[Espanha] As caixas de fotos que sobreviveram à Guerra Civil: o olhar militante de duas mulheres na frente de Aragão

• Um livro de Almudena Rubio reconstrói a viagem de um arquivo fotográfico que escapou do franquismo e resgata a vida, o compromisso político e a obra de duas fotógrafas centroeuropeias no Alto Aragão

Por Miguel Barluenga | 25 de março de 2026

Há histórias que não são enterradas sob a terra, mas dentro de caixas. Caixas lacradas às pressas, transportadas em alta velocidade entre fronteiras, carregadas em caminhões que fugiam do avanço da guerra, esquecidas depois por décadas em depósitos silenciosos. Caixas que contêm imagens, mas também decisões, trajetórias e uma forma de olhar o mundo. Caixas que, quando abertas, não só devolvem fotografias, mas também vidas interrompidas. Dessa viagem improvável e do que ficou dentro nasce ‘As Caixas de Amsterdã. Margaret Michaelis e Kati Horna na Guerra Civil’, o livro da historiadora Almudena Rubio que reconstrói tanto o itinerário de um arquivo quanto o de duas mulheres que fizeram da câmera uma forma de compromisso.

Rubio não se limita a organizar imagens: ela tenta restaurar um sentido. Ela deixa claro ao explicar que, no caso dessas duas fotógrafas, “vida e obra nos dois casos é algo inseparável, andam juntas e, além disso, nos dois casos muito marcadas por esse compromisso político com os anarquistas”. Essa afirmação atravessa o livro, apresentado na semana passada na Diputación Provincial de Huesca, como uma coluna vertebral, porque a autora não quer apenas mostrar o que fotografaram, mas a partir de onde o fizeram. E esse ponto de partida remonta a uma Europa que já estava se desintegrando antes da guerra espanhola.

Margaret Michaelis (1902-1985) e Kati Horna (1912-2000) nasceram em famílias judias de classe média no coração da Europa Central, na Áustria e na Hungria respectivamente, e cresceram num contexto onde a modernidade artística convivia com a radicalização política. Suas trajetórias, como destaca Rubio, têm paralelos surpreendentes: “São duas fotógrafas de raiz centro-europeia, vão ter trajetórias similares”. Ambas se formaram em fotografia, ambas passaram por Berlim no início dos anos 1930, ambas se ligaram de uma forma ou de outra a círculos anarquistas e ambas acabaram na Espanha durante a Guerra Civil trabalhando para os escritórios de propaganda da CNT. No entanto, seus caminhos não são idênticos, e é justamente em suas nuances que o livro encontra uma de suas maiores riquezas.

Michaelis se formou em Viena durante anos, numa aprendizagem prolongada que se traduziu numa sólida base técnica e numa sensibilidade marcada pela vanguarda. Depois mudou-se para Berlim, onde abriu seu próprio estúdio, e mais tarde fez o mesmo em Barcelona e na Austrália, já no exílio. Há em sua biografia uma capacidade constante de recomeçar que Rubio destaca com admiração: ela é “capaz de se reerguer e começar de novo” em contextos completamente distintos, mudando de idioma, de ambiente e de clientela sem nunca abandonar a fotografia. Essa experiência vital se percebe em suas imagens, em seus enquadramentos arriscados, na busca de ângulos pouco convencionais, nessa inquietude que a leva a se posicionar em diferentes alturas para captar a cena.

Horna, por sua vez, formou-se em Budapeste em contato com círculos operários onde a fotografia é concebida como ferramenta crítica. Rubio lembra que, desde muito jovem, ela frequentava ambientes onde a imagem é entendida como denúncia social, e que essa influência seria decisiva: “Ela entendia a fotografia como uma ferramenta de crítica social e isso vai influenciar naquele momento Kati Horna”. Mais tarde, sua passagem por Berlim intensificou sua politização, e em Paris ela entrou em contato com as correntes surrealistas, embora mais tarde tenha se distanciado delas. Sua linguagem visual, como aponta Rubio, será mais complexa, mais carregada de camadas simbólicas, menos direta que a de Michaelis, mas nem por isso menos comprometida.

Não são observadoras neutras

Ambas convergiram para a Espanha em momentos distintos, mas sob um mesmo horizonte. Michaelis chegou a Barcelona em 1933, fugindo do nazismo, e quando a guerra estourou já estava instalada, conhecia a cidade e havia tecido uma rede de contatos nos meios anarquistas. Horna, ao contrário, chegou em janeiro de 1937, em pleno conflito, sem conhecer o idioma nem o ambiente. Essa diferença também marca suas experiências, mas não altera o essencial: nenhuma das duas é uma observadora neutra. Rubio sublinha com contundência: “Não são fotógrafas que chegam lá e vão tirar fotografias sem se posicionar, elas se posicionam”. A câmera, em suas mãos, é uma ferramenta política.

Esse olhar se desdobrou na frente de Aragão e na retaguarda de Huesca, em lugares como Albalate de Cinca, Banastás, Vicién, Igriés ou Grañén. Mas o que suas imagens mostram não é apenas a guerra em sua dimensão mais evidente, mas também suas margens: a vida cotidiana alterada, os espaços transformados, os corpos que resistem longe da frente. Nesse sentido, o arquivo que Rubio estuda oferece uma perspectiva diferente daquela que tem dominado o imaginário visual da Guerra Civil, mais centrado na épica do combate. Aqui há menos heroísmo e mais humanidade, menos gesto grandiloquente e mais detalhe.

Essa diferença não é pequena. A autora insiste que este conjunto de imagens “completa e enriquece esse legado fotográfico da guerra conhecido até agora”, justamente porque introduz um olhar que havia ficado disperso. Diante dos nomes já canonizados como Robert Capa, Gerda Taro ou David Seymour, as fotografias de Michaelis e Horna haviam permanecido fragmentadas em distintos arquivos, sem uma leitura conjunta que as situasse em seu contexto político e geográfico. A descoberta das chamadas “Caixas de Amsterdã” permite, pela primeira vez, reconstruir essa narrativa.

Mas o livro não se limita a analisar as imagens: ele também segue o rastro físico dessas caixas. E aí a pesquisa adquire um tom quase narrativo, porque o arquivo tem sua própria história, tão acidentada quanto a das pessoas que o produziram. Rubio lembra que ao iniciar seu trabalho tudo eram perguntas: “Foi uma surpresa atrás da outra… por que este arquivo está aqui?”. A resposta implica atravessar a Europa.

Em janeiro de 1939, diante da iminente derrota republicana, o arquivo dos escritórios de propaganda da CNT-FAI foi embalado e evacuado de Barcelona. As caixas viajaram até a fronteira francesa num caminhão conduzido pelo anarquista Simón Radowitzky, acompanhado de mulheres e crianças refugiadas. De lá, passaram para Paris, depois para a Inglaterra para evitar cair em mãos nazistas e finalmente para Amsterdã, no Instituto Internacional de História Social. O percurso é tão incerto quanto decisivo, porque em cada etapa o arquivo poderia ter se perdido. Rubio resume como “uma viagem e um problema atrás do outro que vai se resolvendo”, uma cadeia de contingências que, no entanto, acaba preservando o material.

Durante décadas, essas caixas permaneceram fechadas. Um acordo impedia abri-las até que a situação na Espanha mudasse, o que atrasou seu estudo até depois da morte de Franco. Quando finalmente foram organizadas nos anos 1980, o arquivo revelou milhares de negativos, placas de vidro e fotografias. No entanto, a tarefa de identificá-los, contextualizá-los e atribuí-los ficou pendente. É aí que entra o trabalho paciente de Rubio, que durante mais de dez anos vem reconstruindo peças dispersas.

Esse processo não foi linear. A autora reconhece que nem sempre conseguiu identificar cada imagem, mas mesmo assim conseguiu traçar percursos, estabelecer conexões, devolver autorias. “Tentei ir registrando por onde estiveram”, explica, consciente de que esse mapa, embora incompleto, é essencial para entender a dimensão de seu trabalho. Porque não se trata apenas de saber o que fotografaram, mas de seguir seus passos em meio à guerra.

Ao fazê-lo, o livro também recupera a dimensão pessoal dessas duas mulheres. Rubio insiste que foram “mulheres com uma clara vontade de independência, de autonomia”, algo que no contexto dos anos 1930 não era comum. Elas escolheram uma profissão, sustentaram economicamente suas vidas, deslocaram-se pela Europa e tomaram decisões pessoais que desafiavam as normas sociais. Michaelis abriu estúdios em três países distintos; Horna sobreviveu em Paris graças às suas reportagens. Ambas romperam relacionamentos, iniciaram outros, viveram sem se ajustar aos modelos tradicionais.

“Viveram suas vidas com paixão e coragem”

Essa componente biográfica não é acessória, mas central. Faz parte da mesma lógica que une vida e obra. Rubio sintetiza ao afirmar que “viveram suas vidas com paixão e com coragem”, uma coragem que se manifesta tanto em suas decisões pessoais quanto em seu trabalho em contextos de risco. Horna chega a Barcelona com pouco mais de vinte anos para fotografar uma guerra; Michaelis documenta o conflito a partir de uma posição comprometida. Nenhuma das duas se limita a observar.

Esse engajamento é, justamente, um dos pontos que o livro reivindica contra leituras exclusivamente estéticas. Rubio adverte que reduzir essas imagens a seu valor formal implica despojá-las de seu sentido histórico: “Afogar essa leitura mais histórica, mais política de suas obras sob a estética de suas fotografias é não ser justo com elas”. Não se trata de negar sua qualidade artística, mas de integrá-la numa compreensão mais ampla. Como ocorre com figuras como Capa, entender sua obra implica conhecer seu posicionamento.

Nesse cruzamento entre estética e política, o arquivo de Amsterdã adquire um valor singular. Não é apenas um conjunto de imagens, mas um testemunho coletivo no qual convivem diferentes fotógrafos e diferentes olhares. Junto a Michaelis e Horna aparecem nomes como Antoni Campañà, Badosa ou Agustí Centelles, configurando um mosaico que amplia a narrativa visual da guerra. Mas mesmo nessa diversidade, o livro mantém o foco em suas duas protagonistas, devolvendo-lhes uma centralidade que havia ficado diluída.

Talvez por isso o texto tenha também algo de narrativa de busca. O primeiro capítulo, escrito em primeira pessoa, narra o próprio processo de pesquisa, com suas dúvidas e descobertas. Essa escolha não é casual: introduz o leitor na descoberta progressiva do arquivo, na sensação de estar abrindo caixas que ficaram tempo demais fechadas. E nesse gesto há algo mais que um trabalho acadêmico: há uma vontade de resgate.

Fonte: https://www.eldiario.es/aragon/cultura/cajas-fotos-sobrevivieron-guerra-civil-mirada-militante-mujeres-frente-aragon_1_13089362.html

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

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