[EUA] Filosofia: “a negação que rouba do anarquismo”

por Eric Laursen

Fifth Estate # 417, Winter 2025

Uma resenha de Stop Thief! Anarchism and Philosophy (Pare ladrão! Anarquismo e Filosofia, edição em inglês)de Catherine Malabou, e Carolyn Shread, tradução. Polity Press, 2023

O livro desafiador e de título provocativo de Catherine Malabou nos lembra o quanto o anarquismo é filosoficamente radical, começando pela decisão, que parece simples, de Pierre Proudhon de se autodenominar anarquista no século XIX. Em seguida, investiga um fato curioso sobre a filosofia europeia do pós-Segunda Guerra Mundial: quantas das figuras mais célebres foram atraídas pela ideia de anarquia, mas descartaram o anarquismo como filosofia política: a “negação ladra do anarquismo”, como Malabou a chama.

É um ponto importante, porque alguns desses pensadores continuam sendo muito influentes, inclusive em círculos anarquistas. Eles fizeram ou provocaram perguntas importantes; o que é democracia? O que é política? O que significa ser anarquista? Adicionaram novas compreensões importantes sobre poder e dominação, governamentalidade e resistência. Alguns deles também causaram grandes travessuras, caricaturando o anarquismo e insistindo que anarquia e anarquismo são duas coisas separadas.

Malabou é uma filósofa e acadêmica francesa conhecida; o seu orientador de doutorado foi o filósofo francês Jacques Derrida, e ela chegou a publicar um livro junto com ele; sobre neurociência, epigenética, psicanálise e feminismo, entre outros temas. Pare ladrão! é seu primeiro livro sobre anarquismo, e a sua análise oferece uma perspectiva renovada sobre o que torna o anarquismo único e importante como filosofia, e não só como movimento político.

Contudo, ela não examina o pensamento anarquista em detalhes, e o seu foco é Ocidental, voltando a Diógenes e Aristóteles, evitando o trabalho de pensadores anarquistas não europeus e não americanos. Isso porque a sua preocupação é como filósofos europeus do pós-guerra se apropriaram de elementos da filosofia anarquista, sem reconhecer a sua dívida, fazendo, no processo, a sua própria contribuição indireta para a tradição.

Os filósofos que Malabou examina são Reiner Schiirmann, Emmanuel Levinas, Jacques Derrida, Michel Foucault, Giorgio Agamben e Jacques Ranciere. Começa contrastando a obsessão do marxismo pela história e com a afinidade do anarquismo pela geografia, por meio de pensadores como Peter Kropotkin e Elisée Reclus que, por sua vez, foram geógrafos de destaque. Criaram uma forma mais horizontal e nova de entender as realidades políticas e econômicas, em vez das “leituras verticais” do marxismo, argumenta Malabou.

O anarquismo nunca foi simplesmente um ataque ao Estado, ela nos lembra, mas é “antes de tudo, uma luta contra a mecânica da dominação” em “todos os domínios da vida”. Proudhon e os pensadores anarquistas que vieram depois dele fizeram uma “revolução semântica”, que foi importante para todos os filósofos que Malabou discute no livro, propondo que a anarquia não é caos, é “a expressão mais alta da ordem” (Reclus), e que a ordem “árquica” é, na verdade, uma desordem porque “não é fundada no consentimento livre”.

“Arquia”, do grego arché, é uma palavra-chave para Malabou, estabelecendo a soberania e o poder do governo como o primeiro princípio da vida política. “Não há tratado na filosofia política clássica”, nos diz, “que não comece com a consideração conjunta da autoridade soberana e governamental, consideradas como pontos de partida absolutos”. Isso é um erro: anarquia, desordem, precede a arché, e a ofusca perpetuamente.

Ser anarquista, diz Malabou, implica “resistência absoluta à arché despotike“: à “domesticação” feita por sistemas de dominação. O próprio anarquismo é “a única forma política que precisa ser sempre inventada, moldada antes de existir, justamente porque não depende de um começo ou comando… Essa plasticidade é o significado do seu ser”. Reduzi-la a uma única autoridade, mesmo que seja a sua própria, é impossível.

Os seis filósofos que Malabou discute ajudaram a descentralizar o “paradigma árquico” na filosofia ocidental, argumenta. Levinas anarquizou o termo “eleição” para significar não a escolha de um candidato a cargo público, outro construtor do Estado, mas a escolha de agir sem coerção: “sem que qualquer regra seja apresentada à consciência ou à vontade”. Esse tipo de eleição só pode acontecer em uma sociedade realmente livre; Não é um “assunto nacional, é um fermento revolucionário global”.

Foucault, que Malabou chama de “um dos poucos filósofos do século XX que leva [o anarquismo] a sério no campo da política”, adotou a noção de Thomas Hobbes, de que o Estado, o soberano, é necessário para organizar a sociedade de modo que a natureza bruta da humanidade seja mantida sob controle.

O estado de natureza é a sociedade, argumentou Foucault, e o Estado é palco de uma guerra permanente entre aqueles que detêm o poder e os que não o detêm. Essa é a essência da política, desde que surgiram soberano e Estado.

Uma distinção fundamental para Malabou é entre o ingovernável e o não governável. Os ingovernáveis rebelam-se contra a autoridade, mas muitas vezes, ao fazê-lo, a reforçam, seja por meio da sua derrota ou deixando que ela os coopte. Para os não governáveis, ser governado simplesmente não é possível: “indiferença ao poder, indiferença à lógica do comando e da obediência”. Lendo nas entrelinhas, isso é o que o Grande Irmão mais quer eliminar em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de Orwell. É o anarquismo na sua essência, ou para Foucault, a “experiência limite”, aquela que leva a política ao limite.

Agamben faz uma observação semelhante: essa transgressão, que é uma ofensa contra a lei ou autoridades estabelecidas, como o Estado ou a Igreja, muitas vezes pode parecer libertadora; mas pode, na verdade, fortalecer aquilo que pretende derrubar. O que precisamos, em vez disso, argumenta, é uma forma de falar sobre poder sem tomar emprestado nada da linguagem que lhe confira qualquer dimensão “sagrada”: revelar até mesmo a dimensão política de Deus. Isso nos dá a capacidade de “desativar” a autoridade e torná-la inoperante. O papel do anarquismo, diz Malabou, é explorar o potencial de ir além da transgressão e se tornar esse meio de desativação.

Rancière, a quem Malabou chama de “um dos grandes pensadores da anarquia”, pede que recuperemos o termo “democracia” do Estado, retornando ao seu significado original de “igualdade radical”. Isso expõe a contradição na política moderna chamada democrática: embora prometa igualdade na vida pública, isso nunca se traduz em igualdade “aritmética”, ou seja, distribuição igual do bem comum. O capitalismo e o Estado resolvem esse problema colocando as massas em tarefas simples e exaustivas que não lhes dão tempo para participar plenamente da vida pública.

A política real, argumenta Rancière, não se encontra na política falsa das eleições e órgãos representativos, mas fora deles, na “esfera na qual os erros podem ser formulados, expressos e julgados”. Estritamente falando, não existe governo democrático, sustenta, porque a democracia, no significado original, não é governável. “O político”, observa Malabou, “é a forma anárquica da comunidade”.

Como seria um estado de “igualdade radical”, ou anarquia? Seria “um bazar constitucional, uma roupa de arlequim”, escreve. “É propriamente o regime que derruba todas as relações que estruturam a sociedade humana”.

Ranciere e os outros nos lembram de não ignorar a anarquia no anarquismo, e que democracia e política real são, fundamentalmente, anarquistas. Então, por que relutaram tanto em se assumir como tal? Explicar esse fracasso quase a deixa perplexa, admite Malabou. “O problema anarquista, desde Proudhon, é justamente pensar em política sem a ajuda da hegemonia, observa, e esse é, de certa forma, o mesmo desafio que Agamben levanta.

Os seis filósofos abordados em Stop Thief! compartilham algumas críticas centrais ao anarquismo: a “confiança benevolente” na capacidade da natureza humana de criar uma sociedade justa sem coerção, e uma paixão niilista pela violência, o terrorismo e a morte. O mesmo, entretanto, pode ser dito de qualquer movimento político radical. Uma terceira objeção, mais ardilosa, é que o anarquismo enfrenta um duplo laço: ser anarquista é obedecer a uma ordem, o que seria muito pouco anarquista, semelhante à ordem de ser espontâneo.

O anarquismo é diferente, responde Malabou, porque é a única filosofia política que se ancora no não governável, com a sua radical estranheza à dominação. A não governabilidade se funde com o ser, ela diz, que não se importa com poder e, portanto, é improvável que o reproduza.

O desafio filosófico para a esquerda, portanto, era descobrir como “pensar” o ser e a política juntos. O comunismo tentou, mas somente recorrendo à arché, chegando a “becos sem saída aterrorizantes [e violentos]”. Malabou admite que o anarquismo também não resolveu o problema, até agora, mas com a base na não governabilidade, fica muito mais preparado para isso. “O verdadeiro anarquista”, diz, “é ser genuinamente quem é.”

Derrida, Foucault e companhia deixaram passar esse aspecto ontológico do problema, argumenta Malabou, o que pode explicar por que não conseguiam ver que a sua própria análise deveria tê-los levado ao anarquismo. É um ponto convincente. Ela também sugere algo um pouco mais mundano, no entanto. Todos os seis filósofos que discute começaram seu desenvolvimento político como marxistas, embora alguns tenham seguido em frente e todos tenham criticado pelo menos alguns aspectos da fé. O marxismo, porém, saturou os círculos filosóficos continentais nas décadas após a Segunda Guerra Mundial e os dotou do seu próprio esnobismo.

Para um filósofo, “não há vergonha, e nunca houve, em se declarar marxista”, observa Malabou, mas “chamar-se de anarquista é quase indecente”. Que tal “não governável”?

Eric Laursen é escritor anarquista, jornalista e militante de longa data. O seu livro mais recente é Polymath: The Life and Professions of Dr. Alex Comfort (Polímata: a vida e as profissões do Dr. Alex Comfort), autor de “The Joy of Sex” (A alegria do sexo).  Ele mora em Connecticut.

Tradução > CF Puig

agência de notícias anarquistas-ana

sol em plenitude
uma rã pula — em versos
barulho de Vida

Roséli

[Chile] Publicação “Façamos das ideias uma ameaça real #2”

Contra o RUV e suas normas de controle… Nossa proposta
 
A chegada ao poder de um governo de direita abrirá novos cenários e momentos de mobilização. Não há dúvida quanto a isso. Os antigos administradores do Estado voltarão às ruas. Voltaremos a vê-los rasgando as vestes numa simulação de luta, para depois capitalizar qualquer descontentamento em votos futuros. Nada de novo.
 
Aproveitando esta nova conjuntura, urge tomar a iniciativa para nos opormos a todas as ferramentas de controle, vigilância e sanção, ainda que estas estejam em sua fase embrionária. O RUV (Registro Único de Vândalos) é um projeto do novo governo, não seria estranho que outros governos também tivessem adotado alguma outra modalidade para restaurar a ordem. Levantar caricaturas e personalismos sobre Kast impede precisamente de observar sua continuidade e motivação final: varrer por completo todo rastro e consequência da revolta, restaurando e fortalecendo a ordem.
 
Não podemos defender nem solicitar o fortalecimento do Estado, suas garantias, benefícios e direitos. Reconhecemos a estrutura estatal como uma instituição de opressão por definição, mas identificamos neste projeto uma dupla punição pelo mesmo fato. Aquelas condutas que são definidas aos olhos do poder como anticívicas receberão outra sanção, por medo de sua reprodução e evidente massificação.
 
Direcionar nossa atenção para a proposta do RUV não só oferece possibilidades de uma luta concreta, dificultando as algemas que buscam fechar-se em nossos pulsos, mas também busca a continuidade de uma radicalidade revolucionária longe de uma abstração teórica. Opor-nos a esta possível tentativa de lei é uma medida concreta que nos impulsiona a demonstrar que o vandalismo é um espaço e uma ferramenta política.
 
A destruição, o dano, o desmantelamento das instituições não é apenas parte da reivindicação da violência como ferramenta política de ação pelos oprimidos contra os opressores, mas sim entender que o mundo no qual nos desenvolvemos é criado, construído e moldado para o funcionamento do sistema. O vandalismo é uma ferramenta política, uma das expressões não de um mero descontentamento, mas de um passo e rejeição ativa à realidade de câmeras, filas, vigilância e obediência.
 
Por nosso lado, vemos esta conjuntura de propostas repressivas como a continuidade de um conflito que mantém intacta nossa postura. Através dos diferentes cenários que atravessamos, buscamos as formas para subverter a ordem que querem nos impor, desde pichar uma consigna por algum preso até o ataque direto a seus corpos repressivos e instituições. Nossa postura, em nenhum caso, é uma luta por mais democracia, direitos ou o retorno a supostas garantias anteriores. Nada mais distante. Nossa negação ao Estado e sua institucionalidade é também uma afirmação da solidariedade, autonomia, autogestão e apoio mútuo.
 
Solidarize-se, Conspire e ataque…
 
Contra o RUV e suas normas de controle: A Vandalizar as estruturas do poder!
 
Baixar a publicação aqui:
 
https://informativoanarquista.noblogs.org/files/2026/06/Hagamos-de-las-ideas-N2.pdf
 
Tradução > Liberto
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Sobre o varal
A cerejeira prepara
O amanhecer
 
Eugénia Tabosa

Convocatória de materiais audiovisuais, feira, oficinas e apresentações artísticas – IV FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA ANARQUISTA DE PORTO ALEGRE

CONVOCATÓRIA DE MATERIAIS AUDIOVISUAIS, FEIRA, OFICINAS E APRESENTAÇÕES ARTÍSTICAS 

MATERIAIS AUDIOVISUAIS:

Envie para o email: festivaldecineanarquistapoa@tutanota.com

Estamos recebendo envios de materiais audiovisuais de cunho anárquico em todas as suas vertentes e também materiais que de alguma forma tenham relação com a luta anarquista. 

CRITÉRIOS DE SELEÇÃO

– Nós aceitamos propostas de todas as partes do mundo.

– Videoclipes, filmes, curta-metragens e longa-metragens.

– Não aceitamos materiais audiovisuais feitos com fundos governamentais ou privados. Apenas audiovisuais independentes.

– Incentivamos envios de materiais audiovisuais feitos com o celular.

– Não aceitamos filmes feitos com IA – Inteligência Artificial de qualquer espécie.

 COMO ENVIO? – MATERIAIS AUDIOVISUAIS

– Envie o material em uma plataforma de drive ou de uma maneira que possamos fazer o download, com uma descrição (sinopse), o trailer se tiver, e um flyer de divulgação.

– Se você não estará presente nos dias, pedimos um vídeo – não necessita ser de rosto- para apresentar o material no dia do evento.

!!! Pedimos que os materiais audiovisuais que forem enviados em línguas que não são o PORTUGUÊS (ESPANHOL E INGLÊS, como exemplo) já venham com legendas em português. Línguas que não são ESPANHOL, INGLÊS e PORTUGUÊS nós não temos como traduzir. !!!

– Nós também passamos os materiais que estão na língua PORTUGUÊS para o ESPANHOL, como forma de acessibilizar para as pessoas imigrantes e visitantes de outras partes de Abya Yala entender os filmes. 

BANCA DE MATERIAIS 

– Envie o que você vai expor, e se possui ou não mesa.

– Sinalize se você precisar de uma. 

– Comidas veganas e espaço livre de álcool.

OFICINAS 

– Envie uma descrição da proposta de oficina, duração, materiais e espaços necessários da organização

– Envie um flyer de divulgação.

APRESENTAÇÕES ARTÍSTICAS 

– Aceitamos qualquer forma de expressão artística. Teatro, música, dança e exposição visual.

– Envie uma descrição da apresentação

– Materiais e espaços necessários da organização

– Uma foto de divulgação.

!! Apresentações de 20min !!

SINALIZE PARA A ORGANIZAÇÃO SE VOCÊ PRECISARÁ DE ALOJAMENTO/HOSPEDAGEM PARA O EVENTO. QUANTOS DIAS, QUANTAS PESSOAS E PERÍODO QUE VOCÊ CHEGA.

LEMBRA QUE VAI SER NOS DIAS 18, 19 y 20 DE SETEMBRO DE 2025!

agência de notícias anarquistas-ana

É quase noite –
As cigarras cantam
Nas folhas escuras.

Paulo Franchetti

[Espanha] Entrevista com Antonieta: Ex-secretária da CNT e companheira libertária campurriana

Como começa a sua consciência social e a sua iniciação no anarquismo? Quais são as suas origens?

Sou campurriana. Quero lembrar do meu pai, que era um lutador anarcocristão e dizia sempre que o cristianismo de base tinha muito a ver com o anarquismo. Ele não era muito católico, na verdade. Eu ainda ia agarrada às saias da minha mãe quando a guarda civil veio buscá-lo em casa. Meu pai tinha sobrenomes de alta linhagem, terminou a faculdade de belas artes e direito e disse que queria ser camponês e não queria fazer parte daquilo tudo, de toda aquela merda de sociedade. Então foi para o vilarejo aprender a ser camponês e lá se casou com minha mãe, que era camponesa. Meu pai era um cara genial. Nós, seis irmãos, saímos todos de esquerda, fomos bem educados (risos).

Sou muito grata aos meus pais pelo que me ensinaram. Meu pai me ensinou muito a empatia com a natureza, o ensinamento das árvores e o respeito pelos animais. Lembro que aos 14 anos os irmãos do meu pai nos massacravam porque diziam que não vivíamos bem porque meu pai não queria, por ter ido para o campo. Meu pai vendia quadros. Agora tenho uma neta com quem falo muito porque ela me diz que não tem nada em comum com as pessoas da idade dela porque se interessa por história e outros temas. Digo a ela que acontecia o mesmo comigo porque, embora não quisesse ficar desconectada das pessoas da minha idade, assim que podia eu ia ler tudo o que encontrava. Logo comecei com o marxismo, depois cheguei a Proudhon… bem cedo. Depois fui estudar dando aulas particulares. Eu sabia muito sobre latim e grego e assim pude estudar magistério e filosofia e letras já trabalhando. Todo esse tempo estive lendo. Comecei a fazer amigos que me falavam de temas como a comuna de Paris. Eles eram muito amigos de um primo meu, filho de um republicano retornado. Quando Franco já havia morrido, eu procurava gente com quem militar, pois gostava muito da teoria, mas não me bastava. Foi então que encontrei a CNT. Mas antes disso passei muito tempo me formando. Minha conclusão foi que o que eu queria era o anarquismo porque não se tratava apenas de uma teoria política, mas de uma forma de vida.

Como se reconstruiu o movimento libertário na Cantábria nos anos 70?

O movimento libertário nasce a partir do ecologismo, do feminismo, dos exilados franceses… nesse caldo de cultura decidiu-se alugar um local na rua Peña Redonda. Foi lá que se foi consolidando com a contribuição de gente jovem. Começaram a se formar grupos de trabalho de ecologismo, de feminismo e vieram operários com muita consciência e cultura. Não me lembro quantos militantes éramos naquela época, mas lembro que o local estava sempre cheio, quando não era uma assembleia de construção, era uma assembleia de ensino. Quando não era de administração, era de hotelaria ou de saúde.

Fui nomeada Secretária geral da CNT Cantábria. Coube-me todo o problema da cisão da CNT no congresso da Casa de Campo em Madrid em 1979. Sempre pensei que essa cisão foi promovida pelas correntes políticas dominantes da atualidade porque não interessava a emergência do movimento libertário. Algumas de nós fomos para a CGT, porque concordávamos que a ação direta era importante, mas pensávamos que não nos deixariam outra opção senão participar nas eleições sindicais.

Quando voltamos do congresso para a Cantábria, fizemos uma assembleia de avaliação e as pessoas mais velhas se recolheram e foram para outro lugar. Os jovens ficamos na Peña Redondas. Gente como os do ensino saíram da CNT e montaram um sindicato, o STEC.

A CGT não éramos nada naquela época, as pessoas que ficaram na CNT ficaram com locais como o ateneu libertário de Perines, mas por serem mais velhos foram abandonando. Eram os que sobreviveram à guerra, ou seja, os mais velhos. Eram muito machistas. Doeu-me que não quisessem lutar pelas coisas nos tribunais. Minha postura é que é preciso se adaptar à realidade e não nos deixavam outra opção senão participar nisso.

Está claro que a CNT era mais que um sindicato, era uma forma de vida. O anarquismo é a ordem natural das coisas, não é desordem. Havia uma consciência das coisas naquela época muito forte.

Quando no congresso geral da Cantábria fui nomeada Secretária geral, eu disse que não podia porque tinha duas filhas e estava me separando e estava trabalhando. Meus companheiros me disseram para não me preocupar com isso, que quando precisasse de algo era só chamá-los. E foi assim. Ou seja, minhas filhas tiveram um monte de cuidadores, então, nesse sentido de feminismo, tive um respaldo enorme, o que é muito interessante.

Você acha que fazer um sindicato mais integral do que o que se conhecia até então afastava as classes populares ou exatamente o contrário?

O que afastou as classes populares foi a cisão e o Caso Escala de Barcelona. Eu não me cansei de explicar a verdade sobre o que havia acontecido, o terrorismo de estado e o infiltrado que já havia feito a mesma coisa em Valência com a UGT. Essas duas questões foram as que afastaram as pessoas.

Em relação à educação, quais eram as principais preocupações?

Apoiávamo-nos muito na escola livre de ensino do país Catalão e fomos exportando isso. Isso teve uma influência a ponto de que atualmente há professores reivindicando o sistema livre de ensino sem saber de onde ele vem e quais são suas origens. Uma educação baseada em aulas ao ar livre, de caráter misto, o respeito à naturalidade do comportamento, o sistema de experimentação em vez do sistema de admoestação etc.

No STEC hoje em dia já perderam muito, mas é certo que mantêm algo desse caráter social para além do estritamente educativo.

Qual foi a postura da CNT em relação à identidade cântabra e aos laços com tendências cantabristas?

Não foram aceitas em geral. Posteriormente pode ter havido mais contato, mas o contato que houve não era a defesa de um cantabrismo extremado. Alguns rapazes que trabalhavam no campo começaram a se aproximar, mas não tínhamos muita capacidade de trabalho lá.

Quando faziam atividade política, social e cultural, faziam isso em seus próprios espaços ou em outros lugares externos?

Nossa atividade era realizada principalmente no ateneu libertário e muitas vezes também em locais ou bares de companheiros. Em Alcázar de Toledo, um companheiro do ensino teve um bar chamado La Pianola, um exemplo de outros lugares onde fazíamos coisas.

Em Torrelavega estávamos muito em contato com o sindicato. Como aqui em Santander não tínhamos muito acordo com a UGT e as comissões na hora de organizar o 1º de maio, em Torrelavega chegávamos a esse ponto de nos juntarmos apesar das diferenças.

Em relação aos bairros, tínhamos gente militante em muitos deles. Um exemplo é no bairro pesqueiro e outro no bairro de San Francisco, onde tínhamos contato com o pároco de lá, um padre vermelho. As pessoas vinham aos ateneus, as pessoas dos bairros tinham o costume de comparecer às nossas atividades.

Como foi a introdução da heroína, o contato com as pessoas presas e a relação com as prisões nesse processo.

Eu não conhecia ninguém que estivesse afetado pela heroína. Foi posteriormente com os punks que houve mais problemas com a heroína. Eles se aproximavam e militavam, mas eu nessa época já não estava ativa por muitos motivos pessoais, como o cuidado dos meus pais. Meu único contato com a prisão foi através de um homem que conheci nos tempos da insubmissão em um local que tínhamos na rua San Luis e por onde já estavam companheiras da livraria La Libre. Em definitivo, estivemos tocando em todas as fibras sensíveis da sociedade durante esses anos.

O que pesava mais? A responsabilidade de continuar o legado do passado libertário ou a ilusão e a esperança de reconstruir o movimento e lutar por um mundo novo?

Queríamos alcançar os fins libertários, mas, tirando alguns jovens que entraram com as pistolas, éramos pacifistas. Sabíamos que não se conseguia nada com a violência. Também sem ela, mas sim através de arranhar, negociar, pressionar… etc.

Era tudo, era reconstruir a ponte. Após a guerra, tudo havia sido interrompido e o que queríamos era reconstruir tudo através da educação libertária e da luta operária, mas… não se pode. Ser anarquista se tornou socialmente no presente um insulto e isso é um erro. Ser anarquista é uma coisa muito séria, requer um compromisso de vida com a sociedade e com a natureza. Eu, a nível pessoal, tive que abandonar por circunstâncias pessoais como a sobrevivência das minhas filhas e o cuidado dos meus pais, mas sempre lutei. Não me custou essa mudança porque cuidar deles não foi um esforço, mas sim um prazer.

Com toda a propaganda do pós-guerra e do franquismo, não era fácil dizer que éramos anarquistas e muita gente escondia isso. Antes eu era mais crítica, mas valorizo que nesses anos de reconstrução fizemos o que pudemos.

Esta entrevista foi publicada no boletim mensal Briega em papel de março de 2026.

Fonte: https://www.briega.org/es/entrevistas/entrevista-a-antonieta-antigua-secretaria-cnt-companera-libertaria-campurriana

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Sob a luz pálida do luar
o perfume da glicínia
Vem de muito longe.

Buson

Iniciamos os trabalhos de divulgação da XVI Feira Anarquista de São Paulo.

Acontecerá dia 12 de dezembro de 2026 na ARCO Escola-Cooperativa.

Acompanhem as informações pela nossa pagina @feiraanarquistasp

E, caso queira colaborar financeiramente, o nosso pix é: feiraanarquista@gmail.com

Como forma de ampliar a divulgação e a participação das pessoas na construção da Feira Anarquista de São Paulo, estamos convidando artistas (amadores ou profissionais) para criar um cartaz para a divulgação da Feira.

As sugestões de temas para os cartazes deste ano são as seguintes:

100 anos do nascimento Jaime Cubeiro

90 anos da Revolução Espanhola

120 anos do Congresso Operário

140 anos do Primeiro de Maio

150 anos do nascimento de Virgínia Bolten

150 anos da morte de Mikhail Bakunin

20 anos dos Crimes de Maio

Mas são apenas sugestões! Não existe restrições a criação artística.


Para participar, envie seu trabalho para: feiraanarquista@gmail.com (coloque sua @ pra gente divulgar nas redes também).

Todos os trabalhos realizados e enviados para o e-mail – até Novembro – serão exibidos em uma exposição realizada durante a Feira.

Formato do Cartaz:

– Impressão: A3 (29,7cm x 42,0cm ou 3508px x 4961px)
– Internet: 1080px x 1080px

Informações que devem constar no cartaz:

– Título: XVI Feira Anarquista de São Paulo
– Data: 12 de dezembro de 2026
– Horário: 10h – 19h
– Local: ARCO Escola-Cooperativa, Rua Corinto, 652 – Butantã, São Paulo/SP
– Organização: Biblioteca Terra Livre | Centro de Cultura Social | Nelca

agência de notícias anarquistas-ana

chuva fina
o boi sobre o campo
sobre o boi o pássaro

João Angelo Salvadori

[Itália] Em tempos de guerra. Sobre a batida anti-anarquista de 16 de junho

EM TEMPOS DE GUERRA
Sobre a batida anti-anarquista de 16 de junho

 
Na terça-feira, 16 de junho, em Roma e em outros lugares, mais uma batida policial se abateu sobre o movimento anarquista, com sete mandados de prisão para outros tantos companheiros e companheiras, vários investigados em liberdade, buscas em metade da Itália e o despejo do espaço ocupado romano Bencivenga. Além disso, dois companheiros foram presos com o novo crime de “terrorismo da palavra” (270-quinquies) pela posse de alguns panfletos encontrados durante a busca.

Enquanto as informações vazadas pela mídia são mais escassas e lacunosas do que o normal, está bastante claro que a investigação gira em torno de algumas sabotagens nas linhas ferroviárias e, em particular, naquela realizada no dia 14 de fevereiro passado no trecho Roma-Florença, contra as Olimpíadas de guerra de Cortina 2026.

Se a obra de mistificação e difamação da mídia contra os anarquistas não é novidade, não podemos deixar de nos deter no nível alcançado desta vez pela propaganda de regime (em particular pelo inefável TG1), que parece particularmente grotesca: “se reuniam em um casebre como a Máfia”, “planejavam a estratégia da tensão”, “pretendiam cometer atos de violência”, “terrorismo anarquista”… Se vale lembrar a esses senhores que, para os anarquistas, a Máfia é inimiga tanto quanto a autoridade, e que a “estratégia da tensão” neste País foi implementada pelo Estado, não é difícil identificar por trás dessas palavras imundas uma intenção bem precisa: aquela que levou, em 2015, a transformar a Direção Nacional Antimáfia (DNA) em Direção Nacional Antimáfia e Antiterrorismo (DNAA). Com o resultado de que agora se aplica aos anarquistas a mesma monstruosização absoluta, e os respectivos tratamentos, reservados até ontem a verdadeiros ou supostos mafiosos (e, aliás, infligidos há décadas aos comunistas revolucionários). Com o agravante, para os revolucionários, de não praticarem a violência por razões de lucro ou poder, mas como uma espécie de fim em si mesma, por puro gosto pela destruição ou por quem sabe qual obscura pulsão de morte. Como se milhares de pessoas não tivessem se oposto às Olimpíadas de Inverno por razões claríssimas: a presença de militares (dessa vez sem farda) da equipe israelense, a escolta das gangues assassinas do ICE, a devastação do ambiente alpino em nome do habitual “grande evento”… e como se essas motivações não tivessem sido reivindicadas, com prosa inequívoca, no comunicado que se seguiu à sabotagem. Quanto à acusação costumeira de “terrorismo”, acreditamos que Gaza tenha esclarecido suficientemente a questão – e que não possa haver mais dúvidas sobre quem espalha o terror.
 
Em tempos de guerra, dizia um velho poeta, a primeira vítima é a verdade.

Enquanto Alfredo Cospito permanece no 41-bis como uma espécie de bode expiatório pelas “culpas” de todo o movimento anarquista, o Estado chega a criminalizar a própria intenção de fazer algo para retirá-lo da tortura. Enquanto ainda precisamos recuperar o fôlego da morte de Sara e Sandro, o Estado tenta usá-la contra nós.

Não sabemos se os presos e investigados cometeram as ações de que são acusados. Só podemos repetir o que escrevemos muitas vezes em casos semelhantes: se são “inocentes”, têm toda a nossa solidariedade; se são “culpados”, têm-na ainda mais.
 
Solidariedade a Nico, Bibi, Micol, Arnau, Stefano, Giulia, Luna, Pietro, Tony, a todas as investigadas e aos que foram alvo de buscas.
 
Fora Alfredo do 41-bis!
Com Sara e Sandro no coração.
 
Anarquistas de Trento e Rovereto
 
Fonte: https://lanemesi.noblogs.org/post/2026/06/17/in-tempi-di-guerra-sulla-retata-anti-anarchica-del-16-giugno-anarchiche-e-anarchici-di-trento-e-rovereto-16-giugno-2026/
 
Tradução > Liberto
 
Conteúdo relacionado:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/06/17/7-anarquistas-presos-por-associacao-para-fins-terroristas-buscas-por-toda-a-italia/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
aceita
o vôo é o leito
da borboleta
 
Joca Reiners Terron

[Grécia] Publicação e distribuição de livros e folhetos

Participando ativamente do movimento anarquista há mais de 20 anos, consideramos oportuno contribuir — com nossas modestas forças — para a resistência contra a repressão estatal e a vingança do Estado, que, por meio do endurecimento constante do código penal, impõe fianças exorbitantes àqueles e àquelas que lutam.

Nos últimos 8 anos, com a organização de ações regulares de solidariedade e a publicação de livros, tentamos apoiar o maior número possível de estruturas do movimento, pontos de encontro, ocupações e companheiros e companheiras.

Nosso objetivo, além da distribuição dos livros em espaços do movimento por toda a Grécia, é fazer com que os livros cheguem também a companheiros em locais onde não há acesso direto a eles.

Para nós, o ink4riot é mais uma ferramenta. Ele não substitui a nossa presença nas ruas, nos bairros, nos coletivos e no confronto cotidiano com o sistema vigente. Continuamos avançando como podemos, com todos os meios, contra o Estado, o capital e toda forma de poder.

www.ink4riot.gr

agência de notícias anarquistas-ana

café-da-manhã,
bem-te-vis gritando:
que bom acordar!

Valdir Peyceré

Uma Árvore da Liberdade no Reino Unido

Somos uma rede de libertação total de Pennines, no Reino Unido. Nosso programa de atuação é focado em reindigenizar, reparar nossas conexões com nossas terras e com nossos ancestrais indígenas globais. Ainda estamos nos estágios iniciais de formação, mas entendemos a abolição como uma parte central do nosso trabalho. Nenhuma prisão em qualquer terra! Todos devem ser livres!
 
Decidi que deveríamos escrever para vocês e enviar algumas fotos, embora o que tenhamos feito seja muito pouco convencional e não tenha sido inicialmente pensado como um evento de Árvore da Liberdade. Porque, ao escrever isto agora, nos ossos dos meus dedos pressionando as teclas, existem conexões esperando para serem feitas, histórias esperando para serem contadas, e é ao colocá-las por escrito que elas ganham forma.
 
Recentemente, algumas de nós cortamos o cabelo e decidimos que queríamos oferecê-lo como presente aos pássaros. Hoje visitamos um centro socialista próximo e, no caminho de volta, encontramos um bando de corvos e, pouco depois, um espinheiro-alvar com alguns pombos pousados nele. Decidimos realizar nosso ritual junto a essa árvore, e eu me lembrei do chamado de vocês para que as pessoas decorassem Árvores da Liberdade, compartilhando a ideia com minha camarada.
 
Oferecemos nosso cabelo como presente aos pássaros, para que pudessem utilizá-lo em seus ninhos. Já foi observado que pássaros incorporam cabelos humanos aos seus ninhos, embora para algumas espécies isso também possa representar um risco, algo sobre o qual precisamos aprender mais no futuro. São fibras resistentes e fornecem bom isolamento. Avistamos o espinheiro-alvar e lembramos que havíamos trazido nossa sacola de pelos. Quando nos aproximamos, um casal de pombos levantou voo. Em seu tronco havia tufos envelhecidos de lã de ovelha, então soubemos que era um local onde eles costumavam procurar fibras. Tiramos nossa sacola de cabelo, agora suavemente emaranhado em uma grande bola de pelos, lisa por fora. Nós a abrimos como quem parte um pão, rasgando-a, revelando pontas expostas, interioridade. Então começamos a pendurar e tecer mechas de cabelo no espinheiro-alvar, para mantê-la aquecida, para que estivesse ali à disposição dos pássaros que quisessem retirar tufos. Agradecemos à árvore e às colinas.
 
Ao recordar esse momento e escrever para vocês agora, consigo ver nosso ritual como uma celebração da liberdade. Raspamos nossas cabeças juntas como atos de irmandade lésbica radical. Oferecemos nosso cabelo como bruxas fazendo uma oferenda aos pássaros, especialmente aos corvos e pombos. Eles voam livremente, nossos irmãos e irmãs nesta terra, sem se importar com a forma como seus destinos são julgados e difamados pelos humanos. Liberdade significa liberdade de expressão, liberdade de fazer parte da terra, liberdade de participar de redes de relações baseadas no cuidado mútuo.
 
Recentemente li “The Intersections Between Anti-Speciesism, Anti-Civilization, & Individualist Anarchy“, de Renzo Connors, e nele ele fala sobre estar na prisão e sobre sua experiência inicial tentando capturar um pássaro para mantê-lo como animal de estimação, até aprender “a contradição e a ironia de eu estar numa gaiola, capturando outros animais para colocá-los numa gaiola para meu próprio prazer”. Incluo um link abaixo para que vocês possam ler suas palavras na íntegra. Mas agora penso na imagem de suas mãos estendidas, com um pássaro repousando suavemente nelas antes de voar para longe.
 
Obrigado por tudo o que vocês fizeram e continuam fazendo por nossos companheiros não humanos e humanos. Parabéns por sua liberdade. Parece estranho dizer isso. Vamos ansiar por um mundo em que libertação e soberania sejam esperadas e estejam por toda parte, em todas as suas formas. Um mundo onde não existam gaiolas.
 
Até que todas as pessoas e todos os seres sejam livres,
 
Reindiginise! Pennines
 
Links:
 
Nosso programa: https://reindiginisepennines.noblogs.org/
 
Texto de Renzo Connors: https://warzonedistro.noblogs.org/post/2023/07/11/veganism-as-anti-colonial-praxis-a-collection-of-indigenous-vegan-perspectives/ (também pode ser lido na Anarchist Library, mas vale a pena imprimir o zine nem que seja apenas pela bela arte!)
 
Fonte: https://june11.noblogs.org/post/2026/06/12/a-freedom-tree-in-the-uk/
 
Tradução > Contrafatual
 
Conteúdo relacionado:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/06/10/eua-marius-me-ajudem-a-divulgar-este-primeiro-evento-da-arvore-da-liberdade-no-dia-11-de-junho/
 
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Nos bambus já escuros,
morcegos, daqui, dali,
também sem destinos.
 
Alexei Bueno

[Espanha] Mais um ano, divulgando a ideia na Feira do Livro de Madrid

Este ano a Fundação Anselmo Lorenzo voltou a estar presente na Feira do Livro de Madrid, um evento multidinário onde a cultura libertária teve o seu espaço graças à FAL, a fundação da CNT.

Foram mais de duas semanas de atividade diária. Além dos autógrafos de livros que recebemos na nossa barraca, todos os dias recebemos visitas de companheiros e companheiras do sindicato, sócios e sócias da Fundação, pesquisadores e pesquisadoras do nosso arquivo e pessoas que costumam passar pela nossa sede madrilenha para ir aos inúmeros eventos culturais organizados na FAL; visitas agradecidas que fizeram o tempo passar de forma descontraída.

Mais um ano, na nossa barraca da feira puderam-se adquirir e consultar os livros da nossa editora, que têm cada vez melhor acolhimento, mas também de outras editoras amigas que contam no seu catálogo com títulos interessantes ligados ao movimento libertário. Também demos especial atenção ao nosso cantinho infantil e juvenil, oferecendo leituras transformadoras e luminosas para nossos companheirinhos e companheirinhas.

Finalmente, a barraca da FAL na Feira do Livro de Madrid é também um espaço de encontro onde não só se reuniram todos os companheiros e companheiras que vieram dar uma força, mas todas aquelas pessoas que se interessam pela atividade cotidiana da Fundação e desejam apoiar nosso trabalho comprando em nossa livraria.

Desde a FAL enviamos um abraço a todos os companheiros e companheiras que se juntaram a um dos turnos. Sem dúvida alguma, o esforço valeu a pena e encoraja-nos a que no próximo ano a barraca da FAL, “a dos anarquistas”, continue a divulgar a Ideia no centro de Madrid.

Seguimos!

fal.cnt.es

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alta madrugada,
vaga-lumes no jardim
brincam de ciranda

Zemaria Pinto

[Itália] BlaBlaBla: Encontros sobre anarquismo e linguagem (Gênova)

Dois dias de encontros, debates e oficinas com foco na linguagem e no discurso em espaços anarquistas, em Gênova.

19, 20 e 21 de junho de 2026
Biblioteca Francisco Ferrer, Piazza Embriaci 5/13 (Centro Storico), Gênova
Collina Libera di Castello (Centro Storico), Gênova

Contato: ANARCHISMELANGAGE@RISEUP.NET

Programação


SEXTA-FEIRA, 19 DE JUNHO DE 2026


18:00 Boas-vindas
18:30 Comunicação Anti-Autoritária Interna e Externa
20:30 Refeição Compartilhada

SÁBADO, 20 DE JUNHO DE 2026


10:00 Perspectivas Anarquistas sobre a Linguagem
12:00 Arquivos e Bibliotecas: Compartilhando Conhecimento e Recursos
13:30 Jantar Compartilhado
15:30 Oficina de Tradução
17:00 A Linguagem nas Canções Anarquistas
20:00 Jantar Compartilhado
21:30 Poesia com Marco Caterpillar e Guido Celli: AMORE, TRITOLO, VITA

DOMINGO, 21 DE JUNHO DE 2026


10:00 Autoritarismo e Linguagem
12:00 Internacionalismo e Linguagem
13:30 Refeição Compartilhada
14:30 Linguagem e Tecnologia
16:30 Discussões Finais para os Próximos Passos

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No embalo do vento
palmeiras se abraçam:
dois amantes?

Anibal Beça

A hierarquia não se reforma, se derrota

Toda posição nasce da violência e se alimenta da obediência. Estado e Capital enfrentam a mesma moeda: um garantir a propriedade, ou outro a exploração. E nenhum deles jamais cedeu poder por retenção. As concessões vieram de lutas, nunca de mesas de negociação com o algoz. Reformar a posição é como podar os galhos de uma árvore envenenada — a raiz continua intacta, sugando a vida de baixo.

O reformismo é uma armadilha mais sofisticada do poder. Dizem que com o voto se muda a polícia, com leis se controla o patrão, com conselhos se humaniza o Estado. Mentira. A polícia continua matando, o patrão continua roubando a mais-valia, e o Estado segue protegendo os dois. Enquanto existir um chefe com poder de demitir, um juiz com poder de prender, um gerente com poder de humilhar, a posição segue funcionando — apenas com verniz de ternura.

Não se conserta uma corrente. Se corta. A história nos ensina que cada migalha de direito foi arrancada às pressas quando o medo mudou de lado. Mas assim que a ameaça passa, a engrenagem volta a mais ossos. Por isso a autonomia não se pede, se exerce. Organização horizontal, decisão coletiva, poder difuso — não são métodos, são a própria antítese de dominação. Sem delegados, sem representantes, sem salvadores.

O anarquismo não negocia com o carcereiro sobre o tamanho da cela. Quer derrubar os muros. Isso significa qualquer recusa de “aperfeiçoamento” do Estado ou do Capital. Não existe Estado democrático de direito quando a fábrica continua sendo uma ditadura. Não existe capitalismo com rosto humano quando o despejo e a fome são leis de mercado. Reformar a hierarquia é perpetuar o cativeiro com novas gemas de plástico recicláveis.

Portanto, a tarefa é clara: desmontar, desobedecer, desfazer. Toda vez que um líder se auto proclama, desconfie. Toda vez que uma instituição pede “paciência e diálogo”, corra. A destruição não é violência — é defesa. E enquanto resta um único cargo de mando, um único orçamento secreto, uma única ordem sem consentimento, a luta segue. A hierarquia não se repara, se extirpa. Portanto, fogo na base e autogestão já!

Liberto Herrera.

Fonte: https://libertoherrera.noblogs.org/2026/06/12/hierarquia-nao-se-reforma-se-destroi/

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O frêmito cessou.
A árvore abre-se
para conter a lua.

Eugenia Faraon

7 anarquistas presos por “associação para fins terroristas”. Buscas por toda a Itália.

• Uma operação coordenada pela DIGOS (Unidade de Operações Especiais) de Roma contra anarquistas ocorreu na manhã desta terça-feira (16/06) em vários pontos da Itália.

• Cinco prisões e duas medidas cautelares foram anunciadas, sob acusações de conspiração para cometer terrorismo e subversão.

Sete pessoas — todas identificadas como anarquistas — foram colocadas sob medidas cautelares, cinco em prisão e duas em prisão domiciliar, sob as graves acusações de “associação com o propósito de terrorismo ou subversão da ordem democrática”. Duas pessoas também são acusadas de posse do dispositivo explosivo caseiro que bloqueou o trem de alta velocidade perto de Roma em 14 de fevereiro, durante os Jogos Olímpicos de Milão-Cortina. As medidas cautelares, juntamente com as buscas associadas, abrangem Milão, Bolonha, Nápoles, Turim, Val di Susa, Terni, Rieti e Roma. As buscas também incluíram os centros sociais anarquistas Bencivenga Occupato, em Roma, e o histórico espaço ocupado feminista La Vampa, em Nápoles.

Pelo ataque à linha de trem de alta velocidade Roma-Florença, os dois suspeitos são acusados ​​de cumplicidade na realização de um ataque a instalações de utilidade pública, interrupção de um serviço público e incitação à prática de um crime, agravado pelo propósito de terrorismo.

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Boêmio da noite
no portão enferrujado.
Morcego dormindo.

Fanny Dupré

[Portugal] 4 de Julho: Jornada Anarquista de Cinema em Lisboa

É com espírito de insubmissão que nasce a 1ª Jornada Anarquista de Cinema, organizada pelo Jornal MAPA em parceria com a Casa da Achada. Propomos cinema de resistência sob a lógica “faz tu mesm@” (DIY), livre de barreiras acadêmicas, institucionais ou profissionalizantes.

Queremos tornar visíveis experiências silenciadas, corpos esquecidos, resistências abafadas, aproximar povos, fortalecer redes de apoio mútuo e romper o isolamento que nos querem impor. Queremos lutar por melhores condições de vida ou pela destruição das existentes, e incitar à solidariedade e aos valores humanos e revolucionários que estão em nós.

Propomos assim também cultivar um espaço de encontro, de organização coletiva e de solidariedade entre diferentes pessoas e comunidades em luta, reunidas à volta de filmes, debates e bancas.

+ info em breve em jornalmapa.pt e em redes da resistência!

JORNADA ANARQUISTA DE CINEMA

4 JULHO 2026

CASA DA ACHADA, LISBOA

Contacto: cinemaanarquista@proton.me

jornalmapa.pt

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Frases compostas
no sol que passeia
sob minha caneta.

Jocelyne Villeneuve

[EUA] Lançamento: “Rua da Sopa”

Um livro de memórias de Keith McHenry, cofundador do Food Not Bombs
 
Você pode me acompanhar em minha jornada, desde as aventuras que vivi na infância explorando as áreas selvagens dos Parques Nacionais dos Estados Unidos, passando pelos acontecimentos que me inspiraram a dedicar minha vida ao fim do sistema explorador do capital, até a fundação do Food Not Bombs e as décadas que passei viajando pelo mundo preparando e compartilhando refeições.
 
Rua da Sopa, por Keith McHenry (2026)
ISBN: 979-8-234-00487-1
Preço: US$ 24,95
Páginas: 332
Formato: 6 × 9 polegadas
 
Compre um exemplo de SOUP STREET aqui:
 
https://www.paypal.com/instantcommerce/checkout/5U4RQXSNJCEDN
 
Clique aqui para ler gratuitamente uma versão em PDF online:
 
https://foodnotbombs.net/soup%20street.pdf
 
foodnotbombs.net
 
Tradução > Contrafatual
 
Conteúdo relacionado:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/06/01/a-historia-do-food-not-bombs/
 
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hoje os Dedos
das gotas de chuva
massageiam a terra
 
Carlos Seabra

Margarita Neri, a Rainha Rebelde de Morelos

Por Carlos Ferreira de Araujo JR.

Maragarita Neri, conhecida como A Rainha Rebelde de Morelos, foi uma comandante zapatista e integrante das forças rebeldes durante a Revolução Mexicana de 1910. Tinha ascendência maia, holandesa e, principalmente, afro-mexicana. Principalmente porque Margarita Neri seria oriunda de Costa Chica em Guerrero, uma localidade de conhecida predominância afro mexicana.

Foi uma das mais conhecidas líderes mexicanas da Revolução, chegando a liderar cerca de 1000 soldados rebeldes e zapatistas. Sua área de atuação foi Tabasco e Chiapas. Em um artigo do lendário periódico Regeneración (19/08/1911), o anarquista mexicano Ricardo Flores Magón noticiava um combate em que Neri saira ferida:

O Estado de Morelos, vizinho ao Distrito Federal, de acordo com os informes que aparecem nos jornais de hoje, 18 de agosto, está rebelado em armas, exceto Cuernavaca[…]. Ontem, dia 17, forças federais atacaram Yautepec […]. Entre os líderes da heroica defesa de Yautepec, se encontravam as jovens revolucionárias Margarita Neri e Esperanza Chavarría. O combate durou todo o dia […]. Os revolucionários perderam 19 homens. As tropas federais mais de cem. A jovem revolucionária Neri saiu ferida de um braço. REGENERACIÓN 19/08/1911

A militância de Margarita Neri rompeu padrões de gêneros tradicionais destacando o protaonismo das mulheres nos movimentos revolucionários. A Revolução Mexicana foi motivada por profundas desigualdades sociais e econômicas, que afetavam particularmente comunidades indígenas e rurais. Emiliano Zapata, Magon e outros defenderam a reforma agrária e os direitos do campesinato, conquistando amplo apoio em regiões como Morelos.

Margarita Neri se juntou a causa de Zapata, defendendo a justiça agrária e a soberania indígena. Relatos da época a descrevem como uma presença imponente a cavalo, armada e vestida para a batalha, inspirando respeito e lealdade de seus colegas homens. Seu status como comandante feminina ajudou a reformular a percepção pública sobre a capacidade de liderança, coragem e visão política das mulheres durante um momento crucial da história mexicana.

Existem várias histórias sobre Margarita Neri. Uma delas afirma que Margarita Neri sempre expressava o desejo de ela mesma decapitar o ditador Porfírio Diaz. Outras afirmam que Neri era particularmente cruel com os inimigos, chegando mesmo a mutila-los. Outros afirmam que tais narrativas serviam apenas para desacreditar os ideais da Revolução Mexicana.

Embora os registros históricos sobre sua vida sejam escassos, Margarita Neri permanece um símbolo de resistência revolucionária e coragem feminista na história da América Latina. Seu legado continua vivo nas narrativas modernas sobre a Revolução Mexicana, particularmente na literatura, no movimento feminista libertário e nos movimentos populares que honram os papéis dos povos indígenas e das mulheres na formação da história.

REFERÊNCIAS

Diederich, Phillippe (28 de junho de 2017). “Soldaderas: As Mulheres da Revolução Mexicana”.

Fuentes, Andrés Reséndez (abril de 1995). “Mulheres no Campo de Batalha: Soldaderas e Soldados Femininas na Revolução Mexicana”.

Turner, Frederick C. (1967). “Los efectos de la participación femenina en la Revolución de 1910” [Os efeitos da participação feminina na Revolução de 1910].

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).

agência de notícias anarquistas-ana

Como provar,
no favo do teu corpo,
o mel das tuas coxas?

Henry Araújo

Indonésia: anarquismo, luta, repressão e reorganização

Por Gabriel Fonten – Freedom

Em agosto do ano passado, uma revolta na Indonésia resultou em confrontos generalizados com a polícia e uma forte repressão, seguida por uma onda de prisões. Esses acontecimentos fizeram parte de uma série de protestos, frequentemente chamados de protestos da Geração Z, que começaram em Bangladesh e se espalharam para Nepal, Madagascar e Quênia. Para entender a situação atual, enviamos algumas perguntas a um integrante do Dago Melawan.

Como os protestos foram organizados na Indonésia e como se intensificaram tão rapidamente? Você considera que os protestos foram uma vitória?

Observo um padrão organizado; isso difere de 2020, quando os protestos em massa contra a Lei Omnibus foram impulsionados por movimentos trabalhistas e ONGs. Os protestos de agosto surgiram a partir de transmissões ao vivo no TikTok, organizadas e disseminadas para diversos locais. O tráfego dessas transmissões aumentou rapidamente, possivelmente devido ao uso de bots para ampliar a audiência. De fato, muitas iniciativas foram espontâneas, às quais se somaram ações promovidas por organizações estruturadas. Por outro lado, a grande adesão ocorreu depois que o slogan/campanha “Dark Indonesia” foi amplificado pela enorme base de usuários da plataforma X.

Mas, nas ruas, quando os distúrbios explodiram em várias localidades e começaram as mobilizações em larga escala, duas facções da elite política passaram a disputar entre si, especialmente dentro da polícia e do Exército, tentando tirar proveito da mobilização popular. Por quê? Porque as medidas de segurança para as manifestações foram menos rigorosas do que o habitual; polícia e Exército adotaram uma postura defensiva. Isso acabou se tornando uma forma de aumentar seu poder de barganha diante do novo presidente da Indonésia, mais próximo dos militares.

Essa situação, porém, durou pouco: as elites chegaram a um acordo e se reunificaram. A brutalidade voltou a se manifestar, especialmente quando um mototaxista (o falecido Affan) foi atropelado por um veículo blindado e morreu. A indignação explodiu: houve protestos, incêndios provocados e tumultos em toda parte. Infelizmente, devido à falta de uma rede de coordenação eficiente para compartilhar rapidamente informações sobre a situação nas ruas, os riscos não foram devidamente avaliados.

No fim, aconteceu o que temíamos: começaram as prisões. Primeiro atingiram a ala anarquista, depois a rede de esquerda, e muitos cidadãos comuns foram usados como uma espécie de “terapia de choque” para intimidar o restante da população.

Hoje, o movimento na Indonésia voltou a atuar de forma clandestina e, até agora, nossos companheiros continuam concentrados em apoiar os presos políticos que ainda não foram libertados.

Por outro lado, temos consciência de que é necessária uma estrutura de coordenação mais eficaz, independentemente das diferenças ideológicas, estratégicas e táticas. Mas esse passo precisa ser dado com rigor; todos devem concordar com a necessidade de reforçar a segurança física e digital. Muitos ainda agem de forma negligente nesse aspecto.

Falamos de vitória? Para mim, sim. A vitória inspirou e preparou a Geração Z para compreender como funciona a democracia liberal e perceber que o sistema eleitoral não faz sentido. Acredito que, em uma ou duas décadas, surgirá uma geração revolucionária mais bem organizada que a nossa; os sinais disso já são visíveis.

Em 2019 ocorreram grandes protestos do Bloco Negro na Indonésia, que provavelmente representaram o primeiro contato de muitas pessoas no Ocidente com o anarquismo do país. Você poderia descrever aquele momento e a evolução do anarquismo na Indonésia desde então?

Em Jacarta, desde a perseguição aos anarquistas em 2019, os ocidentais começaram a reconhecer a tradição do Bloco Negro. Mas uma coisa é certa: o anarquismo está crescendo aqui, impulsionado pela incapacidade dos sindicatos de atualizar suas bases teóricas. Presos à lógica estatista das lutas salariais, eles não conseguiram se renovar nem mesmo em termos de linguagem visual, já que a maioria ainda atua no setor industrial, e não no setor criativo. Além disso, a literatura anarquista é mais fácil de encontrar e mais acessível para os jovens, especialmente por meio das cenas anarco-punk e hip-hop.

O aspecto singular do Bloco Negro é que ele não é composto apenas por anarquistas ou antiautoritários no sentido estrito. Algumas pessoas simplesmente odeiam o regime, o Exército e a polícia, mas não são antiestatistas; participam porque desejam canalizar seu desejo de se reunir livremente — algo difícil dentro dos grupos de esquerda — e lutar juntos nas ruas. Isso é o que nos torna únicos, já que nossa base está em organizações estudantis, vendedores de café, serigrafistas, desempregados, artistas e outros setores. Em 2019, o número de participantes em Jacarta dobrou ou triplicou; em Bandung, pode ter triplicado ou até quintuplicado. Crescimentos semelhantes foram observados em cidades como Malang, Yogyakarta e Surabaya, um aumento significativo em comparação com 2017 e 2018.

Mas 2019 também marcou o fim do auge do movimento anarquista, ou mais precisamente dos anarquistas como grupo que adotava táticas anarquistas de forma relativamente organizada por meio de redes informais ou associações livres. No entanto, o fim desses laços organizativos não ocorreu por causa da repressão estatal, mas porque percebemos que nossas batalhas políticas cotidianas estavam longe de ser suficientes. A pandemia de COVID-19 aprofundou essa reflexão.

Antes da pandemia, houve confrontos de rua contra a Lei Omnibus, que ameaçava as condições de trabalho dos trabalhadores. Alguns tomaram a iniciativa de criar equipes de paramédicos de rua e unidades de autodefesa contra gás lacrimogêneo, que se espalharam por quase todos os focos de protesto. Mas, novamente, eram iniciativas pouco organizadas e fragmentadas, atuando apenas como grupos táticos que respondiam quando a indignação aumentava.

Em 2021, decidimos aprofundar o debate e começar a construir uma estrutura organizativa mais específica por meio da adoção do municipalismo e da organização dual. Como mencionei antes, o estancamento teórico começou a ser sintetizado e recontextualizado para nossa realidade. Outros preferiram entrar no mercado de trabalho e desaparecer. Antes de lutar contra o sistema, descobrimos que lutar contra a modernidade capitalista era ainda mais difícil. Essa foi uma das principais lições que aprendi: por que estamos sempre começando do zero?

De onde surgiu o seu grupo? Qual é o seu objetivo e como vocês estão organizados?

Historicamente, nossas raízes estão em grupos juvenis de diferentes origens, conectados em várias cidades por meio de movimentos de alfabetização e bibliotecas de rua. Porém, no final de 2015 (embora o processo tenha começado muito antes, por volta de 2010), nos aproximamos devido ao fechamento de uma de nossas bibliotecas pelas autoridades estatais e ao aumento da censura a livros de esquerda.

Durante nossos encontros, começamos a compartilhar histórias sobre o lema “os trabalhadores são um só”, mas percebemos que as diferenças entre as facções nunca haviam sido realmente resolvidas. A partir daí, passamos a construir uma estrutura flexível de coordenação interurbana e um espaço de aprendizagem para reunir conhecimentos compartilhados por pessoas comprometidas com valores antifascistas e antiautoritários. Essa foi uma espécie de nova onda, surgida de uma pequena geração millennial reflexiva e autocrítica.

No meu contexto, em Jacarta, desde 2018 começamos a enfrentar debates históricos que nunca vivemos diretamente: a ruptura entre Bakunin e Marx e a traição da União Soviética. Em vez de permanecer em debates teóricos intermináveis, passamos a estudar coletivamente as críticas organizacionais à tomada de decisões, as críticas aos partidos de vanguarda, ao vanguardismo cego, às disputas de poder e às formas de compreender o Estado quando a infraestrutura social ainda não está construída. Também discutimos o estilo de vida anarquista, frequentemente marcado pela indisciplina e pela transformação da política em mera identidade cultural, algo semelhante às críticas feitas por Bookchin.

Hoje estamos inseridos em contextos organizativos formais e vinculados a sindicatos, buscando atualizar constantemente teoria e prática. No entanto, nossas identidades costumam ser duplas. Dedico mais tempo à organização da Paguyuban Lintas Kampung (Comunidade Interurbana), composta por células municipais de comunidades urbanas diversas: grupos de Vespas, gangues de bairro, ciclistas, torcidas, grupos de estudos islâmicos e outros. Trata-se de uma federação de associações juvenis, ainda pequena (entre 100 e 200 pessoas quando reunidas), focada na reconstrução das relações sociais degradadas pela modernidade capitalista.

Essa federação foi fundada em 2021 e este ano completará cinco anos de existência.

Nosso objetivo coletivo se baseia em três pilares principais:

  1. Reabilitação sociocultural — democratizar a reprodução social cotidiana e redescobrir a identidade local e cultural.
  2. Economia — estimular o senso de comunidade dentro das famílias, incentivar o apoio mútuo e promover iniciativas econômicas autônomas.
  3. Política — construir organizações que funcionem como ferramentas de educação popular emancipadora e de luta permanente.

Nos últimos anos, também temos construído outra assembleia popular formada por diversas comunidades urbanas pobres e um movimento contra a gentrificação no norte de Jacarta. Assumimos principalmente um papel de educação popular e trabalhamos na construção de cooperativas populares sob controle dos trabalhadores. Enquanto isso, nossos companheiros da organização vermelha (FPPI — Frente de Luta da Juventude Indonésia) atuam na esfera jurídica, defendendo direitos e apoiando disputas legais.

Em relação à repressão, como vocês se organizaram diante da vigilância e do encarceramento de anarquistas pelo Estado? Como isso afetou o movimento?

Após as ondas de prisões de 2019 (Primeiro de Maio) e 2020 (Lei de Criação de Empregos), nós, especialmente em Jacarta, começamos uma profunda reflexão crítica e autocrítica sobre nossos métodos de mobilização e sobre o uso de rótulos e táticas — como o Bloco Negro e a ação direta — como fins em si mesmos.

Passamos gradualmente a abandonar a identidade simbólica do “A circulado” e do sindicalismo, sobretudo ao trabalhar com pessoas fora dos ambientes estudantis. Também deixamos de focar exclusivamente em intelectuais e estudantes, direcionando nossos esforços para a juventude, os pobres urbanos, os movimentos ecológicos e os sindicatos.

Fizemos isso para reduzir o uso indiscriminado do rótulo “anarquista” pelas autoridades como forma de reprimir movimentos populares. Essa estratégia acabou sendo mais eficaz e nos permitiu atuar com mais liberdade. No entanto, ela também gerou debates internos: será que isso despolitiza as pessoas em relação aos símbolos revolucionários?

Entre nós existe uma espécie de lema: devemos usar símbolos e encurtar nossa existência política? Ou priorizar valores e práticas em vez da validação simbólica?

Desde 2021, as organizações populares que se aproximaram de nós passaram a criar seus próprios símbolos, relacionados às suas origens e experiências. Ninguém é obrigado a portar bandeiras negras ou vermelho-negras para afirmar uma identidade ideológica. Sua identidade é a da organização popular; seu paradigma é aquele que elas próprias desenvolveram como instrumento de análise e resistência.

Não devemos combater apenas a alienação no trabalho, mas também na sociedade capitalista como um todo. Por que fomos identificados tão facilmente? Porque não conseguimos nos identificar com o povo. Acabamos nos tornando uma classe à parte.

O anarquismo está presente em toda a Indonésia ou concentrado em determinadas regiões? Em quais áreas de luta ele tem maior presença?

Os anarquistas estão espalhados praticamente por toda a Indonésia, tanto em pequenas quanto em grandes cidades. No entanto, os movimentos mais influentes e inovadores ainda estão concentrados na ilha de Java. Bandung, por exemplo, tornou-se um dos principais centros da repressão e do encarceramento de presos políticos acusados de anarquismo após os protestos de agosto.

Atualmente, o movimento anarquista concentra-se mais nos pobres urbanos. Isso ocorre porque se trata de uma luta de longo prazo; as associações comunitárias tendem a durar mais e, quando o planejamento territorial é bem-sucedido, podem se transformar em zonas autônomas, capazes de proteger os moradores contra o deslocamento causado pela gentrificação e servir como espaços seguros para organizações anarquistas e outras.

A ideologia anarquista continua sendo muito popular entre a juventude da Indonésia. No entanto, poucas organizações se definem explicitamente como anarquistas, já que os valores anarquistas não constituem a única base de suas lutas.

No passado, concentrávamos nossos esforços nos movimentos estudantis e criávamos muitos espaços de encontro e formação. Hoje, porém, é difícil esperar uma revitalização desses movimentos. Tornou-se cada vez mais complicado encontrar ativistas nas universidades, uma realidade muito diferente daquela de dez anos atrás.

Isso acontece porque os estudantes atuais enfrentam mensalidades cada vez mais altas, o agravamento das condições econômicas familiares e uma carga de tarefas acadêmicas que se assemelha cada vez mais ao trabalho em fábricas ou escritórios. Em algumas cidades, também se tornou mais difícil organizar debates sobre movimentos sociais com a mesma vitalidade de antes. Suspeito que isso esteja relacionado à aceleração tecnológica ocorrida durante a pandemia de COVID-19.

Fonte:  https://redeslibertarias.com/2026/06/05/indonesia-anarquismo-lucha-represion-y-reorganizacion/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

A goiaba madura
E os bichinhos se mexem
Não sei o que fazer.

Bruna Quirino da Silva – 11 anos