[Chile] Coletivo La Minka. Apresentação + artigo “América Latina: o mito hispanista”

Somos uma agrupação de jovens, de inspiração anarquista, que buscamos nos organizar e nos formar entre companheiros para enfrentar a realidade injusta e desigual na qual nos vemos imersos.

Buscamos construir comunidade e tecido social, fortalecendo o anarquismo, contribuindo para repolitizar os espaços estudantis e gerando consciência e pensamento crítico em nossos pares.

A Minka nasce da necessidade de construir um espaço juvenil que defenda o anarquismo organizado, posicionando-o como uma alternativa de luta para os oprimidos.

Como jovens – adolescentes, trabalhadores, estudantes e moradores -, vemos problemas específicos que queremos enfrentar; como o declínio do anarquismo no território chileno, o avanço das novas direitas, o avanço da expectativa na via institucional e na social-democracia para buscar mudanças, e também, o retorno do movimento estudantil.

Diante disso, decidimos não nos resignar à frustração individual, e nos organizar entre companheiros com o objetivo de facilitar instâncias para a luta social, levantando espaços para a formação e reflexão crítica, contribuindo para a difusão do anarquismo e apresentando propostas para a organização a partir das bases.

Nosso:

• Horizontalidade: Funcionamos sem administradores nem autoridade em nossas dinâmicas, tomamos decisões mediante discussão e acordo.

• Apoio mútuo e companheirismo: Ajudamos uns aos outros de forma voluntária, desinteressada e reciproca. A solidariedade fortalece nossos laços e nossa força coletiva.

• Autonomia: Organizamos em nossos termos e por nossos interesses, de forma independente de qualquer instituição do Estado e dos partidos políticos, trabalhando com base na autogestão.

• Antipatriarcado: Buscamos enfrentar e combater o sistema patriarcal, denunciando a violência machista e o sexismo, gerando uma proposta de despatriarcalização como forma de luta contra a dominação.

• Defesa do comunitário: Promovemos a unidade e o trabalho voluntário e coletivo, em favor da construção de comunidade organizada, situando-nos no território e luta junto ao povo, que é o principal gestor de mudança para romper com o sistema de exploração e dominação capitalista e patriarcal.

• Autocuidado: Fomentamos a responsabilidade individual em instâncias de luta, e promovemos uma distribuição coletiva dos cuidados dentro da ação organizativa.

Coletivo La Minka

América Latina: o mito hispanista (artigo)

Em 12 de outubro de 1492, Cristóvão Colombo chegou a terras que não eram as que buscava, produto de um erro cartográfico e da tolice de insistir numa rota ocidental de comércio para as Índias. Desde então, a data é comemorada de maneira quase religiosa, transformando este acidente histórico em um símbolo que serve para reivindicar e embranquecer a colonização espanhola. A América tem seu nome em homenagem a Américo Vespúcio, um cartógrafo originário de Florença que abriu os olhos dos néscios conquistadores que insistiam que o território ao qual havia chegado eram as Índias, abrindo, talvez conscientemente, as portas para o domínio simbólico dessas terras e de seu povo.

A Coroa Espanhola, mais tarde, decidiu chamar de vice-reinos suas possessões com o objetivo de suavizar a ideia de colônia e projetar uma falsa sensação de comunidade com os povos submetidos, separando-se assim do projeto de conquista britânica, de natureza mais bárbara. Além disso, não só se tomou uma medida de chamar as colônias espanholas de “vice-reinos”, mas também se aprimorou a tradição da miscigenação espanhola, não só por costume cultural, mas também pela falta de recursos militares e econômicos para realizar uma purga de nativos como os britânicos puderam se permitir.

Esta sequência de fatos, romantizada por historiadores europeus e católicos como Modesto Lafuente, que propôs a colonização como uma missão civilizadora, serviu de alimento para o mito da “hispanidade”. Mas o que é realmente uma “hispanidade”? A hispanidade é, em essência, uma construção homogeneizadora nascida do revisionismo histórico e da idealização elaborada pelos nostálgicos subjugados e subjugados: um relato que busca transformar um processo marcado talvez não pela violência direta, mas sim pelas imposições políticas, hierárquicas e profundamente desiguais.

Por parte dos subjugados, busca-se apropriar-se dos espanhóis a nossa herança cultural: embelezam e atribuem à presença hispana grandes conquistas dos povos nativos, apresentando como “legado hispano” práticas e conhecimentos que, na realidade, também pertencem às civilizações anteriores à chegada europeia, algo especialmente visível na literatura, na filosofia e na ciência.

Por parte dos subjugadores, busca-se instalar termos destinados a construir laços políticos ocultos de camada cultural, que legitimam uma suposta “irmandade” e uma “dívida cultural”, impondo além disso os marcos conceituais com os quais devem ser interpretados a nossa própria história. É precisamente essa capacidade de nomear, definir e ordenar o alheio que permite que continue esta dinâmica imperialista: povos pequenos e ricos em recursos são explorados sob o jugo de um vínculo político fabricado, que justifica o aprimoramento e a subordinação como se fossem parte natural de uma relação.

Seguindo esta linha, a apropriação cultural não é o único problema que nos deixou o império espanhol: também é a imposição do patriarcado europeu, a desarticulação das comunidades matrilineares e a instauração de instituições, sistemas jurídicos, noções de propriedade privada e estruturas estatais que conformam a verdadeira herança quotidiana que persiste até hoje.

Na Europa, o patriarcado surgiu como consequência da acumulação privada de bens e da ascensão de uma classe masculina proprietária que transformou relações comunais em relações de domínio; com isso, a autoridade coletiva foi derivada pela família patriarcal, na qual o homem se tornou dono da propriedade e da descendência. Antes dessa transformação, muitas sociedades se organizaram sob formas matrilineares onde a filiação se dava pela linha materna, a autoridade era compartilhada e a propriedade tinha um caráter comum que impedia a concentração do poder em um só indivíduo. A expansão europeia exportou e impôs esta nova ordem sobre nossos povos, dissolvendo sistemas matrilineares próprios, instaurando posições de gênero que nem sequer existiam na maioria das comunidades originárias e implantando instituições, leis e concepções de propriedade privada que substituíram formas coletivas de organização e que ainda estruturaram nossa vida social.

E, falando do cotidiano, podemos ver que a influência espanhola em nossa gastronomia é mínima, pois nossa alimentação se sustenta principalmente em ingredientes nativos como o milho, a batata, o feijão e o abacate. Um exemplo claro é a gastronomia chilena, cujos pratos típicos como o charquicán, o feijão com “rienda” (feijão com macarrão), as humitas, a cazuela e até mesmo os completos refletem uma base alimentar profundamente indígena que permanece até hoje.

Em resumo, a ideia do mito hispanista é uma construção que romantiza a colonização e busca ocultar as imposições políticas que a Espanha dinâmica em nossas terras. Esta narrativa tenta se apropriar de conquistas e negar saberes indígenas, enquanto apresenta como natural uma relação marcada pela desigualdade e pela exploração. No entanto, a nossa vida quotidiana, desde as formas comunitárias de organização até à própria gastronomia, demonstra que a raiz profunda da nossa identidade é nativa e que nem o império mais letal pode acabar com ela.

Coletivo La Minka

Fonte: https://informativoanarquista.noblogs.org/post/2026/02/12/chile-colectivo-la-minka-presentacion-articulo-america-latina-el-mito-hispanista/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

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Alexandre Brito

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