[Argentina] A ‘Guilda de amigos del libro’ de Buenos Aires

Por Eduardo Montagut | 19/04/2024

No final dos anos vinte se constituiu em Buenos Aires Guilda de Amigos del Libro, com o fim de publicar uma série de obras de Max Nettlau, desconhecidas em castelhano, concluir a edição das de Bakunin, que havia se iniciado por La Protesta, reeditar algumas obras de pensadores anarquistas esgotadas ou publicadas parcialmente, etc. Recordemos que Nettlau foi um dos mais destacados historiadores do anarquismo, além de ser um ideólogo do mesmo.

Na altura do verão de 1929 a associação contava com cotistas na Argentina e em outros países de fala espanhola, mas considerando a importância do livro para a difusão das ideias anarquistas, a Guilda buscava tornar-se mais conhecida, daí que inseriram parte de seus estatutos e plano de trabalho, como fez La Revista Blanca em seu número de 15 de julho de 1929.

La Guilda tinha, principalmente, como propósitos estimular a cooperação material e intelectual em torno à edição e difusão dos bons livros, excluindo o interesse comercial da indústria editorial porque havia se convertido em um puro negócio quando devia ter como missão uma obra “puramente cultural”. Ademais, devia servir de veículo ao pensamento livre e contribuir para a superação intelectual dos povos. Por outro lado, a Guilda pretendia facilitar a seus membros a aquisição dos livros a preços reduzidos e mediante quotas mensais apropriadas às necessidades e possibilidades de cada um.

Começaria pelo momento com a edição das obras de Nettlau, de Bakunin e a realização do programa editorial da Editora La Protestacomo assinalamos no começo deste artigo.

Para conseguir tudo isto manteriam relações estreitas com os organismos “de ação emancipadora” La Protesta e a Federación Obrera Regional Argentina.

Poderiam ser membros todas as pessoas que estivessem de acordo com os propósitos perseguidos, as instituições culturais como bibliotecas, sindicatos obreiros e quantos organismos que tivessem como finalidade o esforço a favor da emancipação humana. A Guilda fomentaria por todos os meios a cooperação e o crescimento intelectual de seus membros com o fim de criar uma corrente de pensamento livre e de superação intelectual.

A Guilda se subdividia em seções. Pelo momento:

I. História social, biografia, memórias.
II. Literatura social.
III. Problemas atuais.

Com o tempo poderiam se formar outras disciplinas científicas e literárias.

>> Foto em destaque: Frente do jornal anarquista “La Protesta” em 1904.

Fonte: https://www.nuevatribuna.es/articulo/cultura—ocio/historia-anarquismo-argentina-guilda-amigos-libro-buenos-aires/20240419171603226058.html?utm_campaign=twitter

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

nas noites de frio
um bom vinho, um edredon
dois corpos no cio

Cristina Saba

[Espanha] Pela jornada de 30 horas semanais

Desde a CNT-AIT Alcalá de Henares defendemos que nossas vidas não podem ser atravessadas pelo trabalho e o capital. Não queremos aumentar a máquina das empresas nem melhorar a produtividade.

E esta mudança não virá por parte das instituições. Não podemos nos contentar com migalhas em troca de uma paz social. Nosso meio de conquista deve ser a ação direta, o apoio mútuo, a solidariedade e a consciência de classe. A manifestação, a greve e inclusive o boicote e a sabotagem devem seguir sendo nossos métodos de luta.

Já faz 105 anos que desde a CNT, por meio da greve “La Canadiense”, conseguimos implementar, pela primeira vez na história, a jornada laboral de 8 horas diárias. Ainda que, assim como agora, tinham sobre a mesa o ódio e o egoísmo, escolheram a luta e a solidariedade para enfrentar a miséria do trabalho; desafiando o medo, em uma época em que militar ou participar em uma greve poderia custar o cárcere. Sem delegar o futuro a políticos ou intermediários, preferiram se organizar desde baixo sem esperar melhoras caídas do céu.

Desde então, o desenvolvimento da tecnologia não fez mais que crescer e a riqueza que produzimos não fez mais que aumentar. Ainda assim, seguimos trabalhando praticamente as mesmas horas. Nosso objetivo deve ser o contrário: produzir menos e trabalhar menos.

Para o capitalismo nunca será um bom momento e sempre antecipará falsamente a catástrofe, mas não devemos cair em seu jogo… É preciso conquistar de novo por nossa conta a redução da jornada laboral! Com este objetivo fazemos um chamado a todos os sindicatos da Confederação e de toda a AIT, assim como ao movimento libertário em geral, a nos unirmos para implantar as 30 horas semanais sem redução de salário. A tecnologia e o grande número de setores estratégicos atuais nos oferecem oportunidades de difusão e ação maiores que as que existiam em 1919, inclusive para paralisar um ou vários setores da economia.

Devemos aproveitar e usar todos os meios a nosso alcance para consegui-lo. Há que deixar atrás o medo e a ilusão de bem estar. A classe, mais que o que somos, é o que podemos fazer.

Por uma vida melhor, uma vida que nos pertença.

Pela jornada laboral de 30 horas semanais!

Fonte: https://alcala.cntait.org/por-la-jornada-de-30-horas-semanales/

agência de notícias anarquistas-ana

Noite estrelada
O céu – brilhando – se abaixa
Silenciosamente

Eunice Arruda

[Espanha] IV Acampamento Libertário

Contra a Criminalização dos Espaços Sociais e Autogestionados

Outro ano mais desde o CSOA La Algarroba Negra voltamos a apostar por criar uma alternativa crítica e vivencial libertária e autogestionada como proposta ativa de auto-organização desde o dia 15 até 25 de Agosto.

Depois do êxito de funcionamento e participação dos acampamentos anteriores voltamos a apostar pela gestão coletiva dos espaços sociais, reapropiar-nos do lazer e propagar a difusão das ideias políticas e das práticas sociais.

Descrição:

Se realizará um acampamento de 10 dias em convivência permanente dentro do espaço social ocupado onde durante esses dias se realizarão diversas oficinas, palestras sobre ocupação, ocupação rural, defesa do território e contra o extrativismo, autogestão, segurança informática, movimento anticarcerário e antirepressivo, se realizarão comedores ou jantares temáticos ou solidários, e haverá lugar para atuações artísticas, musicais, projeções e debates abertos.

Se facilitarão espaços para distribuidoras ou postos artesanais e se tentará dinamizar um mercado de troca.

Se facilitará o acesso a apresentações para coletivos sociais ou grupos.

O evento será autogestionado horizontalmente pelos próprios participantes das jornadas e desde as promotoras das jornadas só garantiremos o funcionamento mínimo das infraestruturas e necessidades mais básicas.

Será autogestionada tanto a programação como a realização de comida e limpeza de espaços.

Apostamos pela autonomia das pessoas no desenvolvimento das comunidades. Vamos tentar gerar um espaço livre de violências, machismo, classismo, autoritarismos, racismo, servilismo… e todas essas coisas a erradicar em nossa sociedade… e criar um espaço onde compartilhar e construir entre todas.

Com respeito à programação aportaremos diversas propostas que poderão ser ajustáveis e deixaremos espaços abertos para que as próprias pessoas possam compartilhar seus interesses ou suas habilidades.

Podes participar com teu coletivo para difundir e compartilhar experiências, projetos ou qualquer necessidade ou formas de aportar que possa oferecer.

Objetivo:

O objetivo do III Acampamento de convivência Libertária é seguir reivindicando o uso dos espaços autônomos e autogestionados, potencializar as relações inter-geracionais e igualitárias e gerar interações sociais seja a nível local ou peninsular.

Por este motivo chamamos à participação ativa de pessoas, grupos e coletivos a seguir dando vida aos espaços recuperados do abandono imobiliário e convidamos a acompanhar-nos nesta experiência autônoma aportando livremente segundo vossas vontades e possibilidades.

>> Mais infos: https://www.algranoextremadura.org/todas-las-noticias/destacados/2024/07/22/iv-campamento-libertario-del-15-al-25-de-agosto-en-badajoz/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

a volta ao lar
inquieta serenidade
parece que foi ontem

Seadog

Franquismo Vivo: A Nada Surpreendente Persistência do Autoritarismo na Espanha Contemporânea

Algumas camaradas tem demonstrado surpresa com os últimos acontecimentos repressivos, relacionados ao movimento sindical e trabalhista, na Espanha. Em um esforço para melhor entender o que lá se passa, se faz pertinente recordarmos alguns fatos, que são públicos, inclusive.

Dessa forma, apesar de quase cinquenta anos terem se passado desde a morte de Francisco Franco (1892-1975), a sombra do franquismo ainda paira sobre a Espanha. As instituições, impregnadas por décadas de autoritarismo, continuam a manifestar comportamentos repressivos e autoritários que refletem o legado sombrio do regime ditatorial. Casos recentes, como o das Seis de La Suiza, evidenciam que, apesar das aparências de uma “democracia” moderna, a essência repressora do Estado espanhol permanece intacta.

O Franquismo: Uma Herança Persistente

O regime franquista, que durou de 1939 a 1975, instituído após a guerra civil espanhola, foi marcado por uma brutal repressão política, censura e supressão das liberdades individuais. O ditador fascista Francisco Franco consolidou seu poder através de uma rede de instituições autoritárias que não apenas governavam, mas também moldavam a sociedade espanhola de acordo com uma ideologia ultranacionalista, católica e conservadora. A “transição” para a democracia burguesa, como era de se esperar, falhou em erradicar essas raízes autoritárias.

A Constituição espanhola, que entrou em vigor em 29 de agosto de 1978, foi um passo formal para a desmobilização da ditadura e também na direção da democracia burguesa, mas não conseguiu (e não queria…) desmantelar totalmente as estruturas e mentalidades herdadas do franquismo. Muitos altos funcionários do regime mantiveram suas posições, e a falta de um processo de justiça transicional significativo, apesar das manifestações e protestos realizados pela anarcossindicalista CNT (Confederação Nacional do Trabalho) e outras organizações políticas, permitiu que muitos crimes do regime ficassem impunes. Este pano de fundo criou um ambiente onde as práticas autoritárias sempre mostram sua verdadeira face, especialmente em momentos de crise política ou social.

As Instituições Autoritárias

As instituições espanholas, especialmente no sistema judiciário e nas forças de segurança, ainda exibem aberta e orgulhosamente traços de autoritarismo – o que para nós, anarquistas, não é nada surpreendente, já que estamos falando de organismos estatais, portanto violentos e repressores por natureza. A centralização do poder, a falta de transparência e a repressão das dissidências são características que permeiam o funcionamento do Estado. A Lei de Segurança Cidadã, popularmente conhecida como “Lei Mordaça”, aprovada em 2015, é um exemplo claro dessa continuidade repressiva. Esta lei restringe severamente o direito de protesto e impõe pesadas multas e sanções a manifestantes, jornalistas e ativistas.

Além disso, a polícia e outras forças de segurança frequentemente agem com impunidade, com nítida covardia contra protestos pacíficos e movimentos sociais. As constantes batidas policiais contra o movimento anarquista e mesmo a resposta brutal aos referendos de independência na Catalunha em 2017 ilustram bem essa tendência autoritária, sem falar nos presos políticos que lotam os cárceres espanhóis.

O Caso das Seis de La Suiza

O recente caso das Seis de La Suiza, em que seis sindicalistas asturianas foram condenadas por participar de um piquete informativo durante um conflito trabalhista, é emblemático da natureza repressora do Estado espanhol. Essas trabalhadoras enfrentam a possibilidade de prisão simplesmente por exercerem seus direitos de protesto e organização sindical. O Tribunal Supremo ratificou a condenação, ignorando a proteção aos direitos trabalhistas e sindicais constantes da própria legislação espanhola, transparecendo (e, outra vez, nada que nós anarquistas não saibamos) como a lei não configura nenhum impedimento para que o Estado e o Capital atuem livremente na consecução de seus interesses.

Este caso não é isolado, mas parte de um padrão mais amplo de criminalização da dissidência e do ativismo social. Ao classificar as atividades sindicais como criminosas, o Estado envia uma mensagem clara de que qualquer forma de contestação ao status quo capitalista será reprimida. Esta abordagem não apenas viola os direitos humanos básicos, mas também ameaça a própria essência do sindicalismo, que depende da capacidade dos indivíduos de se organizarem e expressarem suas opiniões livremente.

A Repressão como Ferramenta Política

A repressão na Espanha não se limita unicamente aos conflitos trabalhistas. Grupos de direitos civis, organizações de mídia independentes e movimentos sociais também são frequentemente alvo de vigilância e intimidação. A prática de espionagem de ativistas e a infiltração de informantes em grupos dissidentes são táticas comuns utilizadas para suprimir a oposição. A mídia tradicional, alinhada com os interesses do Estado e do Capital, contribui para a estigmatização dos movimentos sociais, retratando-os como perigosos e ilegítimos.

Além disso, o sistema judiciário, longe de ser um bastião de imparcialidade, serve aos interesses do poder estabelecido. As decisões judiciais majoritariamente refletem um viés contra os movimentos sociais e a favor das forças conservadoras. A politização da justiça é evidente em muitos casos, onde a aplicação seletiva da lei é usada para silenciar vozes dissidentes e proteger os poderosos.

Resistência e Solidariedade

Diante dessa realidade, a resistência e a solidariedade são essenciais. O anarquismo e outras expressões autônomas, tem tomado as ruas espanholas e ecoado a voz anticapitalista e antiautoritária, desafiando o Estado e o Capital e denunciando sua essência violenta e repressora, ao mesmo tempo que lutam pela transformação social e política, onde os direitos e liberdades de todas e todos sejam finalmente respeitados. E aqui não temos ilusões de um Estado justo ou de um Capitalismo benévolo: somente a aniquilação dessas instituições permitirá a emersão de uma nova sociedade.

De outro lado, a solidariedade internacional também desempenha um papel vital. A pressão externa pode ajudar a expor as injustiças e a apoiar aquelas que lutam contra a repressão dentro da Espanha. Organizações de direitos humanos, sindicatos e movimentos sociais globais podem e devem unir forças para condenar as práticas repressivas do Estado espanhol, alastrar a revolta, e apoiar as vítimas dessas políticas.

Conclusão

O franquismo pode ter terminado oficialmente em 1975, mas seu legado autoritário ainda vive nas instituições e práticas do Estado espanhol. Casos como o das Seis de La Suiza demonstram que a repressão e a criminalização da dissidência continuam a ser ferramentas utilizadas pelo Estado para manter o controle e a normalidade capitalista. Não nos enganemos: outros casos, iguais ou piores, surgirão e nós, como sempre, estaremos aqui para resistir!

Liberto Herrera

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agência de notícias anarquistas-ana

Névoa de inverno.
O mendigo na calçada
Abraçado ao cão.

Zuleika dos Reis

[Espanha] A causa da humanidade

A CNT não pode ser só uma sigla. Não pode nem mesmo ser um sindicato propriamente dito, vocês já nos conhecem.

Não estamos aqui para apresentar nossa história intimamente ligada ao internacionalismo da classe trabalhadora. É importante ressaltar, por outro lado, que não somos uma organização insensível com meras posições políticas frias. Nunca fomos assim.

Este comunicado da Secretaria Externa é escrito por pessoas que habitam esta Mãe Terra e que respondem a muitas identidades, classe trabalhadora, coincidentemente de uma parte do mundo, mães, pais, irmãs ou primos de alguém, humanos. Anarcossindicalistas por opção, isso sim.

Hoje, aqui e agora, viemos porque nos sentimos diretamente desafiados pela causa da humanidade.

Não se deve defender a luta pelas liberdades e, ao mesmo tempo, fazer vista grossa para as lutas de libertação dos povos. Não devemos confundir a violência dos que oprimem com a violência dos que sofrem opressão. Não se deve apontar um dedo equidistante para um ou para outro, porque isso faz de você o cão domesticado do poder. Não se deve olhar para a cor do cabelo ou da pele para demonstrar humanidade. Não se deve nem mesmo apelar para a história ou para os direitos impostos para escolher lados no conforto de sua sala de estar em frente à televisão. Não se deve ter o cinismo e a hipocrisia de se defender com os valores da esquerda europeia, manipulando a terminologia, a partir de um escritório universitário. Não se deve julgar o que é diferente ou, muitas vezes, incompreensível. Não se deve ser o que todos nós já fomos muitas vezes.

Este comunicado pode ser escrito da cabine de um caminhão com os olhos cheios de lágrimas ou da cantina de uma fábrica com o coração cheio de raiva. Porque precisamos ter paixão pela humanidade.

Somos desafiados por um lugar no mundo: a Palestina. Das ruínas de Gaza, das entranhas, dos gritos de uma mãe, dos olhos de uma criança ensanguentada que não entende, da fome atroz, das valas comuns deixadas pelos capangas criminosos, de um lugar na Mãe Terra devastado por bombas.

Se você não se comove com a injustiça, está do lado errado.

A causa da humanidade faz com que você fique do lado da Resistência Palestina, não importa quantas contradições políticas isso possa acarretar. Porque neste momento isso é secundário quando estamos enfrentando um genocídio. E esse silêncio, devido ao preconceito, é pura cumplicidade.

De nossa pequenez e de nossa humildade militante, como anarcossindicalistas, pedimos sua ação porque é a causa da humanidade. Agora são nossos dedos que apontam. Queremos fazer um apelo político para apoiar por todos os meios, em todos os fóruns e em todas as suas formas, a causa da libertação da Palestina.

Secretaria Externa do Comitê Confederal

cnt.es

Tradução > anarcademia

agência de notícias anarquistas-ana

Seguro a xícara
viajando com o cheiro —
Ah, café fresquinho

Valéria Florenzano

Revolta popular contra um Estado autocrático: o presente, o passado e o futuro de Bangladesh

Enquanto escrevo esta declaração, não sei o paradeiro da maioria dos meus companheiros que participaram do atual protesto estudantil em Bangladesh. Tudo o que sei é que eles estavam nas ruas, tentando lutar contra a polícia, contra os capangas fascistas do partido autocrático. Com apenas algumas pessoas em algumas partes de Bangladesh tendo recuperado o acesso à Internet depois de um blecaute nacional de cinco dias ordenado pelo Estado, tem sido difícil se conectar com as pessoas que estão em casa ou no exterior. À medida que novas fotos e reportagens revelam a violência sem precedentes da polícia torturando e matando pessoas desarmadas, sinto-me cheio de angústia e raiva. Penso em meus colegas que estão no país, mas não se trata apenas deles, mas de todo o país. Só sei que meus companheiros fazem parte da resistência à qual milhares de pessoas aderiram, protestando contra o Estado fascista e autocrático, que matou pelo menos 197 pessoas, prendeu centenas e deixou milhares de feridos nos hospitais.

Tudo começou com um protesto pacífico de estudantes e candidatos a emprego exigindo a reforma das cotas. O sistema de cotas de Bangladesh reserva 30% dos empregos para os descendentes dos combatentes da liberdade que participaram da guerra de libertação contra o Paquistão em 1971. Essa cota de 30% deixa a maioria da população em geral com poucas chances de conseguir um emprego público. O problema do desemprego e as recentes crises econômicas tornaram os empregos do governo muito competitivos, e a maioria das pessoas considera a cota de 30% discriminatória e injusta. Embora o partido governista descreva o sistema de cotas como uma forma de demonstrar respeito à família dos combatentes da liberdade, na realidade ele é usado para manter um grupo de pessoas complacentes na burocracia.

Em primeiro lugar, a guerra de libertação de Bangladesh em 1971 contra o Paquistão foi uma guerra popular; pessoas de todas as classes sociais ajudaram os combatentes da liberdade por vários meios. Em segundo lugar, muitos dos combatentes da liberdade pobres pertencentes à classe trabalhadora não puderam obter nenhum certificado de combatente da liberdade. Em terceiro lugar, houve alegações de corrupção e nepotismo na emissão de certificados de combatentes da liberdade pelo partido no poder. Portanto, essa cota de 30% permite que o governo consolide seu poder. Além disso, reservar 30% dos empregos do governo para combatentes da liberdade de terceira geração, que representam menos de 5% da população, vai contra o ethos central da guerra de libertação: igualdade, liberdade e justiça. Como anarquistas, apoiamos a justa demanda dos estudantes. Entretanto, também acreditávamos que a mera reforma das cotas não poderia resolver o problema da economia capitalista mantida por um partido governista autocrático. No entanto, as coisas pioraram quando o governo respondeu ao protesto pacífico com uma violência sem precedentes da polícia e de seus capangas fascistas. A violência do Estado contra os manifestantes transformou completamente o movimento atual. Antes de passar para essa parte do estágio atual do movimento, é necessário descrever o cenário político atual em Bangladesh.

Durante os últimos 16 anos, Bangladesh tem sido governada pela primeira-ministra Sheikha Hasina e seu partido, a Liga Awami. Embora tenham chegado ao poder por meio da conquista da maioria eleitoral, logo se tornaram um partido autocrático e mantiveram o poder do Estado por meio de três eleições gerais fraudadas ou encenadas. Além disso, Sheikh Hasina e seu partido se gabam de ser o único partido a favor do espírito da guerra de libertação. Na realidade, eles se apropriaram do espírito e das conquistas da guerra de libertação das massas. Eles tentaram retratar a guerra de libertação a partir de uma perspectiva puramente nacionalista, embora tenha sido uma guerra popular liderada pela aspiração por igualdade, liberdade e justiça. Após a independência, as características de classe do Estado não foram transformadas, pois um grupo de governantes nacionais simplesmente substituiu outro grupo de governantes estrangeiros. O aparato estatal e os sistemas jurídicos também continuaram a carregar o legado do domínio colonial paquistanês e britânico. Em seus últimos 16 anos de governo, a Liga Awami usou todos esses órgãos da política estatal para reprimir as opiniões contrárias. Eles justificaram isso com sua retórica nacionalista e rotulando todos os outros como forças antiliberação.

Embora Bangladesh tenha alcançado um alto crescimento do PIB na última década, isso se deveu principalmente à mão de obra barata nos setores de vestuário e à exportação de mão de obra pouco qualificada para o Oriente Médio. Ambos os grupos sofreram condições de trabalho desumanas. Embora o colapso do Rana Plaza, no qual 1.134 pessoas morreram em 2013, tenha obtido grande cobertura da mídia internacional, outras mortes causadas por incêndios criminosos e repressão policial passaram despercebidas. O governo reprimiu muitos sindicatos (incluindo o sequestro de um líder sindical), assumiu o controle da maioria dos outros sindicatos e proibiu a atividade sindical em algumas áreas. Mesmo no ano passado, trabalhadores do setor de vestuário foram mortos e presos por exigirem um aumento na idade mínima. Recentemente, a economia de Bangladesh está enfrentando uma crise, pois sua estratégia de desenvolvimento de curto prazo, financiada por empréstimos, está cobrando seu preço. As potências imperialistas e expansionistas, como os EUA, a China e a Índia, consideram Bangladesh uma região geopolítica de interesse. A Índia, o país que faz fronteira com Bangladesh, tem sido o mais influente na política do país, oferecendo ao governo “legitimidade” aos olhos do Ocidente em troca de contratos que satisfazem apenas os interesses do governo indiano. Embora o partido no poder tenha conseguido ser reeleito para outro mandato sem eleições justas ou inclusivas, a população sofre com o desemprego, a inflação, a desigualdade e a opressão do partido no poder.

A atual situação econômica e a falta de direitos humanos básicos criaram um descontentamento em massa entre a população de Bangladesh, principalmente entre os jovens. Entretanto, o governo liderado por Hasina, após sua recente reeleição, é visto como praticamente incontestável para continuar seu regime de corrupção e exploração. Assim, quando os estudantes lançaram protestos pacíficos por um sistema de cotas justo que priorizasse o mérito, o partido governista recorreu à violência. Primeiro, eles empregaram a liga estudantil, os soldados rasos fascistas do partido fascista no poder. Eles espancaram impiedosamente os estudantes e manifestantes e até os atacaram em hospitais. Dessa vez, no entanto, os alunos resistiram rapidamente e conseguiram arrancar o controle dos dormitórios desse ramo estudantil fascista pela primeira vez em 16 anos de governo Awami. O governo então convocou as forças policiais para impedir o protesto. A polícia usou medidas brutais e começou a matar os manifestantes em 16 de julho. Isso não conseguiu deter a resistência, que só cresceu em número. Os coordenadores do movimento pediram a paralisação total de todas as atividades públicas nos dias seguintes.

Vários membros de partidos políticos também se juntaram ao movimento nesse momento, mas a participação das massas e dos estudantes continuou. As forças armadas atiraram e mataram pelo menos 70 manifestantes naquele dia. A maioria deles eram estudantes, mas fotógrafos, motoristas de riquixá e trabalhadores do transporte também foram mortos. Os manifestantes também mataram dois policiais durante os confrontos. A partir da noite de sexta-feira, o governo decretou toque de recolher e convocou o exército.

No entanto, confrontos e mortes também foram registrados no sábado.

Como apenas parte de Bangladesh recuperou o acesso à Internet após um blecaute governamental de cinco dias, é difícil obter notícias confiáveis. A mídia que opera no país é rigidamente controlada pelo governo. O governo também não fornece informações sobre o número de mortos, nem permite que as autoridades médicas o façam. Há relatos de que a polícia confisca os registros de óbitos dos hospitais. De acordo com um importante jornal de Bangladesh, pelo menos 197 pessoas morreram nos protestos. Entretanto, estima-se que o número real seja muito maior. A população e os jornalistas dizem que há anos não presenciavam um nível de violência tão grande. Estão surgindo fotos e vídeos que mostram pilhas de cadáveres no chão de um hospital e a polícia disparando continuamente à queima-roupa contra pessoas desarmadas. Conforme noticiado pela DW, as forças armadas também usaram veículos de manutenção da paz da ONU para atacar manifestantes em Bangladesh.

Além da resistência em campo, os jovens estão rejeitando e derrubando qualquer narrativa do partido fascista e do Estado autoritário. As massas de Bangladesh demonstraram imensa solidariedade ao movimento estudantil, vendo-o como uma resistência legítima contra a líder autocrática Sheikh Hasina. A população local forneceu comida e abrigo gratuitos e ajudou os feridos a chegarem aos hospitais. As pessoas expressaram desobediência maciça e não cooperação com o Estado durante o movimento. A classe trabalhadora demonstrou incrível solidariedade com os estudantes no protesto. Eles os apoiaram ativamente e, em algumas áreas, participaram com os estudantes. Durante o movimento, os estudantes usaram várias táticas de ação direta e ajuda mútua que os ajudaram a resistir com sucesso.

Em 21 de julho, a Suprema Corte decidiu a favor da reforma das cotas. Embora a distribuição proposta reduza a cota para descendentes de combatentes da liberdade exigida pelos manifestantes, ela também reduz a cota para grupos desfavorecidos de cidadãos, o que é injusto.

Além disso, após os assassinatos em massa da semana passada, a situação foi muito além da reforma das cotas, e um grande número de pessoas agora exige a renúncia da primeira-ministra Sheikh Hasina. No entanto, por meio do controle da mídia e da força excessiva, o governo conseguiu manter algum terreno. A polícia prendeu centenas de estudantes. Um dos coordenadores também foi sequestrado e torturado pelas forças armadas. O governo está tentando passar a imagem de que as coisas estão se normalizando e, provavelmente, em breve terá que retomar a conexão com a Internet em todo o país e acabar com o toque de recolher, já que as empresas estão sofrendo grandes perdas devido à paralisação. Quando a Internet voltar, os coordenadores e manifestantes enfrentarão uma dura batalha contra uma ditadura desmascarada que tem o sangue de centenas de pessoas em suas mãos.

Não acredito que Bangladesh possa voltar ao normal depois dessa matança e violência do partido governista. O povo de Bangladesh deve decidir se o totalitarismo de um partido fascista será o destino do país ou se o povo recuperará seu poder. O movimento, que começou como um protesto por oportunidades iguais de emprego, transformou-se em um levante em massa contra o governo fascista de Hasina e a violência do Estado, no qual o povo de Bangladesh expressa seu desejo de viver com liberdade, direitos e dignidade. Entretanto, para alcançar esse destino, precisamos de uma transformação democrática do Estado, desmantelando as forças armadas de elite que cometem assassinatos extrajudiciais e reestruturando todas as instituições para que ninguém jamais tenha o poder de cometer tais atrocidades. Precisamos eliminar as políticas neoliberais e avançar em direção a uma economia para o povo e os trabalhadores, não para a classe capitalista. Entretanto, para que tudo isso aconteça, precisamos de um movimento obreiro forte e de um movimento de direitos civis forte. Até o momento, o povo e a sociedade têm demonstrado uma resistência incrível contra a violência do Estado.

Essa resistência marca um novo começo na luta por uma Bangladesh mais igualitária, justa e livre. O futuro é incerto, mas se esse movimento prova alguma coisa, é que as pessoas organizadas que lutam por uma causa justa podem demonstrar uma resistência inimaginável. Rejeitamos um futuro de totalitarismo e não esperamos nada menos do que uma revolução popular.

24 de julho de 2024

O escritor é membro do grupo anarquista Auraj network.

Sobre a Auraj: Auraj (Auraj significa anarquia em bengali) é uma rede anarquista de estudantes de Bangladesh e outras pessoas de diferentes profissões. A Auraj publicou em bengali várias traduções de pensadores anarquistas, como Bakunin, Kropotkin, Rudolf Rocker e outros. Auraj também publica frequentemente artigos sobre o cenário político e econômico de Bangladesh. A Auraj tem sido solidária com os recentes movimentos trabalhistas (movimentos de trabalhadores de fábricas de vestuário e juta), estudantis e de direitos civis em Bangladesh. Embora os membros da Auraj tenham se envolvido diretamente como indivíduos em muitos desses movimentos, incluindo a resistência atual, a atividade da Auraj como grupo limita-se principalmente a publicações.

Fonte: https://www.iclcit.org/es/levantamiento-popular-contra-un-estado-autocratico-presente-pasado-y-futuro-de-banglades/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Varrendo folhas secas
lembrei-me do mar distante:
chuá de ondas chegando.

Anibal Beça

[EUA] Lançamento: “Beneath the Mountain (Sob a Montanha) | Uma Leitura Anti-Prisão”

Mumia Abu-Jamal (Editor), Jennifer Black (Editor)

Beneath the Mountain é um guia de leitura para compreender a evolução dos princípios anti-prisão. Este núcleo essencial de textos primários fornece um arco de escritos insurrectos de dissidentes e revolucionários que experimentaram o encarceramento e o terror do Estado em primeira mão. Com contribuições de John Brown, Frederick Douglass e Crazy Horse, de Assata Shakur, Malcolm X e Leonard Peltier, inclui também um comunicado inédito de Angela Davis, escrito da prisão na altura em que ela estava a forjar a crítica anti-prisão que desde então inspirou um movimento nacional.

Beneath the Mountain oferece um registo dos fundamentos históricos do movimento abolicionista contemporâneo. O que emerge destes textos é uma visão emancipatória que inspira o trabalho que está a ser feito hoje, uma visão centrada na organização e na solidariedade como antídoto para a repressão. Um recurso inestimável para leitores de ambos os lados dos muros da prisão, este compêndio de resistência e visão duramente conquistada será essencial para todos os que procuram desenvolver uma crítica abolicionista e aprofundar a compreensão da natureza da repressão e da libertação.

Beneath the Mountain

An Anti-Prison Reader

Mumia Abu-Jamal (Editor), Jennifer Black (Editor)

Editora: City Lights

Formato: Livro

Encadernação: pb

Páginas: 496

Lançado: 16 de julho de 2024

ISBN-13: 9780872869264

$18.95

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Fumaças vermelhas
da tempestade de pó
devoram o sol.

Masuda Goga

[Espanha] Crônica da Homenagem aos anarcossindicalistas, anarquistas e perseguidos pelo franquismo em Chiclana 1936

Em 20 de julho passado, o SOV da CNT-AIT de Chiclana, voltou a convocar um ato no cemitério da localidade. O ato, contou com a participação e assistência de familiares, além de companheiros da CNT-AIT de Cádiz, e companheiros envolvidos em trabalhos e associações da Memória Histórica, tal é o caso de Jerez Recuerda.

Após a apresentação e agradecimento aos presentes pela participação no ato, se iniciou com a leitura de um manifesto por parte do companheiro Benito, fazendo referência “ao golpe de estado de 1936, a repressão durante o conflito bélico e após o qual o bando fascista vencedor, pôs em marcha um aparato de perseguição, repressão e morte contra os vencidos, que transpassou as fronteiras do Estado espanhol, com o exílio forçado de milhares de combatentes e suas famílias, e quando não, milhares deles, terminaram suas vidas nos campos de extermínio nazis e cárceres fascistas de toda Europa”.

Os que ficaram em território espanhol sofreram um regime de terror carente de respeito para qualquer lei de direitos humanos. Encarceramento e julgamentos sumaríssimos, com a única garantia de acabar ante os pelotões de fuzilamento e serem jogados na fossa comum ou ao pé das valas. Fossas sem nome, onde jazem nos dias de hoje milhares de centenas de desaparecidos, ao longo e ao largo do Estado espanhol.

Seguidamente, por parte da companheira Leonor, também da CNT-AIT, com experiência na temática da Memória Histórica, fez uma introdução ao que significou o golpe de estado fascista com a posterior repressão na localidade, apesar de que é “zona na qual não houve guerra”. Assim foi resumindo tudo no triste e famoso discurso que definia o caráter genocida dos golpistas e seus sequazes… pronunciado pelo criminoso de guerra franquista Queipo de Llano.

Por parte do sindicato da CNT-AIT de Chiclana, se dirigiu aos presentes o companheiro Rafa, no sentido de como setores da sociedade e da classe política se expressa à vontade de fazer de “uma (des) memória histórica, para torná-la memória”. Expôs aos presentes o porta-voz cenetista “como já no ano de 1936, a CNT serviu como ferramenta de luta da classe obreira, algo que segue sendo na atualidade e que continua a linha que verdadeiramente deu vitórias à classe trabalhadora como centenária organização, sem hierarquias, revolucionária e de ideologia anarquista”.

“Claro que os libertários não são perfeitos, cometeram erros, mas sobre a mesa estão os múltiplos exemplos da luta anarcossindicalista durante a Revolução espanhola de 1936 – 1939, que são de sobra conhecidos, destacando a revolução social ocorrida tanto em Aragão e na Catalunha, e inclusive a resposta armada que fez a classe trabalhadora organizada na CNT junto à Federação Anarquista Ibérica (FAI) para frear o golpe de Estado de 18 de julho de 1936 perpetrado pelo bando militar fascista, o Clero e a burguesia”.

“Não se pode esquecer o papel jogado por Mujeres Libres que organizaram e lutaram tanto para a liberação da mulher como para uma revolução anarquista durante a Guerra Civil espanhola. O trabalho que fizeram é verdadeiramente inspirador combinando a luta contra a opressão da mulher e contra o fascismo em uma luta pela liberdade. Assim como as Juventudes Libertárias, fermento permanente da revolução social, consciência viva dos princípios libertários”.

“Houve, há e haverá homenagens e reconhecimento a figuras do anarquismo em diversas cidades e povoados… mas nestes reconhecimentos falta sempre o que define a idiossincrasia destas pessoas, quer dizer, o ser anarquistas ou anarcossindicalistas.”

“Reconverter anarquistas em lutadores pelas liberdades, escritoras, médicos, defensoras da classe obreira, etc., é para nós uma boa maneira de esquecê-los, é uma boa maneira de construir uma “memória boa e aceitável”.

“A lembrança é a experiência vivida e está destinada a morrer com seus testemunhos. A memória é a rememoração coletiva do passado, pode ser ou não ser, um elemento permanente da consciência social.”

“A realidade demonstrou que somos uma comunidade não da lembrança, mas do esquecimento organizado, sistemático e deliberado. O franquismo quis destruir a memória anterior a 1939 em seu afã por aniquilar os vencidos. Mas o esquecimento organizado não foi executado só pelo franquismo, e se esteve esvaziando de conteúdo a homens e mulheres anarquistas. A palavra anarquia e seus derivados – libertários, ácratas, anarquistas, anarcossindicalistas cenetistas, faístas – é um copo difícil de beber para as posições políticas institucionais inclusive para algumas que não o são.”

“…Os espaços organizativos e de luta que se estruturam ao redor do anarquismo devem estar presentes em todos os cenários da memória. Há que atrever-se e querer construir nossos próprios mapas, já que o que esquecemos, já não é nosso… para evitar que nos arrebatem o que somos: anarquistas e anarcossindicalistas, os esquecidos dos esquecidos…”.

“Nossos companheiros e companheiras, foram e são também vítimas da negação de sua identidade. Muitos deles lutavam pelo comunismo libertário e não duvidaram em enfrentar o fascismo: Sua identidade, anseios e ideologia eram libertários. Anarquistas e anarcossindicalistas padeceram também, a repressão, a morte e o exílio”.

Finalizou dizendo que: “os anarquistas e anarcossindicalistas, que pagaram com suas vidas o funesto golpe fascista de 1936 não podem passar despercebidos: seu rastro de sangue continua, 88 anos depois, reclamando memória, justiça e dignidade, daí recordá-los como o que foram.”

Concluiu o ato com a audição em silêncio do poema “Desaparecidos” de Mario Benedetti, e a canção “El Anarquista”.

SOV CNT-AIT de Chiclana

20 julho 2024

Fonte: https://www.cntait.org/cronica-del-Homenagem-a-los-anarcossindicalistas-anarquistas-y-perseguidos-por-el-franquismo-en-chiclana-1936/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

A vasta noite
não é agora outra coisa
se não fragrância.

Jorge Luis Borges

[França] Que Venezuela queremos?

Enquanto libertário, a Venezuela que desejaria não é a atual oficialista nem a que propõe a Oposição institucional. Nem uma nem outra são projetos de justiça social e ainda menos de uma sociedade de igualdade e funcionamento horizontal. As duas inscrevem a economia nas estruturas do capitalismo global: com a primazia do Capital sobre o Trabalho. Quer dizer: tudo o contrário do que os libertários desejamos.

Dito isto e sendo consciente de que desejar não é suficiente para conseguir o que se deseja, é óbvio que só avançaremos para isso defendendo nosso projeto de sociedade e que é mais possível fazer isso em uma sociedade dominada pelo projeto neoliberal (o da oposição venezuelana) por ser claramente capitalista. Posto que na sociedade dominada pelo projeto socialista-chavista não só as liberdades democráticas são menores ou inexistentes, mas que, além de ser mais limitada nossa possibilidade de ação, é o ter que lutar contra esta demagógica falácia o que faz aparecer o projeto neoliberal como melhor alternativa cidadã e que o povo explorado renuncie a lutar por sua emancipação.

Isto é o que está acontecendo na Venezuela, onde a necessidade de lutar contra a Ditadura, para voltar à Democracia, bloqueia o processo histórico emancipador, como aconteceu na Rússia, China, Cuba…

Daí a necessidade de ser conscientes da urgência de sair das ditaduras populistas para que o dilema volte a ser capitalismo e barbárie ou socialismo autenticamente libertário.

Octavio Alberola

Anexo abaixo a mensagem que me enviou desde a Venezuela o companheiro Rafael Uzcátegui:

Mensagem como venezuelano a meus amigos dentro do movimento anarquista e punk internacional

Feliz dia. Pessoalmente, durante muitos anos, fui vítima da incompreensão sobre nossos alertas e denúncias sobre o que significou o modelo de dominação bolivariano. Hoje, os setores populares do país são os principais protagonistas da rebelião contra uma monumental fraude eleitoral ocorrida em 28 de julho passado, do qual para os interessados existem todas as evidências fáticas.

Ontem, 29 de julho, ocorreram pelo menos 210 protestos em todo o país. A indignação das multidões fez realidade qualquer sonho anarquista sobre a revolta: Estátuas de Hugo Chávez derrubadas, ataques e incêndios contra instituições estatais e sedes policiais, em protestos autoconvocados, sem centro e de atuação descentralizada. Para hoje se espera que a resposta repressiva seja cruel e feroz. Peço-lhes que deem uma olhada horizontal ao que está acontecendo, e não só à disputa das elites sobre o poder. Só gente como nós lhe pode dar um conteúdo autônomo, e potencialmente anárquico, a essa energia popular transbordada nas ruas da Venezuela. Tudo o que possam amplificar das lutas DAS PESSOAS ajudará a dissipar a miopia imposta pelas esquerdas hegemônicas internacionais sobre a Venezuela, da qual lamentavelmente boa parte do anarquismo internacional decidiu amplificar dita cegueira.

Finalmente, não há possibilidade de atuação para os movimentos sociais autônomos e autogestivos em ausência dessas liberdades democráticas que qualificamos como “burguesas”. Só regressando ao jogo democrático, com direitos humanos, é que pode voltar a se pensar para a Venezuela uma possibilidade de construir uma alternativa antiautoritária, de inspiração ácrata, para as maiorias.

Um abraço

Rafael Uzcátegui

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

no parque vazio
duas árvores abraçam-se
em prantos de chuva

Eugénia Tabosa

“Há ligações históricas entre anarquismo e espiritismo”

Instituto de Estudos Libertários (IEL) entrevista Dora Incontri

Julho de 2024

Quem é Dora Incontri?

Paulistana, descendente de italianos, radicada em Bragança Paulista, há 23 anos. Jornalista, educadora, escritora, com mais de 40 obras publicadas. Mestre, doutora e pós-doutorada em Educação pela Universidade de São Paulo. Espírita, médium. Editora. Liderança no chamado movimento espírita progressista. Anarquista, com bom diálogo com o marxismo. Psicanalista. Nas artes, poeta. Cantora ocasional. Coordenadora da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e da Universidade Livre Pampédia – um projeto livre e alternativo de educação.

Como conheceu o anarquismo?

Foi curioso. Estava eu saindo da adolescência, e estávamos nós, brasileiros, superando a ditadura militar, quando assisti, com minha mãe, a série Anarquistas, graças a Deus, na TV, inspirada no livro de Zélia Gattai. Nunca fui muito televisiva. Agora, aos 61, posso dizer que faz décadas que não vejo nenhum canal aberto. Na época, eu fazia faculdade de Jornalismo e minha mãe, a Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo. Nós duas, discutíamos o tempo todo filosofia, sociologia, política… e a série nos atraiu. Além disso, suspeitávamos que meu bisavô, avô de minha mãe, a quem homenageio com meu pseudônimo Incontri, tivesse sido anarquista. Talvez socialista. Mas com toda a certeza, antifascista. Logo em seguida, ela foi com meu pai para Milão, onde realizou pesquisas no Instituto Feltrinelli e lá fez descobertas interessantíssimas sobre o anarquismo em nosso país, no início do século XX. Havia naquele instituto um material enorme de revistas, jornais e livros da época, publicado por imigrantes anarquistas no Brasil. Ela trouxe uma penca desse material, em microfilme – as novas gerações não saberão o que era isso.

Ao mesmo tempo, sempre fui apaixonada por literatura russa. Tinha desde os 15 anos, as obras completas de Tolstoi e Dostoievski. Lia Gorki e Maiakovski. Já na área de Educação, conhecia Makarenko.

Entrei, portanto, junto com minha mãe, para o universo anarquista pelas pesquisas dela na Itália e pela porta de Tolstoi. Não havia absolutamente nada publicado no Brasil de Tolstoi em sua fase política. Encontrei na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, várias obras deste período, traduzidas para o francês. Isso nos tempos em que ainda frequentávamos bibliotecas para garimpar raridades, que hoje estão todas on-line.

Daí foi um passo para Malatesta, Bakunin, Kropotkin…

Nos fale um pouco sobe as conexões possíveis entre o espiritismo e o anarquismo cristão de L. Tolstoi.

As conexões não são evidentes, diretas, entre o espiritismo e o anarquismo tolstoiano que, aliás, sei bem, não agrada alguns anarquistas que não admitem qualquer diálogo com algum tipo de espiritualidade. Mas há ligações históricas entre anarquismo e espiritismo, sim. Não se poderia dizer que Kardec fosse um anarquista, mas ele estava no contexto do chamado (por Marx e Engels) socialismo utópico, em que o anarquismo estava tomando forma e autores como Proudhon e Fourier, por exemplo, tinham tanto caraterísticas socialistas como libertárias. Um amigo e parceiro de Kardec foi Maurice Lachâtre, editor e intelectual anarquista. Ainda na sua fase pré-espírita, Rivail (o nome de fato de Kardec) e Lachâtre fundaram um banco de trocas, de pequenos créditos e intercâmbio de serviços e produtos, uma ideia que um pouco mais tarde seria proposta como Banco do Povo, por Proudhon. Recentemente, foi descoberta em acervo histórico de Kardec, que está sendo traduzido e publicado lentamente pela Universidade Federal de Juiz de Fora, uma comunicação mediúnica de Proudhon, então recém falecido. Ou seja, era uma personalidade que estava presente para os espíritas de então.

Mas há outras e mais profundas conexões históricas entre espiritismo e anarquismo. Na Espanha, sobretudo em Barcelona – onde Lachâtre esteve exilado e onde recebeu uma encomenda de obras de Kardec e elas foram queimadas pela Igreja, no último ato da Inquisição espanhola em pleno século XIX – muitos grupos espíritas eram claramente anarquistas. Pesquisadores apontam que a proposta descentralizada e desierarquizada de Kardec para as organizações espíritas e suas ideias de transformação social se casavam muito bem com aquele anarquismo do final dos anos 1880 e 1890 na Espanha. Ao que se sabe, por exemplo, em pesquisas mais recentes, uma famosa médium e militante espírita espanhola, Amalia Domingo Soler, fundou junto com duas amigas anarquistas e feministas uma associação de defesa das mulheres. No Congresso Espírita de 1888, realizado em Barcelona, aparecem nas Atas algumas ideias cooperativistas.

O diálogo com o anarquismo tolstoiano já foi feito mais tarde, na primeira metade do século XX, pelo educador brasileiro João Penteado, um dos fundadores da Escola Moderna no Brasil. E mais recentemente, por mim, porque entendo que a visão de cristianismo que tinha Tolstoi, como algo distante das estruturas hierarquizadas e dogmáticas das igrejas, tomando a ética de Jesus em sua radicalidade, sem compromisso com poder algum, permite um excelente diálogo com uma postura semelhante de Kardec.

>> Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui:

https://ielibertarios.wordpress.com/2024/07/31/instituto-de-estudos-libertarios-entrevista-dora-incontri/

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agência de notícias anarquistas-ana

pardal no fio
ouve o telefone
mas não dá um pio

Carlos Seabra

 

[EUA] Apoio ao companheiro Jesse Cannon (Tall Can)

Jesse Cannon é um antifascista militante que está cumprindo uma sentença de cinco anos por dois casos distintos. O primeiro está relacionado à defesa de sua comunidade contra grupos de extrema direita e supremacistas brancos. O segundo está relacionado à suposta defesa de Cannon de sua comunidade contra outra ameaça externa crível à segurança dos participantes do parque durante um evento no qual estavam presentes idosos e várias famílias com crianças.

Cannon é um artista de hip-hop, escritor e fotógrafo que atende pelo nome de “Tall Can” ou “T.C.”. Ele também é um ativista comunitário de longa data, anarquista e defensor do parque. Nos últimos anos, ele se envolveu na campanha para repelir a invasão da supremacia branca no Barrio Logan, uma área predominantemente latina da chamada San Diego, ocupou a terra Kumeyaay e protegeu o Chicano Park, um marco histórico que representa gerações de luta política para o movimento Chicano. Ele também tem a maior concentração de murais chicanos do mundo. Nos últimos anos, o parque tem sido alvo da Guarda Americana, dos Proud Boys e de outro grupo de supremacia branca chamado Border Town Patriots. Eles foram ao parque com o objetivo de antagonizar ou atacar a comunidade local, que conseguiu se mobilizar em oposição à presença deles. Marcha patriota. Em 9 de janeiro de 2021, três dias depois que manifestantes pró-Trump invadiram o edifício do Capitólio dos EUA, os apoiadores do ex-presidente na Califórnia organizaram uma “marcha patriota” na área de Pacific Beach, em San Diego. Entre os grupos que organizaram a marcha estavam a Guarda Americana, os Proud Boys e outro grupo racista de direita local chamado Defend East County.

Ativistas comunitários locais e grupos antifascistas organizaram um contraprotesto. Durante várias horas, os dois lados entraram em conflito. A polícia tentou separar os lados opostos, mas concentrou sua brutalidade nos manifestantes antirracistas. Após quase sete horas de protestos e brigas de rua, a área acabou sendo liberada. O governo local, a mídia e os ativistas de direita atribuíram a culpa pelo incidente ao “Movimento Antifa”. Em 6 de dezembro de 2021, após uma audiência com o grande júri, o promotor público de San Diego, Summer Stephan, anunciou o indiciamento de onze ativistas antifascistas por 29 acusações criminais relacionadas ao incidente ocorrido no início do ano. A acusação afirmava que de 15 a 20 membros da Antifa de San Diego e Los Angeles organizaram e executaram atos de violência contra os participantes do comício da Marcha Patriótica. Os ativistas da Antifa supostamente usaram pedras, vidros, spray de pimenta, bastões e outras armas para agredir pelo menos 16 vítimas. A acusação afirma que uma conspiração criminosa começou com indivíduos que curtiram e compartilharam publicações nas mídias sociais que convocavam um contraprotesto contra a manifestação pró-Trump. Outros supostamente entraram em uma conspiração ao comparecerem para participar do protesto antirracista e se envolverem em ações violentas.

Cannon foi um dos indiciados e foi acusado de conspiração criminosa, agressão criminosa por meios que provavelmente produziriam grandes lesões corporais e duas acusações de agressão com arma letal. A acusação também apontou que Cannon estava em liberdade sob fiança em um caso anterior por seu papel no ativismo comunitário. Perseguição política. Depois que a acusação foi anunciada, os organizadores da comunidade expressaram sua indignação com a acusação unilateral. Embora ambos os lados tenham se envolvido no confronto em 9 de janeiro de 2021, o promotor público optou por processar apenas aqueles que foram rotulados como membros da “Antifa”. Várias pessoas, que foram vítimas de agressões não provocadas perpetradas por membros da American Guard e dos Proud Boys, testemunharam o promotor público fechar os olhos para esses ataques.

A promotoria também não informou ao grande júri e às testemunhas de defesa dos onze réus que muitos dos que foram rotulados como “vítimas” eram membros da Guarda Americana e foram agressores durante o conflito. Embora a promotoria tenha se esforçado muito para caçar as supostas “vítimas da Antifa”, eles evitaram entrevistas com várias vítimas dos extremistas de direita porque isso prejudicaria a agenda da promotoria.

A ação da promotora distrital de San Diego, Summer Stephan, não deveria ser surpresa, já que ela construiu toda a sua campanha eleitoral para seu cargo com base no medo contra a Antifa e George Soros. Em 2018, Stephan usou imagens de black blocs com bandeiras da Antifa com legendas como “A segurança pública de San Diego está sob ataque” como parte de sua campanha eleitoral. Sua campanha também acusou seu oponente de ser apoiado por George Soros, o filantropo judeu que é frequentemente usado pela extrema direita em sua retórica antissemita codificada. Embora Stephan não tivesse problemas em vilanizar a Antifa ou George Soros para promover sua campanha, também parecia que ela não tinha problemas em receber dinheiro de supremacistas brancos ou usar sua posição para protegê-los de processos.

Um dos que doaram para a campanha de Stephan foi o líder do Partido Republicano de San Diego e autodenominado “rei dos republicanos” local, Tony Krvaric. Semanas antes do incidente de janeiro de 2021, Krvaric tuitou que a polícia deveria se concentrar nos “terroristas antifa”. Não deveria ser surpresa que Krvaric não gostasse de antifascistas. Em 2020, surgiu um vídeo de um jovem Krvaric e seus amigos fazendo saudações ao poder branco, desenhando suásticas em seus corpos, com uma foto de Hitler aparecendo na tela.

Um dos filhos de Krvaric, que era reservista, foi investigado pelos fuzileiros navais por causa de uma inscrição no Patriot Front, outro grupo neonazista. Seu outro filho trabalhou para o Escritório de Gestão de Pessoal de Trump, participou da insurreição de 6 de janeiro e tinha perfis em sites neonazistas nos quais elogiava Hitler, apoiava a deportação de pessoas não brancas e expressava repulsa à população LGBTQ+.

Essa não é a única conexão de Stephan com a comunidade supremacista branca local. Em maio de 2018, poucas semanas depois que a promotora lançou seu site de campanha de conspiração, ela aceitou uma contribuição de campanha de Kristopher Wyrick, presidente da seção do sul da Califórnia da Guarda Americana. Seis meses antes da contribuição, quando Summer Stephan estava atuando como promotora interina, Wyrick e vários outros membros da Guarda Americana agrediram várias vítimas em um ataque cruel. Apesar dos inúmeros vídeos do ataque, o promotor público optou por não apresentar acusações contra os supremacistas brancos. Esse não foi um incidente isolado. Em setembro de 2020, membros da Guarda Americana atacaram manifestantes da justiça racial, incluindo um homem em uma cadeira de rodas. Em julho de 2021, Wyrick e vários outros membros da Guarda Americana atacaram manifestantes pró-palestinos durante um comício, usando armas que incluíam spray de urso. Apesar das reportagens da mídia que documentaram os incidentes, o escritório do promotor público mais uma vez se recusou a processar. No total, há pelo menos cinco incidentes documentados em que o gabinete de Stephan optou por não processar Wyrick e sua Guarda Americana por agressões violentas. Para piorar a situação, muitos dos indivíduos que eles decidiram não processar eram as supostas vítimas do incidente de 9 de janeiro de 2021 e testemunhas de acusação.

No final de 2023, Cannon se envolveu em outra ação em defesa de sua comunidade contra uma ameaça externa que levou a outras acusações, incluindo o suposto uso de uma arma mortal, vandalismo, brandir uma arma de fogo oculta e agressão e agressão. As acusações crescentes e as possíveis melhorias na sentença levaram Cannon a tomar a decisão de fazer um acordo. Em fevereiro de 2024, Jesse Cannon aceitou um acordo de não cooperação no qual recebeu uma sentença de dois anos pelo caso de janeiro de 2021 e três anos pelas acusações adicionais do final de 2023. No total, Cannon foi condenado a cinco anos de prisão estadual por defender sua comunidade contra agressores fascistas e racistas.

Escreva para Jesse:

Jesse Cannon #BX4822

Sierra Conservation Center

5150 O’Byrnes Ferry Road

Dormitório 27, Camada superior 7U

Jamestown, CA 95327 – EUA

Fonte: https://www.abcf.net/blog/support-for-comrade-jesse-cannon-tall-can/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

olhos de gato
luz dos faróis na noite
pulo no mato

Carlos Seabra

[Reino Unido] Freedom busca contribuições para a edição impressa de outubro

Nosso tema desta vez: “O internacionalismo deles – e o nosso”

As classes dominantes e a extrema direita estão se ajudando avidamente em todo o mundo, porque não há limites para seu ódio e fome de poder. Autoritários, oligarcas e teofascistas se importam muito pouco com fronteiras quando se trata do controle do corpo das mulheres ou da construção de fortalezas para si mesmos contra a maré do colapso da biosfera.

Enquanto isso, o restante de nós está praticando a ajuda mútua além das fronteiras: resistindo à violência das agências de fronteira e das empresas de armamento, ajudando uns aos outros a lidar com a pobreza e a migração forçada, divulgando informações em vários idiomas e redes e enviando dinheiro de volta para a família e os amigos.

Na próxima edição impressa da Freedom, queremos destacar histórias que cruzam fronteiras e mostram conexões internacionais por meio de atos de resistência organizada, sobrevivência e igualdade. Queremos saber sobre suas próprias experiências ou sobre assuntos em que você tem experiência.

Envie suas contribuições (com cerca de 800 a 1600 palavras) para editor@freedompress.org.uk

Tradução > Contrafatual

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2024/07/31/freedom-seeks-contributions-to-october-print-issue/

agência de notícias anarquistas-ana

A frágil libélula
repousando no capim —
Bailado do vento.

Fagner Roberto Sitta da Silva

[Chile] Sobre as últimas transferências dos anarquistas e subversivos presos no interior do Cárcere La Gonzalina e a manutenção do isolamento ao companheiro Francisco Solar.

Desde o início de julho de 2024, o Módulo 1 de Alta Segurança no Cárcere La Gonzalina começou a ser desocupado, permanecendo apenas os companheiros anarquistas e subversivos em seu interior: Marcelo Villarroel, Juan Aliste, Joaquín García e Juan Flores. Depois de uma série de rumores, finalmente em 29 de julho de 2024, Marcelo Villarroel, Juan Aliste, Joaquín García e Juan Flores, provenientes do Módulo 1 de Alta Seguridad, junto com Mauricio Hernández Norambuena, do Módulo 2 de Máxima Seguridad, são transferidos para recentemente anunciado Módulo 33, que conta com um regime de Alta Segurança onde permaneceram todos agrupados.

O companheiro Francisco Solar, por sua vez, não está incluído nessas transferências nem nesses grupos, apesar de estar condenado, permanecendo no Módulo 2 sob regime de isolamento.

Essas medidas são implementadas como parte de uma relocalização de presos, logo após o anúncio do governo sobre a inauguração iminente de uma nova prisão de alta segurança e o endurecimento das condições de isolamento nos diferentes pavilhões de segurança máxima ao longo do país.

Chamamos para aprofundar a solidariedade com os companheiros presos, com as diferentes campanhas específicas, pela saída da prisão de Marcelo Villarroel sequestrado sob as leis de Pinochet e pela saída imediata do isolamento de Francisco Solar.

Prisioneiros anarquistas e subversivos às ruas!

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/07/26/chile-semana-internacional-de-agitacao-e-solidariedade-contra-o-regime-de-isolamento-do-companheiro-francisco-solar-10-a-17-de-agosto/

agência de notícias anarquistas-ana

prosa de chuva
deságua em trova
trêmulo trovão

Luciana Bortoletto

[EUA] “Sin miedo a las ruinas | Anarquismo, vanguardias artísticas y la crisis de representación en España (1930-1937)”, de Luis González Barrios

Ao falar de “vanguardas artísticas”, ou “vanguardas históricas”, não é estranho o emprego do adjetivo qualificativo “anárquico” que, às vezes ambiguamente, alude a certa atmosfera de ruptura no primeiro terço do século XX. No caso espanhol esta situação remete à coexistência, durante a Segunda República (1931–1939), de ismos estéticos muito politizados e um importante movimento anarquista. Onde convergem ou se distanciam o vanguardismo de galerias, pavilhões ou revistas e as ações revolucionárias da Confederação Nacional do Trabalho (CNT). Ate que ponto as práticas do obreirismo libertário se correspondem com o teatro experimental de García Lorca, o cinema de Luis Buñuel, ou a escultura de Alberto Sánchez? E com a literatura feminista de Lucía Sanchez Saornil, o filmado proletário de Helios Gómez, ou a pintura anticolonial de Wifredo Lam? “Sin miedo a las ruinas” propõe que a resposta a estas questões se encontra no comum questionamento, por parte de vanguardas e anarquistas, não já do sistema de representação dominante, mas do conceito mesmo de “representação” e sua pretendida transparência. Este ensaio-colagem de “textos”, gêneros e autores de vanguarda convidará o leitor a repensar a relação entre arte e política na Espanha republicana. E lá onde a representação se encontre em crise.

Sin miedo a las ruinas

Anarquismo, vanguardias artísticas y la crisis de representación en España (1930-1937)

Luis González Barrios

294 pp.

ISBN: 978-1-4696-7768-2

$65,00

uncpress.org

Tradução > Sol deAbril

agência de notícias anarquistas-ana

passos de pássaro
no telhado lá de casa
embalam sonhos

Marland

[França] Jogos Olímpicos de Paris 2024 | “Espetáculo em toda parte, revolução em lugar nenhum!”

E de repente, na pompa e circunstância da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, a estátua de Louise Michel apareceu (não está claro o que ela está segurando na mão esquerda. Um cajado de pastor com um novelo de lã? E algumas pessoas se alegraram porque (e eu cito) “Pelo menos os jovens verão e ouvirão seu nome”.

De fato, eles verão. E eles a associarão ao Estado, à República, ao Vermelho Branco e Azul… O que é perfeitamente o efeito desejado: torná-la inofensiva ao Poder, transformando-a em um ícone desencarnado…

Espetáculo em toda parte, revolução em lugar nenhum!

CNT-AIT Toulouse

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/06/28/o-dia-em-que-louise-michel-inventou-a-bandeira-anarquista/

agência de notícias anarquistas-ana

Sombra de árvore –
Até mesmo a companhia de uma borboleta
É karma de uma vida anterior.

Issa

Declaração final da Feira do Livro Anarquista dos Bálcãs 2024

De 5 a 7 de julho, Prishtina, no Kosovo, transformou-se em um centro de pensamento anarquista, coordenação e solidariedade ao sediar a 16ª edição da Balkan Anarchist Bookfair (BAB). Esse primeiro encontro anarquista em uma localidade de língua albanesa reuniu mais de 250 participantes de 29 países, desde o Chile até o Azerbaijão. Um total de 32 coletivos e iniciativas expuseram livros e zines, e 18 discussões e eventos foram organizados, mostrando a diversidade abrangente do movimento. No verdadeiro espírito do coletivismo e da ajuda mútua, os participantes se envolveram na organização, tornando esse evento uma demonstração notável do que pode ser alcançado por meio do esforço coletivo.

A realização desse evento em Prishtina é de particular importância. Desde o fim da guerra, o Kosovo tem permanecido em um estado perpétuo de conflito, levando a uma atmosfera duradoura de tensão entre o estado do Kosovo e a Sérvia. As elites de ambos os lados capitalizaram muito essa situação, garantindo e prosperando com a divisão entre as sociedades. O simples fato de camaradas de todos os Bálcãs, inclusive do Kosovo e da Sérvia, terem se posicionado lado a lado, denunciando o nacionalismo e a política estatal, é um poderoso testemunho de nosso compromisso coletivo com a solidariedade, a resistência e a colaboração além das fronteiras artificiais e da política estatal que visa a nos dividir.

A urgência desse encontro não pode ser exagerada. Em um momento em que os fogos da guerra estão devastando o mundo e o espectro do fascismo evidente está se espalhando, os Estados estão se tornando cada vez mais militarizados e a repressão é cada vez maior. Durante a BAB, compartilhamos as experiências de nossas localidades e analisamos como os estados dos Bálcãs estão aumentando sua retórica nacionalista e, ao mesmo tempo, acumulando armas e iniciando discussões para reinstituir o serviço militar obrigatório. Essas ações alimentam as narrativas umas das outras, que são usadas como justificativa para as últimas e instilam medo nas sociedades. Consideramos imperativo que as pessoas dos Bálcãs e de outros países, como coletivos anarquistas e indivíduos, aprofundem a coordenação e fortaleçam as redes de resistência contra o ressurgimento do nacionalismo e do militarismo. Não fazer isso levará inevitavelmente à guerra.

A guerra é uma parte intrínseca do sistema capitalista. Seja ela de baixa intensidade ou de grande intensidade, serve como uma ferramenta importante para a expansão do capitalismo, abrindo novas fontes de exploração, como terra, mar, minerais, todos os seres vivos ou a produção e venda de armas como capital. Não caímos na armadilha de considerar um conflito como um binário entre estados-nação, embora aceitemos suas nuances e contextos de como eles acontecem; nós o vemos como uma guerra do capital contra as sociedades. As guerras na Ucrânia, no Sudão, na Síria, em Mianmar, na África subsaariana, as guerras de cartéis no México e outras compartilham a mesma lógica de dominação e expansão do capital, que só traz morte e destruição.

Reconhecemos que os Estados dos Bálcãs não são meros espectadores secundários do espetáculo da guerra, mas uma parte intrínseca dela; por abrigarem grandes instalações militares mundiais, fornecerem campos de treinamento para forças armadas, oferecerem logística e corredores para transferências de armas e tropas, contribuírem com know-how técnico, desempenharem um papel significativo nas manobras de guerra global e produzirem e venderem armas em todo o mundo, portanto, fazendo parte e possibilitando assassinatos e genocídios. Enquanto os setores privado e estatal trabalham arduamente, de mãos dadas, para transformar até mesmo os menores países dos Bálcãs em uma região séria produtora e/ou compradora de armas, vemos uma pressão cada vez maior sobre as sociedades locais para que aceitem uma nova realidade, cada vez mais militarizada, sob o pretexto de medo e incerteza quanto ao futuro.

Talvez o exemplo mais vil e evidente da lógica de guerra seja o genocídio que está ocorrendo em Gaza e os ataques na Cisjordânia contra o povo palestino, com dezenas de milhares de civis mortos e toda a região destruída, em transmissão contínua em nossas telas; tudo isso apoiado pelas potências imperialistas mundiais e pelo complexo militar-industrial, incluindo os Estados dos Bálcãs, que fornecem apoio político e militar. A guerra genocida de aniquilação em Gaza serve tanto como um lembrete da capacidade colonialista do Ocidente de conduzir guerras de extermínio quanto como um laboratório de tanatopolítica, mostrando o que as classes dominantes atualmente querem e são capazes de fazer com populações inteiras.

Somos solidários ao povo palestino e pedimos resistência em cada localidade dos Bálcãs para interromper o apoio político e militar fornecido pelos Estados dos Bálcãs ao Estado de Israel. Reconhecemos que o inimigo não é apenas a guerra em si, mas também os Estados e os sistemas capitalistas que a perpetuam.

Com tudo isso em mente, convocamos dias transnacionais de ação contra o militarismo e o nacionalismo na primeira semana de outubro (1 a 10 de outubro de 2024). Durante esse período, convidamos todos, em sua própria localidade e à sua maneira, a organizar ações contra as condições de guerra: nacionalismo, militarismo, patriarcado, política de exclusão etc. Convocamos ações contra a indústria de armas e o transporte de armas, contra todos os aparatos militares nacionais, coalizões militares multinacionais e a crescente militarização de nossas sociedades. Como nos anos anteriores, enfatizamos nossa solidariedade com todos os desertores, resistentes à guerra e objetores de consciência.

A militarização dos Bálcãs levou, inadvertidamente, à militarização das fronteiras estaduais, que se tornaram sentenças de morte para os migrantes que usam os Bálcãs como rota para chegar às cidades europeias. Retratados como a fronteira da “Fortaleza Europa”, os países dos Bálcãs assumiram um papel de controle sobre o movimento, o que significa empurrar para trás, roubar, espancar, deter e até mesmo assassinar migrantes, tudo isso encoberto pela linguagem tecnocrática da gestão da migração. Centenas de milhões em fundos foram doados aos países dos Bálcãs, equipando-os com tecnologia de ponta para a militarização e vigilância das fronteiras, ao mesmo tempo em que hospedam as forças da Frontex, em um esforço conjunto para proteger a “Fortaleza Europa”. Agora, os países dos Bálcãs não apenas agem como um impedimento para os migrantes que chegam à Europa, mas também assumem um papel ativo no “processamento” de migrantes por meio do estabelecimento de centros na Albânia em nome da Itália, ou por meio do aluguel de 300 celas de prisão de Kosovo pela Dinamarca para serem usadas por estrangeiros a serem deportados. Compreendendo nossa própria experiência como oriunda de sociedades moldadas pela migração (ou sendo uma), somos solidários com os migrantes que chegam e passam pelos Bálcãs e enfatizamos a necessidade de fortalecer as iniciativas anarquistas transnacionais para fornecer apoio às pessoas em movimento.

A existência agonizante de mulheres, pessoas trans, não conformes com o gênero e queer em sociedades capitalistas patriarcais é ainda mais exacerbada por reformas neoliberais, forças clericais-conservadoras reacionárias e políticas estatais desumanizadoras. Em estados cada vez mais nacionalistas e militarizados, a retórica do declínio demográfico é usada para justificar políticas mais restritivas com relação à autonomia das pessoas que dão à luz. Os corpos são reduzidos a meros recipientes para a reprodução, tanto em termos de nascimento quanto de cuidados, que são explorados pelo capital como trabalho estreitamente controlado por meio do controle direto sobre os corpos. Portanto, a luta anarquista por liberdade e igualdade é inerentemente uma luta feminista. Afirmamos nosso compromisso com a luta contra o patriarcado em todas as suas formas de exploração e desigualdade, bem como nosso compromisso com a luta por justiça reprodutiva, aborto seguro e autogerenciado.

Além disso, enfatizamos que nosso movimento anarquista deve ser um espaço seguro para todos, promovendo ambientes que englobem o ideal de igualdade, livre de machismo, misoginia, homofobia, transfobia e queerfobia. Entendendo que ainda há trabalho a ser feito nesse sentido e a fim de promover essa cultura, nós nos comprometemos com a justiça transformadora em nossas comunidades.

Lutar contra o capitalismo significa combater sua lógica e seu controle em várias frentes. Portanto, nossa luta é parte integrante da multiplicidade de lutas dentro da sociedade, com cada localidade vivenciando um contexto diferente. Portanto, a luta anarquista contra o capitalismo é também uma luta contra toda a violência e destruição do Estado. Esse BAB reafirmou nosso compromisso com a abolição das prisões e enfatizou nosso apoio público aos prisioneiros anarquistas na região e fora dela. Como anarquistas, também devemos estar na vanguarda da luta contra a destruição ambiental. Portanto, devemos desenvolver estratégias que não apenas abordem crises imediatas (que muitas vezes sobrecarregam nossas capacidades), mas também criem análises de longo prazo em várias camadas, bem como estruturas de resistência contra o capitalismo. Isso só pode ser alcançado com o reconhecimento da interconexão de nossas lutas, que deve ser refletida em todos os aspectos de nossa organização e ações.

Durante esse BAB, também discutimos a importância de expandir e estabelecer ainda mais nossa própria infraestrutura autônoma. Os squats e os centros sociais autônomos são de importância significativa nessa infraestrutura, proporcionando espaços para organização, construção de comunidades e resistência. Entretanto, esses espaços enfrentam desafios significativos, desde a repressão estatal até as contradições internas. Confirmamos a necessidade de fomentar essas iniciativas, reconhecendo seu papel no movimento e nas comunidades em que vivemos.

Na mesma nota, enfatizamos a importância de estabelecer nossas próprias iniciativas de impressão e mídia anarquista, como projetos de rádio, que são cruciais para divulgar notícias e experiências sobre a luta de nosso movimento, bem como para a sociedade em geral. Da mesma forma, também reconhecemos a necessidade de cuidar de nossa própria história por meio de projetos de arquivo. Esses projetos podem servir não apenas como plataformas para registrar e escrever a história por meio de nossas próprias narrativas, mas também como fontes de conhecimento sobre táticas, práticas e análises que ainda podem ser bem utilizadas.

A Feira do Livro Anarquista dos Bálcãs de 2024 reafirmou nossa força coletiva e nosso compromisso com a construção de um mundo livre de opressão, destacando nossa dedicação à resistência, por um lado, e à solidariedade, por outro. Ao olharmos para o futuro, devemos continuar a construir redes de apoio e desenvolver estratégias para enfrentar o sistema capitalista e o Estado que o protege. Devemos expandir nossas redes e chegar às cidades dos Bálcãs onde não há iniciativas anarquistas, apoiando-as para que se estabeleçam e prosperem. A coordenação e a solidariedade são os pilares sobre os quais construiremos nossa resistência e criaremos um futuro baseado na ajuda mútua, na liberdade, na empatia radical e na igualdade.

Devemos enfatizar mais uma vez a importância de realizar essa feira de livros em uma localidade de língua albanesa, marcando-a como o primeiro encontro anarquista já realizado nessas terras. Os coletivos, grupos e indivíduos que vieram de todo o mundo tiveram a chance de aprender sobre o contexto da luta local e compartilhar suas experiências com o povo de Prishtina. Para muitas pessoas de Prishtina que visitaram a feira de livros, bem como para os coletivos e indivíduos que a apoiaram, essa foi uma experiência de aprendizado que demonstrou o poder da organização não hierárquica baseada apenas na solidariedade e na ajuda mútua. Ela também destacou a relevância da análise e da organização anarquista nas lutas locais e regionais.

Por fim, temos o prazer de anunciar que a próxima Balkan Anarchist Bookfair será realizada em Thessaloniki, na Grécia.

Participantes da Feira do Livro Anarquista dos Bálcãs 2024
7 de julho, Prishtina.

bab2024.espivblogs.net

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agência de notícias anarquistas-ana

Manhã de inverno,
ouço calado
o vento gelado.

Fabiano Vidal