Irã, mais de mil pessoas executadas neste ano até agora

Redes Libertárias

Mais de 1.000 pessoas foram executadas no Irã durante este ano, denunciaram especialistas das Nações Unidas. Segundo Iran Human Rights, é a cifra mais alta nos últimos 30 anos. IHR, com sede na Noruega, contabiliza e verifica as execuções no Irã diariamente. A organização se queixa da ausência de reações internacionais ante esta barbárie.

O IHR afirmou que suas cifras são “um mínimo absoluto”, e que a cifra real provavelmente seja maior “devido à falta de transparência e as restrições à informação”. No Irã, as execuções se realizam atualmente mediante enforcamento, ainda que no passado se empregassem outros métodos. A maioria se realiza na prisão, ainda que ocasionalmente se realizem enforcamentos públicos. Segundo as organizações de direitos humanos, o Irã é o segundo país com maior número de execuções do mundo, depois da China, onde se crê que se executam milhares de pessoas ao ano, ainda que não se dispõe de cifras precisas.

O número de pessoas executadas pelas autoridades iranianas nos nove primeiros meses deste ano já superou a cifra de 972 execuções do ano passado. O IHR informou que a maioria dos enforcamentos se devia a delitos não letais, e que 50% das execuções se deviam a casos relacionados com drogas. Ao menos 499 pessoas foram executadas por este motivo, um aumento brutal com relação às entre 24 e 30 execuções anuais registradas entre 2018 e 2020.

Do total de execuções no que vai de 2025, 28 foram de mulheres, muitas das quais foram condenadas após matar a um marido por sofrer violência de gênero.

Desde os protestos Mulher, Vida, Liberdade de 2022, as autoridades iranianas aumentaram o uso da pena de morte como ferramenta de repressão estatal e, assim, esmagar a dissidência. Após a escalada de hostilidades entre Israel e Irã em junho de 2025, as autoridades também intensificaram o uso da pena de morte sob pretexto da segurança nacional. Desde 13 de junho de 2025, ao menos dez homens foram executados por acusações de motivação política, oito dos quais foram acusados de espiar para Israel.

É muito comum, que as pessoas em situação de risco de ser condenadas a morte o sejam por acusações excessivamente amplas e pouco definidas, como “inimizades contra Deus” (moharebeh), “corrupção na terra” (efsad-e fel-arz) e “rebelião armada contra o Estado” (baghi).

As investigações da Anistia Internacional demostraram que os tribunais revolucionários, que exercem jurisdição sobre delitos relacionados com a segurança nacional e as drogas, carecem de independência e impõem condenações severas, incluída a pena de morte, após julgamentos manifestamente injustos, e que às pessoas julgadas ante ditos tribunais lhes negam sistematicamente seu direito a um julgamento justo.

A aplicação da pena de morte tem tido um impacto desproporcional sobre as minorias marginalizadas, especialmente as pertencentes às comunidades afegãs, baluchi e kurda. Ao menos duas mulheres kurdas, a trabalhadora humanitária Pakhshan Azizi e a dissidente Verisheh Moradi, estão condenadas à morte e correm o risco de serem executadas.

O número de pessoas afegãs executadas pelas autoridades iranianas teve um crescimento triplicado, passando de 25 em 2023 a 80 em 2024. Esta tendência alarmante coincide com uma proliferação dos discursos racistas e xenófobos por parte das autoridades iranianas e se produz em meio de uma onda sem precedentes de expulsões massivas forçadas de pessoas de nacionalidade afegã que afeta inclusive às nascidas no Irã.

Fonte: https://redeslibertarias.com/2025/10/13/iran-mas-de-mil-personas-ejecutadas-en-lo-que-va-de-ano/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

a sombra da nespereira
mergulha
na frescura do poço

Rogério Martins

[França] Dois livros para entender os efeitos da invasão tecnológica

Em um pequeno livro publicado no final de 2011, Frédéric Metz convida o leitor a buscar com ele respostas para uma pergunta formulada de maneira simples: o que acontecerá “quando o google, diante do mundo, souber ver e nomear”? [1]

“O google”, aqui, não é apenas o “G” dos GAFAM. É por isso que o autor remove sua letra maiúscula inicial e o transforma em um nome comum. O google é a máquina, no sentido genérico do termo — essa grande máquina de contornos indistintos, ao mesmo tempo rede e agregado de máquinas, da qual normalmente só percebemos a função de “mecanismo de busca”, mas que sabemos ser sustentada por uma miríade de sistemas e interdependências.

Na época em que Metz escreveu, o google ainda não sabia ver. Ele só manipulava palavras e reconhecia imagens apenas por suas legendas, aquelas que humanos haviam adicionado. Ele comparava, discriminava e calculava apenas a partir de palavras. Não “via”: não conseguia distinguir um rosto de outro, nem uma foto de flor de um desenho de flor. Já era formidavelmente poderoso, mas o autor nos convida a projetar o próximo passo de sua evolução: o momento em que ele poderia, por meio de uma rede infinita de olhos e sensores, ver o mundo por si mesmo e interpretá-lo sem mediação humana aparente [2]. Trata-se de considerar o que essa capacidade, e o uso que os humanos farão dela, fará com o próprio conhecimento.

“Não estamos falando aqui de uso policial — nem da destruição de toda clandestinidade possível. Também não estamos falando do medo de que as máquinas tomem o poder, nem do medo por nossa ‘liberdade’, nem mesmo do medo de polícias oniscientes e superpoderosas. Falamos, muito mais simplesmente, de uma revolução — colossal e perfeitamente simples — do cotidiano e da vida […].

Falamos do desaparecimento definitivo das coisas inicialmente desconhecidas.

De toda pessoa, antes que ela tenha dito algo, antes que você tenha olhado para ela, visto algo, seu computador — não maior que um telefone, sendo seu telefone — lhe dará a idade, a história, a genealogia, o currículo e algumas centenas de fotos tiradas aqui ou ali […]. E isso não vale apenas para o reconhecimento de pessoas. Há também o reconhecimento do pássaro desconhecido na cerca viva, do quadro desconhecido e da melodia. A máquina se torna capaz de me dar o nome de tudo o que aparece diante de mim. Ela reconhece e nomeia tudo o que vejo. É o conhecimento dado sem mediação — sem experiência prévia, sem vida […]. A máquina, em toda parte, antecipa meu conhecimento e meu desejo de conhecer. Onde encontrarei o desejo de aprender, de fazer conhecimento, quando minha máquina me indicar, por si mesma, de antemão, sempre tudo?”

Esse é o cerne da questão, a constatação vertiginosa à qual Frédéric Metz busca nos alertar, evocando os trabalhos dos maiores filósofos (Aristóteles, Kant e Merleau-Ponty) sobre a natureza do conhecimento, da experiência e da percepção, e desenvolvendo o antigo aviso de Walter Benjamin de que, com o advento da era moderna, “o curso da experiência despencou”.

O google que está por vir, nos diz Metz, é simplesmente o fim da experiência. É um mundo onde o conhecimento precede a experiência, as respostas precedem as perguntas. O saber acumulado em um instante “t” é devolvido aos humanos de forma padronizada (validada por vieses desconhecidos) e, assim, os poupa de qualquer aventura. O passado, um certo passado, antecipa todo futuro possível.

“O mundo com o google será uma percepção saciada; sempre já terminada, antes mesmo de começar; sempre já satisfeita; sem desejo; sempre já feita; sem violência. […] O google extingue a violência da percepção.” E mais adiante: “Uma coisa, de agora em diante, nunca mais aparecerá sozinha. Ao se apresentar, ela carregará sempre seu nome, dado por outro que não eu, amarrado a ela, e além de seu nome, terá a carga — esta a sobrecarregando igualmente, duplamente, quadruplamente — de todo o conhecimento acumulado sobre ela — contido no google. O google não coloca, portanto, o problema de um mundo virtual, mas o do mundo real transformado — reduzido a — conhecimento imediato. O google cobrirá com seus nomes as coisas do mundo. E o mundo não mais aparecerá senão enfeitado, carregado, amarrado, fechado, trajado, coberto.”

Quem controla a linguagem controla o pensamento

Quem controla a linguagem controla o pensamento, dizia Orwell. Ao antecipar toda experiência, todo conhecimento sobre as coisas e os seres do mundo, Metz nos alertava, em 2011, sobre uma ameaça formidável ao próprio pensamento. E o que é verdadeiramente terrível, ao escrever esta nota em 2025, é constatar que esse google já chegou; e que, se a “IA” é provavelmente o nome mais recente que essa máquina assumiu, ela não esperou por essa última evolução para atingir o estágio que Metz temia. A IA seria antes uma nova metamorfose, que nos leva ainda mais longe do que as especulações desse primeiro autor.

Desde 2011, vivenciamos não apenas a distribuição global dos smartphones (que são tanto máquinas de acesso ao conhecimento do google quanto olhos e instrumentos para alimentá-lo), mas também a disseminação de câmeras e satélites, o reconhecimento automático de linguagem, a coleta e cruzamento permanentes de dados e, finalmente, com o advento do aprendizado de máquina, a submissão mecânica de uma parte crescente da gestão dos assuntos humanos.

Estamos lá, então. Já. Não apenas o google aprendeu a ver e nomear — mas agora ele fala, aconselha e determina certos aspectos da história humana. Somos sujeitos em seu mapa global atualizado em tempo real — sujeitos, agentes e usuários.

É isso que James Bridle chama, em um livro publicado em 2022, de “Nova Era das Trevas” [3]. Ele acrescenta imediatamente que a fórmula não visa suscitar angústia, mas é antes uma constatação e um convite: a tecnologia tornou o mundo obscuro para nós. Avançamos agora no meio de causalidades desconhecidas, tateando na névoa, e temos que aprender a lidar com isso. A principal causa das trevas, segundo Bridle, é o que ele chama de “pensamento computacional”, que apresenta como uma radicalização do conceito de “solucionismo tecnológico”. O pensamento computacional é a organização numérica do mundo em todas as suas formas. É o abismo dentro do qual toda questão deve encontrar sua resposta com instrumentos de medição e cálculo, mesmo quando se trata de questionar a medição e o cálculo em si. Um pensamento finito, que não conhece mais um exterior, que subsume tudo. Bridle multiplica os exemplos em todas as direções — da gestão da economia por meio do “trading de alta frequência” à vigilância da navegação aérea e do clima com tecnologias autônomas, da criação automática de vídeos no YouTube e objetos comerciais absurdos e aterrorizantes à saturação das agências de inteligência por seus próprios dados acumulados, da natureza desconhecida das “verdades” encontradas na internet aos complôs reais ou supostos…

Vamos parar antes de terminar com uma das anedotas que ele apresenta, porque ela ressoa tragicamente com uma realidade ainda mais recente, como um último sintoma nesta hora de aceleração desenfreada em que estamos imersos. Bridle retoma uma história (mesmo que “provavelmente apócrifa”) na qual redes neurais foram treinadas pelo exército para identificar tanques inimigos escondidos nas florestas. A aposta do “aprendizado de máquina” é que, ao fornecer quantidades fenomenais de informações a máquinas capazes de se autoeducar, elas poderão desenvolver novas formas de percepção que, mesmo inconcebíveis para humanos, responderão às perguntas que eles fazem. Nesse caso, o treinamento foi um sucesso: as máquinas conseguiram determinar com quase 100% de precisão as fotos aéreas de florestas onde havia tanques e descartar as que não tinham. No entanto, o teste em condições reais foi um fracasso retumbante. Os militares só entenderam depois que o que a máquina detectava não era a presença ou ausência de tanques, mas o estado da cobertura de nuvens nas fotos — as séries de imagens usadas no treinamento haviam sido tiradas em dois momentos diferentes do dia, um com tanques na floresta em tempo bom, e outro sem tanques com o tempo nublado.

É isso que James Bridle chama, em um livro publicado em 2022, de “Nova Era das Trevas” [3]. Ele acrescenta imediatamente que a fórmula não visa suscitar angústia, mas é antes uma constatação e um convite: a tecnologia tornou o mundo obscuro para nós. Avançamos agora no meio de causalidades desconhecidas, tateando na névoa, e temos que aprender a lidar com isso. A principal causa das trevas, segundo Bridle, é o que ele chama de “pensamento computacional”, que apresenta como uma radicalização do conceito de “solucionismo tecnológico”. O pensamento computacional é a organização numérica do mundo em todas as suas formas. É o abismo dentro do qual toda questão deve encontrar sua resposta com instrumentos de medição e cálculo, mesmo quando se trata de questionar a medição e o cálculo em si. Um pensamento finito, que não conhece mais um exterior, que subsume tudo. Bridle multiplica os exemplos em todas as direções — da gestão da economia por meio do “trading de alta frequência” à vigilância da navegação aérea e do clima com tecnologias autônomas, da criação automática de vídeos no YouTube e objetos comerciais absurdos e aterrorizantes à saturação das agências de inteligência por seus próprios dados acumulados, da natureza desconhecida das “verdades” encontradas na internet aos complôs reais ou supostos…

Vamos parar antes de terminar com uma das anedotas que ele apresenta, porque ela ressoa tragicamente com uma realidade ainda mais recente, como um último sintoma nesta hora de aceleração desenfreada em que estamos imersos. Bridle retoma uma história (mesmo que “provavelmente apócrifa”) na qual redes neurais foram treinadas pelo exército para identificar tanques inimigos escondidos nas florestas. A aposta do “aprendizado de máquina” é que, ao fornecer quantidades fenomenais de informações a máquinas capazes de se autoeducar, elas poderão desenvolver novas formas de percepção que, mesmo inconcebíveis para humanos, responderão às perguntas que eles fazem. Nesse caso, o treinamento foi um sucesso: as máquinas conseguiram determinar com quase 100% de precisão as fotos aéreas de florestas onde havia tanques e descartar as que não tinham. No entanto, o teste em condições reais foi um fracasso retumbante. Os militares só entenderam depois que o que a máquina detectava não era a presença ou ausência de tanques, mas o estado da cobertura de nuvens nas fotos — as séries de imagens usadas no treinamento haviam sido tiradas em dois momentos diferentes do dia, um com tanques na floresta em tempo bom, e outro sem tanques com o tempo nublado.

Essa história ridícula parece, infelizmente, o paradigma de uma realidade trágica quando consideramos que, menos de dez anos depois, soldados do exército israelense recebem algumas de suas ordens diretamente da “inteligência artificial” adotada por seu comando. Chamada cinicamente de “Evangelho”, ela identifica supostos membros do Hamas com base no cruzamento de dados coletados por vários sistemas de vigilância. Esses combatentes supostos são então mortos com base em um cálculo algorítmico de funcionamento desconhecido. Isso já não é mais ficção científica…

Tonio

Notas

[1] Frédéric Metz, Les Yeux d’Œdipe (inutiles, sauvés). Quand le google, face au monde, saura voir et nommer, Pontcerq, 2011. Versão PDF disponível para download em: http://i2d.toile-libre.org/PDF/2011…

[2] É claro que essa mediação permanece, mas é mantida invisível: seja através dos “vieses” de programação ou da exploração humana em massa necessária para que IAs, câmeras com reconhecimento de comportamento e outros dispositivos conectados possam ser constantemente ajustados às expectativas de seus usuários.

[3] James Bridle, Un Nouvel âge de ténèbres. La technologie ou la fin du futur, Allia, 2022.

Fonte: http://oclibertaire.lautre.net/spip.php?article4424

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

nos dias quotidianos
é que se passam
os anos

Millôr Fernandes

Chamada para cartazes: V Feira Anarquista Feminista de Porto Alegre

Esse ano decidimos como tema GENTRIFICAÇÃO e NECROPOLÍTICA, algo que está acontecendo muito nesse território. Vemos ao nosso redor espaços públicos se convertendo em espaços privados, todos os dias mais máquinas e destruição, mais empresas contaminando as ruas da cidade. Cada vez menos popular, menos do povo, menos dos povos originários e quilombolas, menos dos seres humanos e animais, menos do verde e mais das empresas. Esse território também é nosso, e nos unimos para pensar estratégias de recuperação de nossos espaços, e como enfrentar a onda forte de Neoliberalismo que suga nossas vidas.

Sendo assim, chamamos mulheres y dissidências que queiram somar com sua arte (seja visual – colagens, pinturas, serigrafia, stencil, aquarela, digital, etc. ou audiovisual – vídeos, músicas, filmes) para a V Feira Anarquista Feminista de Porto Alegre, será muito bem-vinda!

Bora construir o território que queremos habitar!

Envie sua arte para: fafpoa@riseup.net

agência de notícias anarquistas-ana

A lei é um caco
de vidro—nós pisamos
descalços, e sangramos.

Liberto Herrera

[Espanha] “Hill Grove: Aquí hay gato encerrado”

Compilado por Anny Malle. Ochodoscuatro Ediciones. Madrid, 2025. 312 páginas

Hill Grove: Aqui há gato confinado

Uma ensolarada manhã de 1991, em um pequeno povoado do condado de Oxford, o gato Snowy desapareceu em seu jardim. Por mais que Cynthia o buscou pela zona, não pôde encontrá-lo. Acontece que nesse mesmo dia desapareceu também o de sua vizinha, assim como outros tantos recentemente por sua zona. O que Cynthia não sabia naquele momento, é que sua busca iria desencadear uma das maiores campanhas pela libertação animal do Reino Unido, ao descobrir que perto de sua casa existia uma granja que criava gatos para a indústria da experimentação animal, que foi sempre a principal suspeita dos desaparecimentos.

Hill Grove: aquí hay gato encerrado” é um compêndio de crônicas, resenhas e cartas, muitas delas escritas em primeira pessoa por um bom número de ativistas envolvidas nos mais de oito anos que durou a campanha.

A princípio Cynthia esteve praticamente só. Com um punhado de ativistas criaram um pequeno posto informativo com o qual nos mercados tratavam de conseguir fundos para imprimir folhetos, fazer faixas, etc. Durante anos, montaram piquetes na porta da granja, foram a dezenas de plenárias municipais e organizaram concentrações e manifestações.

Ao longo do livro poderemos aprender como uma pequena organização, a base de constância, esforço e perseverança, foi crescendo e crescendo até pôr em cheque as autoridades, a vivissecção e o condado inteiro. E também podemos ser testemunhas através de documentos impactantes como o diário de cárcere da terceira detenção de Cynthia, os cruzamentos de cartas com a principal organização bem-estarista do momento, os testemunhos de ativistas durante vigílias, crônicas de incursões da Frente de Libertação Animal à granja, relatos da repressão policial e até narrações da espetacular batalha contra a polícia de 18 de abril de 1998.

Todo o relato é acompanhado de imagens reais do posto de Cynthia, das vigílias e concentrações, das manifestações e dos diversos boletins que foram criados como resultado da campanha.

Graças a exemplos como este, podemos aprender muitíssimo frente a lutas presentes e futuras. Sem ir mais longe, em Madrid temos uma campanha ativa contra o centro de experimentação animal de Vivotecnia. Temos que fechá-lo. Como disse uma vez Cynthia: “A palavra impossível não está em meu dicionário!“.

Certamente, o livro pode ser baixado gratuitamente na web de ochodoscuatroediciones.org

Fonte: https://www.todoporhacer.org/hill-grove-gato-encerrado/  

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

bambu quase quieto,
voltado para o poente,
filtra a luz da tarde

Alaor Chaves

[Espanha] CNT convoca GREVE GERAL no ensino público andaluz

A Regional da Andaluzia, Múrcia e Canárias da CNT (Confederação Nacional do Trabalho) convocou uma GREVE GERAL no ensino público andaluz para a quarta-feira, 15 de outubro, em solidariedade ao povo palestino e com a exigência de que o genocídio em Gaza pare.

Como trabalhadores e trabalhadoras, não podemos permanecer impassíveis perante a política genocida e desumana que o Estado de Israel está cometendo na Palestina, com total impunidade e com a cumplicidade de numerosos governos. A classe trabalhadora move as engrenagens da economia mundial e, portanto, nossa ação solidária internacionalista, com uma mobilização contínua e com o recurso à Greve, pode ser decisiva para frear o massacre que está sendo cometido em Gaza.

Nos centros educativos, os trabalhadores e trabalhadoras do ensino público devemos continuar as iniciativas educativas e de conscientização que vêm ocorrendo há algumas semanas, e devemos PARAR nossa atividade no dia 15 de outubro para ir às ruas, acompanhados por toda a comunidade educativa (estudantes, famílias, pessoal de administração e serviços, etc.).

Nossa mobilização contínua também é urgente para frear o fascismo, que anda de mãos dadas com a barbárie que o sionismo está perpetrando.

Em consonância com as reivindicações que vêm sendo feitas pela mobilização global pela Palestina, exigimos:

• A ruptura total das relações do Estado espanhol com Israel e a cessação dos acordos comerciais com o mesmo.

• Nesse sentido, especialmente o fim dos acordos de armamentos com o Estado sionista. Uma ruptura que seja real e imediata, e que inclua a revisão do uso de bases norte-americanas, que continuam a transferir material bélico para Israel sem o controle do governo espanhol.

• O fim da ocupação ilegal dos territórios de Gaza e da Cisjordânia, o cessar-fogo e o respeito aos direitos da população palestina.

• Que o governo espanhol e a UE parem com o aumento dos gastos militares, uma vez que o caso israelense não pode ser entendido fora de um contexto de aumento do militarismo, com o consequente corte nos gastos sociais e educacionais.

No dia 15 de Outubro, todos e todas às ruas!!

Contra o militarismo e o fascismo, vamos parar o genocídio na Palestina!

C.N.T. — Regional da Andaluzia — Múrcia — Canárias

Fonte: https://andalucia.cnt.es/cnt-convoca-huelga-general-en-la-ensenanza-publica-andaluza/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Na tarde chuvosa,
Sozinho, despreocupado,
Um pardal molhado

Edson Kenji Iura

[Espanha] Jornadas Culturais | Outono Libertário de 2025

Com a chegada do outono, também retornam as jornadas culturais realizadas anualmente pela CNT-AIT Madrid.

Nosso sindicato sempre considerou a cultura uma ferramenta fundamental para o crescimento individual e coletivo, e essa visão continua plenamente válida. É por isso que o Outono Libertário tem especial relevância para nós. Agora, quando falamos de cultura libertária, não nos referimos à cultura oficial: a nossa é uma cultura criada por e para pessoas comuns. Não se compra nem se vende, ninguém cobra nem paga, porque não é uma mercadoria. Portanto, circula livremente. Não é produzida por uma elite nem destinada a um público exclusivo, mas nasce do trabalho coletivo de nossas assembleias de trabalhadores, pensadas para pessoas comuns como nós. Nem é um espetáculo vazio e alienante, mas uma proposta que se insere em nossas vidas de forma honesta e profunda. E não esconde sua dimensão política, como a mídia faz com a cultura dominante, que tenta disfarçar de neutro o que na realidade é a ideologia do poder. Porque não nos esqueçamos: todo ato é político.

Gostaríamos de lembrar que as palestras, apresentações de livros, debates e outras atividades acontecerão em nossa sede na Plaza de Tirso de Molina, 5, 2º andar, à esquerda, às 19h. Sobre os passeios organizados pelo coletivo Nuestra Memoria, Nuestra Lucha, você encontrará informações detalhadas no programa específico de cada atividade.

> Confira a programação aquihttps://madrid.cntait.org/jornadas-culturales-otono-libertario-2025/

agência de notícias anarquistas-ana

Sem pedir licença,
ocupamos a cidade
com corpos e danças.

Liberto Herrera

Chamada para Organização da V FAF POA

Feira Anarkista Feminista de Porto Alegre 2025

Saudações Anárquicas!

Começamos a ativar a construção da V Feira Anarquista Feminista de Porto Alegre!

Abrimos esse chamado para pessoas interessadas em compor a organização junto com a gente, que enviem um e-mail para fafpoa@riseup.net

Vamos mais um ano colocar nossa arte-potência-ação-construção na rua, questionando o sistema y a norma patriarcal em coletividade!

Redes sociais:

feiraanarquistafeminista.noblogs.org

@faf.poa Instagram

agência de notícias anarquistas-ana

A lei é um caco
de vidro—nós pisamos
descalços, e sangramos.

Liberto Herrera

Lula 3 dá aval a projeto de investimento de R$ 30 bi para Forças Armadas

Diante do aumento das tensões geopolíticas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seus ministros discutiram uma nova exceção ao arcabouço fiscal para acomodar investimentos em programas estratégicos das Forças Armadas.

A ideia aventada no governo é enviar ao Congresso Nacional um projeto de lei complementar tirando R$ 30 bilhões, distribuídos ao longo de seis anos, do limite de gastos.

O dinheiro seria aplicado necessariamente na modernização do Exército, da Marinha e da FAB (Força Aérea Brasileira) — possibilitando tirar do atraso programas como o Sisfron (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras), o desenvolvimento do primeiro submarino nuclear brasileiro e a renovação da frota de caças com os jatos suecos Gripen NG.

“Embora o Brasil mantenha a tradição de solução pacífica de controvérsias e de defesa da paz nas relações internacionais, as recentes transformações no contexto internacional geram alerta em termos geopolíticos regionais e mesmo globais. Em um cenário instável, onde os conflitos interestatais voltam infelizmente a ser uma realidade, precisamos estar atentos e preparados. Não podemos descuidar da defesa nacional e tampouco negligenciar os investimentos nessa área”, diz o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso.

Fonte: agências de notícias

agência de notícias anarquistas-ana

Furacão: a fúria
da natureza sem dono,
sem pedir desculpas.

Liberto Herrera

[Itália] Vontade de anarquismo

O aniversário, o octogésimo aniversário, da Federação Anarquista Italiana não poderia ter caído em momento melhor do que este.

Nestes dias, um novo protagonismo das massas ocupa o centro do palco político na Itália. Quem estava acostumado a considerar o absenteísmo eleitoral como produto da indiferença e desconfiança certamente ficou surpreso com a resposta que foi dada à iniciativa da Global Sumud Flotilla, primeiro com uma campanha de arrecadação de bens de primeira necessidade que envolveu centenas de milhares de pessoas, depois com as mobilizações, greves, bloqueios e protestos que percorreram a Península de norte a sul. Uma mobilização que não se movimentou em torno de temas tradicionais, sindicais ou parciais, mas em torno do tema da solidariedade para com outras pessoas, perfeitamente desconhecidas, que a mais de dois mil quilômetros de distância estão sendo atingidas, passando fome, massacradas com a cumplicidade do governo italiano.

Uma primeira consideração diz respeito ao nível de consciência das massas, que evidentemente é muito mais alto do que a classe política imaginava, inclusive a de oposição, e revela a profunda desconfiança em relação àqueles que traíram o sentimento das massas em temas fundamentais como a pobreza, a devastação ambiental, a guerra, e em relação àqueles que agitaram esses temas apenas por mais alguns filiados ou alguns votos a mais. Por isso, os ativistas da Flotilla se tornaram um ponto de referência, porque se empenharam de forma generosa, interpretando o sentimento popular.

Uma consideração adicional merece o método de luta, a redescoberta dos bloqueios: impediu-se a atracação de navios que transportavam armas, navios de empresas israelenses, navios que partiam ou se destinavam a Israel. Foram bloqueados portos, estações ferroviárias, aeroportos, rodovias. O recente decreto segurança transformou essas formas de luta em ações insurrecionais e, apesar do decreto segurança, apesar dos proclamas sobre a legalidade, o governo e as forças da repressão se revelaram impotentes diante do movimento de massa e, em muitas ocasiões, a polícia e os carabineiros limitaram-se a tentar colocar ordem no caos do trânsito. Naquelas ocasiões em que tentaram se intrometer, encontraram pão para a sua boca. Após dez dias de mobilizações que abalaram a Itália, o Presidente da República, que havia convidado a Flotilla a mudar de rota, agora se cala; a presidente do conselho fala de “interesses obscuros” referindo-se a quem pede uma atitude mais firme em relação a Israel. Mas o movimento não é Giorgia Meloni, não é o governo que se deixa ditar a política externa pelos interesses da ENI, que obteve de Israel a concessão para explorar os depósitos de gás ao largo de Gaza, e teme, no caso – embora remoto – de que aqueles territórios retornem a um hipotético estado palestino, ser excluído do negócio.

Uma última consideração diz respeito ao fato de que os bloqueios colocaram em questão, além do domínio do governo, o domínio da propriedade privada. Os organismos de base que pararam e forçaram os navios a irem embora colocaram o problema do poder no local de trabalho, da possibilidade, por parte de quem fornece a capacidade de trabalho, de decidir o que e como produzir, lançando as sementes de uma nova organização social. Cabe aos sindicatos fazer germinar essas sementes, acompanhando a luta pelos direitos da classe trabalhadora com o desenvolvimento da consciência de classe portadora da nova sociedade.

Já existem muitos temas, agitados pela Federação Anarquista Italiana em sua longa história, que se reencontram neste movimento: a capacidade política das massas, a solidariedade, a coerência entre meios e fins, a ação direta, a auto-organização. Mas se o anarquismo fosse apenas isso, seria pouco mais do que um sindicalismo ou “movimentismo” libertário.

O que distingue o anarquismo dos outros movimentos políticos não é simplesmente o fato de não querer chegar ao governo, mas a convicção de que a abolição do governo, ou de qualquer forma a luta intransigente contra a instituição e a própria ideia de governo, é a premissa de todo progresso social sério.

O protesto de 4 de outubro colocou o problema do governo; cabe obviamente a nós fazer com que a conscientização do papel central do governo, que começa a surgir, não se traduza apenas no pedido de demissão do governo atual, mas se torne a convicção da inutilidade e do caráter danoso de qualquer governo. Como diz o Programa da Federação Anarquista Italiana: “Nós devemos estar sempre com o povo, e quando não conseguimos fazê-lo exigir muito, tentar que pelo menos comece a exigir alguma coisa: e devemos nos esforçar para que ele aprenda, pouco ou muito que queira, a conquistá-lo por si mesmo, e tenha ódio e desprezo por quem está ou quer ir para o governo”.

Nesse sentido, o movimento atual precisa do anarquismo, de sua crítica da ideologia que justifica a existência do aparato político de classe, do governo, precisamente; precisamos de militantes que saibam indicar ao movimento aqueles atos concretos que, nos momentos altos de luta, possam levar à abolição do governo.

Uma passagem importante é a conscientização de que o anarquismo não é apenas um estilo de vida, mas a teoria revolucionária das classes exploradas. O movimento destas semanas abre perspectivas inesperadas para o desenvolvimento do anarquismo classista e organizador, desde que as realidades anarquistas, indivíduos ou grupos, estejam conscientes de sua responsabilidade perante o movimento de luta, perante a coletividade, e saibam desenvolver uma ação organizadora em contraste com as tendências centralizadoras, autoritárias e eleitoreiras: nesta ação reside em particular o futuro do movimento, porque, da forma como nasceu, não tardará a se extinguir se as “capelinhas” políticas ou sindicais levarem a melhor.

Esta ação será tanto mais eficaz quanto mais soubermos nos libertar das viseiras dogmáticas com as quais muitos olharam para as mobilizações crescentes destes dois anos. Como dizia Malatesta, a Revolução Francesa começou com apelos ao rei, e depois de três anos o rei foi guilhotinado.

Tiziano Antonelli

* Ilustração de MANIKULAE SCRIPTORI

Fonte: https://umanitanova.org/voglia-di-anarchismo/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Cercada de verde
ilha na hera do muro:
uma orquídea branca.

Anibal Beça

Entrevista com Rouvikonas | “Como dizemos na Grécia: ‘somente o povo pode salvar o povo’.”

Durante uma pausa de verão no sul, a Freedom [publicação do Reino Unido] aproveitou a oportunidade para entrevistar o Coletivo Anarquista Rouvikonas, em Atenas.

Blade Runner ~

O coletivo construiu uma reputação por suas ações diretas que vão desde a ocupação de ministérios até a destruição de escritórios de cobradores de dívidas. Formado em 2014, no contexto das lutas gregas contra a austeridade, o grupo descreve seu trabalho como uma tentativa de aproximar os anarquistas da base social mais ampla. Em conversa, seu estilo é tão direto quanto suas ações.

Sobre as origens do coletivo:

“Rouvikonas foi fundado em 2014. Naquele momento, a Grécia havia passado por forte turbulência social e política. Após a morte do jovem anarquista Alexis Grigoropoulos, em 2008, uma insurreição eclodiu e toda uma geração foi radicalizada. Depois, de 2010 a 2014, grande parte da base social foi às ruas para lutar contra as medidas de austeridade. Mas o movimento perdeu força, e a agitação foi canalizada de volta para a política parlamentar e o Estado.

Os companheiros que fundaram o Rouvikonas acreditavam que os anarquistas haviam perdido uma grande e rara oportunidade revolucionária naqueles anos. Não conseguiram oferecer uma alternativa crível ao Estado para o povo da base social. Então começaram a refletir sobre os erros e impasses do movimento anarquista, e sobre como superá-los. Esse é o contexto que levou à criação do Rouvikonas: preencher a lacuna existente entre os anarquistas e a base social.”

Sobre o uso das redes sociais:

“Nossa escolha política é assumir publicamente a responsabilidade por tudo o que fazemos. Cada ação é seguida de um comunicado com material em vídeo e foto, além de um texto explicando o que fizemos e por quê. Isso serve a vários propósitos. Ao documentar nossas ações, impedimos o inimigo de fazer falsas acusações. Podemos demonstrar exatamente o que fizemos, tornando mais difícil para um juiz nos condenar com base em acusações falsas.

Ao mesmo tempo, as imagens em vídeo são uma ferramenta poderosa de comunicação: as pessoas podem ver com seus próprios olhos o que fizemos, e isso pode ser inspirador. Mostramos nossas ações para romper o estado de medo em que a base social é mantida pelo Estado e seus mecanismos de propaganda. O objetivo é quebrar a paralisia e a apatia, e encorajar as pessoas a se juntarem à luta.”

Sobre a repressão estatal:

“Os padrões de repressão mudaram ao longo dos anos, dependendo do governo. (…) Agora há uma investigação em curso tentando nos classificar como uma organização criminosa, utilizando mudanças recentes no código penal. Isso é grave. As penas são mais severas e é mais difícil evitar a prisão pagando multas. Mas continuamos a lutar.

O que realmente os assusta é que continuamos a atrair novas pessoas. Na própria investigação deles, admitem isso: toda vez que identificam participantes após uma ação, veem rostos que não conheciam antes. Pessoas sem histórico em outros grupos ou manifestações, de todas as idades, gêneros e estilos de vida. Não são os ‘suspeitos de sempre’. São pessoas comuns, que nunca haviam sido políticas, ingressando no Rouvikonas e agindo.”

Sobre combate a incêndios e ajuda em desastres:

“Após décadas de cortes estatais no corpo de bombeiros, todos os anos vastas regiões da Grécia são destruídas por incêndios. As pessoas assistem às suas casas queimarem, os bombeiros fazem o que podem, mas com recursos limitados não conseguem fazer muito. Quando protestam, são espancados pela polícia de choque.

Por isso, há três anos criamos um Setor de Bombeiros Voluntários para o combate a incêndios florestais. Hoje temos três veículos e uma equipe bem treinada de voluntários. Durante todo o verão, eles patrulham o interior e intervêm quando incêndios florestais surgem. Nos últimos dois anos, salvaram pessoas, casas e animais selvagens.

A lógica é a da auto-organização: não depender do Estado, mas contar com nossas próprias forças. Como dizemos na Grécia: ‘somente o povo pode salvar o povo’.”

Sobre o antifascismo:

“O Aurora Dourada foi derrotado. Foi derrotado primeiro nas ruas, e depois declarado uma organização criminosa e proscrita. Mas, a essa altura, já havia se tornado inútil para a classe dominante. O antifascismo militante é essencial, mas não é toda a história. Sempre haverá pequenos grupos fascistas, e é preciso mantê-los sob controle nas ruas.

Mas a verdadeira questão é: como impedir que ganhem espaço entre a base social? A razão pela qual ganharam influência foi o vazio político que nós mesmos criamos. Se você está ausente das lutas sociais e políticas, as pessoas buscam outros caminhos. Se não oferece uma alternativa crível aos partidos e ao Estado, as pessoas procuram soluções em outro lugar. Devemos estar na linha de frente da guerra social e de classes todos os dias. Na medida em que tivermos sucesso nisso, as pessoas se voltarão para nós, e ignorarão eles.”

Sobre a solidariedade com a Palestina:

“A Grécia é cúmplice do genocídio junto com Israel. A burguesia grega tem laços históricos e existenciais com a classe dominante israelense. Aqui temos empresas que colaboram com o exército israelense e investidores israelenses comprando propriedades e hotéis. Enquanto existirem esses alvos, haverá maneiras de atingir o Estado sionista e suas políticas genocidas.”

A entrevista completa será publicada na próxima edição da revista anarquista Freedom.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2025/10/05/interview-with-rouvikonas/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Ação direta: o faço
é mais verdadeiro que
o prometo vazio.

Liberto Herrera

[EUA] Como os anarco-punks da Filadélfia misturaram música, barulho e justiça social nos anos 1990 e 2000

Por Edward Avery-Natale | 22/09/2025

Embora a cidade de Nova York seja comumente considerada o berço do punk rock americano, apenas 160 quilômetros ao sul do famoso clube CBGB, onde os Ramones e outras bandas pioneiras do punk começaram, está a Filadélfia, que mantém uma cena punk vibrante desde pelo menos 1974 e que persiste até hoje.

Sou professor de sociologia no Mercer County Community College, em Nova Jersey, editor principal de um volume intitulado Being and Punk (no prelo) e autor do livro Ethics, Politics, and Anarcho-Punk Identifications: Punk and Anarchy in Philadelphia (2016).

Sou fã de punk rock desde os 15 anos e participei ativamente de cenas punks em Filadélfia e Fargo, Dakota do Norte. Ainda frequento shows punk e participo da cena sempre que posso.

Embora o “nascimento” do punk seja sempre tema de disputa, é justo dizer que, com os Ramones se formando em 1974 e lançando o single “Blitzkrieg Bop” em fevereiro de 1976 nos EUA, e os Sex Pistols realizando seu primeiro show em novembro de 1975 no Reino Unido, o punk tem pelo menos 50 anos.

Diante desse marco, acredito que vale revisitar o auge da cena punk anarquista da Filadélfia nos anos 1990 e 2000, e como sua ideologia e ativismo político, que incentivavam a oposição ao capitalismo, ao governo, à hierarquia e muito mais, ainda exercem influência hoje.

“Não é uma rebelião típica”

Na Filadélfia, especialmente em West Philly, várias ocupações, casas e espaços coletivos sediavam shows, eventos políticos e festas, além de servirem como moradia para punks durante os anos 1990 e 2000. Em alguns casos, a própria ocupação era uma forma de protesto, viver cooperativamente em prédios abandonados era visto como ação política.

Havia o Cabbage Collective, que organizava shows na Igreja Calvary, na 48th com Baltimore Avenue. O Stalag 13, perto da 39th com Lancaster Avenue, foi onde a famosa banda Refused fez um de seus últimos shows, e o Killtime, logo ao lado, foi onde Saves the Day tocou em 1999 antes de se tornar famosa. A First Unitarian Church, uma igreja real no centro da cidade, ainda hoje realiza shows em seu porão.

Esses espaços subterrâneos tornaram-se centrais para a cena punk da Filadélfia, que até então carecia de locais médios para bandas menos conhecidas.

Muitos punks de Philly nessa época misturavam subcultura musical com ativismo social. Como uma anarco-punk, subgênero do punk rock que enfatiza ideais de esquerda, anarquistas e socialistas, me disse em entrevista para o meu livro:

“Minha mãe… disse: ‘Achei que você fosse crescer e sair disso. Eu não entendia, e seu pai e eu ficávamos tipo: “O que estamos fazendo? Ela vai a esses shows! Está bebendo cerveja!” Mas aí víamos: “Ela acorda na manhã seguinte para ajudar a entregar mantimentos a idosos e organizar exibições de filmes feministas!” Não sabemos o que fazer, não sabemos como lidar com isso; não é uma rebelião típica.'”

Essa fala captura a rebelião complexa e ambígua que está no coração do anarco-punk. Por um lado, é uma forma de rebeldia juvenil com os elementos típicos: consumo de álcool e drogas, música alta e roupas, penteados, tatuagens e piercings incomuns.

Mas, ao contrário de outras formas de rebeldia adolescente, os anarco-punks também buscam mudar o mundo por meio de atividades pessoais e políticas. No plano pessoal, como mostrei em meu livro, muitos tornam-se veganos ou vegetarianos e procuram evitar o consumo corporativo.

“Tenho orgulho de tentar não comprar de fábricas exploradoras e de manter meu apoio a corporações no mínimo, embora eu tenha relaxado um pouco com o tempo”, disse outro entrevistado, também vegano. “Você enlouquece se tentar evitar completamente, a menos que vá morar com o [grupo punk britânico] Crass em uma comuna anarquista.”

Amor e raiva na guerra contra a guerra

Os punks ativistas de Philly dessa época espalharam seus ideais anarquistas por meio de palavras e ações.

Bandas como R.A.M.B.O., Mischief Brew, Flag of Democracy, Dissucks, Kill the Man Who Questions, Limp Wrist, Paint it Black, Ink and Dagger, Kid Dynamite, Affirmative Action Jackson, The Great Clearing Off, The Sound of Failure, entre muitas outras, cantavam sobre guerra, capitalismo, racismo e violência policial.

Por exemplo, em seu single de 2006 “War-Coma”, a banda Witch Hunt refletia sobre as guerras no Iraque e no Afeganistão, responsabilizando eleitores, governo e religião:

“24 years old went away to war / High expectations of what the future holds / Wore the uniform with pride a rifle at hand / Bringing democracy to a far away land / Pregnant wife at home awaiting his return / Dependent on faith, will she ever learn? / Ignore the consequences have faith in the Lord / Ignorance is bliss until reality sets in / Never wake up again.”

(24 anos foi para a guerra / Altas expectativas do que o futuro traria / Usava o uniforme com orgulho e um rifle nas mãos / Levando a democracia para uma terra distante / Esposa grávida em casa esperando seu retorno / Dependente da fé, será que um dia vai aprender? / Ignora as consequências, tem fé no Senhor / A ignorância é uma bênção até que a realidade chega / E nunca mais desperta.)

Durante as apresentações, as bandas costumavam comentar o significado das músicas. E nas bancas de mercadorias, vendiam camisetas e discos junto com zines, livros, patches e bottons, quase sempre com imagens ou slogans políticos.

Algumas bandas se tornaram metacríticas da própria cena punk, incentivando o público a reconhecer que o punk é mais do que música.

Na canção “Preaching to the Converted”, o Kill The Man Who Questions ironizava as críticas que as bandas recebiam por serem “pregadoras demais” nos shows:

“Unity” the battle cry / Youth enraged but don’t ask why / They just want it fast and loud, with nothing real to talk about / 18 hours in a dying van / Proud to be your background band.

(‘Unidade’ é o grito de guerra / Juventude enfurecida, mas sem perguntar por quê / Só querem rápido e alto, sem nada real sobre o que falar / 18 horas em uma van morrendo / Orgulhosos de ser sua banda de fundo.)

Em West Philadelphia, punks também trabalhavam na cooperativa de alimentos local e organizavam espaços ativistas, como o antigo A-Space, na Baltimore Avenue, e o LAVA Zone, na Lancaster Avenue, onde grupos como Food Not Bombs e Books Through Bars, entre outros, atuavam. Eu mesmo organizei um encontro da Northeastern Anarchist Network no LAVA em 2010.

Os punks arrecadavam dinheiro para causas sociais e compareciam a protestos locais contra a globalização capitalista e inúmeras outras lutas. Na Convenção Nacional Republicana de 2000, em Filadélfia, punks vestidos de preto e mascarados marcharam pelas ruas junto a uma ampla coalizão de organizações comunitárias.

O punk não morreu na Filadélfia

Desde os primórdios do punk, muitos lamentam que “o punk morreu”.

Na Filadélfia, vi como a cena anarco-punk dos anos 1990 e 2000 mudou, mas também como ela continua influenciando bandas locais e os valores do punk rock em geral.

Muitos ex-integrantes e membros atuais da cena anarco-punk da cidade ainda são ativistas, pessoal e profissionalmente. Entre os que entrevistei entre 2006 e 2012 havia assistentes sociais, organizadores sindicais, professores, educadores e conselheiros escolares e sobre drogas. Para muitos, suas carreiras foram moldadas pela ética anarquista que desenvolveram dentro da cena punk.

E muitos punks locais estiveram presentes no acampamento Occupy Philly e nos protestos em frente à prefeitura em 2011; depois, marcharam nas ruas durante os protestos do Black Lives Matter após o assassinato de George Floyd e de Breonna Taylor em 2020. Também participaram do acampamento de pessoas sem-teto no Benjamin Franklin Parkway, também em 2020. E punks locais que conheço continuam participando de campanhas de base como Decarcerate PA.

O anarquismo e o punk rock abrem caminhos para que jovens desiludidos, em Filadélfia ou em qualquer outro lugar, sonhem com um mundo sem capitalismo, autoridades coercitivas, polícia ou qualquer forma de injustiça.

Nas palavras do R.A.M.B.O., uma das bandas hardcore mais conhecidas da época, que lançou seu mais recente álbum Defy Extinction em 2022:

“If I can dream it, then why should I try for anything else?”

(Se eu posso sonhar com isso, por que deveria tentar qualquer outra coisa?)

Fonte: The Conversation

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Quebre o cristal fino.
O estrondo é a sinfonia
da nova ética.

Liberto Herrera

[Internacional] Poesia Contra o Cárcere

Este poemário nasce sem donos. Não manejamos dinheiro, rechaçamos por preço à raiva. Se circular dinheiro, invistam-no em panelas comuns, bibliotecas, fianças, resistência. Quem leva este material se compromete a entregar cada peso sem intermediários nem fundações, mão a mão. Pedimos ao Movimento Anticarcerário Internacional: difundir, recitar, multiplicar sem medo, até quebrar as celas, até que caia o desdém.

Baixe e divulguehttps://periodicoelsolacrata.wordpress.com/wp-content/uploads/2025/07/pclc.pdf

Contra as Gaiolas do Esquecimento

.

Entre muros de concreto e sonhos aprisionados,

almas rebeldes tecem versos iluminados.

Cada grade é um verso que o poder forjou,

mas na noite escura, nosso punho se ergueu, lutou.

.

As correntes do Estado, frias como a ausência,

prendem corpos, mas não a chama da resistência.

Em cada brecha do sistema, um coração pulsado,

a fúria que constrói o que nunca foi calado.

.

Do Chile à Grécia, das ruas até as matas,

a solidariedade é um rugido que não se mata.

Nenhum muro deterá a semente que brota,

a utopia rebelde que em cada peito se nota.

.

Rosas negras florescem onde o poder planta dor,

em cada grade quebrada, se unem voz e clamor.

A poesia é uma arma, a palavra, direção,

derruba fortalezas, apaga a divisão.

.

Não há cerca que apague a luz dos clamores,

nem guarda que silencie os gritos dos sofredores.

Somos pássaros de névoa, trilhas no proibido,

tecendo redes de fogo contra o mundo corrompido.

.

Contra as jaulas do capital, a raiva organizada,

cada verso é um passo rumo à alvorada.

Na pele dos presos, a luta é marcada,

e em nosso canto pulsa a esperança libertada.

.

Liberto Herrera

agência de notícias anarquistas-ana

durante o teu sonho
eu brinco com as nuvens
e tu não sabes de nada

Lisa Carducci

[Espanha] XXIII Encontro do Livro Anarquista de Madrid

Nossa XXIII edição será celebrada nos dias 5, 6 e 7 de dezembro na Escola Popular de Prosperidad, “LA PROSPE” (Rua Luis Cabrera, 19).

Continuamos trabalhando nas apresentações de livros, palestras e debates que nos fazem refletir sobre o mundo em que vivemos e a alternativa que propomos a partir do anarquismo.

A atualidade é avassaladora: uma sociedade que pende cada vez mais para a direita, guerras ou os eufemisticamente chamados “conflitos” (mais de 50) e genocídios transmitidos ao vivo na televisão e nas redes sociais, anarquistas detidos em diversos países por erguerem sua voz contra as barbáries cometidas tanto por governos abertamente ditatoriais quanto por democracias.

Nós, libertários e libertárias, sempre encontramos nos livros um espaço para falar sobre o presente, propor alternativas ou recuperar o que já era proposto pelos pais e mães do anarquismo.

São muitas as editoras que continuam difundindo nossas ideias, com autoras e autores de ontem e de hoje, a quem queremos dar voz para compartilhar e transmitir.

Com muita expectativa, nos vemos em dezembro!

Saúde!

encuentrodellibroanarquista.org

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

se andava no jardim
que cheiro de jasmim
tão branca do luar

Camilo Pessanha

[EUA] Intimidades sem fronteiras: Anarquismo negro e internacionalismo

A Feira Radical do Livro de Atlanta apresenta…

Intimidades sem fronteiras: Anarquismo negro e internacionalismo

com Anarcha Semiya e Andrewism

Sábado, 11 de outubro de 2025

13h00 – 14h00

Em nossa era de fascismo crescente, olhamos para fora para encontrar nossas histórias de luta e solidariedade. @anarchasemiyah e @blackanarchistradicals explorarão as lutas dos negros contra a hierarquia e o Estado em contextos históricos e contemporâneos. Viajaremos pelos diversos anarquismos negros em diferentes partes do mundo e veremos como podemos atravessar o tempo e as fronteiras para aprender e lutar uns com os outros.

Quando: Sábado, 11 de outubro de 2025

Onde: Virtual — link para transmissãoHTTPS://TINYURL.COM/ARBF-BORDERLESS-INTIMACIES

agência de notícias anarquistas-ana

A caridade, esmola
que lava a consciência
e mantém a cerca.

Liberto Herrera

[Espanha] Nada é mais desanimador que um renegado satisfeito

30/07/2025

Escrevemos estas linhas, não por prazer, mas por necessidade, para combater a apatia, os discursos e narrativas que pretendem nos enterrar. Após várias décadas militando no movimento anarquista e depois de viver momentos de luta e compromisso muito mais intensos que os atuais, de participar em coordenações nacionais e federações que funcionavam como ponto de encontro, debate, formação e ação, que atuavam como freio à ofensiva do Estado-capital, que davam um sentido às nossas vidas. Depois de ter vivido e construído fortes vínculos entre companheiros, de ter enfrentado a repressão, de experimentar grandes cumplicidades, participar de grandes manifestações e explosões, de algumas revoltas e de algumas barricadas. Levamos as ideias à prática e colocamos a luta no centro de nossas vidas. O momento atual nos parece pouco. Observamos perplexos o nosso presente, como o refluxo e o conformismo nos arrastaram para os braços da autocomplacência e da resignação, como a radicalidade e as ideias revolucionárias desapareceram dando lugar ao reformismo mais inerte. Observamos também a fuga de companheiros para o nada, para outras tendências, em sua maioria autoritárias, ou para os refúgios do capital. Agora que contemplamos as cinzas do que um dia fomos e vemos no que nos tornamos, surgem-nos várias perguntas: o que aconteceu, companheiros? onde estamos? o que foi feito dos nossos sonhos e aspirações? será que não fomos nada mais que uma birra da juventude?

Nos recusamos a acreditar que nossa luta foi um momento de juventude, de fato estamos convencidos de que não é assim. Acreditamos que a vida é luta e que nossas ideias são a resposta para muitos dos problemas que assolam nossas vidas e a sociedade inteira. Também nos recusamos a pensar que este escrito é fruto da nostalgia e que o sentimento que se reflete neste texto é apenas nosso. Sabemos que mais de um e mais de dois saíram dos espaços e da militância com pesar, que a vida e os anos nos foram consumindo e que, sem sermos muito conscientes, a inércia foi nos afastando uns dos outros e nos levando para a individualidade ou para a família-Estado mononuclear. Mas não é momento de lamentar, nem de ser complacente, tampouco de nos flagelar, nem de nos resignar. É momento de dar um fim à inércia, de fazer um exercício de reflexão individual e coletiva, de esclarecer conceitos e lançar alguma luz sobre a sombra. É momento de nos reencontrarmos e voltar a formar essa comunidade de luta que um dia fomos. Nós continuamos querendo dar batalha, mais ainda, nos recusamos a que outros nos enterrem ainda vivos. Continuamos esperando por nós, mantendo alguns pontos de encontro na esperança de ver voltar os que se foram e, sobretudo, outros novos companheiros que virão, porque continuamos tendo os mesmos sonhos, a mesma raiva, talvez mais intensa que antes. Sabemos que ninguém é imprescindível e que todos somos necessários. Além disso, estamos mais convencidos do que nunca de que tínhamos e temos razão em nossas propostas de luta e na mais que necessária e urgente transformação da sociedade e do mundo que habitamos. A realidade nos demonstra cotidianamente que se não compartilharmos a luta, só compartilharemos miséria.

Está claro que as soluções individuais não servem e que só as coletivas, e a luta pela justiça social, a luta pela anarquia, dão sentido à vida. O resto são substitutos, mercadorias, egos, misérias…

Para romper com a comodidade na qual transitamos, queremos formular algumas perguntas: acabamos com a desigualdade? com a exploração? construímos esse mundo que carregamos em nossos corações? que futuro espera os que virão? então por que deixamos de lutar? por que deixamos de apostar em manter a comunidade de luta, reforçá-la e cuidar dela?

Acreditamos que não há desculpa para abandonar a luta e menos ainda para renegar ela. Pode ter havido acertos e erros, pode haver desgastes e cansaços, mas nada disso justifica a inação, ou o deixar de ser solidário, ou o deixar de dar uma mão nos momentos difíceis. Fechar os olhos para si mesmo não adianta, nem vai nos salvar da barbárie. Menos ainda será se colocar no alto de um púlpito de onde se olha por cima das lutas, criticar e desacreditar sem se sujar, adotar a pose do lutador cansado, torpedear processos e esforços de companheiros, buscar a teoria para a inação e espalhar discursos desmotivadores e alienantes que só justificam a própria inação e essa forma miserável de estar no mundo. Essas atitudes sempre tiveram um nome, que não é outro senão o de renegado. Pela saúde de qualquer movimento, é melhor que estejam fora, ou melhor ainda, tentar calá-los de forma rápida, e pública se possível, porque o dano que são capazes de fazer é tão grande quanto possa ser sua boca grande, ou pior ainda, o certo status que ainda conservam dentro do movimento.

Porque só ter passado para o lado dos privilegiados pode justificar tamanha covardia e miséria pessoal. Porque desacreditar a luta e os espaços de luta não pode ser a opção para abandonar a militância. Por mais tentador e humano que seja, é preciso superar; ter “classe” para abandonar os espaços com honestidade. Nesse sentido, acreditamos que a opção mais nobre é se manter na retaguarda, contribuindo e apoiando os companheiros mais decididos. Dar ânimo e não tirá-lo, mesmo estando em um momento de desmotivação pessoal, falta de tempo ou cansaço. Porque somos quem somos e sabemos que é difícil se reinventar e sentir prazer no mundo da mercadoria. Nós nos conhecemos e vemos o vazio em seus rostos. Sabemos que é mais difícil quando se tem princípios e uma base sólida antiautoritária e anticapitalista. Quando se lutou, deixar de fazê-lo faz com que alguém se sinta, no mínimo, como um colaborador do inimigo.

Hoje em dia, motivos não faltam, e agora mais do que nunca, já que a besta Estado-capital avança sem freio em direção à mais absoluta das barbáries. Vocês fazem falta, companheiros, faltam mãos e ideias para subverter a ordem atual e poder golpear a besta, sentimos falta dessa comunidade de luta que um dia fomos, onde os problemas de um eram os de todos, e quando golpeavam um, respondíamos todos.

Após vários anos de refluxo social e diante de uma sociedade passiva que caiu no hedonismo tecnológico e de consumo, que abraça o fascismo e o totalitarismo como forma de resolver os problemas sociais; uma sociedade cada vez mais estupidificada e manipulada, que rasteja em direção ao abismo para onde os poderosos nos levam, o anarquismo e os anarquistas ainda temos muito a dizer e a fazer. Então, por que deixou-se de militar? por que se abraçam os prazeres do capitalismo e seu modo de vida? por que nossas posições teórico-políticas se deslocam para o esquerdismo e o conforto militante? Cada um terá suas próprias respostas, daqui só podemos pedir que se dê espaço à reflexão e que se abram as portas ao encontro. Pretendemos simplesmente esboçar algumas respostas em linhas gerais e fazer um chamado à responsabilidade militante e a se manter na luta, contribuindo com base nas possibilidades de cada um, ajudando a fortalecer o movimento anarquista e revolucionário.

Que a luta desgasta é um fato, que os refluxos sociais e os ciclos políticos existem e que é preciso estar preparado para que eles não nos arrastem para a derrota e o conformismo, uma certeza. Que precisamos de espaços saudáveis onde os personalismos não tenham lugar, onde nos desenvolver e lutar, que sejam impermeáveis à sociedade de consumo, aos refluxos, à desmobilização e à repressão, é algo a ser construído e, uma vez construído, mantido.

Acreditamos que manter a tensão com o poder, manter a rua, os grupos de afinidade, os coletivos, gerar assembleias nos trabalhos e nos bairros, conspirar coletivamente, gerar coordenações em nível nacional que respeitem a autonomia dos coletivos e grupos onde fazer uso da estratégia para conseguir os objetivos que a curto, médio e longo prazo estabelecermos, é necessário para não cair em posições confortáveis que são a antessala do conformismo e da derrota.

Olhando para trás e sendo conscientes de que as derrotas das gerações se sucedem, tentaremos apontar a partir de nossa experiência alguns dos fatores que nos trouxeram até aqui. Vamos enumerá-los sem nos alongar demasiado, já que a finalidade deste escrito não é outra senão provocar um debate no seio dos coletivos, nos militantes e ex-militantes, e também nas organizações do movimento anarquista. Este texto pretende ser um revulsivo contra o derrotismo e a apatia. Uma faísca que incite a pôr-se em marcha, uma rajada de ar fresco que busca fortalecer o movimento em toda a sua amplitude, abrir linhas de debate e autocrítica que nos permitam sair do impasse em que nos encontramos.

Acreditamos que os principais males que afligem o movimento podem ser os seguintes e podem ser enumerados da seguinte maneira, por mais triste que seja reconhecê-lo: falta de estratégia, de projeção política para além da juventude. Excesso de lazer alternativo que não propõe nada mais e que funciona como substituto da luta. Não ter objetivos claros e compartilhados, o individualismo mal compreendido, a falta de formação teórica que impeça a intrusão de tendências que isolam e desmobilizam. A parcialidade das lutas que faz abandonar o horizonte comum e nos sentir fraternos. A falta de projetos duráveis, de espaços maduros de encontro e discussão entre coletivos e organizações. A falta de ação direta, a competição entre tendências que convertem o movimento em um campo de batalha em vez de buscar a fraternidade em torno da ideia entendida em toda a sua amplitude e diversidade. O converter as ferramentas em ideologias e paróquias. As críticas públicas e impiedosas para os companheiros que só reforçam os egos. O corporativismo dos organizados, a incapacidade para controlar os personalismos e os desvios de iluminados que, erigidos líderes, levam a tocha para outros espaços políticos para manter seu status. Os renegados e derrotistas que continuam pululando pelos entornos e que semeiam apatia e desolação.

Estas podem ser umas pinceladas gerais para enumerar alguns dos fatores e vícios internos que, em nosso juízo, existem em nossos espaços militantes. Também sabemos que cada grupo ou organização deve ter sempre presente a autocrítica, estar de olhos abertos, não se acomodar, manter-se despertos para não repetir erros passados e evitar que os desvios teóricos. Afastar a todo custo o isolamento, as rixas pessoais, os vícios, o fastio e a depressão que rondam os espaços militantes os levem à derrota.

Agora apontaremos alguns fatores que costumam não ser levados em conta pelas novas gerações que abraçam críticas destrutivas, estéreis e pouco profundas que culpabilizam as gerações anteriores, esquecendo que o inimigo que enfrentamos é poderoso e impiedoso, e que a luta provoca um desgaste forte nas vidas militantes.

Também outras tendências políticas de recente criação, cheias de trânsfugas, utilizam as derrotas alheias como arma arremessada contra o anarquismo e aquelas gerações de lutadores, ocultando os fatores externos, utilizando e ridicularizando o sofrimento de outros, para dar saída ao novo produto político triunfalista que montaram e assim continuar sendo papas. Derrota-se quem trava a batalha, não quem passeia pela academia ou pela política sem chegar a ser um perigo para o poder. A esses se deixa ser para difuminar as forças e promover a opção inerte. Uma coisa é perder e outra ser um “derrotado”. Para a segunda, é necessário perder as vontades de continuar lutando, coisa que a nós ainda não nos aconteceu. E, no que nos diz respeito, menos ainda daremos a outros a potestade de tirá-las de nós. Leia entre linhas quem deva e quem possa.

Não podemos esquecer que há fatores externos que escapam ao nosso controle e que, em ocasiões, o que podemos fazer apenas é tê-los presentes. Isto é, ser mais espertos, não lhes dar de bandeja ao inimigo e nos prepararmos para sua inevitável entrada em cena. Uma realidade que, mais cedo ou mais tarde, sempre termina por se manifestar se pretendemos ser uma ameaça para o sistema e o poder. Foram apontados os ciclos políticos, os refluxos, personagens daninhos e os vícios nos quais não cair como movimento, agora, inevitavelmente, toca falar de repressão.

Porque é preciso recordar que os inimigos que enfrentamos são poderosos, possuem uma grande quantidade de recursos e estratégias, além de uma transmissão de conhecimentos e uma atualização constante dos mecanismos de repressão. Citaremos alguns exemplos para ilustrar estes mecanismos. Entendemos que a repressão é um entrelaçado complexo que busca acabar com o inimigo político e que tem distintas estratégias e táticas. Desde a criminalização e o descrédito das ideias perante a sociedade, ao controle da dissidência como fase precoce e permanente da repressão, com a qual se busca recopilar e analisar grande quantidade de informação. Para depois, à base de peneiragens e investigações, afinar a repressão e conseguir uma maior efetividade. De um tempo para cá, tornou-se especialmente atual a figura do infiltrado, mas também existe o informante, a montagem, as escutas telefônicas e ambientais, o hackeio de veículos, computadores, dos aparelhos digitais e o acompanhamento dos militantes e a monitorização dos espaços físicos e de luta (locais, moradias de militantes, manifestações…).

Com toda esta informação se prepara a estratégia repressiva e se age. Às vezes bastará com a pressão policial-judicial continuada contra os militantes na forma de multas, outras com algumas detenções, busca e fechamento de locais. Outras vezes alguns companheiros entrarão na prisão por uma longa ou curta temporada, o que inevitavelmente centrará os esforços em combater a repressão e desviará o movimento de seus objetivos, ao mesmo tempo que se utilizará também uma marcação forte ao entorno solidário como forma de aumentar o dano para o movimento. Às vezes, os golpes repressivos são a desculpa para testar um entorno que, para o poder e as forças repressivas, é difuso ou opaco e assim poder mapear bem as relações, os companheiros ou a organização a abater. Às vezes, os golpes repressivos são em cascata e espaçados no tempo, o que gera maior sensação de pânico entre o entorno solidário e a militância, provocando assim uma maior desmobilização. Porque, nunca é demais lembrar, a repressão busca a desmobilização de uma comunidade de luta, movimento ou organização.

Vemos que cada estratégia repressiva é diferente e que, embora todas busquem a desmobilização e eliminação do oponente político, não devemos enfrentar todas da mesma forma. Saber que o inimigo está à espreita não pode fazer outra coisa senão nos manter vigilantes sem cair na paranoia que impeça a ação. Por outra parte, é necessário saber que o risco 0 não existe quando sua intenção é combater o poder. Um primeiro passo deveria ser sempre proteger-se e proteger o resto de companheiros. Estabelecer estratégias e metodologias para agir sem deixar rastros, passar despercebidos quando for preciso, maquiar e difuminar os golpes pode fazer parte da estratégia a seguir, assim como compartilhar, atualizar-se, acumular e prover-se de experiências, metodologias e estratégias para enfrentá-la, torna-se estritamente necessário para os grupos e revolucionários que pretendam levar a luta a sério.

A repressão é efetiva, por isso seguem usando-a contra a dissidência, porque a repressão individualiza, porque o assédio policial e judicial, a prisão e as multas geram medo e destroem vidas. Está em nossas mãos nos prepararmos para enfrentá-la, buscar mecanismos para atenuá-la, combatê-la e socializá-la. Ser solidários para que os companheiros que a sofrem não estejam sozinhos, além de devolver os golpes ao poder e redobrar esforços na denúncia da repressão, assim como na continuação da luta, combater as forças repressivas e sua sociedade cúmplice. Porque a melhor homenagem é continuar a luta e porque contra sua repressão, nossa solidariedade.

Sirvam estas linhas para nos situar, nossa intenção sempre foi a de falar claro para poder desenvolver estratégias e práticas de luta contra a dominação. Consideramos a repressão uma estratégia mais das que dispõe o poder para acabar com seus inimigos, tem outras mais sutis como são a integração, a marginalização, a criminalização. E das quais tampouco é fácil escapar, por isso manter-se desperto, sem triunfalismos, atento e decidido é necessário para enfrentar o poder, suas estratégias e seus capangas.

Nossa intenção não é a de desanimar, mas sim, todo o contrário. Tampouco a de vitimizar os lutadores, mas a de combater por um lado os discursos derrotistas e seus porta-vozes, os quais acreditamos que podem chegar a fazer mais dano que a repressão em si mesma; e por outro, combater o sistema e tratar a repressão como consequência da luta que travamos. Para isso é necessário tê-la presente e nos prepararmos para enfrentá-la sendo conscientes de que o inimigo é poderoso e nós teremos que estar à sua altura para acabar com ele. Porque seguimos acreditando que nosso momento não passou e que se nos esforçarmos virão tempos melhores, que as explosões e o combate estão por vir, porque não queremos que nos peguem dormidos e atomizados. Anarquia ou morte.

Está em nossas mãos nos reencontrarmos, pôr-nos em marcha outra vez, voltar a ser perigosos para o poder, vocês sabem onde nos encontrar.

Alguns velhos anarquistas

P.S.: Enquanto se redige este artigo, estão ocorrendo os fatos de Torre Pacheco (Múrcia). Onde a ultradireita midiática e neonazistas estão se dedicando à caça ao imigrante. Situações como esta unidas à precarização da vida, a destruição do planeta, a deriva autoritária e totalitária dos estados tornam mais necessário do que nunca um movimento anarquista forte e organizado que saiba enfrentar o fascismo, o capitalismo e o estado. Assim mesmo, assistimos há mais de dois anos ao genocídio em Gaza, perpetrado pelo Estado de Israel que está decidido a exterminar a população palestina. Em um contexto tão devastador como este, torna-se urgente a articulação de um movimento libertário que aspire a combater e transformar radicalmente a sociedade. Que aspire à revolução social.

Fonte: https://www.alasbarricadas.org/noticias/node/57676

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Rosto no vidro
uma criança eterna
olha o vazio

Alphonse Piché

[Espanha] Lançamento: “¿Qué es el anarquismo?”, de Miquel Amorós.

Com o título do presente ensaio Miquel Amorós nos interroga, com aparente ingenuidade, sobre o que é o anarquismo. Nas primeiras linhas, simula enfrentar a pergunta: “A resposta, em princípio, é fácil: anarquismo é o que pensam e fazem os anarquistas”. Mas esta apressada definição inicial, formulada sem entusiasmo nem celebrações, é na realidade uma inquietante e realista constatação, segundo a qual anarquismo é “uma espécie de saco cheio de fórmulas díspares etiquetadas como anarquistas”.

O mundo no qual vivemos exige, hoje mais do que nunca, um exame baseado no conhecimento histórico. No entanto, os anarquismos pós-modernos, renegando a verdade e a razão, renegam também a luta de classes e o anticapitalismo. A pós-verdade, a impostura e a incoerência são suas novas e estranhas bandeiras. Como adverte Amorós, “ao renunciar à razão, tal como se costuma fazer agora, as portas ficam abertas a qualquer deriva…”

O livro inclui mais dois textos de Amorós: “Anarquismo hoy” e “Las causas probables del ascenso de la extrema derecha en el mundo capitalista“.

Preço 7,00 €

Editora: LA ROSA NEGRA

Idioma: Castellano

Número de páginas: 60

Data de publicação: 2025

ISBN: 978-84-946886-6-9

larosanegraediciones.es

agência de notícias anarquistas-ana

A lei é um caco
de vidro—nós pisamos
descalços, e sangramos.

Liberto Herrera