[Espanha] “Muros de Bitácora”, intervenções murais no espaço público

Memória é patrimônio

Em Murs de Bitácora Ilustramos os episódios de nossa história nas ruas de povoados, bairros e cidades.

Memória coletiva. Pintamos para recuperá-la, reivindicá-la e celebrá-la.

Visibilizar e realçar, mediante intervenções murais no espaço público, os episódios próprios da memória coletiva de cada comunidade.

Construir, desde a ação local, um mapa global da memória coletiva popular com Murs de Bitácora.

Registrar e “mapear” com as intervenções em todo o território, a pluralidade e riqueza do patrimônio memorial e a memória coletiva.

  • Usar a cultura e a arte urbana como uma ferramenta de coesão social e pedagógica que contribua para a construção e fortalecimento da própria identidade mediante recuperar nossa história.
  • Difundir e aproximar a arte urbana como uma disciplina transformadora, capaz de dignificar o espaço público e aportar valores positivos aos indivíduos e às comunidades.
  • Recuperar o espaço público como um espaço vivo com/de/pelas coletividades, um entorno de intercâmbio, enriquecimento e reflexo das inquietudes e necessidades de sua cidadania.
  • Materializar com intervenções artísticas todos aqueles processos participativos que revisam, reivindicam e difundem o patrimônio não tangível que é a memória.
  • Aportar material pedagógico à comunidade educativa do entorno. As intervenções de Muros de Bitácora resultam um evento próximo ao alunado que incentivam um amplo leque de atividades educativas.
  • Criar um mapa de murais que projete uma visão de conjunto de todos e cada um dos fragmentos e episódios da memória, possibilitar itinerários cujos murais ilustrem a história nos cenários em que aconteceu.

>> Mais infos: mursdebitacola.com

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Eu afogo as distâncias
constantes abismos
montanha ou labirintos.

Anfrangil

[Espanha] Uma perspectiva anarquista sobre os novos grupos “ecologistas”

A narrativa catastrofista e a narrativa do colapso, impulsionadas pelas elites de Davos e por outros tecnocratas que promovem a transformação energética em busca de um novo modelo produtivo e econômico que continue a manter a dominação tecnocapitalista sobre todos os seres vivos, está moldando a nova corrente “ecologista” de grupos como Extiction Rebellion, Ultima Generazione, Futuro Vegetal….

A figura simbólica dessa nova militância “ecologista” é Greta Thunberg, uma ferramenta de mídia (uma adolescente com rosto angelical) que foi das salas de aula para os salões de Davos, passando pelo parlamento sueco, usada como publicidade e propaganda para as ideologias da tecnocracia e foi rapidamente convertida em um símbolo a ser explorado. Greta é o produto in vitro de Al Gore e de outros pesos pesados da narrativa do dia do juízo final, ela é a “influenciadora” que incentiva os jovens a invocar a agenda “verde” desenvolvida pelos centros de poder financeiro e tecnológico e pela ONU para salvar o planeta “antes que seja tarde demais”. Ela se tornou a heroína de um ambientalismo rançoso e, da noite para o dia, tornou-se uma excelente atriz cujos principais espectadores são os grupos “ambientalistas” mencionados acima.

Os seguidores de Greta foram acompanhados por Just Stop Oil, Ultima Generazione, Futuro Vegetal e muitos outros grupos eco-ansiosos. Eles são os neoativistas 4.0, equipados com cola, tinta e câmeras nas costas, para filmar em tempo real o que mais parece um set de filmagem do que um protesto. Esses neoativistas não têm nenhum projeto, nenhuma crítica elaborada… eles só vivem para o momento, para o efêmero, o superficial e o espetáculo além desse nada. Eles não fazem nenhum trabalho revolucionário como outros grupos ambientalistas, apenas vivem assediados pela ansiedade provocada pelas elites financeiras e filantrópicas que lhes disseram que o mundo está chegando ao fim. Isso é apenas parte do vácuo do discurso do juízo final. Nunca veremos esses grupos indo além do espetáculo. Não os veremos criticando, treinando ou lutando contra os outros males do sistema tecno-industrial, eles simplesmente seguem as diretrizes estabelecidas pelas elites que os convenceram de que todo o mal é o CO2, ignorando os outros males, a dominação e a exploração necessárias para o funcionamento do capitalismo.

Eles encenam dramas reais patrocinados por seus mestres: filantropos progressistas e apoiadores da ideologia transhumanista. Eles fazem suas as exigências da elite global e dos fundos de investimento. Agem sob a ilusão de salvar o mundo com slogans pré-embalados contra o CO2, as mudanças climáticas e a extração de combustíveis fósseis. É uma pena que “durmam” sobre o impacto devastador da transição digital e o aumento exponencial da poluição eletromagnética. Eles são “fluidos”, perfeitamente adaptáveis ao contêiner ideológico daqueles que os financiam e funcionais para o avanço da Grande Reinicialização e a plena realização da Quarta Revolução Industrial. Eles defendem todas as demandas do poder dominante, do desenvolvimento sustentável à carne sintética, do consumo de insetos ao despovoamento para salvar o planeta.

Os movimentos Friday for Future, Extinction Rebellion, Just Stop Oil, Ultima Generazione, etc. são apenas a base de uma pirâmide hierárquica no topo da qual reside um grande grupo de políticos, administradores, fundações filantrópicas, elites financeiras e tecnocráticas, magnatas do petróleo, da energia nuclear e da energia “limpa”, organizações governamentais e não governamentais. No entanto, abaixo da base da pirâmide, a massa humana é educada para a resiliência como um novo ato de fé, como uma forma de salvação das crises intermináveis, para se adaptar a não possuir nada, não ter privacidade e ainda assim ser feliz, de acordo com o lema do Fórum Econômico Mundial, alimentando-se de comida industrial, insetos e carnes e vegetais sintéticos, enviando seus filhos para escolas transformadas em centros tecnológicos que produzem autômatos digitais.

O objetivo é instilar o medo, convencer as massas de que elas enfrentam um perigo concreto e iminente; a orgia de slogans de conteúdo de baixa qualidade, espalhados por toda parte e de forma martelante e sistemática, tem a tarefa precisa de acostumar as massas e fazê-las dançar ao ritmo da mesma música orquestrada por vários maestros. “Repita uma mentira cem, mil, um milhão de vezes e ela se tornará uma verdade”: essa é a frase atribuída a Joseph Goebbels. A insistência com que o catastrofismo climático é propagado destrói o pensamento crítico e distorce a percepção da realidade, na medida em que qualquer evento é acriticamente atribuído à questão climática: os desastres resultantes de eventos extremos são atribuídos ao clima e não ao desmatamento, à urbanização selvagem, à modificação ambiental extrema e às operações de geoengenharia terrestre e atmosférica.

O dióxido de carbono se torna o inimigo; os defensores do ambientalismo catastrófico nos lembram disso em coro, com a intenção precisa de aniquilar o ser humano e torná-lo culpado, apontando-o como parte da mudança climática, induzindo-o, assim, a apoiar a destruição e o redesenho da natureza ao mesmo tempo. É hora de acreditar que essa é a maneira de salvá-la. Do perigo de enchentes à seca e ao aumento do nível do mar, a catástrofe está sempre próxima: a ciência diz isso, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) diz isso, os centros de poder governamentais e não governamentais e, finalmente, os “ambientalistas” repetem isso.

O regime tecnocientífico “constrói” a Natureza 4.0, a natureza inteligente: carne sintética, o tomate roxo, a floresta inteligente, plantas resistentes à mudança climática, são apenas alguns exemplos de como ocorre a manipulação da vida, assumida pelos “escultores da evolução”, que depois de terem sido treinados para modelar pequenos pedaços da Natureza em laboratórios de pesquisa, agora estão prontos para transformar toda a Natureza.

A engenharia da natureza não poupa nem mesmo os céus, pois com a desculpa de combater o CO2 e o aquecimento global/alteração climática, serão implementadas técnicas de manipulação da atmosfera, da terra e dos oceanos. A geoengenharia atmosférica já está em ação localmente e por um período limitado de tempo, mas a meta será obter o controle total do clima global, como parte do controle total da vida.

O Planeta Inteligente será, na realidade, o Planeta Projetado tão amado pelo geoengenheiro Alan Robock e pelo resto da tecnocracia, envolto em véus que embranquecem o céu, amortecem a luz do sol e padronizam a temperatura da Terra.

A Conferência da ONU sobre a Água, em março de 2023, oficializou a nova “emergência” da água. Será mais uma estratégia para centralizar o gerenciamento e impor o racionamento.

Mas então, se o dióxido de carbono, a luz e a água, os três elementos fundamentais da vida, também caírem nas mãos dos mestres universais, o que será de nós e da vida na Terra?

É hora de relançar uma ecologia radical que mais uma vez critique o sistema tecnocientífico. Colocar a ecologia política de volta na mesa. Lembrar as lutas e os grupos ecológicos que, com seus erros e acertos, podem servir de exemplo para que continuemos suas lutas e, ao mesmo tempo, nos livrarmos desse “neoecologismo” catastrofista e de controle remoto.

Pela anarquia.

CHIMPANZÉS DO FUTURO, MADRI, JULHO DE 2024

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Nos fios do poste
Andorinhas se empoleiram
Vendo o pôr-do-sol

Igor

[EUA] Lançamento: “Riot Act”, de Sarah Lariviere

Nesta história, uma mistura de punk rock com 1984, um grupo de alunos de teatro ataca um regime político. É um enredo perfeito para quem ama os livros de A. S. King e Marie Lu.

Em uma versão alternativa de 1991, um governo americano autoritário controla tudo e todos. Ele censura quais livros podem ser lidos, que músicas podem ser ouvidas, e que peças de teatro podem ser apresentadas.

Quando sua melhor amiga é assassinada pelas autoridades e quem lhe ensina teatro desaparece sem deixar rastros, Gigi decide organizar colegas que atuam na Escola de Ensino Médio Champaign para apresentar a peça Henrique VI. Mas o que isso lhe custará?

Sobre a autora

Sarah cresceu em Champaign, Illinois, formou-se em teatro pela Oberlin College e tem um mestrado em serviço social pela Hunter College em Nova Iorque, onde ela se especializou em cuidado com crianças e famílias. Ela mora em Los Angeles, Califórnia, onde ela se inspira em seu selvagem jardim e no som do violão de seu filho.

Riot Act

Sarah Lariviere

304 páginas, capa dura

Publicado em 16 de julho de 2024

$10,00

goodreads.com

Tradução > anarcademia

agência de notícias anarquistas-ana

livro antigo
o bicho traça
o sonho dos sábios

Alexandre Brito

[Portugal] A horizontalidade é um trabalho sempre em curso

Há nove anos, em Setembro de 2015, na Penha de França, em Lisboa, abria a Disgraça, com a vontade de ser um espaço «antiautoritário onde se pudesse discutir e criar soluções colectivas para problemas que tínhamos vindo a individualizar». Com a sua espécie de arquitectura invertida, este espaço está, desde há quase uma década, alugado ao colectivo que o gere e tornou-se num ponto fundamental de vida para além da opressão capitalista da cidade de Lisboa. Hoje, perante «uma cidade devastada pela especulação imobiliária, pela crise da habitação e pela elitização da cultura», a Disgraça decidiu que a única forma de fugir do aumento cavalgante das rendas e das ameaças de expulsão é comprar o espaço. Podes contribuir em gofundme.com/f/disgraca

A Disgraça está a combater o monstro imobiliário tornando-se proprietária do seu espaço, o que, ainda que se trate de uma propriedade colectiva, é quase irónico. Chegou-se realmente a este ponto em que as únicas opções são a propriedade ou a não existência?

Neste momento em Lisboa, como sabemos, é cada vez mais difícil sustentar os aumentos absurdos de rendas. Confrontades com o facto de que espaços amigos se encontram em situações de despejo iminente, urge a necessidade de assegurar a Disgraça a longo termo. Temos investido muito tempo, suor e lágrimas ao longo destes quase 9 anos e contemplar a possibilidade de nos tornarmos mais uma vítima da gentrificação de um dia para o outro, ou dar este espaço a perder e possivelmente (ou não) ter de recomeçar noutro sítio, levou-nos a decidir que era preciso reunir esforços para que tal não acontecesse.

Há também a opção de okupar, mas como se viu recentemente com o Centro Social de Santa Engrácia ou com centros sociais okupados anteriores (neste momento) é bastante difícil assegurar um espaço através dessa via. Apesar de agora as opções a longo termo parecerem ser essas – propriedade ou não existência –, vemos também o papel da Disgraça em apoiar movimentos de resistência, incluindo o de okupação, para que no futuro esta pergunta não faça sentido. A ironia de haver anarquistas a comprar propriedade não nos passa ao lado; contudo, é fulcral que haja espaços estáveis onde se possa aprender, partilhar, conspirar e (des)construir de forma colectiva e horizontal.

Um olhar sobre o vosso calendário mostra uma actividade quase frenética. Como se organizam para manter esse ritmo de coisas a acontecerem, tratarem da gestão burocrática do espaço, da biblioteca, da sala de concertos, da oficina, da sala de ensaios, da serigrafia, do ginásio, da loja livre ou da Tortuga e, ao mesmo tempo, se manterem em autogestão horizontal?

É importante relativizar um bocado a quantidade de eventos que se vê no nosso calendário. Nem todos são organizados pelo colectivo da Disgraça. Alguns exemplos são os benefits organizados por vários colectivos, os concertos regulares da ATR, os DIY Mondays semanais… É importante para nós que a Disgraça seja um espaço onde as pessoas se possam envolver facilmente e onde não haja binários rígidos entre pessoas organizadoras e consumidoras. É também por isso que tentamos organizar frequentemente as assembleias Galaxy, abertas a qualquer pessoa.

Em princípio, os diferentes espaços dentro da Disgraça funcionam autonomamente. A Tortuga, o ginásio, a sala de ensaios, etc., têm os seus próprios grupos que se autogerem. Na prática, isto nem sempre funciona tão bem quanto gostaríamos. Sentimos, contudo, que tem havido uma evolução positiva. No início, quase tudo era organizado pelas pessoas do colectivo. Hoje em dia há muito mais fluidez – a horizontalidade é um trabalho sempre em curso.

Ultimamente, a dupla responsabilidade de manter o funcionamento diário da Disgraça ao mesmo tempo que nos organizamos para comprar o espaço tem sido desafiante. Achamos que a organização horizontal não é só sobre partilha de tomada de decisões mas também do trabalho e da responsabilidade para que fique mais fácil fazê-lo colectivamente. Também esperamos, quando conseguirmos assegurar o espaço, adaptarmo-nos mais facilmente com a fluidez do tempo e energia disponíveis, em vez de precisarmos de seguir o ritmo de rendas mensais.

Sabemos que têm tido um papel importante no apoio aos migrantes que estão acampados na zona dos Anjos, em Lisboa, nomeadamente por emprestarem a vossa cozinha para que possam cozinhar. Como têm corrido as coisas? É possível a solidariedade não caritativa, mesmo em situação tão limite?

Queremos realçar que, neste caso, o colectivo da Disgraça tem pouco envolvimento na Cozinha dos Anjos em si, que funciona autonomamente – o espaço e o equipamento são utilizados pelas pessoas que deles necessitam. Mas, daquilo que temos visto, parece-nos estar a correr super bem. É muito fixe que a malta esteja a relaxar – cozinhar, ouvir música, jogar jogos – num ambiente bastante mais seguro do que estar na rua, sob o risco de serem confrontades pela bófia, políticos e outros parasitas desta sociedade de merda.

De forma geral, precisamente por serem situações limite, torna-se difícil evitar que se perpetuem padrões de caridade. É mais uma das facetas das socializações que sempre tivemos (e continuamos a ter) e que, como tudo o resto, requer um esforço activo e diário para as desconstruir. Mais especificamente sobre a Cozinha dos Anjos, é uma pergunta que lhes teriam de fazer, uma vez que são as pessoas que, a nível prático, mais estão a lidar com essa questão.

Fonte: https://www.jornalmapa.pt/2024/08/13/a-horizontalidade-e-um-trabalho-sempre-em-curso/

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/05/15/portugal-ajuda-nos-a-comprar-o-nosso-centro-social-anarquista-em-lisboa/

agência de notícias anarquistas-ana

Varro, embevecida —
Sinfonia de cigarras
Alegra a faxina.

Sonia Regina Rocha Rodrigues

Memória da Primeira Conferência de Pesquisa sobre Mulheres Anarquistas no México

Compartilhamos a Memória da Primeira Conferência de Pesquisa sobre Mulheres Anarquistas, organizada no México em maio de 2023 pela Rede de Pesquisadoras sobre Mulheres Anarquistas.

1ª edição digital 2024.

Em outubro de 2022, um pequeno grupo de companheiras que vinha pesquisando as mulheres anarquistas, especialmente o projeto Magonista, tomou consciência da falta de espaços de discussão e sociabilidade em que estudiosas e pesquisadoras das mulheres libertárias na história pudessem divulgar suas pesquisas, apresentar seus trabalhos, trocar experiências e fontes de consulta e, em geral, socializar e dar feedback sobre seus estudos. Foi assim que surgiu, pela primeira vez em nosso país, a Rede de Investigadoras sobre Mulheres Anarquistas (RIMA). Uma rede que visa a possibilitar o desenvolvimento e o trabalho coletivo entre as mulheres que se dedicam a esse tema. Nosso objetivo é formar uma rede de pesquisadoras, principalmente no México e na América Latina, que realizam estudos sobre mulheres e anarquismo a partir de diferentes disciplinas. Pretendemos iniciar um projeto autogerido que formará essa RIMA e promoverá a ajuda mútua, o trabalho coletivo e interdisciplinar, o diálogo, a divulgação e a troca de experiências sobre os estudos e as práticas que estão sendo realizados atualmente em nosso país e em outras latitudes.

Como tarefa inicial, a RIMA propôs a Primeira Jornada no México sobre Pesquisa sobre Mulheres Anarquistas, a ser realizada de 22 a 26 de maio de 2023, na Cidade do México, tanto presencial quanto virtualmente. Como resultado da convocação, recebemos cerca de quarenta trabalhos, que foram apresentados com amplas possibilidades de discussão, excedendo em muitas nossas expectativas numéricas. Eles trataram de tópicos interessantes e variados de interesse para pesquisadores e estudiosos das anarquistas no México e em várias partes do mundo. Além disso, tivemos apresentações de quatro excelentes palestrantes, que compartilharam conosco seus produtos e experiências na pesquisa do assunto que nos interessa. Foram eles: Laura Fernández Cordero, Ana Lau Jaiven, Anna Ribera Carbó e Jorell Meléndez. Também foi apresentado um livro importante para nosso tema: Revolucionarias, rebeldes y anarquistas: las mujeres en el Partido Liberal Mexicano, de Luis F. Olvera Maldonado, com comentários de Gabriela López Ruiz e Alejandro de la Torre.

Os locais para a conferência foram o Instituto de Investigaciones José María Luis Mora e a División de Estudios Superiores del INAH, cujos responsáveis gostaríamos de agradecer pelo apoio em termos de espaço e logística, sem os quais essa reunião não poderia ter sido realizada; em particular, estendemos nossos agradecimentos à nossa companheira e designer gráfica Paola Avila Meléndez, por seu trabalho inestimável, tanto nos arranjos necessários para obter os espaços mencionados quanto no design dos pôsteres e da publicidade necessária para a materialidade do evento.

A conferência mencionada foi bem-sucedida e é um bom presságio para um trabalho coletivo a médio e longo prazo. O resultado é bastante otimista e esperançoso. Muitos colegas participaram com uma variedade de temas. A diversidade de tópicos nos mostra os interesses, gostos, preocupações teóricas e práticas, bem como as inclinações dos pesquisadores. Nosso objetivo foi alcançado no sentido de descobrir que experiências temos, que estudos estão sendo realizados sobre mulheres anarquistas em diferentes regiões do mundo. O resultado desse evento rico e fundamental é o presente relatório, que reúne 22 trabalhos e artigos de especialistas sobre esse e outros tópicos.

Como introdução, esta Memória começa com um texto muito interessante sobre a “Vida e pensamento de Juana Belén Gutiérrez de Mendoza”, escrito pela historiadora Ana Lau Jaiven, que também deu uma palestra na conferência. Também tivemos um interessante ensaio de Laura Fernández Cordero, intitulado “Cuando estalló la forma de amar“, que é a apresentação de seu livro Amor y anarquismo. Experiencias pioneras que pensaron y ejerceron la libertad sexual, Siglo XXI editores. Jorell Meléndez-Badillo apresentou seu excelente trabalho intitulado: “La pluma como arma: un contrapunteo intelectual entre Blanca de Moncaleano y Luisa Capetillo” (A caneta como arma: um contraponto intelectual entre Blanca de Moncaleano e Luisa Capetillo). Em seguida, foi apresentado o livro de Luis F. Olvera Maldonado, Revolucionarias, rebeldes y anarquistas: las mujeres del Partido Liberal Mexicano, Editorial Antagonismo, Cidade do México, 2023, sob a pena de Gabriela López Ruiz.

Nesta apresentação, incluímos breves comentários sobre os trabalhos que compõem a presente Memória. As mesas de trabalho da Primeira Jornada foram convertidas nos seguintes capítulos:

>> Para ler o documento na íntegra, clique aqui:

https://drive.google.com/file/d/1zUihpZ9jX5KbpdGbnWUwccWFgVJJzNl0/view

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Vento nas ilhas.
Gaivotas sobre o mar
Imitam veleiros.

Oddone Marsiaj

Justiça, ordem e anarquia: a teoria política internacional de Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865)

R e s u m o

Apesar de escrever quase 2.000 páginas sobre política internacional, as obras do anarquista Pierre-Joseph Proudhon simplesmente não aparecem na historiografia ou no estudo da teoria contemporânea das Relações Internacionais. Defendo que tal não se justifica, ilustrando suas percepções convincentes e duradouras sobre a história e a natureza do “internacional”. Proudhon empregou uma teoria sociológica e psicológica da justiça; ele via a guerra e o conflito como motores de mudança na sociedade; e ele via a ordem como emergente da profunda anarquia da sociedade (global). O artigo fornece uma leitura contextualizada de suas obras para ilustrar sua importância histórica, e demonstra seu potencial para contribuir com a teoria de RI atual por meio de uma comparação com a Teoria Crítica contemporânea.

>> Acesse o texto na íntegra aqui:

https://revistas.ufrj.br/index.php/read/article/view/61288

agência de notícias anarquistas-ana

Toma nota, rapaz:
Hai-kai é a captura
De um momento fugaz

Lubell

Semana Internacional de Solidariedade com os Prisioneiros Anarquistas | 23 – 30 de agosto de 2024

Drones militares zumbem entre as estrelas e as nuvens. A milhares de quilômetros de distância, um soldado procura alvos para matar, as emoções estão muito distantes das vidas que estão tirando. Um entorpecimento crescente em face da brutalidade atual e da propaganda estatal invocada em nossas telas. A água e a terra são objetos a serem depredados. Como o poço cavernoso da mina de carvão, estamos sendo esvaziados e escavados para sustentar a cultura do vazio do capital. A empatia, o cuidado e o amor que mantêm nossas comunidades unidas estão sendo atacados por uma vida individualizada sob o capitalismo, em que cada um cuida de si mesmo.

O que mudou desde o ano passado até o momento em que nos debruçamos sobre este texto?

Houve um aumento da vigilância, endurecimento da repressão e criminalização das comunicações criptografadas, nos apelos à guerra e ao genocídio, bem como na contínua profanação da Terra. O mundo assiste com uma mistura de horror e apatia ao aumento do número de mortos em Gaza, enquanto a invasão da Ucrânia entra em seu terceiro ano. Cerca de 10.000 prisioneiros palestinos são amarrados a camas, torturados e espancados até a morte, mantidos em condições brutais nas prisões israelenses. No Sudão, dezenas de milhares de pessoas estão mortas e milhões estão desabrigadas, enfrentando fome extrema à medida que a guerra civil entra em seu 16º mês. A resistência militante ao golpe militar em Mianmar, que na verdade foi bem-sucedido, está sendo transformada pelos militares em uma guerra civil com um número crescente de vítimas civis, à medida que as tropas do regime recorrem cada vez mais a táticas de terra arrasada.

Espera-se que aqueles de nós que vivem sob a fragilidade da “paz” neoliberal adotem posturas políticas desprovidas de sentimento humano ou ações significativas. Como romper esse véu artificial construído para fazer com que as “zonas de guerra” pareçam um mundo distante, quando os carregamentos de armas e as redes de diáspora contam uma história diferente? Como recuperar nossa humanidade e nossa capacidade de ação, compreendendo a urgência e deixando espaço para sentir, lamentar e agir, lado a lado, contra essa monstruosidade? E como manter esse tecido de resistência que desafia os ciclos de notícias e a política dos Estados-nação, reconhecendo as lutas pela sobrevivência e pela libertação contra a colonização e a extração contínua de recursos naturais que estão se materializando em todo o mundo fora dos holofotes das notícias?

O que deve ser feito? Essas são as perguntas. A empatia e a solidariedade são os remédios mais fortes contra as realidades atuais que enfrentamos. Empatia e solidariedade são as razões pelas quais estamos aqui: nossos corações abraçam essas palavras. Escolhemos compartilhar o peso da dor e entrar em ação nesta teia de resistência que foi tecida ao longo do tempo nesta Terra. Não é o nosso anseio pelas forças do cuidado, da criação e da destruição que nos reúne em torno de nossas fogueiras? Não é porque desejamos entender e saudar a dor dos outros e buscar a libertação da opressão que demonstramos solidariedade com nossos companheiros que carregam o duro fardo da repressão?

Há muitas atrocidades, muitos espíritos bonitos arrebatados deste mundo para que possamos chorar por todos eles. Em meio ao derramamento de sangue, vivem os espíritos daqueles que decidem resistir a essa ordem hegemônica, contra as engrenagens do genocídio e do colonialismo. Há pessoas em todo o giro da Terra que decidiram não ignorar as forças que atacam a vida livre. Muitos optaram por cumprimentar essas forças com os punhos cerrados e um sorriso na bochecha. Tenho certeza de que vocês também compartilham isso, talvez sem sorrir, mas estamos aqui novamente. Com o tempo, com força e paciência, aprofundaremos nossas constelações, fortaleceremos e teceremos novas teias, pois junto com os ciclos da Terra mudamos, crescemos e aprendemos.

Com força, fazemos este chamado à ação para uma semana de solidariedade com os prisioneiros anarquistas. Que nossas palavras não morram em nossas bocas, mas que nossas ideias e ações se tornem realidade.

Organize eventos de solidariedade, exibições de filmes, mostrar faixas, rodadas de discussão, ações diretas, programas de rádio, redação de cartas… seja criativo!

Vamos nos lembrar daqueles que lutaram contra essa injustiça e pagaram com suas vidas.

Não vamos nos esquecer de nossos companheiros presos e vamos mostrar o calor da solidariedade.

Ninguém será livre até que todos sejamos!

Envie-nos suas ações para tillallarefree@riseup.net

solidarity.international

agência de notícias anarquistas-ana

Entardecer
Sob o velho telhado
Retornam pardais.

Hidemasa Mekaru

Fatos e circunstâncias de uma quarta geração de anarquistas em Cuba. Notas desde dentro.

Abelardo

A formação de uma quarta geração de anarquistas em Cuba tem sido um processo árduo, de muita persistência e muita necessidade de memória. Atrás de nós, a geração anterior havia sido eliminada 50 anos antes pela máquina de repressão preventiva organizada pelos stalinistas cubanos do Partido Socialista Popular (PSP), em aliança com o Movimento 26 de Julho. Assim, apenas dois anos após o triunfo da chamada “Revolução Cubana”, o novo Estado que estava tomando forma por trás dessa marca política global já havia conseguido destruir todas as diversas e dispersas expressões sociais do movimento anarquista que existia em Cuba antes de 1961.

A terceira geração de anarquistas cubanos alcançou um notável desenvolvimento organizacional nas décadas de 1930 a 1950, quando em muitas outras regiões do mundo o anarquismo como movimento entrou em profundo declínio e foi varrido por seus poderosos inimigos. Um dos principais vetores desse renascimento do anarquismo em Cuba no período mencionado acima foi a Federação da Juventude Estudantil e Operária Libertária, criada no calor das experiências e fracassos das lutas sociais que se desenvolveram no início da década de 1930 contra a crise do jovem Estado republicano burocrático e neocolonial, que havia surgido em Cuba em 1902 a partir dos despojos do heroico Exército de Libertação de Cuba em Armas.

Essa organização foi a espinha dorsal de um grande grupo de jovens da época que conseguiu se recuperar do sequestro stalinista, com o apoio da polícia, da Confederación Nacional Obrera de Cuba (CNOC), uma obra-prima dos anarco-sindicalistas cubanos, com Alfredo López como uma das figuras mais representativas do esforço coletivo da segunda geração de anarquistas em Cuba. A Federação Juvenil de meados da década de 1930 também conseguiu dar um novo impulso à lendária, mas já em declínio, Federação de Grupos Anarquistas de Cuba (FGAC), dando origem em 1942 à criação da Associação Libertária de Cuba (ALC) e a organizações relevantes e hoje esquecidas de inspiração anarquista, como a Federação de Associações Camponesas, a Associação de Combatentes Antifascistas (veteranos da Guerra Civil Espanhola), os Comitês de Defesa Local, mais discretos, mas igualmente ativos, e uma tentativa séria e fracassada de intervir no mundo do trabalho cubano, como a Confederação Geral dos Trabalhadores, para confrontar o monopólio stalinista sobre o mundo sindical que havia sido estabelecido desde 28 de janeiro de 1939, com a criação da Central de Trabalhadores de Cuba (CTC).

Essa estrutura organizacional da terceira geração de libertários cubanos também deu origem a uma animada sociabilidade e a um florescente movimento editorial anarquista, que renovou a presença de longa data da imprensa anarquista e das atividades públicas em Cuba. Assim, três Congressos Libertários foram organizados (1944, 1948, 1950), atividades e práticas com perspectivas antiautoritárias se espalharam pelo resto da geografia e do tecido social do país em associações de camponeses, associações de bairro, em regiões do país marginalizadas por outras tendências de ideias, algumas tentativas no movimento associativo afrodescendente e na esfera artística, todo um legado de experiências que a quarta geração de anarquistas em Cuba está tentando reconstruir e redescobrir na Cuba das últimas três décadas, com o apoio intermitente dos camaradas veteranos da ALC, especialmente Frank Fernández, Gustavo Rodríguez e outros camaradas, que na década de 1990 fundaram o Movimento Libertário Cubano na Flórida e publicaram esse valioso e caloroso livro El anarquismo en Cuba, maravilhosamente editado pela Fundação Anselmo Lorenzo em Madri.

Na ausência de um registro detalhado da atividade anarquista em Cuba entre 1961 e o início dos anos 2000, e tomando como referência nossa própria experiência pessoal, a quarta geração de anarquistas em Cuba adquiriu uma forma organizacional explícita com a criação, em 1º de maio de 2013, da Oficina Libertária Alfredo López, em homenagem à figura principal do anarco-sindicalismo em Cuba e aos Mártires de Chicago. “A oficina”, como carinhosamente a chamamos, nesses dez anos de existência, tentou se encarregar de todo o longo vácuo de esquecimento gerado pela longa noite stalinista-fidelista que amarrou a sociedade cubana, mas também de toda a desintegração social, o autoritarismo cientificamente naturalizado na mentalidade de várias gerações e a escassa reflexão sobre meios e formas organizacionais, que floresceram em Cuba antes de 1959, com a terceira geração anarquista.

Tudo isso teve de ser realizado em meio ao gigantesco e eficiente aparato de repressão social preventiva organizado pela polícia política de Cuba (o temido Departamento de Segurança do Estado ou G2) durante as últimas seis décadas, onde qualquer expressão social minimamente autônoma em relação às instituições do Estado quase sempre foi desintegrada e metodicamente reprimida.

Nesse contexto, um pequeno grupo de pessoas com intenções antiautoritárias criou o Red Observatorio Crítico de Cuba em 2006, um espaço que se tornou uma coordenação de montagem de projetos autogeridos, onde quase uma dúzia de iniciativas colaboraram em áreas como educação antiautoritária (Proyecto El Trencito), autodidatismo (la Escuelita), história intelectual do pensamento de libertação (Cátedra Haydee Santamaría), ativismo ambiental (Colectivo Guardabosques, a iniciativa ambiental La Rueda), dissidência sexual (Colectivo Arcoiris), ativismo antirracista e memória afrodescendente (Cofradía de la Negritud, a irmandade de performance poética Chekendeke, a Alianza Antirracista Anamuto, a iniciativa autônoma Esquina de la descolonización de la memoria histórica popular cubana 27 de noviembre), o laboratório de propostas para a renovação socialista em Cuba, Socialismo Participativo y Democrático (grupo SPD), depois as iniciativas anarquistas Taller Libertario Alfredo López, Locación Cristo Salvador e a iniciativa editorial Almario.

A Oficina Libertária Alfredo López, o Coletivo Guardabosque, a Locación Cristo Salvador foram os que desenvolveram as Jornadas Libertárias de Primavera em Havana, iniciadas em 2013, desenvolvendo-as quase sem interrupção até o recente junho de 2024, que finalmente quase não teve atividade alguma. Nesse período, desenvolvemos um grande número de atividades em espaços familiares e públicos (relacionados e em disputa). Fundamos o pequeno jornal mensal Tierra Nueva. Um espaço para a interação de pessoas e ideias anarquistas, a editora Guillotina Inútil, contribuímos para o lançamento da primeira revista ambientalista autônoma de Cuba Guardabosque, a revista Almario e, sob um espírito comum, a Carne Negra, Fanzine sobre artes visuais.

Nesses esforços, recebemos a solidariedade de companheiros, iniciativas e organizações, sem os quais teria sido muito mais difícil fazer o pouco que fizemos. Em primeiro lugar, a iniciativa do G.A.L.S.I.C. (Grupo de Apoyo a los Libertarios y Sindicalistas Independientes en Cuba) e seus animadores fundadores Daniel Pinos e Gustavo Alberola e outros companheiros da CNT em Paris, companheiros em Toulouse; a CGT e a IWW em sua seção de São Francisco, por meio da camarada Samantha Levens, os camaradas do coletivo editorial do El Libertario, o falecido camarada Nerio Casoni e sua iniciativa Locos por la Tierra, os camaradas da CNT espanhola, o centro social de Madri Rompe El Círculo, o grupo das Ediciones El Salmón, camaradas organizados e iniciativas individuais na Alemanha, Holanda, a Federação Anarquista da França; a Internacional de Federações Anarquistas (IFA), o coletivo Kiskella Libertaria na República Dominicana, a Federación Anarquista Gaucha, a editora Rojo y Negro na Colômbia, a iniciativa editorial Alter no Uruguai, entre muitas outras iniciativas que, devido às formas emaranhadas e afetivas em que a memória opera, podem sofrer os efeitos injustos do esquecimento neste momento. Mas todos eles juntos conseguiram fazer com que nos sentíssemos parte de um movimento internacional discreto, mas vibrante e eficaz, do qual recebemos apoio material e nutrição intelectual fértil sobre conhecimento, debates e práticas antiautoritárias, depois de mais de meio século de ausência dessas perspectivas em Cuba.    

Com essa rede de apoio e solidariedade efetiva, e nos colocando em nossas circunstâncias em Cuba, reposicionamos uma perspectiva anarquista no debate público de ideias em Cuba e repovoamos com datas esquecidas os calendários de eventos históricos em Cuba dominados por stalinistas, liberais, trotskistas e social-democratas. Depois de meio século, conseguimos recuperar nossa presença em espaços anarquistas internacionais de prestígio, como a Feira de Vídeo e Revista Anarquista de Caracas, a Feira do Livro Anarquista de Londres, vários congressos da IFA, recebemos convites ou coordenamos reuniões com federações e iniciativas anarquistas na Venezuela, República Dominicana, Colômbia, Brasil, México, Espanha, França, Itália, Alemanha, Holanda, República Tcheca, Eslováquia. Em 2018, graças à visibilidade internacional que alcançamos na mídia anarquista do mundo, fechamos uma campanha de crowdfunding bem-sucedida que nos permitiu comprar um espaço em Havana e fundar a ABRA, o primeiro centro social anarquista em Cuba, depois de mais de um século de ausência de tais espaços em Cuba, e em 2016 lançamos a criação da Federação Anarquista da América Central e do Caribe (FACC), que atualmente está tentando sobreviver minimamente como um espaço de comunicação e coordenação intermitente entre camaradas na região.

2019 é o ano do início da paralisação em curso que leva à crise das Jornadas Primavera Libertária de 2024 e do restante dos espaços que iniciamos em 2013. Isso ocorreu em meio a uma situação material marcada pelos efeitos globais da pandemia da COVID-19, na qual muitos dos espaços para a coordenação de iniciativas sociais autônomas foram desarticulados, mas também por tudo o que veio com a pós-pandemia em Cuba: a extinção do sistema de transporte público no país, a precariedade coletiva dos salários devido à inflação desenfreada e fora de controle, o colapso dos sistemas de abastecimento de alimentos, do sistema elétrico nacional, o êxodo em massa de mais de um milhão de pessoas em menos de dois anos, o envelhecimento precário de nossos pais, com pensões miseráveis e sem cobertura de medicamentos para nossos doentes, com a liquidação do sistema de saúde pública em Cuba pelo governo, priorizando investimentos imobiliários e hoteleiros, o que nos condenou a uma vida de dificuldades reforçadas, em que a principal questão é sobreviver. Uma sobrevivência sob uma vigilância policial mais forte e uma legalidade mais arbitrária, após os dias históricos de protestos em massa de 11 a 13 de julho de 2021, contra a precariedade e o despotismo do governo, que deixaram um saldo de mais de 1.000 presos políticos, submetidos a longas sentenças e péssimas condições de prisão, pelo único crime de exercer o direito e o dever de protestar diante da miséria generalizada, sem perspectiva de uma solução governamental.

A pequena quarta geração de anarquistas em Cuba está vivendo, como o resto da sociedade cubana, a longa agonia da chamada Revolução Cubana, devorada pelo “Estado Socialista” nascido dela e que deu origem a uma oligarquia militar-empresarial, entrincheirada no poderoso oligopólio cubano G.A.E.S.A. (Grupo de Apoyo Empresarial S.A. ), que administra fundos e investimentos multimilionários em Cuba e fora de Cuba, um controle mafioso da estrutura produtiva estatal em declínio, da indústria hoteleira, da suculenta exportação de serviços médicos em condições de semiescravidão para os trabalhadores e profissionais de saúde cubanos, e a administração também mafiosa do uso das substanciais remessas enviadas anualmente pelos emigrantes cubanos para suas famílias, sob condições de sequestro em Cuba e outros negócios diferentes, a partir dos quais essa oligarquia explora e oprime a sociedade cubana em seu conjunto, como um território colonial anexado, ao qual subsidia uma magra cesta de consumo mensal de sobrevivência para cinco dias, da qual dependem milhões de pessoas, expropriadas de suas próprias vidas, enquanto simultaneamente essa oligarquia sustenta um imponente aparato de vigilância preventiva, policial-parapolicial e de repressão carcerária, com uma gigantesca e não quantificada população carcerária, que lhes permite administrar o colapso social em curso sem grandes doses de violência explícita, como um verdadeiro Estado dentro do Estado cubano, que não presta contas à solene Controladoria Geral da República de Cuba, nem a nenhuma das dessemelhantes e inúteis organizações de massas da Revolução.

Ao mesmo tempo em que se entrincheiram no tecido social do país, como os verdadeiros gusanos “vermes” (termo que eles usaram durante décadas para definir os cubanos que simplesmente discordavam de seu regime “revolucionário”), essa oligarquia em nível internacional clama lamentavelmente todos os anos na ONU por seu mantra favorito: “o levantamento imediato e incondicional do desumano bloqueio ianque a Cuba”, que eles consideram o ‘problema mais importante que aflige a Revolução Cubana’, que nada mais é do que a saída de luxo a que esses oligarcas aspiram, que lhes permitiria estabilizar-se por mais algumas décadas como o grupo dominante dentro de Cuba, sendo os administradores e beneficiários diretos do restabelecimento da relação neocolonial de longa data com os EUA, relacionamento que eles mesmos romperam em 1960-61 e agora lamentam ter fundado “o primeiro território livre da América”, sob os impulsos anti-ianques impensados do fundador da atual dinastia Castro. A superação desse momento de transbordamento do anti-imperialismo autoritário e militarista da oligarquia castrista lhes permitiria salvaguardar seu domínio sobre Cuba, sob o protetorado ianque, e sentar-se à mesa com eles e expulsar a burguesia cubana da Flórida, como os porcos da Fazenda Manor fizeram com os humanos que expulsaram, com sua vitoriosa revolução animal, na obra-prima de George Orwell.

Em nenhuma das questões levantadas acima, nós, anarquistas de Cuba, temos a menor possibilidade de definir qualquer coisa. Em nossas mãos, temos apenas ferramentas escassas, mas essenciais: exercitar e disseminar o desejo de auto-organização, ajuda mútua e livre iniciativa popular em todas as questões da vida cotidiana, para corroer e desnaturalizar lógicas autoritárias internalizadas, mesmo entre aqueles de nós que lutam contra o despotismo governamental, banir de nossas vidas a necessidade de novos comandantes-chefes humanistas e assumir o controle de nossa própria existência precária, solidária e, sem arrogância doutrinária, atenta aos terrenos, temas e espaços onde surge a necessidade sentida de organização de base e reunião entre iguais, para contribuir com nossas propostas e ideias. Em todos os lugares, a tensão anarquista atravessa a todos nós e não é monopólio daqueles que se definem como anarquistas.

O colapso do monumental estado kafkiano que foi erguido em Cuba, supostamente para proteger a Revolução Cubana, faz parte de uma crise global em andamento e sabemos que não será um evento automaticamente libertador. Dependerá da vontade, dos desejos e da capacidade de organização das comunidades e dos povos que compõem Cuba e o mundo. As três gerações de anarquistas em Cuba que nos precederam estiveram lá e nós também estaremos.

Povos Organizados, Matrias sem Estados

Em algum lugar de Havana, julho de 2024

Tradução > Liberto

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Luz crepuscular
Um último arco-íris
Na ponta do pinheiro

Teruko Oda

[Espanha] 100×1 Solidariedade! 100×100 | Marcelo Villarroel nas ruas!

O companheiro Marcelo passou mais de 16 anos ininterruptos na prisão, que não foram capazes de quebrar sua vontade ou derrotar seu espírito indomável.

Baleado, torturado, isolado… mas íntegro e digno, irredimível. Preso pela primeira vez aos quatorze anos de idade, passou nove meses na prisão, sendo o mais jovem preso político do continente, e depois sofreu outra longa prisão, de 1992 a 2005. De seus cinquenta e um anos, ele passou trinta na prisão.

Um revolucionário dedicado que, entre muitas outras ações ousadas, recuperou bancos para financiar a luta, que se arriscou e está pagando caro por seu compromisso, um homem corajoso.

Ele participou da expropriação do Banco Security em outubro de 2007 no Chile, na qual um policial foi morto. Marcelo não foi responsabilizado por essa morte, mas foi condenado a duas sentenças de sete anos por roubo a banco, sentenças cumpridas integralmente em dezembro de 2023. Na verdade, ele deveria ter sido libertado em liberdade condicional em 2019…

Hoje, ele está preso com base em sentenças proferidas pelo sistema de justiça militar de Pinochet, pelo Ministério Público Militar, e estão tentando fazê-lo cumprir 46 anos de prisão…

Durante a ditadura militar, a prisão política nunca ultrapassou doze anos, de 78 a 90.

Marcelo representa tudo o que o Sistema odeia, um revolucionário persistente, incansável, inatingível, o pior dos exemplos… é por isso que estão tão irritados com ele.

Agora ele precisa de nós… existe a possibilidade de um litígio legal para derrubar suas condenações pelo sistema de justiça militar e tirá-lo das garras do inimigo. Isso só pode ser feito por advogados e, para essas despesas, estamos lançando esta campanha urgente de arrecadação de fundos.

Dirigimo-nos, em primeiro lugar, aos companheiros anarquistas e revolucionários e, por extensão, a todos aqueles que abominam o infame capitalismo, e até mesmo àqueles que agem apenas em termos de defesa dos direitos humanos.

Pedimos uma contribuição de 100 euros. Cem pessoas, e as despesas do processo serão cobertas.

Se você está lendo isso, não deixe passar em branco e contribua o mais rápido possível.

Essa iniciativa vem de “La Contratertulia”, um programa de rádio anarquista modesto e de longa duração. Entre os atuais contratertulianos está o companheiro Gabriel Pombo da Silva, um revolucionário incansável, outro homem corajoso que sabe, infelizmente, o que é passar trinta anos na prisão e que, sem advogados, ainda poderia estar lá.

MÉTODOS DE CONTRIBUIÇÃO:

– Por Western Union (em qualquer agência dos correios) Coloque “Ayuda familiar”. Você deve trazer sua carteira de identidade e o dinheiro em espécie. E você deve nos enviar por e-mail o recibo com o código e o nome completo do remetente para que eles possam retirá-lo. Em nome de Daniela Andrea Zapata Silva 15.356.522-8

– Somente se for impossível para você usar o método acima, depositar na conta ES 13 0049 0244 5026 1018 4975 conceito PEDIDO M. Nesse caso, não coloque mais nada.

PEDIMOS, por favor, e a pedido do Marcelo, se puder, que nos envie um comprovante de pagamento para nosso endereço de e-mail para verificar se tudo chegou corretamente (no último caso, depósito direto na conta, não é necessário).

contratertuliaARROBAprotonmail.com

E, PEDIMOS a VOCÊ que replique, encaminhe e divulgue este comunicado por todos os meios à sua disposição.

A LUTA É O ÚNICO CAMINHO!

Fonte: https://www.agorasolradio.org/podcast/la-contratertulia/no-cxxv-segunda-epoca-320/

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Primeira chuva de inverno —
O macaco também quer
Uma capinha de palha.

Bashô

O povo organizado tem mais poder do que qualquer político: Campanha Não Vote, Lute! 2024.

É comum que organizações e movimentos dos trabalhadores enxerguem as eleições como um momento para disputar as candidaturas e conseguir demandas que estão pendentes. Não é nosso caminho. A FOB, a mais de 15 anos, mantêm sua independência frente aos governos que vem e vão enquanto os grandes proprietários e empresários são servidos pelas gravatas azuis ou vermelhas. Acreditamos que disputar a gestão do Estado é um jogo que, ainda que possa garantir pequenas demandas, divide a classe mais do que unifica para a luta. Não acreditamos também que as eleições são um momento oportuno para divulgar nossa proposta de organização. Que melhor maneira de divulgar uma proposta do que realizar ela? Já que nosso projeto não passa por dentro do Estado, seria uma confusão desnecessária entrar neste jogo para apontar para a porta de saída. Buscamos praticar o que dizemos. O povo pode tudo quando está unido. Pois será através da união do povo que vamos pavimentar o caminho para uma vida digna. Será através de sua ação direta, das organizações nos seus locais de trabalho, estudo e moradia.

Deste modo, frente as eleições municipais de 2024, a FOB – Federação das Organizações Sindicalistas Revolucionárias do Brasil, convoca a classe trabalhadora para a campanha Não Vote, Lute sob o lema “O povo organizado tem mais poder do que qualquer político”. Ela deverá ocorrer entre 16 de agosto até 27 de outubro de 2024. Neste período deverão ser realizas atividades de agitação e propaganda sobre o tema da campanha, além de buscar realizar ações reivindicativas pressionando os governos municipais a atender demandas dos locais de trabalho, estudo e moradia organizados. Isto é mais relevante ainda por conta que nas eleições municipais é onde os candidatos utilizam direitos básicos como moeda de troca para suas candidaturas: habitação (telhas e sacos de cimento), consultas na saúde pública, empregos, pavimentação de ruas, saneamento etc.

Ainda que a decisão de realizar esta campanha tenha sido debatida amplamente em toda federação, deve-se observar cada contexto local para sua realização ter resultado positivo na organização. Nenhum filiado da FOB deverá ser repreendido por votar ou não votar, assim como se posicionar pessoalmente, desde que não vincule este posicionamento à organização. A campanha, então, é realizada pela livre adesão dos filiados e parceiros da luta.

Seguindo as deliberações da plenária nacional da FOB de 2021, é importante reforça que devemos priorizar as alianças táticas no trabalho de base ao invés de realizar articulações com agrupamentos ideológicos que nos distanciam de nosso objetivo enquanto sindicalistas revolucionários.

Na página lutafob.org/naovotelute2024 será disponibilizado materiais e orientações gerais para a campanha.

Viva a classe trabalhadora! Avante!

Orientações Gerais

Período: 16 de agosto à 27 de outubro de 2024

Atividades Sugeridas:

Rodas de Conversa / Cine debates / Seminários / Muralismo / Batalhas de Rap e outras manifestações populares / Atos e passeatas / Panfletagem / Pintura de camisas

Materiais:

Cartazes / Cartazes A4 simples / Panfletos / Comunicado Nacional em Panfleto A5 / Hashtags: #naovotelute

lutafob.org

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Rastros de vento,
escuridão de brasas,
um salto suave.

Soares Feitosa

Quase 50 mil pessoas morreram na Europa por causa do calor em 2023, mostra estudo

O aquecimento global provocado pela concentração crescente de gases de efeito estufa na atmosfera terrestre foi responsável direto pela morte de quase 50 mil pessoas só no continente europeu no ano passado, principalmente por conta do calor excessivo. A conclusão é de um novo estudo publicado nesta semana na revista Nature Medicine.

Segundo os autores do estudo, esse número poderia ter sido 80% maior sem medidas de adaptação climática empreendidas nos últimos 20 anos. Entre as medidas destacadas, estão avanços na assistência médica, uso mais generalizado de ar-condicionado e campanhas informativas sobre os riscos do calor.

O estudo utilizou os registros de óbitos disponíveis no Eurostat, que abrange 35 países europeus, além de um modelo epidemiológico para analisar as mortes junto com os registros semanais de temperatura de 2023 para estimar o número de mortes que poderiam ser atribuídas ao calor. A análise revelou que 47.690 pessoas morreram por efeitos do calor intenso na Europa no ano passado.

A maior parte das mortes decorrentes do calor extremo foi registrada nos países da bacia do Mediterrâneo. A Grécia, líder no ranking, experimentou 393 mortes por milhão de pessoas no ano passado, seguida pela Itália (209 mortes por milhão) e Espanha (175 mortes por milhão).

Os pesquisadores também analisaram a exposição dos países europeus ao risco de mortes por calor. Países mais frios, como Reino Unido, Noruega e Suíça podem enfrentar o maior aumento relativo no número de dias desconfortavelmente quentes nos próximos anos. Mas o número absoluto de mortes continuará a acontecer no sul europeu, que é mais bem adaptado ao clima quente, mas ficará mais exposto a temperaturas escaldantes.

A despeito de 2023 ter sido o ano mais quente já registrado em todo o mundo, o número de mortos pelo calor na Europa foi inferior ao registrado em 2003, quando uma onda de calor matou cerca de 70 mil pessoas em todo o continente. Para os pesquisadores, essa redução no número de mortes mostra o sucesso das ações de adaptação climática nas últimas décadas.

“Precisamos considerar as mudanças climáticas como uma questão de saúde pública”, defendeu Elisa Gallo, pesquisadora do Instituto de Saúde Global de Barcelona (Espanha) e autora principal do estudo, ao NY Times. “Ainda temos milhares de mortes causadas pelo calor todos os anos, então ainda temos que trabalhar muito e temos que trabalhar mais rápido”.

Fonte: https://climainfo.org.br/2024/08/13/quase-50-mil-pessoas-morreram-na-europa-por-causa-do-calor-em-2023-mostra-estudo/

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pétala amarela
a borboleta saltou
sem pára-quedas

João Acuio

[Chile] Memórias de um julgamento

(…) Depois veio uma testemunha mais importante. Trata-se do motorista de táxi que ajudou Luciano quando ele foi queimado pela explosão. Nesse caso, apesar das tentativas da defesa, observou-se que o taxista ficou com sequelas psicológicas, pois, após ter ajudado o Tortuga a se recuperar, deixou o local dirigindo, mas em estado de choque.

Segundo ele, teve pesadelos durante 5 meses, nos quais sonhava com o corpo ferido de nosso companheiro. Ele também afirmou que seu carro ficou com danos menores (apenas alguns pequenos arranhões) porque estava muito perto do local da explosão. Por fim, ele contou que muitas pessoas passaram pelo local e nenhuma delas o ajudou.

Quando terminou seu depoimento, Luciano decidiu falar brevemente. Seria a única vez que ele falaria durante o julgamento.

– Olá Rodrigo… Eu não sou muito bom em expressar o que eu sinto, mas eu queria lhe agradecer pela sua ação, pelo que o senhor fez… Eu quero lhe agradecer muito por ter me ajudado.

O motorista de táxi respondeu:

-Sim, quero dizer… repito, não sei por que fiz isso, talvez tenha sido uma questão de instinto. Na época, foi muito chocante, mas agora fico feliz em vê-lo assim, sorrindo. Sei que sou uma pessoa simples, mas gostaria de saber se posso ir abraçá-lo…

O presidente do tribunal lhe deu permissão e os dois foram para o centro da sala de audiências para se abraçarem com muita emoção e agradecerem e parabenizarem um ao outro. O motorista de táxi deixou a sala de audiências acenando para Luciano.

Fonte: https://informativoanarquista.noblogs.org/post/2024/08/16/chile-memorias-de-un-juicio/

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Tormenta hibernal —
O rosto do passante,
Inchado e dolorido.

Bashô

Contra a miséria política.

UERJ: Estudantes ocupam o campus Maracanã

Na “calada da noite”, no dia 25/06, enquanto os estudantes se encontravam de férias e, portanto, afastados em grande parte da universidade, a reitoria da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), composta pela reitora Gulnar Azevedo e pelo vice-reitor Bruno Deusdará, assinou um Ato Executivo de Decisão Administrativa (AEDA 038/2024), o qual vem sendo devidamente chamado pelo corpo estudantil como “AEDA da Fome”. Os estudantes, em resposta, decidiram ocupar o campus Maracanã da UERJ.

A AEDA da Fome

Sob a alegação de que a UERJ está sem dinheiro para garantir a permanência e os direitos dos estudantes cotistas, a reitoria simplesmente colocou em xeque os estudantes não cotistas de baixa renda, isto é, estudantes provenientes do proletariado, o que torna evidente o teor de classe da atitude covarde da reitoria.

O AEDA mudou os requisitos para obtenção das bolsas estudantis na universidade. Ela se encontra em vigor desde o dia 1° deste mês. O auxílio-material foi de R$1,2 mil (pago 2 vezes ao ano) para a metade do valor. O auxílio-alimentação ficou restrito a quem estuda em campus sem restaurante universitário. O número de estudantes contempladas pelo auxílio-creche foi reduzido a apenas 1,3 mil estudantes, sendo que antes bastava a solicitação. A bolsa voltada aos estudantes com vulnerabilidade agora passa a exigir renda bruta de meio salário mínimo por pessoa da família, isto é, R$ 706.

Alguns servidores defendem que os cortes sejam realizados, afirmando que os auxílios são auxílios e não salários, não tendo, portanto, o objetivo de pagar as constas das famílias desses discentes. Esses discentes, em sua maioria proletários racializados como não-brancos, que têm de enfrentar longos trajetos e horas de transporte para chegar à universidade, para não mencionar quando as localidades nas quais moram são afetadas diretamente pela violência que impede sua ida à universidade.

A Resposta dos Estudantes

Os estudantes decidiram ao longo de reuniões, por um conjunto de atos a serem realizados no dia 14/08. Este dia começou com um ato às 7h em apoio aos terceirizados, que estão há meses sem receber salário. Às 15h ocorreu um ato do Dia Nacional do Estudantes na Cinelândia e, por fim, um ato pela revogação da AEDA da Fome em frente a UERJ às 17h, que fechou a avenida São Francisco Xavier, numa clara exposição da força que a unidade de luta é capaz. Este último resultou na ocupação do prédio principal do campus Maracanã da UERJ. Barricadas com mesas e bancos foram levantadas nas portas principais.

Sobre a AEDA, uma estudante afirmou: “é um absurdo isso tudo! Uma amiga minha não vai poder vir pra faculdade porque não vai receber o auxílio-creche, não sabe o que vai fazer. Eu mesma penso em arranjar um trabalho pra me manter e me formar. Mas ai a gente escuta gracinha de professor falando que a gente tem que se dedicar totalmente à universidade, como se a gente fosse um bando de preguiçosos. Um professor disse que quem trabalha no máximo vai ganhar um pouco a mais por ter ensino superior, mas que não é pra esperar mais do que isso.” Já um estudante da Baixada Fluminense disse: “é difícil. A gente chega aqui e o professor olha pra gente com cara feia. A gente fica quase 2h no ônibus e no trem e a gente ainda tem que tirar do nosso bolso, que não é pouca coisa. Qual a diferença disso pra pagar uma universidade privada?”. Este último relato é importante, pois mostra, de certo modo, como certas medidas assumidas pelas universidades públicas empurram os estudantes para as universidades privadas, o que também higieniza a comunidade acadêmica, já que são os estudantes que recorrerão às universidades privadas, não os playboys.

Sem qualquer surpresa, a reitoria se prontificou em criminalizar a ocupação, partindo para cima dos estudantes pobres revoltados contra a fome: na manhã desta quinta-feira, 15/08, a empresa Conquista ordenou que seus funcionários terceirizados da vigilância agredissem os estudantes. Estes vigilantes atuam na área de segurança patrimonial, não sendo portanto parte da sua função a repressão, muito menos a repressão a movimentos sociais. Como bem questionou o grupo Invisíveis (@invisiveistrabalhador) no seu perfil no Instagram: “Seria isso um desvio de função?” Como bem pontuou o grupo numa outra postagem: “a ordem dada pela coordenação de segurança da UERJ, é desvio de função violação de relações trabalhistas.”

Relatos de Trabalhadores Terceirizados sobre a Ocupação

O grupo Invisíveis tem realizado uma enquete operária com as trabalhadoras e os trabalhadores terceirizados da UERJ. Na data de hoje, os seguintes relatos foram apresentados numa postagem:

“A empresa disse para não vir por que ia tá tudo suspenso. Mas eu já tô aqui na UERJ, passei pela entrada principal e vi tudo trancado. Quando passei disseram que a greve é até revogarem a medida aí. Aí nós tamos aqui no bandejão. A princípio não vai servir comida não, só que o meu turno já fez 100 quilos de feijão. 100 QUILOS! A gente vai ver como é que vai ficar. A gente tá aqui. E ainda tamo esperando o vale alimentação e transporte, que vem atrasado e parcelado. E a gente tá aguardando a comida pronta aqui pra ser congelada. Não vão jogar fora.” (Relato apresentado por funcionários da empresa PRIME, no bandejão).

“Vocês tinham é que ocupar mais e nem deixar a gente entrar. Tamo sem salário, a CONQUISTA só atrasa. Só assim pra gente poder fazer paralisação. A gente não pode paralisar sem completar 1 MÊS  de SALÁRIO ATRASADO. Fora isso, se a gente paralisar é abandono do posto e DEMITEM COM JUSTA CAUSA. Tem um ESTATUTO DO VIGILANTE que define isso. E se a gente FALA COM VOCÊS lá EMBAIXO É OBRIGADO A ASSINAR ADVERTÊNCIA, sempre é assim. Por isso a gente não fala normalmente. A gente fica com muito medo. Não pode nem pegar panfleto com vocês. E nem ler nada.” (Relato apresentado por vigilantes da empresa CONQUISTA, que estão sem receber o salário).

A decisão de suspensão do bandejão não é à toa. Trata-se duma clara tentativa de desmobilizar os discentes através da fome. Cabe relembrar que o bandejão só existe hoje graças à organização e mobilização dos estudantes em 2017, que lutaram pela implementação do bandejão, movimento que ficou conhecido como Ocupa Bandejão. As ameaças de demissão aos vigilantes é também uma forma de desmobilização através do isolamento entre estes e os estudantes. Como foi relatado: “A gente fica com muito medo. Não pode nem pegar panfleto com vocês. E nem ler nada.” É o medo da demissão, não a desconfiança dos vigilantes em relação às ações tomadas pelos estudantes, o que os impede de somarem à ocupação. Desta forma, o enfraquecimento da luta contra a AEDA da Fome se torna iminente e, com ela, a tragédia da exclusão de 6 mil estudantes da assistência estudantil.

A empresa Conquista, não obstante não pagar o salário dos vigilantes, ainda ordena que agridam os estudantes, numa clara cumplicidade com a reitoria. Caso não sigam as ordens, esses funcionários serão demitidos. O Capital opera pelo medo. As suas condições de vida e as dos estudantes agredidos não são tão diferentes assim. Como afirmou uma funcionária da limpeza, também contratada pela empresa Conquista: “COVARDIA ISSO, ESSES SEGURANÇAS TUDO SEM SALÁRIO, SEM DISSÍDIO, SEM DIREITOS AGREDINDO ESTUDANTES”. A empresa atrasou o pagamento dos seus funcionários pela oitava vez; deve pagamento do dissídio; tem um dos contratos mais caros da UERJ; lucra burlando pagamento de rescisão, conforme cartaz do grupo Invisíveis. A empresa, assim como a reitoria, estão contra nós, proletárias e proletários!

Já o G1, em cumplicidade com a política elitista da reitoria, expõe a situação como “tumulto” e “confusão” e apresenta única e exclusivamente o que diz a reitoria, a qual se faz de vítima diante dos ocorridos. “A ocupação com a obstrução é inaceitável, pois causa prejuízos acadêmicos e administrativos à UERJ”, afirma a reitoria. Inaceitável é a situação cada vez mais precária da universidade. O corte de bolsas tem implicações diretas sobre os estudantes. Se a preocupação é realmente com “prejuízos acadêmicos”, por que não considerar os prejuízos pelos quais os estudantes passarão com a mudança nos requisitos para a obtenção de bolsas? Não é de se espantar que os protestos realizados pelos estudantes, bem como sua recusa em aceitar a conciliação de classe (“As propostas para dar solução ao impasse foram todas recusadas pelos estudantes”, conforme reitoria), sejam traduzidos como “atitudes violentas”. Afinal de contas, é “confuso” quando o proletariado racializado decide não mais ser capacho ou um corpo docilizado. Ao não se conformar mais, o proletariado passa a falar uma outra língua, incompreensível aos ouvidos habituados ao “sim, senhor!”. Numa sociedade dividida em classes, o estudante é sim um trabalhador. A tentativa de conter a união entre estudantes e terceirizados é para reduzir os riscos duma posterior expansão da luta no seio da comunidade acadêmica para uma luta social mais ampla.

A resposta dos estudantes é legítima e deve ser apoiada por todas aquelas pessoas e organizações engajadas na luta por transformações sociais. Obviamente, a luta não deve ser restringida ao meio estudantil e não parece ser este o caso, posto que os estudantes tentam a todo custo – e apesar dos ataques – aproximar os terceirizados. No dia 10/08, durante um ato dos terceirizados, os estudantes estiveram presentes. O que pode fortalecer a luta estudantil e dos terceirizados e expandi-la, é a nossa contribuição a partir de outros movimentos sociais e sindicais externos à universidade. O fortalecimento desta luta implica no fortalecimento das demais. Se não contribuirmos, ela enfraquecerá e não serão poucos os que lamentarão que o movimento estudantil anda fraco e sem forças. Pois bem, tomemos alguma providência!

agência de notícias anarquistas-ana

soprando esse bambu
só tiro
o que lhe deu o vento

Paulo Leminski

[Espanha] Pensando sobre o (condenado e falacioso) anarcocapitalismo

Não são poucos os meios de comunicação e escritores que insistem em definir o governo da Argentina como o primeiro governo anarcocapitalista da história. É possível que o óbvio oximoro seja apenas uma tentativa de atrair um público intelectualmente sedentário. O que esses pseudolibertários, supostamente defensores do capitalismo sem restrições, defendem deveria significar o fim das instituições estatais coercitivas. Obviamente, eles não são contra a exploração (sinônimo de açambarcamento dos meios de produção em mãos privadas, eu diria), mas também não são contra a coerção mais óbvia, pois isso produziria forças policiais que também são privadas e multiplicadas muitas vezes. Em outras palavras, uma falácia como o topo de um pinheiro. Nem o iníquo Milei vai desmantelar totalmente o Estado, não indo além de simplesmente cortar tudo o que puder em termos de proteção social, nem os chamados anarcocapitalistas têm o menor vestígio de sinceridade além de alguma palestra no YouTube que atrai quem pouco sabe sobre o mundo real. O que todo esse bando de ultraliberais pseudolibertários finge ser é apenas uma exacerbação do terrível mundo político e econômico em que vivemos. Nem mesmo a estupidez do minarquismo é muito plausível, já que o Estado é o que é, com sua própria lógica de dominação, independentemente de suas instituições serem mais ou menos amplas e de aceitar certas liberdades formais para preservar os interesses das elites econômicas.

Insistiremos que isso é mais do mesmo na realidade que sofremos. Hoje há um governo de aparência ultraliberal, em poucos anos haverá um mais ou menos social-democrata, mas sem questionamento real do sistema econômico, nem, veja bem, das instituições estatais. E é por isso que a toda infâmia historicamente lançada contra o anarquismo junta-se agora essa vil retórica (anarco)capitalista e até mesmo por falar sem pudor de governos supostamente libertários. É claro que as ideias anarquistas devem ser constantemente revisadas e atualizadas, mas vou explicá-las para que qualquer pessoa com um cérebro bem oxigenado possa entendê-las; principalmente, com uma premissa irrenunciável, a luta contra todas as formas de dominação. Obviamente, essa luta emancipatória também inclui a abolição, na medida do possível, da exploração do trabalho alheio em um mundo com poucas possibilidades de escolha para os mais fracos; ou seja, apesar do que a máquina de propaganda de certas tendências nos assegura, o capitalismo não é sinônimo de liberdade, mas de coerção e dominação na esfera material da existência (tão ou mais importante que qualquer outra).

Falar de um governo anarquista é, de fato, uma contradição, algo impossível em um nível ontológico (seja lá o que isso signifique). Nos falarão de ministros anarquistas em meio à guerra civil espanhola, bem como muitos líderes anarquistas em organizações paraestatais em circunstâncias muito específicas, mas isso não tornou nenhum governo anarquista. Sem dúvida, havia anarquistas em um governo, sim, e em circunstâncias muito excepcionais (não estou adotando um tom de justificativa, a história é o que é e as pessoas sinceras fizeram o que puderam), mas o que está claro é que nenhum desses libertários buscou acesso ao poder para desmantelar o Estado, mas para defender uma base comum de luta contra a reação. Milei, como muitos dos pseudolibertários de hoje, é aquele que não possui um pingo de sinceridade, enchendo a boca com críticas ao Estado para se candidatar a uma eleição e garantir seu lugar no trono. Outra marca registrada do anarquismo autêntico é a coerência entre meios e fins; nenhum anarquista vai entrar no Estado, ou em qualquer organização política hierárquica, com a certeza de que vai derrubá-los. Como dizia o clássico, somente práticas livres podem dar origem à liberdade, e lembremos também que a proposta verdadeiramente libertária é, acima de tudo, moral. A confusão política atual leva alguns comerciantes inescrupulosos a encher a boca de liberdade e adotar sua justificativa nas práticas históricas do socialismo estatista (terrivelmente autoritário e, certo, um fracasso em todos os níveis em seu suposto zelo emancipatório). O que é mais significativo, e deveria ser óbvio para aqueles que têm seus neurônios bem conectados, é que esses pseudolibertários geralmente andam de mãos dadas com a direita mais reacionária.

Juan Cáspar

Fonte: https://exabruptospoliticos.wordpress.com/2024/07/27/a-vuelta-con-el-condenado-y-falaz-anarcocapitalismo/

Tradução > anarcademia

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/08/25/historia-da-extrema-direita-dos-eua-da-escravidao-ao-anarcocapitalismo/

agência de notícias anarquistas-ana

Coruja voa
Espreitando o rato
Que passeia só.

Ze de Bonifácio

[Espanha] Juntas contra a espionagem de Estado

A não aceitação da ação contra o agente infiltrado da Polícia Nacional, DHP, nos movimentos sociais de Barcelona, avaliza o uso destas técnicas de controle e criminalização dos movimentos sociais, violando direitos fundamentais.

Desde diferentes coletivos políticos, assembleias, organizações e movimentos sociais denunciamos a gravidade que significa a Audiência Provincial de Barcelona considerar improcedente agora a ação apresentada por algumas companheiras contra o policial infiltrado DHP, seus superiores hierárquicos e o Ministério do Interior. A Audiência Provincial confirma a inadmissibilidade da ação e rechaça a investigação de uma infiltração que durou 3 anos, e que supõe a espionagem de um amplo leque de coletivos, espaço e assembleias, e o estabelecimento de diversas relações pessoais.

Por isso, algumas das pessoas afetadas decidiram interpor uma ação por delitos de abusos sexuais, delitos contra a integridade moral, descoberta e revelação de segredos íntimos, e o impedimento do exercício de direitos cívicos.

Nos dois últimos anos foram detectados mais de oito casos de infiltrações policiais em movimentos sociais. O Estado cruzou todas as linhas vermelhas para recolher informação de pessoas, entornos, coletivos e organizações que lutam para ter uma vida digna. Os corpos policiais não duvidaram em utilizar relações pessoais, íntimas e sexo-afetivas, o engano, a manipulação e a coisificação. Tudo amparado pelo silêncio do Ministério do Interior, que insiste em não dar nenhum tipo de informação, recorrendo à lei franquista de Segredos Oficiais (Lei 9/1968, 5 de abril), que acoberta qualquer informação como secreta. Este caso não é único, mas, que estas operações policiais também foram documentadas em outros países contra diferentes coletivos e movimentos. Um tribunal de direitos humanos inglês sentenciou com contundência que estas práticas podem ser consideradas TORTURA, já que prescindem de toda ética e respeito.

Confirmar a inadmissão de ações como esta, não só significa não querer investigar estes casos, fato já muito grave em si mesmo; como também, legitima e aprova a infiltração de policiais nos movimentos sociais e políticos sem limites. Significa também aprová-la na intimidade das pessoas, em suas casas e em suas camas, dando via livre à violação em cadeia de direitos básicos e fundamentais como o direito ao protesto, e em particular o direito à liberdade de associação. Assim, a infiltração policial ataca diretamente o associacionismo e criminaliza o ativismo, controlando e, definitivamente, reprimindo, o tecido social e político de nossos bairros, povoados e cidades.

Somos conscientes dos efeitos individuais e pessoais que estas práticas tiveram e ainda tem sobre as pessoas diretamente afetadas por este operativo policial. Quantas mais o foram sem sabê-lo? Quantas o serão amanhã? E se acontecer com você? Denunciamos que o alcance que puderam ter e terão estas infiltrações é incalculável se isto não se detém.

Por isso, queremos encontrar-nos na solidariedade e no apoio mútuo, organizadas e decididas a responder a este ataque, e a fazê-lo de forma coletiva. Diante disso, diferentes coletivos políticos, organizações e movimentos sociais manifestam que estas praticas tem um forte impacto coletivo e que desafiam a cada uma de nós, tanto de maneira individual como coletiva.

Exigimos a imediata finalização destas operações; a investigação destes fatos e de outras infiltrações policiais; o levantamento e apuração de responsabilidades públicas; e a não repetição deste tipo de operações. Para que mais nenhuma de nós se veja afetada pelas infiltrações policiais.

E por isso não nos cansaremos de repetir:

JUNTAS CONTRA A ESPIONAGEM DE ESTADO!

Fonte: https://framaforms.org/juntes-contra-lespionatge-destat-juntas-contra-el-espionaje-de-estado-1719853596

Tradução > Sol de Abril

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/11/03/espanha-sindicalista-da-cgt-pode-pegar-tres-anos-de-prisao-por-postar-no-facebook-uma-foto-de-policiais-infiltrados/

agência de notícias anarquistas-ana

um longo suspiro –
o luar brilha sobre
seios intumescidos

Suezan Aikins