
As jornadas em comemoração aos 90 anos da chegada da Coluna Durruti a Bujaraloz se despedem após quatro dias de memória, livros, palestras, rotas, teatro, música e homenagem à Revolução Social. Esta é a crônica de um encontro que respondeu com cultura ao barulho prévio gerado pela extrema-direita.
Por Mercedes Sánchez | 27/07/2026
Diante do anúncio das jornadas realizadas esta semana em Bujaraloz para comemorar o 90º aniversário da entrada da Coluna Durruti na localidade monegrina, um setor político — do qual seria exigível um mínimo domínio dos repertórios lexicais, já que tem o nome de um dicionário — saiu em disparada à tribuna para denunciar, sem rodeios, um “aquelarre anarquista de quatro dias”.
Convém recordar, em primeiro lugar, o significado literal que a Real Academia Espanhola atribui ao termo: “Junta ou reunião noturna de bruxos e bruxas, com a suposta intervenção do demônio em figura de bode, para suas práticas mágicas ou supersticiosas”.
Com a concórdia sempre na boca como estandarte retórico, os representantes da referida formação se deslocaram ao município na quinta-feira pela manhã — quando os atos oficiais começavam à tarde — unicamente com o propósito de aquecer o ambiente e garantir a já sabida foto.
Que decepção, quem aqui escreve compareceu munida de suas melhores poções, disposta a se juntar ao aquelarre, mas a única coisa que encontrou foram atos de estrita índole cultural.
A polêmica prévia: do “aquelarre” fictício à cultura real
As jornadas da Coluna Durruti em Bujaraloz foram estruturadas pela história viva, palestras acadêmicas, lançamentos editoriais, uma feira do livro, fantoches, poesia, música e rotas temáticas que parecem incomodar sobremaneira a direita e a extrema-direita.
Destacou-se especialmente a rota pela memória histórica de Bujaraloz, guiada por ex-alunos do IES Montes Blancos, um percurso pedagógico inesquecível por enclaves como o extinto quartel da Guarda Civil, o hospital de doentes, o hospital de sangue e o próprio quartel-general da coluna, transformados em uma aula magistral na voz de nossos jovens.
A isso se somou uma fascinante exposição de materiais recuperados de trincheiras, que incluiu mapas, cartazes, documentos originais, fotografias e vestimentas da época da Guerra Civil e da revolução social, permitindo que os participantes mergulhassem de cheio na materialidade daquele período histórico.
Livros, palestras e debate sobre a Revolução de 1936
O plano literário e de divulgação aprofundou a contenda e a revolução por meio de obras como “Little Durruti”, que aborda o lado mais humano e cotidiano do histórico anarquista; “Dones de foc”, focada no papel fundamental e tantas vezes silenciado das mulheres; ou “La colectividad de Blesa”, que analisa o profundo processo de socialização da terra. Somaram-se títulos como “Rumbo a Zaragoza”, sobre os movimentos estratégicos em torno da capital aragonesa; “8 días de Julio”, que detalha a resposta popular diante do golpe de 1936; e “La quinta de los Piales”, que resgata episódios locais de resistência antifascista.
Da mesma forma, a seção de palestras abordou temáticas complexas e plurais sem complexos: desde a agitação juvenil e a figura de Ada Grossi, passando pelo legado emancipador das Mulheres Livres e o funcionamento institucional do Conselho de Aragão, até o estudo rigoroso das coletividades libertárias entre 1936 e 1938, a biografia do militante Manuel Esparrargas e a contextualização da Revolução na Catalunha, sem esquecer o evocativo recital poético intitulado “Expropriar as palavras”.
As crianças também tiveram seu espaço protagonista por meio do teatro popular e tradicional. Com a obra “Cristobita y el novio de la muerte”, ofereceu-se uma contundente proposta antimilitarista por meio da linguagem clássica dos fantoches de cachiporra, completada desta vez para os mais velhos com peças de caráter intergeracional como “La bruja y don Cristóbal”.
O ato de homenagem foi marcado pela apresentação reivindicativa do Coro Libertário de Torrero e pela doação da placa comemorativa, reprodução exata da que foi colocada em 4 de março de 1937 na fachada da casa que serviu como quartel-general da Coluna Durruti e que foi destruída após a entrada das tropas franquistas.
Assim se encerrou, após quatro intensas jornadas de orgia cultural, o famoso aquelarre. Nosso mais sincero agradecimento aos organizadores por erguerem, por meio destas jornadas culturais e históricas em Bujaraloz, um baluarte de memória, dignidade e resistência libertária.
Fonte: https://arainfo.org/se-acabo-el-aquelarre/
Tradução > Liberto
agência de notícias anarquistas-ana
Fim de tarde
O sol doura os campos
um grilo canta
Eugénia Tabosa
Que isso, anarquia mesmo? Achei interessante esse ponto sobre a revolução espanhola, mas confesso que nunca tinha parado pra pensar…
O texto ficou bem natural, dá para sentir que veio de uma experiência real. Esses detalhes pequenos acabam prendendo mais…
Viva a revolução espanhola e viva a anarquia!
bom texto!
posição lúcida. organização anarquista com marca registrada? pedindo ação do estado contra trabalhadores? opa, pera lá caceta!