[Espanha] Programação da I Feira do Livro Anarquista e Social de Vigo

Este programa inclui apresentações de livros, debates, oficinas e mesas redondas que abrangem desde o pensamento libertário clássico até novas redes de ativismo internacional, incluindo memória histórica, solidariedade internacional e alternativas coletivas ao capitalismo.

Além das palestras, a feira também quer ser um espaço vivo de convivência e aprendizado coletivo, onde palavras e ações andam de mãos dadas.

Convidamos você a comparecer, participar, debater, conhecer novas propostas e, principalmente, a desfrutar da I Feira do Livro Anarquista e Social de Vigo, que, como já antecipamos, não será a última.

Horário da Feira

Sexta-feira: das 17h30 às 21h30.

Sábado: das 11h00 às 21h00

Domingo: das 11h00 às 19h00

Local: Galerias do Príncipe — Rua do Príncipe, 22 (Vigo)

Organização: CNT-Vigo e Grupo Acción Directa (FAI)

> Confira a programação aquihttps://cntvigo.org/programaiflasv/

agência de notícias anarquistas-ana

chegado para ver as flores,
sobre elas dormirei
sem sentir o tempo

Buson

O mito do bloco negro. 2 de outubro de 2025 no México

O MITO DO BLOCO NEGRO

Agora que se viu uma resposta violenta dos manifestantes na marcha de 2 de outubro [marcha anual em memória do massacre estudantil de 1968 em Tlatelolco], o mito do Bloco Negro ressurge, tanto para os jornalistas chayoteros [jornalistas que recebem um pagamento em troca de falar bem do governo.] quanto para os ideólogos do governo, interessados em criar um falso inimigo. Vamos por partes:

1. O Bloco Negro não é uma organização clandestina financiada por “interesses obscuros”. Essa ideia circula desde Díaz Ordaz contra os estudantes do CNH quando invadiram a UNAM e o IPN em 1968, encontrando uma feroz resistência, inclusive com armas curtas dentro dos campus da UNAM e do IPN.

2. Esta ideia de “um inimigo estranho” alimenta os discursos do governo, apontando “que não cairão em provocações”, como se o povo estivesse interessado em ser reprimido pelo governo.

3. O que o [partido] MORENA não quer entender é que, ao enganar 35 milhões 849 mil 484 pessoas que votaram neles, não conseguem enganar os outros 65 milhões 405 mil 911 eleitores, que somam um total de 101.255.395 pessoas registradas no cadastro eleitoral. A minoria de quase 36 milhões de pessoas torna possível a submissão de mais de 65 milhões. Mas isso não quer dizer que eles consigam enganar todas as pessoas. Descontando as pessoas que votaram no PRIAN, um total de 16.502.458 votos, que vivem enganadas pela extrema direita, e também cerca de 10 milhões que votaram em outras “opções”. Mas, desses, 39 milhões 633 mil 675 pessoas NÃO votaram. Não participaram da farsa eleitoral. Não há consenso social.

4. Dentro do mito do Bloco Negro, o Governo reconhece cerca de 350 ativistas que enfrentaram 1500 policiais. E localizam 3 homens… Ou a polícia política do governo é muito inepta, ou a Inteligência Militar não lhes passou os seus relatórios…

5. O “inimigo estranho” satanizado como o “Bloco Negro”, na verdade, tem vários componentes: primeiro, estão os anarquistas que reivindicam a ação direta e o confronto com o Estado, também chamados de insurrecionistas, embora aí haja várias correntes diferentes. Em segundo lugar, “a primeira linha”, onde estavam ativistas anarquistas e punks, que, sem serem “insus”, estiveram na luta corpo a corpo contra a polícia e “os granadeiros que já não existem”, mas que ainda batem e machucam manifestantes. Merecem respeito estes manifestantes que arriscam a vida e o corpo, enfrentando o braço repressor do Governo. Em terceiro lugar, há pessoas espontâneas que enfrentaram: um ciclista, um rapaz de skate sem capuz, uma moça com um estilingue de brinquedo, um senhor bêbado que enfrentou os policiais e vários estudantes que se separaram de seus contingentes, sem capuzes, sem vestir preto, que também são observados nos múltiplos vídeos. Simplesmente são pessoas que estão fartas, que têm raiva e que se lançam sem medir precauções, com o rosto descoberto e vestimenta singular…

6. E por último, há 3 tipos de pessoas sobre as quais não se fala, mas que também estão infiltradas: o crime organizado, o narcotráfico e a máfia da Cidade do México (lembrem-se que um soldado, Julio César López Patolzin, se infiltrou nos 43 de Ayotzinapa), e por último, a guerrilha urbana que forja seus quadros na luta de rua, protegidos por eles mesmos e treinados militarmente, por isso nenhum deles caiu.

7. É falso que o “Bloco Negro” seja financiado. Eles fazem isso de graça. Por livre escolha. Em vez disso, a extrema-direita TEM seus próprios corpos paramilitares financiados, sobre os quais não falam na mídia.

8. Também nos vídeos, viu-se um ladrão de joias vulgar sem capuz e sem vestir de preto. “Magicamente” os ladrões conseguiram romper as fileiras dos policiais e, na esquina onde estava repleto de policiais, conseguiram esvaziar lojas inteiras sem problemas. No dia seguinte, a dona de uma joalheria denunciou como vários policiais também roubaram joias, mas isso não foi investigado… (nem o farão)…

9. Surpreende o discurso do governo elogiando seu braço repressor como “heroico” e “polícia da paz”, assim como no romance de 1984, assim como Trump defendendo o ICE e a Migra. A criação discursiva de “um inimigo estranho”: o Bloco Negro, legitima seu pretexto de “cuidar” das pessoas: mais recursos e poder para Omar García Harfuch [Ministro da Segurança], mais dinheiro do orçamento para mais câmeras de vigilância, mais patrulhas para que os policiais comam e vejam seus celulares confortavelmente ali, enquanto o Narco e os extorsionistas saqueiam o país…

10. Também é incrível a imprensa vendida e indigna que chora pelos policiais feridos e não diz nada sobre Ayotzinapa, Acteal, Atenco, Chiapas, Oaxaca, Palestina, e menos ainda sobre o exército enfrentando o EZLN no sudeste. No país de “celebrando o primeiro ano de Sheinbaum [presidente do México]”, os presos políticos continuam, Oaxaca continua comprando armas de Israel, a marinha e o exército continuam traficando gasolina roubada e drogas, as greves mineiras apodrecendo, as granjas suínas envenenando o sudeste, o Narco desaparecendo, sequestrando e escravizando pessoas; enquanto o MORENA celebra seu 7º ano de exercício do poder neoliberalmente.

Braulio Alfaro.  Periódico MoTíN.

agência de notícias anarquistas-ana

Sem pátria, sem hino,
o chão que pisamos é
o único altar.

Liberto Herrera

Mark Bray está se mudando para a Espanha em meio a ameaças de morte e pedidos para sua expulsão da Universidade Rutgers

Mark Bray, professor de história na Universidade Rutgers em Nova Jersey e autor de Antifa, o manual antifascista, La traducción de la anarquia (A tradução da anarquia), The Anarchist Inquisition. Assassins, Activists, and Martyrs in Spain and France (A Inquisição Anarquista. Assassinos, Ativistas e Mártires na Espanha e na França) está se mudando temporariamente para a Europa enquanto lida com ameaças que se intensificaram depois que um grupo de estudantes afiliado à organização fundada pelo ativista conservador assassinado Charlie Kirk o acusou de ser “um financiador e líder proeminente do movimento antifa no campus”.

“Várias figuras conhecidas da extrema-direita me atacaram no X, o que me levou a receber ameaças de morte. A organização de Charlie Kirk, Turning Point USA, tentou me demitir do meu emprego, e no último fim de semana recebi um e-mail ameaçador com meu endereço residencial. Como resultado, fui forçado a transferir todas as minhas aulas para o modo online e me mudar com minha família para Madri durante o ano. Espero que até lá a situação se acalme. Veremos.”

“Vou queimar sua casa e te matar quando você sair correndo”, dizia uma das ameaças enviadas.

“É melhor você correr, seu vagabundo”, dizia outro e-mail. “NÓS, O POVO, estamos de volta e não aprovamos suas ideias e ensinamentos. Vocês se aproveitam dos fracos, transformando seus cérebros em mingau. Sua organização logo será mingau.”

Bray acredita que está sendo alvo de ataques devido às suas pesquisas anteriores e opiniões que estão “em desuso” com o governo Trump, incluindo seu best-seller de 2017, “Antifa: The Anti-Fascist Handbook”, que analisou a história do antifascismo.

O presidente Trump classificou a Antifa como uma organização terrorista doméstica em 22 de setembro, caracterizando o movimento frouxamente organizado como uma “empresa militarista e anarquista” que busca derrubar o governo dos EUA.

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/07/18/lancamento-antifa-o-manual-antifascista-de-mark-bray/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/04/21/eua-lancamento-the-anarchist-inquisition-assassins-activists-and-martyrs-in-spain-and-france-de-mark-bray/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/06/08/espanha-mark-bray-nao-ha-nem-de-longe-grupos-antifas-suficientes-para-realizar-o-que-estamos-vendo/

agência de notícias anarquistas-ana

O cogumelo nasce
no tronco podre do Estado—
vida após a morte.

Liberto Herrera

[Áustria] Não se considere um anarquista!

Um esforço contra uma confusão geral.

Não se considere um anarquista só porque um “A” na bola fica bonito como adesivo no seu laptop ou na sua bicicleta.

Não se considere um anarquista só porque a maioria das pessoas que você conhece da assim chamada esquerda radical o faz.

Não se considere um anarquista se você é uma daquelas pessoas que equipara a esquerda radical ao anarquismo sem conhecer a origem de nenhum dos dois.

Não se considere um anarquista só porque é um ativista e sabe jogar o jogo das identidades.

Não se considere um anarquista só porque estava entre outras pessoas vestidas de preto em um protesto ou festa.

Não se considere um anarquista apenas porque os espaços que frequenta e certos códigos que segue sugerem que você é um.

Não se considere um anarquista só porque seus pais ou seu chefe o chamam assim.

Não se considere um anarquista se a legalidade tiver que ser a base de suas ações.

Não se considere um anarquista se mais tarde você se tornar o que inicialmente mais temia: um cidadão de bem.

Não se considere um anarquista se suas opiniões políticas consistem em demandas democráticas liberais (você pode nem perceber isso).

Não se considere um anarquista se acredita no parlamentarismo e alimenta seu grito desesperado por esperança torcendo pelas facções corruptas dos partidos democráticos.

Não se considere um anarquista se trabalha para um partido.

Não se considere um anarquista se você trabalha para o estado.

Não se considere um anarquista se você interpreta erroneamente certas teorias como um convite para privar o anarquismo de suas histórias.

Não se considere um anarquista se você segue seus líderes teóricos aonde quer que eles o levem e imuniza sua narrativa distorcida chamando-a de pluralismo.

Não se considere um anarquista se você equipara o anarquismo a: vale tudo.

Não se considere um anarquista se enfrentar as opressões causadas pelo terror de gênero representar para você uma noção menor de poder.

Não se considere um anarquista se você acredita que em uma guerra – qualquer uma – existe um lado melhor que o outro.

Não se considere um anarquista se você acredita que a única opção é morrer por um desses lados.

Não se considere um anarquista se você acha que durante a chamada paz não há guerra.

Não se considere um anarquista se você acredita mais ou menos abertamente na existência de um estado (nação) como garantidor da segurança.

Não se considere um anarquista se acredita mais ou menos abertamente na existência de um estado (nação) como condição necessária para a libertação.

Não se considere um anarquista se preferir constituir e institucionalizar a responsabilidade em uma política semi-profissional de conscientização em vez de ser responsável coletivamente.

Não se considere um anarquista se qualquer crítica ao trabalho social como outra força policial for para você um utopismo ignorante e inculto.

Não se considere um anarquista se a ideologia do estado de bem-estar social se tornou tão arraigada em você que não consegue mais distinguir a contra-insurgência da revolução.

Não se considere um anarquista se não acredita no potencial da auto-organização.

Não se considere um anarquista se o seu vizinho é o seu inimigo número um.

Não se considere um anarquista se – secretamente – acredita que pode estar seguro sem ser livre.

Não se considere um anarquista se você acha que essas afirmações não contêm verdades.

Lamentavelmente, acreditamos que elas contêm.

Lamentavelmente, acreditamos que a confusão é generalizada.

Lamentavelmente, acreditamos que o termo anarquista é frequentemente utilizado como um mero rótulo.

Felizmente, acreditamos na anarquia.

Viena, 2025

Fonte: https://emrawi.org/?Do-not-call-yourself-an-anarchist-3796

Tradução > transanark / acervo trans-anarquista

agência de notícias anarquistas-ana

Lua de primavera —
Em teus mares e montanhas
o rosto querido.

Guin Ga Eden

[Colômbia] 11ª Feira do Livro Anarquista de Medellín, 15 e 16 de novembro

Nesta 11ª versão da feira anarquista do livro e da publicação, invocamos e convocamos a alquimia que jaz nos caldeirões onde se forja o que sustenta a vida: o alimento. O cuidado das mãos que descascam, amassam, fatiam, esperam, lavam e servem serão as topografias que exploraremos para que essas palavras das quais nos gabamos conhecer, como autonomia e autogestão, nos deem pistas de como rondá-las de maneiras mais apropriadas, dada a situação presente na qual estamos, onde a fome é uma das formas de sofisticação do aparato do Estado em sua versão mais macabra: o genocídio.

Nutrir-se supõe brincar com os elementos que possibilitam o movimento em espiral do orgânico e inorgânico: água, fogo, terra, ar. Recordar nossas composições e sua tendência à decomposição nos põe em contato com o comum que nos chama, a eterna metamorfose que supõe o ato mesmo da cocção, fermentação e compostagem. Misturas às quais recorremos como quem não pode fazer outra coisa, com aquela doce suavidade que impregna o ímpeto do selvagem. Acorrer, atender, sintonizar-se, disso sabe a alma vegetal que nos compõe, o repouso mineral que nos sustenta e o olhar aberto do animal que não duvida, mas que simplesmente: sabe. Nutrir a própria vida supõe costurar comunidade e solidão, que não é senão a outra face da anarquia. Recordar sua tão potente e difícil etimologia: anarkhia, sem origem, sem princípio, sem mando. Temos atendido ao que isso supõe? Talvez seja hora de olhar para nossas mãos e saber o que estas fizeram e o que podem; entre um calo e outro, entre uma linha oblíqua e uma reta, tecem-se histórias de comunidades que migram, se enraízam e desenraízam, se deslocam e fazem ninho. Jaz, pois, a memória entre nossas mãos e seus tão necessários esquecimentos. Então voltar: acorrer, atender e sintonizar-se, sejam os modos pelos quais pensemos que a anarquia seja a única possibilidade de coabitar com tudo quanto existe, sem que a fome seja uma arma de guerra, mas a forma mais elementar do movimento.

Fazemos um chamado para participar deste caldeirão ácrata onde poderão ofertar o que o território de suas mãos lhes sugerir.

Mais infos: https://www.instagram.com/feria.anarquista.del.libro.ylp/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

o sapo, num salto,
cresce ao lume do crepúsculo
buscando a manhã

Zemaria Pinto

[Uruguai] Faleceu da terra Osvaldo Escribano.

Com profundo pesar, comunicamos o falecimento do companheiro Osvaldo Escribano.

Osvaldo Escribano foi parte do movimento anarquista da Argentina e do Uruguai, participando de diversos processos de autogestão.

Fez parte das revoltas estudantis dos anos 60, quando, aos 18 anos, se aproximou do anarquismo através da biblioteca José Ingenieros. Também esteve no movimento cooperativo de produção e no movimento agrário, chegando a ser um dos fundadores da federação de cooperativas de habitação.

Integra a Comunidade do Sul do Uruguai, uma experiência de vida em liberdade, na qual, durante anos, comprometeu suas ideias e seu corpo, até se exilar na Argentina em 1974.

Em sua luta contra o trabalho neoliberal, trabalhou de maneira comunitária ao lado de sua companheira de vida, María Eva Izquierdo. A autogestão e o cooperativismo foram pilares em sua ideia de gestão dos espaços comunitários e anarquistas, contribuindo para diversas iniciativas no Rio da Prata.

Seu retorno ao Uruguai em 2000 não impediu seu impulso criativo, participando da fundação do espaço anarquista “La Solidaria” e do Rincón del Pinar “El Terruño”, onde funciona a biblioteca feminista “Brujas” e o “Arquivo Anarquista”, participando ativamente nos últimos anos do Centro Social Cordón Norte.

Que a terra te seja leve, companheiro.

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Gata miando
procura a cria
para alimentar

Angela Nassim

[Guarujá-SP] Ajude A Biblioteca Carlo Aldegheri!

A Força De Nossa Luta Está Na Solidariedade (A)!

Desde 2012, o Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri (NELCA) mantém a Biblioteca Carlo Aldegheri, um centro de documentação anarquista, na cidade do Guarujá. Em nosso acervo contamos com diversos materiais como livros, jornais, revistas, cartas, zines, fotos, cartazes, panfletos, entre outros documentos, que registram a trajetória do anarquismo em diversas épocas e em diferentes países.

A Biblioteca Carlo Aldegheri também é um local de encontro das pessoas que militam e querem estudar e conhecer mais sobre a ideologia anarquista. É um espaço de estudo teórico e histórico, com o olhar para o presente e para o futuro da nova sociedade que pretendemos construir & que carregamos em nossos corações!

Temos diversos gastos com aluguel, água, luz, produção de material de propaganda gratuito, organização de atividades presenciais, entre outros… Se você simpatiza com o trabalho que desenvolvemos, solicitamos uma contribuição solidária, no valor que você puder, para que possamos viabilizar a continuação das nossas atividades. Se não puder contribuir, você pode colaborar repassando essa mensagem, para pessoas próximas.

Outra forma de colaborar financeiramente com a Biblioteca Carlo Aldegheri, é adquirindo os livros e camisetas que produzimos. Sua contribuição é essencial para fortalecer esse projeto anarquista e nos ajudar a manter esse espaço autogestionário! Desde já agradecemos todo o apoio! A força de nossa luta está na solidariedade libertária!

Pix: nelca@riseup.net

agência de notícias anarquistas-ana

Sem cercas, o campo
é uma paleta de cores
para o olhar livre.

Liberto Herrera

Flecheira Libertária 827 | “Não há mais gana em mudar radicalmente.”

consciência

As concentrações de pessoas nas cidades estão reduzidas à manifestação de devidas obediências aos superiores. Não há mais gente que se junta para acabar com condutores. Dizem que, no passado, havia um propósito. Mas, hoje em dia, propósito não falta. Só não há disposição para ir além do que está estipulado. É para aderir ou não ao prosseguimento das decisões institucionais que permanecerão. Como se um superior qualquer fosse dono dos lugares, dos palanques e de você. E você mostra, de tempos em tempos, sua devoção. Não há mais gana em mudar radicalmente. Só há assentimento para melhorar as decisões para sua facção política, o seu grupelho, a sua turminha, o seu pessoal sempre intercambiável. Hoje aqui, amanhã ali; é isto ou aquilo. Não tendo mais o que fazer no domingo, quando até o futebol teve o horário adiado para o final da tarde para garantir a sua chamada segurança e o cineminha deixou de ter graça, você deve ir lá no lugar autorizado e postar muuuuuuuito. Sua presença pode bater o recorde e fazer com que a concentração seja mais frequentada do que foi a do oponente. Vida-estatística. Vida-binária. No fundo de cada alma boa há o desejo de pena de morte para os outros.

>> Leia o Flecheira Libertária 827 na íntegra aquihttps://www.nu-sol.org/wp-content/uploads/2025/10/flecheira827.pdf

agência de notícias anarquistas-ana

Pelos fios do poder,
os pardais tecem ninhos
de desobediência.

Liberto Herrera

Navegando por Gaza

Uma mensagem de um iatista punk americano desajustado da flotilha “Mil Madalenas por Gaza”

A fome se tornou uma das armas centrais com as quais o governo israelense busca exterminar a população de Gaza. Em 1º de outubro, o exército israelense atacou a flotilha Sumud, uma frota de navios que tentava romper o cerco a Gaza para entregar ajuda humanitária urgentemente necessária. Pessoas em todo o mundo protestaram em resposta. Notavelmente, na Itália, onde milhões de pessoas tomaram as ruas em quatro dias consecutivos de manifestações. Mas outra flotilha, Mil Madalenas por Gaza (Thousand Madleens to Gaza), vem logo atrás da Sumud. Aqui, apresentamos uma declaração de um dos participantes.

Estou escrevendo a vocês a 300 milhas das costas de Gaza. Sou um marinheiro a bordo do Soul of My Soul, um barco financiado e apoiado pela Mutual Aid Disaster Relief, uma organização anarquista de resposta a desastres da América do Norte. Somos parte da flotilha Mil Madalenas. Nossa missão é romper o cerco a Gaza, desafiar o estrangulamento imposto por Israel invadindo com alguns veleiros improvisados cheios de leite em pó e medicamentos.

Não sou um fanático. Sei o quão pequenas são nossas chances de atravessar o bloqueio imposto pelas Forças de Ocupação de Israel. Se formos atingidos por canhões d’água, abordados, presos e sequestrados, como nossos camaradas da Flotilha Global Sumud foram há alguns dias, então está claro que o poder não está conosco, mas com vocês. Quero que saibam sobre nós, sobre mim, e quero que ajam por conta própria.

Sou um marinheiro. Alguns escolhem vans, outros cabanas na floresta, mas veleiros sempre foram a minha praia. Nunca imaginei que meu gosto por navegar em velhos veleiros de plástico dos anos 1970 teria alguma relevância em uma luta política, muito menos em uma tão central. Vim parar aqui quando surgiu um chamado por camaradas com alguma experiência no mar. Agarrei a chance. Como estilo de vida, o iatismo faça-você-mesmo é algo tão marginal à luta política quanto se pode imaginar, mas aqui estou.

Não deixem ninguém lhes dizer que suas paixões são excêntricas demais para fazer parte da nossa luta maior pela liberdade. Não sou um ativista veterano nem um profissional do mar. Se eu acabei aqui, vocês também podem acabar.

Nosso barco mostra como anarquistas podem se engajar em campanhas políticas amplas e altamente visíveis sem abandonar suas convicções. Sei que muitos de nós evitamos esse tipo de ativismo: grandes organizações com escritórios e ações que buscam os holofotes da mídia. Nosso barco foi autogerido, financiado e adquirido por camaradas. Montamos nosso próprio equipamento, suporte jurídico e tripulação, e só então nos conectamos à organização maior, quando já estávamos prontos. Talvez nosso barco seja um pouco como um grupo de afinidade. Isso nos preservou certo grau de autonomia e poder de decisão, e ainda podemos navegar com nossos camaradas como uma frota.

Muitas vezes me perguntam qual é o objetivo do nosso movimento de flotilhas. É um ato meramente simbólico? Há alguma chance de conseguirmos chegar?

Meus sentimentos mudaram muitas vezes. Há precedentes históricos de barcos que conseguiram chegar. Alguns chegaram antes do ataque letal ao Mavi Marmara em 2010. Não é como se a ideologia política de Israel e seu ódio ao povo palestino fossem muito diferentes naquela época.

Mas tenho acompanhado as notícias aqui no mar, e vemos as enormes ondas de protesto contra o genocídio irrompendo pelo mundo em resposta ao ataque à flotilha Sumud. Isso me fez compreender nosso propósito aqui. Somos apenas um ponto de convergência. O mundo está cansado do bombardeio assassino e do cerco brutal de Gaza por Israel, e estamos oferecendo uma ocasião para que as ruas do mundo se encham novamente. Desta vez, para pôr fim a isso.

Se houver alguma chance de a flotilha Mil Madalenas chegar às costas de Gaza, será porque todos vocês a exigiram. Se vocês se levantarem em defesa da Palestina em todo o mundo, talvez as águas políticas se abram diante de nós. Talvez sejamos o primeiro filete de um corredor marítimo popular.

Por favor, ajam da maneira que puderem, da forma mais alta e decisiva possível. Vocês tomam as ruas, e nós tomaremos o mar.

Palestina livre.

Fonte: https://pt.crimethinc.com/2025/10/05/sailing-for-gaza-a-message-from-a-wayward-american-yachtpunk-in-the-thousand-madleens-to-gaza-flotilla

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

O Estado é mito
que o vento leva—ficam
nossas mãos nuas, sós.

Liberto

[Suíça] Tattoo Circus Bern

Venham, venham todos!

O Tattoo Circus Bern lhes dá as boas-vindas de 13 a 16 de novembro ao seu grande espetáculo na Reitschule!

Vamos nos animar com as apresentações sensacionais de nossos artistas mundialmente renomados! Veja como a Reitschule se transforma em um espetáculo colorido, no qual você terá a oportunidade de embelezar seu próprio corpo e se maravilhar com as diversas formas de modificação e decoração corporal. Deixe-nos alegrar sua vida com apresentações emocionantes, shows, festas, além de comidas e bebidas deliciosas.

Por que estamos fazendo isso?

Infelizmente, a atmosfera alegre e colorida de uma tenda de circo não reflete a situação da totalidade de nosso mundo – onde os poucos que detêm o poder continuam explorando os seres humanos e o meio ambiente, como vêm fazendo há muito tempo. À medida que sentimos que a situação do mundo piora a cada dia que passa, é difícil manter a esperança.

Por essa razão, queremos nos unir e nos concentrar em um mal específico que assola o mundo atualmente: Prisões e repressão. Esses instrumentos dos sistemas dominantes prendem as pessoas de quem não gostam. As pessoas que não se encaixam em seu modelo restrito. Seja por conceitos arbitrários e construídos, como direito de residência e fronteiras, ou porque continuam lutando por um mundo diferente.

Com a ajuda de workshops, apresentações e conhecimento sobre casos atuais de repressão, pretendemos nos educar juntos. Usar essa informação para escrever cartas aos que estão privados de liberdade e angariar fundos e apoio para aqueles que se levantam contra o sistema.

O Tattoo Circus Bern dá continuidade a uma tradição que começou em 2007 em Roma e desde então tem ocorrido em várias cidades da Europa (como Barcelona, Londres, Tessalônica, Berlim, Atenas, Madri e outras).

Nesse espírito: Visite o maravilhoso mundo do Tattoo Circus Bern. Deixe-se encantar, compartilhe momentos de resistência e tenha discussões inspiradoras. E talvez você volte ao mundo com um pouco mais de coragem no coração e uma nova tatuagem na pele.

Até nos encontrarmos novamente! <3

Tradução > Lagarto Azul / acerto trans-anarquista

agência de notícias anarquistas-ana

Manhã já vai alta —
Os beija-flores em bando
revoam no jardim…

Guin Ga Eden

O Fogo do Conhecimento na Revolução Anarquista

A ignorância não é inocente: é o alicerce sobre o qual o capitalismo ergue seus templos de opressão. A alienação fabricada pelo sistema — que transforma história em mercadoria, ciência em ferramenta corporativa e pensamento crítico em ameaça — não é acidental. É projeto. Romper essa névoa exige estudo militante: ler Bakunin para entender as engrenagens da exploração, devorar Kropotkin para desenhar horizontes de mútua ajuda, decifrar Bookchin para fundir ecologia e libertação, etc. Conhecimento, aqui, não é adorno: é martelo para quebrar grilhões. Quem desconhece as estruturas da dominação reproduz, mesmo sem querer, a lógica do opressor.

Nesse contexto, a leitura anarquista é subversão ativa — um ataque à propriedade intelectual do saber. Enquanto universidades corporativas vendem diplomas como títulos de nobreza, nós erguemos bibliotecas livres nas ocupações, traduzimos panfletos em assembleias, debatemos Malatesta em greves. Cada texto anarquista lido coletivamente é um ato de desobediência epistêmica: nega-se o monopólio das elites sobre a razão. Estudar Emma Goldman não é exercício acadêmico; é aprender com quem incendiou teatros do patriarcado. A teoria, longe de ser abstração, é mapa de guerrilha contra o Estado e o Capital.

Refletir, porém, não é contemplação passiva. É autocrítica feroz e coletiva — a arma que impede a revolução de petrificar em nova tirania. Questionamos Proudhon diante de seu racismo, confrontamos as contradições de Stirner com o comunitarismo, reescrevemos o mutualismo à luz das lutas indígenas. Essa reflexão permanente desmonta dogmas e evita a criação de novos sacerdotes revolucionários. Nas palavras de Gustav Landauer: “O Estado é uma condição, um tipo de relação entre seres humanos” — desnaturalizá-lo exige pensar (e viver) relações antiautoritárias aqui e agora, nos espaços autogeridos.

Por fim, estudar é preparar o terreno do possível. Não há revolução duradoura sem transformação íntima: desaprender a competição, desenterrar a empatia soterrada pelo consumismo, forjar éticas baseadas na solidariedade. Quando comunidades estudam permacultura para criar zonas autônomas, quando coletivos mapeiam redes de apoio mútuo durante desastres climáticos, estão aplicando o conhecimento como alavanca material. A utopia não cai do céu: constrói-se com livros nas mãos, mas os pés nas ruas. Saber, nesse sentido, é o primeiro ato de rebelião — e o último refúgio que o capital jamais controlará.

Federação Anarquista Capixaba – FACA

E-mail: fedca@riseup.net

federacaocapixaba.noblogs.org

agência de notícias anarquistas-ana

Sob a árvore
sobre o carro
repousa o joão-de-barro

Tânia Diniz

[Espanha] Lançamento: “A bandeira no cume | Uma história política do montanhismo”, de Pablo Batalla Cueto

Sinopse

Sherpas em greve. Feministas que cravam a bandeira sufragista no topo de um pico. Alpinistas veganos, alpinistas cegos, alpinistas à força nas serras da resistência antifascista, alpinistas trans hasteando o estandarte rosa, branco e azul em cada uma das Sete Montanhas, montanhistas evangélicos em busca da Arca de Noé no cume do Ararate. Anarquistas que vão para a montanha praticar esperanto ou procurar esconderijos para as armas da ação direta. Montanhistas fascistas, pacifistas, peronistas, liberais, conservadores. Papas e santos alpinistas, judeus ortodoxos estudando a Torá nas encostas do Everest. As excursões de Tolkien, as de Lenin, as de Helmut Kohl, o mountaintop sonhado por Martin Luther King. Longas filas no Everest do século XXI para hastear duas dúzias de bandeiras das mais variadas. «Não há ‘não política’, tudo é política», dizem dois personagens de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, em um sanatório nos Alpes suíços, e é com essa referência literária que começa este livro sobre as mil maneiras pelas quais se fez política a partir dos afiados púlpitos dos picos do mundo. Ao longo do texto, surgem tanto as grandezas quanto as misérias da história do alpinismo, espaço de liberdade e emancipação às vezes, e de opressão muitas outras.

A bandeira no cume | Uma história política do montanhismo

Pablo Batalla Cueto

ISBN 979-13-990391-9-1

Preço: 22 €

Páginas: 304

capitanswing.com

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Breve serei pó
e, então, quando me pisares,
cobrirei teus pés.

Evandro Moreira

Um capítulo negro da História espanhola: 50 mil mulheres presas em centros da Igreja para serem “reeducadas”

Entre 1941 e 1985, pelo menos 50 mil mulheres espanholas foram vítimas dos centros de reeducação do franquismo. Estima-se que, nesta altura, 30 mil crianças tenham sido retiradas às mães à nascença.

Pouco se fala de um capítulo sombrio da História recente de Espanha, que marcou mais de 50 mil mulheres durante o franquismo. Foram rotuladas de rebeldes e fechadas em centros de reabilitação moral, onde sofreram abusos, trabalho forçado e tiveram acesso limitado à escola. Esses institutos, controlados por grupos religiosos, reúnem hoje mais de 400 mulheres numa confederação que agora promove uma cerimónia de perdão às vítimas. 

Na fotografia, Mariaje Lopez tinha oito anos e estava a dias de entrar para um centro católico de reabilitação moral, em Espanha.

Eram casas onde as mulheres até aos 25 anos de idade ficavam presas porque padres, vizinhos ou mesmo alguém da família considerava que elas eram “rebeldes” e estavam a desviar-se do padrão moral católico celebrado e defendido por Francisco Franco. O militar instaurou uma ditadura em Espanha, em 1939, que se estenderia até 1975, ano em que Franco morreria.

A suposta educação das moças – para aprenderem a cuidar do lar, do marido e dos filhos – era dada pela Igreja Católica espanhola em institutos de reabilitação que dependiam do Ministério da Justiça e eram supervisionados pelo “Conselho de Proteção da Mulher” – cuja presidente era a mulher de Franco.

Ser “rebelde” incluía ser mãe solteira e sozinha. Essas mulheres eram fechadas em centros como a maternidade de Peña Grande, nos arredores de Madrid.

Aos 76 anos, Paca Blanco lembra-se bem do que significava estar internada em Peña Grande: era mais de meio caminho para as mães ficarem sem os filhos e sem perceberem porquê. As associações que defendem as vítimas estimam que, durante o franquismo, cerca de 30 mil crianças foram retiradas às mães à nascença.

Há estudos que apontam para que, entre 1941 e 1985, pelo menos 50 mil mulheres espanholas tenham sido vítimas destes centros de reeducação.

Fonte: https://sicnoticias.pt/mundo/2025-06-08-video-um-capitulo-negro-da-historia-espanhola-50-mil-mulheres-presas-em-centros-da-igreja-para-serem-reeducadas-b8d56326

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entre miados
o gato enamorado
roçando o bigode.

Luciana Bortoletto

[México] À esquerda da esquerda

Por Juan José Cárdenas Tamayo

O avanço do autoritarismo é inegável. No terreno da democracia representativa, ele se reflete no crescimento das bancadas reacionárias, mas reduzir a política ao eleitoral é se limitar a uma visão estreita. A política também atravessa a vida cotidiana, em todas as nossas formas de relação, e a partir daí o panorama se torna mais sombrio: a ideologia autoritária penetrou os gestos mais simples, instalando-se em corpos e mentes sem necessidade de vigilância externa. Seu sucesso reside em se tornar invisível: quem concebe seus hábitos e pensamentos como meras “formas de ser”, sem questionar sua origem, se torna um portador inconsciente dela. Assim, o velho sonho fascista de produzir indivíduos que vigiem a si mesmos e aos outros não apenas se mantém vivo, como é cumprido silenciosamente.

Diante dessa realidade, a oposição ao autoritarismo buscou refúgio em uma estratégia deplorável: aceitar o mal menor. Perante a ameaça gigantesca da direita, qualquer alternativa de centro ou esquerda surge como um alívio. Na América Latina, essa dinâmica se tornou recorrente. Cada vitória de um governo que não pertence à direita é recebida como uma conquista própria, e nesse processo a crítica se relaxa. As falhas de gestão são justificadas com frases como “a oposição não os deixa governar” ou “pelo menos roubam menos que os outros”. O que deveria ser uma atitude de escrutínio constante se dissolve em indulgência, e a crítica, que antes era uma arma contra os poderosos, se transforma em silêncio cúmplice.

O problema é que essa lógica corrói toda a coerência. Se se condena com dureza um governo de direita, mas se relativizam as mesmas práticas quando provêm de um governo “progressista”, a crítica deixa de ser uma ferramenta transformadora para se tornar um exercício seletivo. Tanto para quem confia em alguma forma de democracia quanto para quem a rejeita, escapa ao entendimento que nenhum projeto político pode se legitimar na obediência, mas sim em suas ações concretas e em sua capacidade real de transformar a vida.

Como anarquistas, marcamos uma diferença decisiva. Ser antipolíticos não equivale a ser apolíticos. A apoliticidade, entendida como indiferença ou desinteresse, é sempre funcional ao poder porque deixa livre o terreno para quem deseja perpetuá-lo. Nossa postura antipolítica, por outro lado, consiste em desmascarar a política institucional como um mecanismo de dominação. Essa clareza implica que a crítica não pode ser dirigida apenas contra a direita: deve golpear com a mesma força a esquerda, porque ambas participam da mesma lógica de hierarquia e controle.

O anarquismo não é a esquerda da esquerda nem uma versão mais radical dela. Somos um horizonte que questiona qualquer forma de poder, independentemente da bandeira que o cubra. Mesmo quando os governos de esquerda levantam bandeiras de justiça social, suas práticas reproduzem o mesmo esquema de burocracias centralizadas, polícias que controlam o protesto e partidos que subordinam as lutas aos seus calendários eleitorais. O poder se disfarça, mas não desaparece.

Aceitar o mal menor equivale a capitular na crítica. É aceitar que a repressão seja tolerada porque é “menos brutal”, que a corrupção seja normalizada porque é “mais moderada”, que as promessas não cumpridas sejam desculpadas porque “a direita teria feito algo pior”. Esse conformismo é incompatível com uma ética libertária. Enquanto persistir esse duplo padrão, não existirá uma postura verdadeiramente antipolítica.

Nossa crítica deve se manter em todos os momentos, sem concessões nem exceções. Não se trata de exigir uma pureza inalcançável, mas de não justificar em um governo o que se condena em outro. Como anarquistas, não estamos aqui para lavar a roupa suja de nenhum projeto partidário. Nossa força está em apontar as fissuras do poder e em construir alternativas a partir de baixo, não em nos ajoelhar perante as promessas de quem busca administrar o existente.

Mas a crítica não basta. O anarquismo se fortalece também na prática: na auto-organização comunitária, na solidariedade concreta, na criação de espaços de vida que transbordam os limites do Estado. Onde os governos “progressistas” se contentam em gerenciar a miséria, nós propomos aboli-la. Onde os partidos negociam com as elites, apostamos na autonomia.

Por isso, diante do avanço do autoritarismo, não basta denunciar a brutalidade da direita nem tolerar a tibieza da esquerda. Ambas são expressões de uma mesma lógica de dominação. Como anarquistas, temos claro que nosso lugar não está à esquerda da esquerda, mas além dela. A meta não é escolher um amo menos cruel, mas construir um mundo sem amos nem servos, onde a liberdade seja uma prática cotidiana e não uma concessão.

Fonte: La grietA, Vozes Anarquistas #14, setembro de 2025

Tradução > Liberto

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Dia de primavera —
Pássaros de dobradura
Pra passar o tempo.

Teruko Oda

[Itália] Comunicado do Grupo Anárquico Mikhail Bakunin – FAI Roma & Lazio

Na última segunda-feira, 22 de setembro, mais de 80 praças da Itália explodiram numa série de manifestações oceânicas; em Roma, mais de 100.000 pessoas invadiram as ruas para dizer NÃO ao genocídio na Faixa de Gaza e SIM à solidariedade internacional. Nosso contingente se expressou com clareza: o estandarte “Nem Deus, nem Estado, nem Guerra – Livres todəs em terra livre” e as bandeiras negras e vermelho rubras marcaram um nítido distanciamento de todo nacionalismo e de todo ódio religioso.

Enquanto as praças se enchem de corpos e vozes que pedem ajuda para Gaza, as instituições italianas nomeiam sua “prudência” e buscam vias de mediação que servem apenas para despolitizar a indignação popular. O Presidente da República e Chefe das Forças Armadas, Sergio Mattarella, convidou a Global Sumud Flotilla a aceitar a oferta da Igreja para desviar a ajuda através de canais oficiais, em nome da segurança e da “garantia” da entrega.

Mas se a Igreja ou o Governo italiano podem “garantir” a entrega da ajuda, por que não a levaram até agora a uma população à beira do colapso?

Trata-se apenas da mais uma tentativa de não perturbar uma operação de limpeza étnica de um estado que não é apenas comprador das armas italianas usadas para exterminar os palestinos em Gaza, mas é também um dos principais fornecedores de armas para a Itália, especialmente no setor de espionagem e cibersegurança. E é em nome dessa colaboração que agentes do Mossad (o serviço secreto israelense) estavam presentes, junto com a polícia italiana, em Parma no último 21 de setembro, para controlar e reprimir possíveis protestos contra o ex-primeiro ministro israelense Olmert.

A Global Sumud Flotilla, por outro lado, escolheu a rota que rompe com a farsa dos Estados: dezenas de embarcações civis zarparam para romper o bloqueio e entregar ajuda a Gaza, denunciando o regime de cerco. A missão se encontrou numa “zona de alto risco”, sofreu ataques às embarcações e pressões diplomáticas, mas prossegue com a vontade de romper a lógica do controle estatal sobre a solidariedade.

Como grupo anárquico, apoiamos o espírito antiautoritário, internacional, partidário das populações e da solidariedade direta – aquele das praças, de quem embarca nos barcos, de quem constrói corredores de vida fora da lógica do Estado e do lucro. Ao mesmo tempo, contestamos e rejeitamos as posições reacionárias das Instituições que, embora declamem humanidade e segurança, não fazem senão preservar as rotas do comércio de armas, os acordos militares e a ordem mundial que produz genocídios.

Recusamos, sem hesitação, todas as Pátrias e todos os Estados – inclusive o Estado que alguns gostariam de erigir como “pátria palestina”, como se a resposta fosse substituir uma fronteira por outra. O absurdo do mantra “dois povos, dois Estados” está aos olhos de quem vê os Estados como aparelhos que reproduzem exploração, polícia, economia de guerra e alianças letais. No mundo, são precisamente os Estados que organizam saques, protegem os senhores das armas, transformam as religiões em instrumentos de submissão e controle. Gritamos em alto e bom som que não queremos trocar a liberação por uma nova bandeira.

A Leonardo [empresa italiana de defesa] e outros mercadores da morte engordam com a carnificina: as cadeias produtivas e financeiras que fornecem armas e tecnologias militares são parte integrante da responsabilidade coletiva. Denunciamos a cumplicidade econômica e política que torna possível o massacre: não basta condenar, é preciso romper os fluxos que alimentam a guerra.

Nossa posição é clara e não negociável: solidariedade internacional concreta (incluindo a plena e ativa proximidade com a Global Sumud Flotilla), recusa limpa de todo nacionalismo e de toda religião autoritária como justificativa para a violência, sabotagem das redes que permitem as guerras e construção de práticas de autogestão e libertação comum.

Nossa batalha é contra os Estados, contra as Religiões e contra o Capital que utilizam a guerra para acumular capital e disciplinar os corpos.

Por isso estaremos novamente na praça no sábado, 4 de outubro de 2025, às 14h00, com partida da Piazzale Ostiense, com nosso estandarte. Quem se reconhece no internacionalismo e no antiautoritarismo é convocadə a se unir ao nosso contingente. Não deixemos a solidariedade nas mãos dos poderosos; construamo-la nós, a partir de baixo, sem patrões nem mediadores.

Nem Deus, nem Estado, nem Guerra. Livres todəs em terra livre.

Grupo Anárquico Mikhail Bakunin – FAI Roma & Lazio

Tradução > Liberto

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Sopra o vento
Pássaros correndo
Atrás de sementes

Rodrigo de Almeida Siqueira

[Itália] Anarquistas pelos Palestinos

Alguns artigos publicados nestes dias, carregados de apreensão, relatam a expectativa de milhares de anarquistas para a greve geral nas principais praças da Itália, após a abordagem por Israel dos barcos da Flotilha Global Sumud.

Os anarquistas, é verdade, estavam e estão presentes – entre as numerosas cidades em mobilização – também em Turim, Livorno, Roma, Milão, Nápoles, Trieste, Florença e Ancona.

Estivemos presentes nas assembleias, nos piquetes, nas greves e nos cortejos em andamento e que se realizarão, com posições claras e a rosto descoberto. Nós, anarquistas, não precisamos esconder nossas intenções ou organizar perigosos atentados, porque somos estudantes, desempregados, trabalhadores, exatamente como todos os outros manifestantes, unidos numa resposta popular de rejeição a um futuro de guerras e a um presente de dor e incertezas.

Nos chamam de extremistas talvez porque não queremos apenas um mundo sem guerras, mas também sem aqueles muros que as geram, sem a exploração das pessoas e do meio ambiente que as alimentam, porque queremos um futuro melhor para todos.

Por isso, por tudo, os anarquistas das Marcas aderem também à greve geral de 3 de outubro, e ao cortejo que se realizará em Ancona a partir das 16h. Vocês não devem se preocupar conosco, mas com o futuro de todos.

FAI – Federação Anarquista Italiana / Seção “M. Bakunin” – Jesi / Seção “F. Ferrer” – Chiaravalle / Grupo Anárquico “Kronstadt” – Ancona / Coordenação Salamandras – Fano/Pesaro / USI/CIT – Marcas Norte / Anarquistas do Valcesano

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

nas ondas cintila o luar.
longas algas,
verde cabelo do mar

Alaor Chaves