
Após a morte de um militante fascista em Lyon, a extrema direita e seus aliados tentam aproveitar este acontecimento para criminalizar o antifascismo. Ao mesmo tempo, a esquerda institucional se limita a condenar, de forma genérica, «todas as violências». Mais do que nunca, devemos fazer frente para afirmar a urgência de um antifascismo popular, e o imperativo de que nossa classe possa defender-se frente às violências da extrema direita.
Na noite de quinta-feira, 12 de fevereiro, Quentin Deranque, militante fascista, foi hospitalizado em estado grave. Membro do grupo neofascista Les Allobroges de Bourgoin e do serviço de ordem de Némésis, também havia passado por Action Française. Seu falecimento se confirmou 48 horas depois, poucas horas antes que a imprensa revelasse testemunhos de comerciantes e moradores que corroboravam um vídeo gravado desde uma janela que mostrava uma surra, após um enfrentamento organizado. Investigações jornalísticas sérias, que não se limitam a repetir o relato da extrema direita, estão ainda em curso e ficam muitos pontos obscuros por esclarecer. Seja como for, este falecimento não pode ser analisado politicamente fora do contexto que conduziu ao acontecimento.
Desde alguns anos, numerosas associações, organizações sindicais, partidos políticos, moradores e comerciantes de Lyon se mobilizam pelo aumento das violências cometidas pela extrema direita. Quantas agressões a pessoas racializadas? A pessoas LGBTI? A sindicalistas? A militantes associativos ou políticos? A locais? Quantas surras? Quantos ataques com armas? Quantas hospitalizações?
Desde alguns anos alertamos coletivamente sobre a implantação de grupos fascistas, com estabelecimentos conhecidos, treinando em uma sala de combate contígua ao bar La Traboule, ou em acampamentos de verão paramilitares, sobre as demasiadas numerosas manifestações de incitação ao ódio, mas também sobre a cumplicidade dos poderes públicos. Em efeito, a polícia está regularmente ausente em eventos como o de quinta-feira, enquanto que as conferências da extrema direita sempre estão protegidas por um dispositivo especialmente importante.
Enquanto as militantes de Némésis provocam agitação organizando «happennings» midiáticos, os militantes neofascistas de Lyon se preparam para matar e morrer por sua causa. Seus chefes formam combatentes radicalizados e disciplinados, para enviá-los à primeira linha a enfrentar-se aos serviços de ordem que todos os movimentos sociais de Lyon se veem obrigados a estabelecer para proteger-se.
Que neste contexto se tenha formado grupos antifascistas ao longo dos anos em Lyon para participar na autodefesa coletiva e popular é uma evidência.
A sorte do jovem militante fascista é para a extrema direita a oportunidade de construir a figura de um mártir e redobrar a violência. Nos dias seguintes a quinta-feira pela noite, numerosos locais pertencentes a diversas organizações sindicais e políticas de esquerda em toda França foram destroçados, em particular os de LFI, mas também os de Solidaires Rhône, assim como La Plume Noire, livraria autogestionada gestionada pela UCL em Lyon, já atacada em numerosas ocasiões. Pintaram-se suásticas na Praça da República de Paris, e cruzes celtas em toda França. As ameaças e chamados à violência física se multiplicaram contra militantes, alguns dos quais foram identificados publicamente e exibidos como troféus. O que agora espera a fachosfera é poder cometer suas fechorías com renovada intensidade enquanto se apoia no relato mentiroso do «terrorismo de extrema esquerda» para contar com o respaldo político.
Os partidos e personalidades políticas de esquerda que denunciaram «toda forma de violência física» caíram na armadilha armada pela extrema direita. Este discurso pacifista cego equipara uma violência fascista que dura mais de quinze anos em Lyon, dirigida contra tudo o que desgosta aos supremacistas brancos, com um acontecimento que alimenta uma campanha política detestável de criminalização do antifascismo. Jean Messiha pede «erradicar a escória» antifascista, a fachosfera pede novos Clément Méric, políticos de direita e extrema direita pedem classificar os grupos antifascistas como terroristas. E que faz a esquerda? Dirige seus pensamentos aos «amigos» da vítima e criminaliza o antifascismo. Alguns inclusive vão mais além até esvaziar a palavra fascista de toda substância política, convertendo-a em um simples sinônimo de «violência» que poderia atribuir-se a qualquer um, incluídos os antifascistas.
A UCL não cairá nesta demagogia cômoda, mas intranscendente. Recordamos com força uma realidade persistente: é a extrema direita a que mata e a que instaura este clima de violência, em Lyon, na França e em todo o mundo. Denunciamos com força a inversão da situação que a extrema direita está conseguindo impor ao falar de «linchamento», termo que remete às explosões racistas de massa dirigidas às pessoas negras nos Estados Unidos. Utilizá-lo para falar dos golpes recebidos por um supremacista branco é uma inversão mortífera e racista.
Sim, a extrema direita mata: afogados do Deûle, Brahim Bouraam, Clément Méric, Federico Aramburu, Mahamadou Cissé, Djamel Bendjaballah, Rochdi Lakhsassi, Hichem Miraoui assassinado de 5 balaços em Puget-sur-Argens em 2025… Acaso as pessoas assassinadas teriam que ter sido de extrema direita para suscitar uma homenagem nacional? Onde estão as condolências para as vítimas e as homenagens nacionais quando Frédéric Grochain, preso político kanak, morre em sua cela a milhares de quilômetros de seu país no passado 6 de fevereiro? Onde estão as lágrimas dos partidos e dos meios que choraram a Quentin Deranque ante o assassinato racista de Ismaël Aali, em princípios de 2026 na mesma cidade?
A UCL defende um antifascismo social e popular baseado na construção de movimentos sociais de massas, cuja força é o número, não a violência. No entanto, renunciar por princípio ao confronto é condenar-se à impossibilidade de militar no espaço público. Se renunciamos a proteger nossas manifestações, nossas reuniões públicas, nossa distribuição de folhetos, então renunciamos a intervir politicamente porque a extrema direita não renunciará a atacar-nos, e é nisso que não pode ser considerada uma ideologia política como as demais.
Assinalando a vingança pública a «os antifascistas», estes elementos da esquerda parlamentar uivam com os lobos. Colocam-se na situação de não poder defender amanhã os movimentos antifascistas ameaçados pela repressão estatal.
No entanto, mais do que nunca, necessitamos fazer bloco e manter a linha.
Frente aos fascistas, nem um passo atrás.
Union Communiste Libertaire, 17 de fevereiro de 2026.
Tradução > Sol de Abril
agência de notícias anarquistas-ana
Sempre perseguido
o grilo fica tranqüilo
cantando escondido.
Luiz Bacellar
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!