Grita gol, engole a fome.

Por ICN – Fenikso Nigra

O estádio lota. A tela acesa. A cerveja — quando dá — esquenta na mesa. O narrador anuncia uma batalha. E milhões de corpos se preparam para viver, por noventa minutos, uma emoção que não é deles.

Grita. Chora. Xinga. Abraça um desconhecido. Sente que venceu. Depois da desliga a televisão e volta para a vida em que perdeu. Perdeu o salário para o aluguel. A comida pelo preço. O corpo para o patrão. As horas para o ônibus. A saúde na fila. O teto para a especulação. A dignidade para um boleto. Mas o tempo ganhou. E isso, aparentemente, deve bastar.

Viva o espetáculo. Viva a camisa. Viva o hino. Viva o patrocinador. Viva a casa de apostas que vende esperança em forma de raspadinha. Viva o banco que financia a transmissão. Viva a marca que vende pertencimento em doze parcelas. Viva o clube-empresa. Viva o milionário correndo no gramado enquanto o trabalhador que o idolatra calcula se comprar gás ou arroz — e descobre que não dá pra comprar os dois.

Gozemos. Gozemos vendo outros correrem. Outros vencerem. Outros levantarem taças que nunca tocarão nossas mãos. Gozemos — porque talvez seja mais suportável gozar com a vitória de um estranho do que enfrentar uma derrota conquistada da própria vida.

Não se trata de condenar o jogo. O problema não é uma bola rolando. O problema é o que faz com ela: uma máquina de capturar raiva e devolvê-la inofensiva, vaziada de direção, dirigida ao vizinho em vez do proprietário.

Você pode odiar o rival com uma intensidade que nunca dirige ao patrão. Pode decorar uma escalada, mas não saber quem é o dono do prédio que aumentou seu aluguel. Pode saber o salário do atacante, mas não o lucro da empresa que te pague uma miséria. Podemos discutir horas sobre impedimento e nunca perguntar por que existe comida destruída enquanto gente passa fome.

Não porque você seja idiota. Mas porque a máquina precisa que você esteja ocupado. O Estado e o capital não querem apenas o seu trabalho. Querem o seu cansaço. Querem a sua atenção. Querem a sua raiva — mas depositada em lugar seguro, num rival de camisa diferente, num bairro do outro lado da cidade, num estranho que tem a mesma conta de luz atrasada que você.

A rivalidade é útil. Ela divide quem deveria se considerar. Ela oferece ao explorado um inimigo lateral — para que ele não enxergue o inimigo que está acima. E acima há poucos. Poucos donos de muita coisa. Acumuladores de terras que não plantam, imóveis que não habitam, alimentos que não vêm, riqueza que não produzem. Parasitas sentadas sobre o trabalho de milhões. Eles não fizeram o pão, mas cobram por ele. Não construíram a casa, mas cobraram por ela. Não geraram a vida — mas decidimos que ela terá preço.

Depois disseram que não há recursos. Não há para acabar com a fome, mas há para salvar o banco. Não é para hospital, mas é para autorização fiscal. Não há para moradia, mas há para condomínio de luxo vazio. Não há para quem dorme na calçada, mas há para a especulação de que mantém a casa fechada por anos enquanto uma família dorme na rua do lado.

Não falta comida. Falta permissão para comer. Não falta teto. Falta permissão para morar. Não falta remédio. Falta dinheiro para pagar pelo direito de não morrer. E quem dá essa permissão? Ó proprietário. Ó banqueiro. A empresa. O Estado — sempre pronto para chamar de crime a necessidade de quem toma de volta aquilo que foi roubado.

A fome é violência. O desespero é violência. O salário que não sustenta uma vida é violência. Uma criança sem atendimento é violência. O corpo que morre na calçada diante de prédios vazios é violência.

Mas chamam de violência quando alguém quebra uma vitrine. A vitrine vale mais que a barriga vazia. A porta do banco vale mais que a família despejada. A propriedade vale mais que a vida — e essa é a religião do capital, pregada com cassete e lei.

Enquanto isso, a transmissão continua. “É emoção até o fim!”, gritou o narrador. Sim. Emoção até o fim do mês. Emoção até o corte de luz. Emoção até o desespero. Emoção até a ambulância não chegar. Emoção até o corpo não aguenta mais.

E então vem o próximo jogo. Mais uma chance de esquecer que uma vida foi transformada em fila, boleto, humilhação e medo. Mais uma chance de vestir a camisa de uma empresa rica e chamar aquilo de identidade. Mais uma chance de sentir que existe um nós — desde que esse nós não exija pão, terra, teto, saúde ou poder real sobre o próprio mundo.

Eles nos dão torcida porque têm medo de organização. Bandeiras do Dão porque têm medo de barricadas. Dão hinos porque têm medo de vozes que perguntam: por que alguns têm tanto enquanto tantos não têm nada?

Não precisamos destruir a alegria. Precisamos arrancá-la das mãos de quem a vende. Precisamos parar de aceitar que nossa única catarse seja gritar para uma tela enquanto a vida é abandonada do lado de fora.

Que haja jogo, se quisermos. Que haja festa, dança, esporte, encontro, paixão. Mas que ninguém tenha de escolher entre assistir a uma final e jantar. Que ninguém morra de fome enquanto um estádio serve banquetes em camarote. Que ninguém seja expulso de casa enquanto prédios apodrecem vazios. Que ninguém trabalhou até quebrar para financiar o luxo de quem chama exploração de mérito.

A autogestão não é utopia. É uma recusa de pedir permissão para existir. Se vamos gritar, que não seja apenas por um gol.

anarkio.net

agência de notícias anarquistas-ana

sob o último sol,
ave beija a face do lago;
o espelho trêmulo se arrepia.

Alaor Chaves

One response to “Grita gol, engole a fome.”

  1. Rodri

    bom texto!

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