[Dinamarca] Quando o anti-imperialismo não é antiseccional

À medida que as bolhas ativistas se expandem, a resistência à toda forma de opressão deixa de ser dada como certa pelos grupos de solidariedade internacional 

Alex Cuzzalino ~

Protestos e manifestações estão tomando as ruas das cidades europeias, com a inquietação crescendo a cada dia e mais pessoas dispostas a se posicionar ou simplesmente mostrar o quanto estão cansadas do sistema em que estamos confinados. Essa crescente conscientização está expandindo nossas bolhas, e o que antes era um discurso restrito a pequenos movimentos organizados em pequenos espaços no centro do Império agora é uma conversa maior e mais ampla.

Na Dinamarca, onde estou me organizando neste momento da minha vida, os movimentos de solidariedade internacionalista nunca foram muito expressivos. Atribuo isso às gerações anteriores de movimentos nos países nórdicos, que se concentravam mais no ambientalismo, e ao trabalho consolidado dos sindicatos. No entanto, o início do genocídio na Palestina em 2023 acendeu a chama e múltiplos exemplos de resistência e solidariedade internacional ocorreram em todo o país. Esses grupos cresceram exponencialmente nos últimos dois anos, incentivando outras pessoas a organizarem seus próprios grupos quando a capacidade de integrar novos membros aos já existentes se tornou escassa.

A expansão da bolha tem ocorrido rapidamente, talvez até rápido demais, pegando-nos de surpresa. Isso resultou em uma multiplicidade de grupos que, embora lutem pela mesma causa, nem sempre concordam com a base política. Isso não é, obviamente, necessariamente algo negativo, mas se torna negativo quando cria dicotomias e nossa luta deixa de ser interseccional.

Em nome do apoio à luta anti-imperialista acima de tudo, algumas partes dos movimentos de solidariedade mais recentes acabaram se aliando a regimes terroristas que vêm tirando a liberdade de seus cidadãos há séculos, esquecendo-se de que duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo e que o inimigo do meu inimigo não é necessariamente meu amigo.

Essa tendência é extremamente visível para quem estiver disposto a observá-la: muitos dos movimentos de solidariedade mais recentes no Ocidente tendem a apontar os EUA como responsáveis por tudo de ruim no mundo, e a basear sua política na falsa ideia de que todos que agem contra os EUA estão implementando uma forma válida de resistência.

Com esse pensamento, eles confundem o princípio da solidariedade entre povos que buscam liberdade e dignidade, e uma suposta solidariedade encontrada na lealdade a facções de Estados e governos.

O imperialismo estadunidense é ruim: isso não significa que o regime de Maduro na Venezuela era bom, assim como não significa que o Estado dos Aiatolás seja o último bastião da luta contra o imperialismo. Israel historicamente se infiltrou em protestos para promover sua própria agenda imperialista e colonial: isso não transforma os protestos no Irã em uma operação do Mossad, nem valida o apoio dos movimentos de esquerda ocidentais às ditaduras.

Por que achamos tão difícil priorizar a capacidade de ação dos povos em detrimento da dos Estados?

Embora seja fácil apontar o dedo para os tankies e os trolls da internet, acredito que o que estamos testemunhando mais profundamente é uma falta de interseccionalidade nos movimentos de solidariedade. É uma perda de complexidade na conversa, provocada pela urgência do momento em que nos encontramos.

Uma das minhas primeiras causas de solidariedade foi com Rojava, a região curda do nordeste da Síria, e com a Revolução das Mulheres que lá acontecia. Na bolha ativista ocidental em que eu estava inserida, a solidariedade com o povo de Rojava e sua revolução significava solidariedade com todos os povos oprimidos, bem como com o feminismo, o anticapitalismo e a ecologia. Sem isso, as pessoas podem acabar apoiando os opressores em vez dos oprimidos, com base em uma compreensão ocidental simplificada da luta contra o imperialismo.

A falta de interseccionalidade dentro do movimento não beneficia ninguém além do Império, e nós, que estamos no centro dele, com todos os privilégios que daí derivam, temos a responsabilidade de manter a conversa matizada. Trazer de volta a complexidade à forma como falamos sobre solidariedade significa conseguir nos desvencilhar da conversa entre brancos e negros, rejeitando todas as dicotomias forçadas que nos fazem pensar “se não isso, então aquilo”.

Precisamos de uma solidariedade que não seja apenas internacional, mas também interseccional.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2026/02/11/is-our-international-solidarity-intersectional/

Tradução > Reno Moedor

agência de notícias anarquistas-ana

pousada na lama,
a borboleta amarela,
com calor, se abana

Alaor Chaves

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