que pega o seu nome do Sabot, literalmente um sapato de madeira usado por camponeses franceses, que era jogado nas engrenagens das máquinas como sabotagem, fica em área turística da Filadélfia, então, a loja recebe fluxo constante de curiosos. Oferece ampla variedade de títulos, incluindo, além da seção sobre anarquismo, LGBTQA, feminismo, poesia, graphic novels, livros infantis e mais. Eventos mensais também geram interesse.

No início, só pessoas envolvidas com o Wooden Shoe financiavam o projeto proposto. No entanto, como anarquistas, libertários de esquerda e novos indivíduos de esquerda, muitos com experiência em organizações e partidos de esquerda de cima para baixo, agir como capitalistas e esperar retorno do investimento não era a sua expectativa. Na verdade, é a participação voluntária e colaborativa que comanda o Shoe e faz dele um lugar onde as pessoas querem estar.

O prazer da participação é claramente expresso por dois voluntários.

“Eu adoro a comunidade que o Shoe cultiva. Entre o coletivo de voluntários, os organizadores de eventos e os clientes, a equipe da loja faz você conhecer as pessoas novas com ideias semelhantes”, diz um deles.

Outro ecoou o mesmo sentimento, dizendo: “Gosto de fazer parte do Shoe, que me permite fazer a diferença de maneiras que eu não conseguiria sozinha. Se tiver uma ideia de projeto que melhore as comunidades do nosso entorno, posso propor ao coletivo e contar com o apoio deles para realizar a ideia.”

Desde o início, buscaram-se aspectos fundamentais das relações anarquistas; como o consentimento, livre de coerção, entre iguais. Contudo, eram e são muitos os dilemas e as contradições. O fator ‘cringe’ pode ser grande e é preciso ter senso de humor e até sarcasmo. O Wooden Shoe existe dentro do capitalismo de varejo, no meio de todas as outras hierarquias associadas ao racismo, ao patriarcado, às classes e às outras formas de opressão sistêmica. A loja coloca preços nos esforços criativos de pessoas e, assim, transforma o valor de uso em faixas de preço (mercantilização) para livros, panfletos, patches, camisetas e zines. É necessário ter uma identidade legal para assinar contratos de aluguel, fazer comércio de varejo, e tudo o mais.

A loja é, hoje, organização sem fins lucrativos para o governo, para o proprietário e ao mundo todo. Tudo isso exige funcionários designados, estatutos e o envio de demonstrações financeiras anuais para o Departamento de Estado da Pensilvânia e ao IRS. Então, às vezes, os participantes se perguntam: a loja é um projeto autêntico voltado para o anarquismo ou é só mais um pequeno negócio de varejo?

O que torna o Wooden Shoe um projeto anarquista, além do conteúdo da loja, são as tentativas contínuas dos voluntários dentro do projeto de se relacionar e interagir entre si com base em ampla variedade de ferramentas anarquistas; interações não hierárquicas, consenso entre iguais, inclusive na tomada de decisões, inclusão e transparência no compartilhamento dos procedimentos, das finanças e da história. Também se busca autoconhecimento contínuo e autoavaliação das identidades e histórias pessoais, bem como o seu impacto no envolvimento e nos relacionamentos com a Shoe. Muitos veem o projeto no contexto da tradição anarquista da política prefigurativa, tentando incorporar as visões de um futuro anarquista coletivo. Frequentemente, esse é um esforço para um objetivo difícil que os participantes não atingem.

Aqueles envolvidos no Wooden Shoe se descrevem como coletivo voluntário. Desde o início, as pessoas que dedicam tempo e energia voluntários têm gerido o projeto, e essa é uma realidade maravilhosa. Trazer novos voluntários é um processo contínuo. Pessoas interessadas no voluntariado são orientadas a concordar de forma geral com a declaração de missão e a declaração de valores, afirmados pela da loja, além de completar três orientações de treinamento. Os voluntários de recrutamento determinam em que medida vão participar dos grupos de trabalho e da tomada de decisões.

Tudo pode parecer simples e direto. No entanto, todo voluntário tem uma vida contínua, que pode envolver emprego, relacionamentos, família, cuidados com as crianças, parentalidade, escolaridade, outras atividades voluntárias e as suas próprias físicas e mentais.

Portanto, há diferenças significativas entre os voluntários em relação a quanto tempo e energia que podem dedicar ao projeto Shoe. Isso leva a uma distribuição desigual do conhecimento interno sobre projetos e procedimentos. Compartilhar informações e conhecimentos sobre esses assuntos é uma necessidade constante para os voluntários diariamente e em reuniões coletivas. A chegada e saída dos voluntários é contínua e isso era de se esperar. Cria uma hierarquia desigual em relação ao conhecimento.

Diante dessas realidades, há aspectos práticos para sustentar o projeto. Atualmente, as reuniões coletivas de voluntários acontecem duas vezes por mês e o estatuto determina que os voluntários que participam da reunião tomam decisões conforme necessário. Não é necessário quórum. As anotações de uma reunião coletiva são enviadas a todos os voluntários. Qualquer pessoa que não puder participar de uma reunião coletiva, após ler as notas, é bem-vinda a questionar e até bloquear uma decisão relatada compartilhando a sua opinião e objeções, e quaisquer ideias alternativas propostas em até 3 dias. Depois disso, a decisão não é estabelecida, e a expectativa é que quem se opor participe da reunião coletiva seguinte para buscar alcançar consenso.

Tem a questão do dinheiro. Antes da eleição de Trump, em 2016, e desde então, a receita além das despesas no Wooden Shoe aumentou. O que fazer com esse dinheiro tem sido uma decisão contínua para o coletivo. Foram reservados fundos de margem de segurança. A preferência do coletivo é doar a maior parte do dinheiro adicional. Em reuniões coletivas mensais, são consideradas propostas de financiamento de organizações, incluindo outras organizações sem fins lucrativos. Alguns grupos solicitam financiamento, desde organizações locais sediadas na Filadélfia até outras em todo o mundo. No último ano, o coletivo doou fundos ou materiais impressos para 30 organizações e grupos. (Nota do Fifth State: Incluindo para esta publicação. Obrigado, camaradas!)

Além disso, a Wooden Shoe apoia a Aliança Cooperativa da Região da Philadelphia, PACA). Através da PACA, a Wooden Shoe oferece empréstimos sem juros a cooperativas sediadas na Filadélfia. Esperamos, em breve, fornecer fundos para empréstimos a uma loja de artesanato para imigrantes e a um coletivo de fitoterapeutas BIPOC*.

Carl Craft é voluntário da Wooden Shoe. O coletivo agradece aos fundadores e aos primeiros voluntários; Frank, Ben, Louise, Adrian, Steve, Barbara e Albo. Para mais informações, woodenshoebooks.org ou sabot@woodenshoebooks.com.

* N.T.: BIPOC, Black, Indigenous and People of Color, é como esse coletivo é referido nos movimentos sociais em inglês em geral atualmente.

Tradução > CF Puig

agência de notícias anarquistas-ana

flor do verão!
a tarde chovida em aves
o cheiro do mato

Gustavo Terra

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