[EUA] A Pink Peacock, cafeteria antissionista de Glasgow, que é queer-aliada e iídiche, está de olho no Brooklyn

O pessoal por trás do espaço kosher, onde se paga o que se pode, que funcionou na Escócia por três anos, pretende reabrir em Crown Heights neste verão.

 Por Jackie Hajdenberg | 05/02/2025

Pink Peacock, a cafeteria kosher iídiche anarquista e queer-aliada que funcionou em Glasgow, na Escócia, por três anos, está tentando reabrir no Brooklyn neste verão.

A cafeteria, inaugurada em 2020, gerou um grande burburinho por ser provavelmente a única cafeteria queer, iídiche, anarquista e vegana do mundo onde se paga o que se pode. Em 2023, fechou depois que seus proprietários sofreram de exaustão [burnout], relatando uma “quantidade surpreendente de violência antissemita” durante seus três anos de operação por parte de outros “autodenominados esquerdistas”.

Mas agora, de acordo com os cofundadores da Pink Peacock, Moishe Holleb e Miles Grant, ambos estadunidenses e que acabaram voltando para o país por conta própria, a cafeteria espera obter sucesso duradouro no bairro mais badalado de Nova York.

“Percebemos que não havia espaços anti-sionistas, queer, anarquistas e judaicos na cidade de Nova York e, havendo essa lacuna, nos demos conta de que é necessário que [a iniciativa] continue a existir”, disse Grant.

Quanto a como eles acabaram chegando a Crown Heights, Grant disse que “simplesmente aconteceu”, enquanto eles pesquisavam bairros judeus em Nova York. “Há uma boa interseção entre a comunidade judaica e também muitas outras comunidades que estão na mesma área”, disse ele. “E acho que isso é muito importante para nós, como se disséssemos: ‘estamos todos conectados e há muitas lutas que se sobrepõem’, e acho que foi isso que nos tocou muito.”

Pelo menos uma pessoa judia da região está animada com o empreendimento que está por vir. Para Abby Stein, rabina trans ex-hasídica e ativista, a perspectiva de um café queer, iídiche e antissionista não muito longe de sua casa em Park Slope “parece muito legal”.

“Digo, é iídiche e queer”, disse Stein. “São duas das minhas coisas favoritas!”

“O que mais gosto no judaísmo nova-iorquino é que ele é como um bufê, e você pode encontrar literalmente tudo o que procura”, acrescentou Stein. “Não precisamos de outro espaço genérico judaico em Nova York”.

Crown Heights é o lar de grandes populações caribenhas, afro-americanas e judaicas, embora elas tendam a habitar diferentes partes do bairro.

“Vemos as mesmas necessidades aqui: nossas comunidades estão ávidas por um espaço judaico antissionista que seja acessível aos judeus queer ortodoxos e, infelizmente, as pessoas também estão literalmente com fome”, disse Holleb. “Imaginamos um espaço comunitário centrado na satisfação dessas necessidades, mas aberto a todo mundo, com um espírito de solidariedade e formação de coalizão. Ainda estamos nos estágios iniciais, mas esperamos abrir no verão.”

O nome da cafeteria, que também atende pelo nome em iídiche “Di Rozeve Pave”, é inspirado em “di goldene pave”, ou o pavão dourado, um símbolo mítico da literatura iídiche – embora a cor tenha sido alterada para rosa em solidariedade à comunidade LGBTQ. O iídiche – um idioma que se tornou cada vez mais popular entre judeus antissionistas como alternativa ao hebraico – está presente no cardápio da cafeteria, que se refere a “tunah” para atum e “shmir” para shmear.

Assim como o original de Glasgow, a Pink Peacock do Brooklyn também será um espaço comunitário e de oração antissionista que abrigará atividades como exposições de arte, eventos inter-religiosos, ensaios de coral em iídiche e celebrações nos feriados, como uma feira de livros anarquista em Shavuot e uma apresentação de Purim com drags.

Durante seus três anos de funcionamento na cidade mais populosa da Escócia, Pink Peacock não era alheia a controvérsias, tendo uma vez vendido chaves universais para algemas antes de um grande protesto da conferência climática. A cafeteria, que fechou definitivamente alguns meses antes de 7 de outubro, tinha uma bandeira palestina em exibição, bem como um pôster com o slogan “Judeus e Queers por uma Palestina Livre”.

Durante vários meses em 2020-2021, uma sacola foi exibida na janela com os dizeres “f- the police” [f— a polícia], o que levou Holleb a ser acusado de cometer uma violação da paz – uma ofensa criminal na Escócia. Em um determinado momento, a cafeteria também exibiu um panfleto para um baile de Yom Kippur “na tradição anarquista judaica”, a ser realizado no dia do feriado.

Na cidade de Nova York, o antissionismo é “uma voz que falta”, disse Grant. “Os nova-iorquinos judeus definitivamente possuem opiniões muito mais amplas do que as representadas em muitas instituições judaicas de Nova York. Por isso, achamos importante sermos claros em nossos valores e também oferecermos um lar para pessoas que compartilham esses valores.”

“Faz sentido que essa voz judaica singular exista em um lugar onde também há outras vozes judaicas”, disse Grant, que também é ativista ambiental. “Não estamos apenas no meio do nada na Escócia. Na verdade, estamos mais ou menos entre outras comunidades judaicas daqui.”

A comunidade judaica de Glasgow é bem pequena, com cerca de 9.000 pessoas. A comunidade judaica da cidade de Nova York, por outro lado, chega a quase 1 milhão, e o bairro do Brooklyn é o lar da maioria dos judeus da região, com 462.000.

Muitos dos judeus do Brooklyn são ortodoxos ou hassídicos – especialmente em Crown Heights, que abriga a sede global do movimento hassídico Chabad-Lubavitch. O rabino Menachem Mendel Schneerson, o último rebe Lubavitcher, acreditava que qualquer concessão israelense de terras aos palestinos colocaria em risco o povo judeu, e a grande maioria dos adeptos do Chabad é pró-Israel.

No entanto, a Pink Peacock ainda não tem um contrato de aluguel assinado, e é possível que a cafeteria não fique localizada na parte do bairro voltada para o Chabad.

“Na minha opinião, há muitas pessoas, até mesmo da minha comunidade, que não moram na parte do Chabad”, disse Stein, referindo-se a grupos judeus independentes locais, como o Minyan Atara, que é uma comunidade de oração igualitária independente, e o Brooklyn Shabbat Kodesh, um minyan antissionista, bem como indivíduos associados ao Jews for Racial and Economic Justice [Judeus pela Justiça Racial e Econômica], que tem sua sede no bairro. “Acho que [a Pink Peacock] se encaixa perfeitamente nesse sentido.”

Fonte: https://www.jta.org/2025/02/05/ny/the-pink-peacock-glasgows-queer-friendly-yiddish-oriented-anti-zionist-cafe-sets-its-sights-on-brooklyn

Tradução > acervo trans-anarquista

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agência de notícias anarquistas-ana

rápido encontro —
no banquinho do parque
duas folhas secas

Seishin

[Alemanha] Ativistas da ALF destroem três torres de caça

“No dia 30 de janeiro, destruímos três torres de caça em uma floresta no sul da Alemanha. Com apenas duas pessoas e uma serra, conseguimos derrubar à força as enormes torres da morte, deixando a assinatura da ALF borrifada em seus lados de madeira.

Além disso, fizemos um pequeno trabalho de correção em dois painéis informativos, cobrindo-os completamente de tinta preta.

A disseminação de desinformação sobre a caça não será tolerada por nós, e repetiremos tudo isso, se necessário.

Nos divertimos especialmente com uma torre de caça que tinha um aviso pedindo para que outro grupo de ativistas não subisse nela, pois havia sido construída e mantida com muito esforço por uma pessoa honesta.

Bem, fizemos exatamente o que o proprietário pediu e não ficamos dentro da cabine da torre. Nós a desmontamos completamente, deixando o aviso do proprietário ao lado da nossa assinatura da ALF.

Estamos ansiosos para revisitar as torres de caça restantes com mais camaradas.

Parem com essa matança cruel e desnecessária!”

Fonte: https://unoffensiveanimal.is/2025/02/17/alf-activists-destroy-three-hunting-towers/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

À beira da estrada
A flor do hibisco, e o cavalo
De pronto a comeu!

Bashô

[Espanha] Caminantes Anarquistas Eliseo Reclus

Este mês de novembro, um grupo de militantes anarquistas e anarcossindicalistas do sindicato CNT-AIT de Ofícios Vários de Tarragona se reuniram em assembleia com o objetivo de constituir o Grupo Anarquista de Montanha de Tarragona chamado “Caminantes Anarquistas Eliseo Reclus”.

Recordando e aderindo à tradição anarquista dos geógrafos exploradores da estatura de Eliseo Reclus, Piotr Kropotkin e aos médicos anarquistas como Isaac Puente.

A finalidade do grupo é um espaço para que desde o movimento anarquista possamos realizar atividades relacionadas com a natureza: trilhas, excursionismo, montanhismo, e diversas disciplinas desportivas ajudando-nos a ser mais conscientes do mundo que nos rodeia.

CNT-AIT Tarracus

cntait-tgn.org

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Sombra de árvore –
Até mesmo a companhia de uma borboleta
É karma de uma vida anterior.

Issa

[EUA] O Que a Liberdade de Leonard Peltier Representa para o Futuro Indígena

Por Nick Tilsen | 31/01/2025

Minutos antes de deixar o cargo, o ex-presidente Biden concedeu clemência executiva a Leonard Peltier, comutando o restante de sua sentença de prisão perpétua para ser cumprida em casa. Embora o desfecho mais justo tivesse sido um perdão completo, a libertação de Peltier após 49 anos de encarceramento é uma vitória inegável. Agora, aos 80 anos, ele tem a chance de se reunir com sua família, receber cuidados médicos essenciais, continuar sua arte e compartilhar sua história com o mundo.

A liberdade de Peltier é valiosa por si só. Mas assim como sua prisão injusta simbolizou a opressão sistêmica dos povos indígenas, sua libertação representa a emancipação possível por meio da organização intergeracional. Ela demonstra as possibilidades do poder coletivo indígena.

O envolvimento de Peltier com os sistemas carcerários começou aos 9 anos, quando foi arrancado à força da casa de sua avó e enviado para um internato financiado pelo governo federal a centenas de quilômetros de distância — um deslocamento traumático que fazia parte de uma política mais ampla de genocídio cultural contra os povos indígenas.

Décadas depois, enquanto lutava na linha de frente pelos direitos indígenas e pela terra — e contra agentes federais que tentavam reprimir o Movimento Indígena Americano — ele foi injustamente condenado pela morte de dois desses agentes. A história de Peltier é um microcosmo da injustiça sistêmica que os povos indígenas enfrentam — uma lembrança do compromisso dos Estados Unidos em explorar, encarcerar e tentar apagar os povos originários.

Mesmo após quase meio século atrás das grades, Peltier nunca desistiu. Ele manteve a esperança e lutou por sua liberdade permanecendo conectado à sua espiritualidade, cultura e povo. Sua resiliência inspirou gerações a se unirem ao movimento pela justiça indígena, reforçando o poder do ativismo intergeracional fundamentado na cerimônia e na comunidade.

A luta para libertar Peltier foi longa e árdua, impulsionada por organização popular, pressão política e, acima de tudo, por aqueles que o conhecem e o amam. Muitos duvidaram que sua libertação fosse possível. Mas os povos indígenas provaram o contrário, construindo pontes entre o ativismo de base e as decisões no mais alto nível do governo.

Um ponto de virada significativo na campanha pela libertação de Peltier ocorreu quando o governo dos EUA começou a enfrentar seu papel na era dos internatos indígenas. À medida que mais verdades sobre o impacto devastador dessas instituições vieram à tona, Biden começou a mudar sua perspectiva. Saber que Peltier era um sobrevivente de internato o comoveu profundamente, humanizando sua história e adicionando urgência ao pedido de clemência.

O reconhecimento formal do governo federal dessas injustiças históricas ajudou a abrir caminho para a libertação de Peltier. Em outubro de 2024, Biden pediu desculpas pelo papel do governo nos internatos indígenas. Essa desculpa foi resultado de décadas de ativismo incansável de povos indígenas que exigiram que os EUA confrontassem esse capítulo sombrio de sua história e trabalhassem para reparar os danos causados.

Embora o pedido de desculpas tenha sido um passo importante, libertar Peltier foi uma ação concreta para lidar com os impactos contínuos das políticas de internatos. No entanto, o trabalho está longe de terminar, e esforços contínuos — como a aprovação da Lei da Comissão de Verdade e Cura dos EUA — são necessários para garantir uma justiça reparatória em larga escala pelos danos causados pelos internatos.

A liberdade de Peltier também é um testemunho do crescente protagonismo e influência de líderes indígenas no governo dos EUA. Figuras como a ex-secretária do Interior, Deb Haaland, desempenharam um papel crucial na amplificação das vozes indígenas e na sensibilização das autoridades para as questões da linha de frente. Sua defesa direta junto ao ex-presidente Biden foi fundamental para a libertação de Peltier.

Um dos desafios mais críticos na luta por Peltier foi combater as falsas narrativas perpetuadas por instituições como o FBI e o Departamento de Justiça, que o usaram como símbolo de punição contra os povos indígenas pelo tiroteio de 1975, no qual dois agentes do FBI foram mortos. Embora outros dois membros do Movimento Indígena Americano acusados pelo mesmo tiroteio tenham sido absolvidos por legítima defesa, Peltier foi usado como exemplo, sendo apresentado pelas autoridades como uma ameaça ao que poderia acontecer caso os indígenas ousassem resistir.

Conseguir clemência para Peltier levou muito tempo e exigiu esforços incalculáveis. Mas por meio da organização, da defesa política e da narrativa, desmontamos décadas de desinformação e mobilizamos uma coalizão poderosa de aliados. A história de Peltier ressoou com pessoas de todo o mundo, despertando um senso compartilhado de justiça e humanidade que transcendeu fronteiras políticas e culturais.

A luta por justiça no caso de Peltier encontra ecos trágicos em lutas mais recentes, como o assassinato da ativista indígena queer e não binária Tortuguita pela polícia em Atlanta. Tortuguita defendia terras florestais contra a construção da “Cop City”, um centro de treinamento policial planejado para ser erguido em terras Muscogee, quando foi morta com 57 tiros disparados pela polícia. Sua morte evidencia a violência e a criminalização enfrentadas por aqueles que arriscam suas vidas para proteger territórios sagrados.

Assim como Peltier, Tortuguita foi acusade de atirar contra os policiais, embora não haja qualquer evidência disso. Assim como Peltier, sua história ilustra até onde o Estado está disposto a ir para reprimir a dissidência e silenciar aqueles que defendem a justiça.

Diferente de Peltier, Tortuguita não está viva para contar sua história.

Enquanto celebramos a libertação de Peltier, devemos honrar a memória de ativistas como Tortuguita continuando a luta por justiça — desde combater os atuais ataques à comunidade LGBTQ até impedir que as necessidades básicas das pessoas sejam eliminadas do dia para a noite, passando por não permitir que nossos currículos escolares sejam definidos pelo racismo, pela queerfobia e pelo medo. Independentemente de quem esteja no poder, os povos indígenas continuarão protegendo suas terras, culturas e modos de vida contra as forças que tentam destruí-los. A liberdade de Peltier não é apenas um símbolo, mas um chamado à ação — uma lembrança de que, mesmo diante de obstáculos aparentemente intransponíveis, temos o poder de transformar o mundo.

Agora, com a administração Trump avançando agressivamente com planos de perfuração de petróleo, retirando-se do Acordo de Paris e congelando os fundos da Lei de Redução da Inflação, que são críticos para combater a crise climática, a necessidade de mobilização em massa nunca foi tão urgente.

Como o governo dos EUA não contribuirá mais com sua parte no orçamento do órgão climático da ONU, Michael Bloomberg anunciou que suas fundações cobrirão o custo. Embora isso não seja uma solução ideal ou completa para as novas ameaças climáticas, representa um progresso incremental em direção à redistribuição de riqueza e à ação necessária para proteger nosso planeta compartilhado. Outros filantropos devem seguir esse exemplo, direcionando recursos substanciais para organizações indígenas de justiça climática imediatamente. Os movimentos liderados por indígenas estão na linha de frente da defesa do planeta e precisam de apoio robusto para vencer.

Do Movimento Indígena Americano dos anos 1970 aos movimentos atuais de defesa da terra e da água, a organização e a construção de poder indígena permaneceram firmes contra todas as adversidades. A libertação de Peltier nos mostra o que é possível quando permanecemos enraizados em nossos valores, conectados à humanidade uns dos outros e comprometidos com a luta pela libertação de todos os povos. Continuaremos a expandir nosso poder e a nos mobilizar pelo nosso futuro coletivo — os próximos quatro anos e além exigem nada menos que isso.

Fonte: https://www.yesmagazine.org/opinion/2025/01/31/leonard-peltier-indigenous-futures

Tradução > Contrafatual

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Ruído de chinelos
No quintal do lado –
Mas que calor…

Paulo Franchetti

“Eu acho que podemos aprender com as propostas e práticas históricas de todas as vertentes do anarquismo”

Instituto de Estudos Libertários (IEL) entrevista Marcolino Jeremias | Janeiro de 2025

Quem é Marcolino Jeremias?

Tenho 47 anos, trabalho como recepcionista no SUS faz 22 anos e estou envolvido com o movimento anarquista desde 1994. No ano passado completei 30 anos de militância libertária. Nesse mesmo período adotei uma postura vegetariana (vegana) e abstêmia, que carrego até os dias de hoje, e que eu considero que refletem minhas ideias anarquistas.

Como se deu o seu primeiro contato com o anarquismo?

No começo dos anos 90, eu estava completamente envolvido na cena underground, especialmente na cena do metal extremo e do grindcore, fazendo zines e participando de bandas. Foi um pulo para ter contato com os coletivos anarcopunks e, depois, com os coletivos especificamente anarquistas. Em 1994, eu participei de um coletivo no Guarujá que teve vida curta: o Coletivo Libertariedade e Gaia. Nesse momento, assisti algumas palestras, inclusive, a primeira que eu vi da companheirada de São Paulo, foi justamente uma do Coletivo Anarcofeminista (CAF), aqui mesmo na cidade do Guarujá, nos apresentando algumas das instigantes ideias do anarcofeminismo. Em seguida fui convidado a participar da União Libertária da Baixada Santista (ULBS), um grupo punk/anarquista local, que organizou várias atividades no período em que existiu (1991 — 2002), foi nessa época que tive os primeiros contatos com os velhinhos do Centro de Cultura Social de São Paulo (CCS), o Antônio Martinez e, com um pouco mais de frequência, o Jaime Cubero.

Lembro que numa palestra o Jaime Cubero disse: “O militante anarquista se doa para a causa que defende”. Isso realmente me fez refletir como eu, pessoalmente, poderia me dedicar mais para o anarquismo. Eu estava enfrentando um período em que não encontrava trabalho, mal conseguia juntar uns trocados para contribuir financeiramente com o coletivo que participava. Percebi que uma coisa que eu poderia fazer (já que tinha bastante tempo livre e nenhum dinheiro) era frequentar arquivos públicos (gratuitos) para buscar maiores informações e subsídios históricos que pudessem sanar algumas dúvidas que eu tinha sobre o anarquismo e, num segundo momento, socializar essas informações para difundir o anarquismo e, quiçá, ajudar outras pessoas a também sanarem as suas próprias dúvidas. Foi a maneira que eu encontrei, no dizer de Jaime Cubero, de ‘me doar ao anarquismo’.

Você se identifica com alguma linha histórica específica do anarquismo?

Eu acho que podemos aprender com as propostas e práticas históricas de todas as vertentes do anarquismo, mesmo simpatizando mais com umas do que com outras. A prática política vale mais do que a vertente ideológica que o sujeito diz defender. Se fosse para me classificar em alguma vertente histórica, eu diria anarquismo sem adjetivos. Porém, prefiro apenas anarquista mesmo, pois foi assim que eu aprendi com os velhos companheiros.

>> Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui:

https://ielibertarios.wordpress.com/2025/01/25/instituto-de-estudos-libertarios-entrevista-marcolino-jeremias/

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É tarde, escurece,
a lua se esforça
mas logo aparece.

Pedro Mutti

[Itália] BOAB – Feira do Livro Anarquista de Bolonha

5-6-7 de setembro de 2025 

Parco del Fondo Comini, Bolonha 

Nos últimos anos, em nível internacional, os encontros dedicados à publicação anarquista e libertária se multiplicaram, provando ser oportunidades fundamentais de compartilhamento e convivência, reafirmando continuamente a autogestão e o debate cara a cara. Órfãos da Vetrina dell’editoria anarchica e libertaria di Firenze, que por quase vinte anos nos permitiu nos encontrar a cada dois anos, e movidos pelo desejo de voltar à ação, decidimos transformar em realidade o que até agora eram apenas ideias trocadas entre um brinde e outro ou no fim de algum evento. Queremos organizar um encontro onde possamos nos reunir novamente, conversar, debater, comer, beber e dançar. Em resumo, um espaço para construir comunidade em um momento em que isso é mais necessário do que nunca.

Alguns de nós se conhecem há muito tempo, para outros esta é a primeira vez trabalhando juntos. Certamente teremos que arregaçar as mangas, mas nossa esperança é que este seja apenas o primeiro de muitos encontros!

Com grande entusiasmo e o desejo de reencontrar velhos rostos e conhecer novas pessoas, convidamos vocês para a Feira do Livro Anarquista de Bolonha – BOAB, nos dias 5, 6 e 7 de setembro de 2025. A feira começará com uma noite de boas-vindas na Circolo Anarchico Berneri, na sexta-feira, e continuará no Parco del Fondo Comini (Via Fioravanti 68) no sábado e no domingo.

Além das bancas de livros, revistas, produções independentes e materiais informativos, haverá debates e momentos de discussão focados nas formas e práticas do anarquismo contemporâneo. Também estão previstos música, performances, oficinas, jogos e espaços para crianças, além de comida e vinho, seguindo uma prática que nos é cara – a da autogestão, unindo aprofundamento teórico e pensamento crítico à socialização, compromisso político e organização prática ao prazer da convivência.

Nos próximos meses, divulgaremos o programa oficial, todas as informações sobre como participar do evento e materiais detalhados sobre os temas das palestras e debates. Queremos que este encontro seja o mais internacional possível, com a presença de editoras, coletivos e contribuições de outros países. Por isso, lançamos um chamado para tradutores, tanto para a tradução de anúncios e materiais escritos que serão publicados gradualmente, quanto para tradução simultânea durante os dois dias do evento.

Toda ajuda nesse sentido será muito bem-vinda! Se você puder colaborar, entre em contato conosco.

Organização:

Biblioteca Elio Xerri (Circolo Anarchico Berneri), Centro Studi Libertari G. Pinelli, Edizioni Malamente, com o apoio da ReBal (Rete delle Biblioteche Anarchiche e Libertarie).

Informações e contato:

Website: boab.zone

Email: info@boab.zone

Tradução > Contrafatual

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Brilho da lua se move para oeste
a sombra das flores
caminha para leste.

Buson

[Holanda] Lançamento: Take Back Mokum – Ocupação e Luta pela Moradia em Amsterdã

Como ocupar uma casa? Como organizar uma greve de aluguel? Como lutar contra a gentrificação? Como resgatar a cidade?

‘Take Back Mokum’ retrata a luta pela moradia em Amsterdã hoje. Ele mostra como o movimento de ocupação se mistura com o ativismo queer, com a luta de migrantes sem documentos, com questões ecológicas e com iniciativas populares pelo direito à cidade. Consistindo em ensaios, entrevistas, histórias visuais e muito mais, ele compila os insights e conhecimentos práticos de uma grande variedade de ativistas e coletivos de toda Amsterdã. Juntos, eles representam uma experiência compartilhada da vida urbana vivida de forma autônoma. Mokum é o apelido de Amsterdã. Originalmente significando refúgio ou porto seguro, é um lugar que criamos em resistência, em comunidade, em fuga da ordem estabelecida. Este livro mostra como – e convida você a participar.

Take Back Mokum – Squatting and The Housing Struggle in Amsterdam

352 p, ills bw, 14 x 21 cm, pb, inglês

US$ 22,30

ideabooks.nl

Tradução > Bianca Buch

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Mesmo molhado
Resplandece ao pôr-do-sol
O campo de algodão.

Paulo Franchetti

[Espanha] Um falso conceito “libertário” permeia nosso frágil mundo

Comunicado de imprensa do CEDALL – ano 2025

(Aviso urgente para os recém-chegados, notas para os que já se foram e beijos para os perenes…)

O CEDALL é um centro de documentação dedicado principalmente à divulgação da história do movimento libertário e antiautoritário no território espanhol. Quem nos conhece há algum tempo ou pode nos consultar no futuro está ciente dos materiais de informação histórica que oferecemos aos curiosos e interessados na extensa história do anarquismo ibérico espanhol durante os séculos XIX e XX.

2 É possível que esses sinais da identidade do CEDALL sejam conhecidos por aqueles que trocaram opiniões conosco ao longo desses 25 anos de trabalho cultural e propagandístico e, portanto, essa breve “introdução” pode parecer um tanto retórica ou simplesmente desnecessária. Talvez tenham razão aqueles que pensam assim. Mas, de qualquer forma, acreditamos que não é supérfluo delinear o que foram e ainda são hoje as principais linhas de argumentação que unem o nosso projeto coletivo voltado para a divulgação da história libertária das classes populares de nosso país.

O principal motivo deste inusitado artigo do CEDALL é evidentemente reativo e contém em sua origem uma profunda inquietação com o que consideramos ser uma distorção conceitual maciça e crescente do significado mais reconhecido do termo “libertário“. De fato, nós, como coletivo editorial, e sob o conhecido acrônimo “CEDALL“, desde o início incluímos expressamente a palavra “llibertari” (em catalão).

4 Como é historicamente reconhecido desde meados do século XIX, o termo libertário, especialmente no que diz respeito ao que poderíamos chamar de “(des)ordem capitalista global”, tem sido associado principalmente ao movimento operário de influência anarquista em sua insistente batalha contra o capitalismo e por uma sociedade livre e emancipada de qualquer exploração social. Acreditamos, a respeito dessa forte afirmação, que poucos historiadores e “acadêmicos” seriam capazes de refutar essa definição inicial, expressa em uma infinidade de livros e análises rigorosas da história geral dos séculos XIX e XX.

5 A questão central desse escrito-denúncia encontra-se, sobretudo, em nosso atual e brilhante presente e, portanto, no persistente uso “in-progress” e amplamente distorcido do termo “libertário“. Entre alguns dos diversos e brilhantes “falsários” encontramos hoje desde setores econômicos até grupos sociais/políticos e também alguns estranhos e muito poderosos “indivíduos-alfa” que fariam parte de um estranho e perigoso conglomerado “hipercapitalista” internacional.

Entre suas muitas maluquices que expressam com certa frequência nos meios de comunicação de massa, um de seus objetivos de médio prazo é a destruição gradual de certas conquistas sociais obtidas por meio das lutas das classes populares em muitos países (ou seja, educação, assistência médica e previdência pública etc.).

Seu ataque persistente e deliberado ao “estado” é exercido, nessa ocasião, a partir de uma posição nitidamente “anarcocapitalista”, e não se baseia na justiça social para o benefício de todos os cidadãos, mas sim, ao contrário, na chamada “liberdade” (empresarial) que favorece, prioritariamente e sem nenhum disfarce, seu próprio benefício econômico.

Pelo contrário, a possível supressão do “estado”, teorizada pelos primeiros ideólogos do anarquismo social mais reconhecido no último terço do século XIX, sempre esteve ligada à supressão real e efetiva do sistema capitalista injusto e também à construção de uma nova sociedade na qual qualquer indício de exploração social desapareceria, tanto em suas dimensões individuais quanto coletivas.

6 Alguns exemplos concretos desse surto epidêmico da classe burguesa internacional que está varrendo nosso frágil mundo globalmente sob o rótulo recente desse falso espírito libertário capitalista podem ser vistos recentemente, por exemplo, no governo de Javier Milei na Argentina ou na influência ameaçadora e persistente dos poderosos “lobbies” capitalistas dos EUA, intimamente ligados atualmente ao bloco ultraconservador que venceu as recentes eleições gerais de 2024 em torno do pântano golpista do “trumpismo”. O que antes, e não há muito tempo, era habitualmente referido pela imprensa internacional “mainstream” sob o rótulo acurado de “ultraliberal”, está se transformando rapidamente, por meio de uma certa insistência importunante, sob o guarda-chuva distorcido e cada vez mais enganoso do termo “libertário“.

7 Nós do CEDALL gostaríamos de alertar enfaticamente, caso ainda não estejam cientes de nossa linha editorial, que os materiais históricos que disponibilizamos e as ideias-força que neles transpiram remetem a (outro) imaginário ideológico radicalmente antagônico e oposto a esses grosseiros defensores de um “anarcocapitalismo” cada vez mais antissocial e doentio.

A tradição histórica inicial dos movimentos libertários foi articulada principalmente por militantes e ativistas sociais que fizeram parte das classes populares (mulheres e homens) e que defenderam os oprimidos (“o sal da terra”) em seu cotidiano arriscado e difícil até as últimas consequências, com uma atitude exemplar de solidariedade.

8 É por isso que as tendências ideológicas e econômicas representadas por esse bloco social cada vez mais consolidado e de aparência ultraconservadora não representam em nada o que o coletivo CEDALL tem defendido desde o seu início. De certa forma, pode-se afirmar, com certo rigor histórico, que grande parte dos libertários fez parte, desde o início, do imaginário social que se constituiu em torno do que alguns de seus líderes chamam depreciativamente de “esquerdistas”, em que a crítica radical ao capitalismo e ao seu regime de dominação absoluta formou uma parte substancial de suas ideias e anseios persistentes.

9 Finalmente, e para finalizar nossa nítida posição ideológica, gostaríamos de listar brevemente, embora não de forma exaustiva, nossas fortes preferências pessoais sobre alguns dos homens e mulheres anarquistas e socialistas libertários que deixaram uma marca indelével em nós ao longo de sua história pessoal e que ainda vivem em nossos pensamentos e em nossos corações:

Mikhail Bakunin, Pierre-Joseph Proudhon, Piotr Kropotkin, Louise Michel, Emma Goldman, Elisée Reclus, James Guillaume, Errico Malatesta, Anselmo Lorenzo, José Prat, Teresa Claramunt, Francesc Ferrer i Guardia, José Sánchez Rosa, Mauro Bajatierra, Salvador Segui, Joan Peiró, Eleuterio Quintanilla, Manuel Buenacasa, Ángel Pestaña, Tomás Herreros, Joan García Oliver, Federica Montseny, Francisco Ascaso, Buenaventura Durruti (entre outros e outras…)

EQUIPE CEDALL (Janeiro de 2025)

Fonte: https://redeslibertarias.com/2025/01/20/un-falso-concepto-libertario-recorre-nuestro-fragil-mundo/

Tradução > acervo trans-anarquista

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agência de notícias anarquistas-ana

se andava no jardim
que cheiro de jasmim
tão branca do luar

Camilo Pessanha

[Rússia] Algumas pessoas deixam o país, outras recorrem a explosivos

Em dezembro de 2023, o Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB) anunciou a prisão de um cidadão russo-italiano acusado de atacar um aeródromo militar e sabotar uma linha ferroviária. O suspeito era Ruslan Sidiki, um anarquista de 36 anos, ciclista de longa distância e eletricista. Atualmente em prisão preventiva, ele pode enfrentar uma sentença de prisão perpétua. O site Mediazona publicou uma coleção de cartas de Sidiki, nas quais ele descreve por que recorreu à sabotagem, como planejou e executou os ataques e por que se considera um prisioneiro de guerra, e não um preso político. O Meduza resumiu o conteúdo dessas cartas.

Ruslan Sidiki nasceu em Ryazan, na Rússia, mas passou boa parte da infância na Itália, para onde se mudou com a mãe. Depois de terminar a escola, tentou entrar para o exército italiano, mas não foi aceito. Permaneceu na Itália por vários anos, trabalhando e visitando a família e os amigos em Ryazan sempre que podia. Em uma dessas visitas, recebeu uma oferta de emprego como eletricista — e decidiu ficar.

“A vida aqui era bem boa até 2008”, lembrou ele. “Sentia falta da minha avó e dos meus amigos, e naquela época a Europa parecia um pouco entediante demais.”

Antes da anexação da Crimeia pela Rússia e do início da guerra no leste da Ucrânia, em 2014, Sidiki viajava com frequência para a Ucrânia, onde, entre outras coisas, fazia caminhadas pela zona de exclusão de Chernobyl. Gostava do desafio de navegar por terrenos difíceis, escapar de patrulhas e usar equipamentos militares. Nessas viagens, construiu uma rede de aventureiros com ideias semelhantes, incluindo amigos ucranianos.

Em suas cartas, Sidiki se descreve como anarquista. Diz que suas ideias sobre um mundo justo sem Estado começaram a se formar muito antes de entrar em contato com a filosofia anarquista. Embora critique o que chama de rigidez ideológica de alguns anarquistas e comunistas, afirma que sua oposição ao fascismo e ao totalitarismo nunca vacilou.

No dia em que a Rússia lançou sua invasão em grande escala da Ucrânia, Sidiki lembra de ter sentido uma sensação esmagadora de impotência. “Vi trens carregados de equipamento militar passando e o desespero me deu vontade de mastigar os canos dos canhões”, escreveu. Convencido de que a resistência armada era a única opção restante, decidiu agir. Para ele, o governo russo havia “cortado todos os meios pacíficos de influenciar a situação” ao reprimir ativistas contrários à guerra. “Qualquer um que se manifeste contra a guerra é rotulado de traidor e enfrenta repressão”, escreveu. “Nessas circunstâncias, não é surpresa que algumas pessoas prefiram deixar o país, enquanto outras recorram a explosivos.”

Sidiki escolheu como alvo a Base Aérea Dyagilevo, a apenas 10 quilômetros de sua casa. A ideia surgiu quando ele percebeu que o zumbido baixo dos aviões sobre Ryazan frequentemente coincidia com relatos de ataques aéreos russos na Ucrânia. Ele compartilhou seus planos com um “camarada ucraniano”, que o colocou em contato com “alguém experiente nessa área”. Por sugestão dessa pessoa, Sidiki viajou para a Letônia para “testar suas habilidades” — ele já se interessava por explosivos há anos e aprendera a fabricar bombas caseiras por volta dos 18 anos.

Em julho de 2023, ele executou seu ataque. Usando drones com um mecanismo de lançamento programado, configurou três veículos aéreos não tripulados para decolar três horas depois e deixou o local. Mais tarde, soube pelas notícias que apenas um dos drones chegou à base. Os outros dois, ele suspeita, foram derrubados por uma raposa que viu por perto, mas não se preocupou em espantar.

“Para ser honesto, fiquei preocupado que fossem me rastrear”, admitiu. “Mas planejei bem minha rota, alternando entre pontos cegos e áreas com câmeras. E o atraso de três horas entre minha saída e o lançamento dos drones tornou o rastreamento ainda mais difícil. Se não fosse pelos drones que ficaram para trás, eles não teriam conseguido identificar o local de lançamento.” Mesmo assim, passou o mês seguinte em alerta, ouvindo passos do lado de fora de sua porta. “Mas depois de um mês, a ansiedade passou. Se tivessem me descoberto, teriam me pegado em poucas semanas.”

Dois meses após o ataque, a avó de Sidiki faleceu. A perda o abalou profundamente. “Isso afetou minha clareza mental e minha cautela”, escreveu. “Sinceramente, eu deveria ter me dado alguns meses para me recuperar. Mas não fiz isso.”

Após abandonar os ataques com drones — depois de concluir, por tentativa e erro, que a área era protegida por sistemas de guerra eletrônica —, Ruslan Sidiki voltou sua atenção para as ferrovias. Ele mapeou uma rota na região de Ryazan usada para transportar equipamento militar e construiu duas bombas e um transmissor de vídeo com um mecanismo de autodestruição. Segundo ele, toda a operação custou apenas 10.000 rublos (cerca de 100 dólares).

Em novembro de 2023, Sidiki pedalou até o local, plantou os explosivos e posicionou uma câmera para capturar o momento da detonação. Ao amanhecer do dia seguinte, depois de se certificar de que o trem que se aproximava não transportava passageiros, detonou as bombas remotamente. Dezenove vagões de carga descarrilaram, e o assistente do maquinista sofreu ferimentos leves.

Depois disso, Sidiki escondeu sua bicicleta e as roupas que usava na floresta e voltou para casa por uma rota diferente. Mais tarde, enviou notícias do descarrilamento para seu contato na Ucrânia. “Alguns dias depois, ele me disse que seus superiores haviam decidido me enviar 15.000 dólares”, escreveu Sidiki. “Fiquei chocado — nunca tinha segurado mais de 1.000 euros na minha vida. Disse a ele que não precisava de dinheiro naquele momento e pedi para adiar o assunto.”

Três semanas depois, as autoridades chegaram até Sidiki. Os investigadores conseguiram identificá-lo por meio de imagens de uma câmera de vigilância — capturadas cinco horas após a explosão — que o mostravam caminhando por uma estrada pavimentada. “Eu estava exausto e achei que o perigo tinha passado, então caminhei o último quilômetro pelo asfalto em vez de evitar as câmeras”, escreveu.

Mesmo assim, rastreá-lo não foi fácil. “As forças de segurança me disseram que não tinham como saber de onde eu tinha vindo naquela noite. Eles estavam perdidos, assim como no caso dos drones. Mesmo quando me prenderam, ainda não tinham certeza do meu envolvimento”, lembrou Sidiki.

Na delegacia, ele contou que homens não identificados, vestidos à paisana, o torturaram por vários dias. Eles o espancaram severamente, aplicaram choques elétricos e filmaram tudo com um celular. Quando foi transferido para um centro de detenção preventiva, os médicos da instalação ficaram visivelmente chocados com sua condição. “O médico ficou atônito — meu corpo inteiro estava coberto de hematomas”, escreveu.

Sidiki foi acusado de cometer um ato terrorista, fabricar e distribuir explosivos como parte de um grupo organizado e passar por treinamento para atividades terroristas. Atualmente, aguarda julgamento e pode ser condenado à prisão perpétua. “Entendo que vou pegar uma pena longa. Não me iludo com a possibilidade de um resultado favorável”, escreveu.

Sidiki não se considera um prisioneiro político, mas sim um prisioneiro de guerra. Para ele, suas ações fazem parte do conflito entre Rússia e Ucrânia.

“Minhas ações se encaixam na definição de ‘sabotagem’, não de ‘terrorismo'”, argumentou. “Nunca tive a intenção de espalhar medo entre os civis. Meu objetivo era destruir aeronaves para que não fossem usadas para bombardear, destruir ferrovias para que não fossem usadas para transportar armas.”

Apesar de ter sido capturado, Sidiki disse que não se arrepende. “A guerra acabou para mim — fui pego. Mas sou genuinamente grato aos ucranianos que confiaram em mim. Se alguém é culpado pelo meu encarceramento, sou apenas eu”, escreveu. “Espero que os ucranianos enfrentem cada provação com resiliência. Desejo a todos céus pacíficos.”

Fonte: https://meduza.io/en/feature/2025/02/10/some-people-leave-the-country-others-turn-to-explosives

Tradução > Contrafatual

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brilha o grampo
ou ela tem no cabelo
um pirilampo?

Carlos Seabra

[Espanha] Documentário: Durruti, filho do povo

“Durruti: filho do povo” trata da vida do anarquista leonês Buenaventura Durruti, sobre o qual há uma grande bibliografia, mas poucas produções audiovisuais. Durruti tornou-se um símbolo do movimento operário e do anarquismo em nível internacional.

Por meio de diferentes recursos, como recriações, animações, entrevistas com seus familiares, depoimentos de historiadores, entraremos em uma trama histórica que vai da greve de 1917 à revolução social de 1936, passando pelo surgimento da CNT, os anos do pistolerismo patronal, a ditadura de Primo de Rivera, a Segunda República e a Guerra Civil.

>> Assista (1:33:57) aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=IcaRmi1jkHE

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salta o gato
assalta o gatuno
susto na noite

Carlos Seabra

[Espanha] Paul Goodman e os males da civilização tecnológica

Paul Goodman insistia nas condições “desumanizadoras” da sociedade moderna, onde a pressão social e tecnológica acaba determinando nosso comportamento; é o que ele chamava de um processo (negativo, claro) de socialização. Se a ciência social se ocupa da tensão entre a condição humana e as instituições, esforçando-se, portanto, para ser sempre prática e política, na sociedade ideal existirá pouca ciência social, já que as instituições realizarão e promoverão as faculdades humanas.

Em condições “desumanizadoras” ocorrem alienação, anomia, doenças mentais, delinquência e uma crise de valores de todo tipo. Goodman considerava que a nova religião estava representada pela fé das massas na tecnologia científica e apostava por uma mudança radical no sistema de crenças que transformasse a fé comum das pessoas. Claro, continuaremos vivendo em um mundo tecnológico, mas a tecnologia deve se tornar um ramo da filosofia moral, não da ciência, e seu objetivo deve ser a criação de bens sóbrios para a felicidade comum e fornecer os meios eficientes para que isso se cumpra. Goodman considerava que o tecnólogo, enquanto filósofo moral, deveria ter uma grande capacidade crítica; deve conhecer as mais diversas matérias das ciências sociais, direito, artes e medicina, bem como tudo relacionado às ciências naturais que tenha a ver com seu trabalho. Os critérios morais de uma tecnologia filosófica devem levar em conta a modéstia tanto quanto a eficiência, um senso do todo e não impor uma função particular além do que se pode tolerar; Goodman analisa essa questão em uma sociedade moderna dada ao desperdício e à exaustão dos recursos que foram produzidos.

Também, como complemento de uma tecnologia prudente, está o critério ecológico na atitude e prática científicas; seria necessário simplificar o sistema técnico e determinar de forma modesta a intervenção humana no meio ambiente, tendo consideração por seus possíveis efeitos remotos, a fim de que este sobreviva em toda a sua complexidade. Aposta-se aqui na sabedoria ecológica de cooperar com a natureza em vez de tentar dominá-la. Além disso, as prioridades devem ser determinadas por amplas necessidades sociais. Se falamos de regiões subdesenvolvidas, e a fim de evitar o intolerável imperialismo cultural que tem sido praticado pelo Ocidente, seria conveniente a utilização de “tecnologias intermediárias” capazes de se acomodar da forma mais natural possível aos recursos, habilidades e costumes locais; o objetivo deve ser a eliminação da doença, da fome e do trabalho bruto, sem romper, por isso, o modo de vida específico de cada região. Goodman também insiste, além dos aspectos ecológicos, e aqui surge outro aspecto-chave nos males modernos, em uma medicina de caráter sociológico, psicossomático e preventivo; em cada um desses aspectos, encontra-se um chamado ao ser humano para que seja consciente de que faz parte do mundo natural, por isso deve desistir de tentar dominá-lo.

Existe a crença política de que os cientistas e inventores, e até mesmo os pesquisadores sociais, são neutros em relação aos valores, e que seu trabalho é “aplicado” por aqueles com responsabilidade de governo em uma nação. O anarquista Goodman, com uma tendência pluralista, considera de forma oposta que todos os trabalhadores, incluindo cientistas e pesquisadores, devem ter uma responsabilidade na utilização de seu trabalho; a tendência à diversidade, à ampla distribuição do poder de decisão, pode parecer conflituosa, mas resulta, na realidade, basicamente estável, já que, em vez de poucos objetivos nacionais decididos de forma estreita por uma minoria, existem coisas muito agradáveis e úteis em muitas atividades da vida. A proposta anarquista de Goodman, como não poderia ser de outra forma, passa por descentralizar de forma considerável a pesquisa e o desenvolvimento, e distribuir os recursos de caráter nacional através de milhares de centros de iniciativa e decisão. Se a crença habitual é que o desenvolvimento técnico só é programável sob a direção de um comando central, na realidade, os que dão origem a ideias inovadoras são aqueles que estão em contato direto com a questão em pauta. Os centros diretivos distantes, baseando-se em instruções burocráticas, raramente aportam soluções que abrem novos caminhos, já que costumam limitar-se a repetir o antigo. A descentralização generalizada exige mais inteligência, em vez de uns poucos intelectos organizados corporativamente muito dados à precipitação, à angústia e à avareza. Em contrapartida, um pequeno grupo em contato com uma realidade concreta tem a vantagem de uma boa comunicação e está, além disso, isento da pressão da imediatidade ou da preocupação contínua pelo prestígio pessoal.

Na época moderna, no final do século XIX, houve um auge na fé pública nos efeitos benéficos da “religião científica”; acreditava-se que os homens seriam objetivos, respeitosos com a realidade, precisos, livres de superstições e tabus, e imunes às autoridades irracionais e empíricas. Já na época de Goodman, décadas depois e após duas guerras mundiais, a confiança na ciência e na tecnologia parecia uma piada de mau gosto. No entanto, como é lógico, não se trata de abandonar a civilização tecnológica, mas de reformá-la de modo radical; Goodman, embora consciente dos enormes obstáculos, possuía grande confiança em uma transformação da consciência. No início do século XXI, os males da fé tecnológica desumanizada continuam os mesmos, ou até maiores; a civilização é capaz de produzir a mais incrível tecnologia, mas não consegue ou não quer acabar com a fome, construir melhores habitações ou hospitais, ou melhorar a educação. Contudo, Goodman não desejava opor uma coisa à outra; se o homem é capaz de inovar de maneira surpreendente em aspectos técnicos sem conseguir eliminar males intoleráveis, não é por hipocrisia, mas porque a estupidez acompanha inevitavelmente a condição humana. A reforma radical de caráter humanista que se pretende deve levar em conta esses aspectos da condição humana; a isso se soma a terrível perda de personalidade e de espírito criador que o desenvolvimento tecnológico na sociedade contemporânea tem acarretado. O anarquista Goodman, também psicólogo de formação, está convencido de que uma organização social tendente à uniformização, à rotina e ao controle é um desastre geral; trata-se de um processo de socialização que tende à coletivização e à perda de personalidade no indivíduo, o que só pode ser mitigado com a descentralização, a autogestão e uma educação com efeitos antídotos.

Capi Vidal

Fonte: https://acracia.org/371/

Tradução > Liberto

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pequenos dedos
das gotas de chuva
massageiam a terra

Carlos Seabra

[Alemanha] Munique: churrasco de viaturas policiais

Na rica capital da Baviera, a noite de sexta-feira (25 de janeiro) esteve longe de ser comum. O prefeito de Munique, Dieter Reiter, acostumado a ver de tudo do alto de seu posto administrativo, chegou a emitir um comunicado oficial declarando-se “horrorizado”. Seu espanto se refere a uma guerra no Oriente Médio ou à civilização tecnoindustrial envenenando o planeta? Nem de longe. Mas ainda assim, foi um pesadelo que perturbou o sono da boa sociedade: um incêndio noturno conseguiu chegar à sua porta. E destruiu as ferramentas dos lacaios encarregados de protegê-los.

Por volta das 2h40 da manhã, no distrito periférico de Allach-Untermenzing, cidadãos zelosos começaram a alertar os bombeiros sobre um gigantesco incêndio em andamento na brigada policial canina. Quando chegaram, as 23 viaturas policiais estacionadas ali já estavam completamente envoltas em chamas, enquanto o prédio da brigada (vazio) perdia suas janelas devido ao calor. O corpo de bombeiros de Munique levou quase uma hora para apagar o fogo, enquanto cerca de 50 policiais vasculhavam a área em vão em busca de suspeitos.

Ninguém se surpreenderá, mas as autoridades não reagiram bem ao churrasco de fim de noite e foram rápidas em soltar declarações marciais à menor provocação. O prefeito da cidade, do SPD (partido de esquerda), apontou que “as suspeitas indicam um ataque politicamente motivado por grupos da extrema esquerda”, antes de denunciar “um ataque à nossa democracia”. Já o ministro do Interior da região, do CSU (partido de direita), fez um desabafo sem rodeios: “Do meu ponto de vista, [este incêndio] já tem todas as características de um ato terrorista”, porque “atinge especificamente aqueles que trabalham dia e noite para garantir a segurança de nossos cidadãos”.

A investigação foi confiada à polícia criminal da cidade, em colaboração com o departamento nº 4 da polícia judiciária, responsável por crimes contra a Segurança do Estado (*Staatsschutz*). E, claro, como estamos na Baviera, o principal jornal regional acrescentou que “nos últimos seis anos, máquinas de construção, cabos elétricos, torres de celular e instalações ferroviárias vêm pegando fogo em Munique”, perguntando-se se haveria alguma conexão com esse ataque contra a polícia…

[Resumo da imprensa regional alemã (BR24 & Süddeutsche Zeitung), 25 de janeiro de 2025]

Fonte: https://sansnom.noblogs.org/archives/24242

Tradução > Contrafatual

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de tantos instantes
para mim lembrança
as flores de cerejeira.

Matsuo Bashô

[Itália] Roma: “nem deus, nem estado, nem guerra

Hoje, 17 de fevereiro de 2025, estivemos na praça Campo de’ Fiori desde o final da manhã, reunidos sob a estátua de Giordano Bruno com espírito livre e pensamento crítico para lembrar o aniversário de sua execução pelas mãos da Igreja Católica. Expressamos nossas ideias através de intervenções no megafone, reafirmando nosso rechaço a toda autoridade e dogma.

Uma faixa dizia: “nem deus, nem estado, nem guerra: liberadəs todxs em Terra Livre”, reafirmando nosso compromisso contra toda forma de opressão e por um mundo sem hierarquias.

À tarde, compartilhamos a praça com a UAAR de Roma, com quem organizamos um pequeno flash mob. Um momento de troca e cumplicidade que enriqueceu o dia e reforçou a importância da liberdade de pensamento contra qualquer imposição religiosa ou estatal.

Um aniversário que, mais uma vez, nos lembra que a luta pela autodeterminação e liberdade não é apenas memória, mas ação cotidiana.

Grupo anarquista Mikhail Bakunin – FAI Roma & Lazio

Tradução > Liberto

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Um ventilador
espalha o calor
e as notas da sinfonia

Winston

[Espanha] O capitalismo global industrial não é apenas sociocida e ecocida, também é insustentável. Diante disso, propomos o Decrecimento

Artigo publicado na Rojo y Negro nº 397, fevereiro de 2025

Luis González Reyes, da Cooperativa Garúa e militante de Ecologistas en Acción, revela algumas das chaves dos relatórios realizados para orientar transições ecosociais em diferentes regiões do Estado espanhol e sua interação com a prática sindical.

Em março do ano passado, o Grup Transició Ecosocial da CGT de Catalunya apresentou o relatório ‘Transição ecosocial na Catalunha. Uma proposta decrecentista’, impulsionado por vários sindicatos e federações da CGT, pela Fundação Salvador Seguí e organizações como Embat, Attac e o Sindicato de Inquilinas, entre outros.

Em Euskadi, tanto ELA quanto LAB publicaram estudos semelhantes. E em Castilla e León, a CGT, Ecologistas en Acción e Futuro en Común lançaram um processo participativo que espera ter um relatório similar pronto para a próxima primavera.

Quase todos esses estudos são coordenados pela Garúa, uma cooperativa formada por diversos profissionais, muitos deles ligados a Ecologistas en Acción, incluindo Luis González Reyes, doutor em ciências químicas, educador e colaborador habitual de várias universidades.

Luis, nos relatórios vocês definem como um ponto cego “que toda atividade econômica nas sociedades capitalistas industriais contemporâneas é impossível sem o concurso de um fluxo abundante e estável de matérias-primas e energia”, para depois afirmar que as energias renováveis não são suficientes para substituir os combustíveis fósseis. Como resolvemos esse dilema?

Na verdade, as renováveis, da forma como as estamos utilizando, não são fontes autônomas dos combustíveis fósseis. Elas precisam deles para a fabricação das máquinas que utilizam essas fontes renováveis. Também não podem depender de um sistema baseado em materiais não renováveis. Dessa forma, o que chamamos de “renováveis” não são realmente renováveis, mas, até certo ponto, uma extensão do modelo fóssil. Além disso, essa extensão tem propriedades, de maneira geral, diferentes das fósseis. Elas não são fontes energéticas concentradas, mas dispersas, e não estão disponíveis o tempo todo como os fósseis, mas de forma intermitente — quando o vento sopra ou o sol brilha. Isso faz com que não apenas dependam dos combustíveis fósseis, mas que não possam manter uma economia fóssil, que exige grandes quantidades de energia concentrada disponível o tempo todo.

Um exemplo claro disso é o transporte. Não existe a possibilidade de um transporte massivo, rápido e de longas distâncias sem o uso dos combustíveis fósseis. E sem isso não existe nem uma economia global nem uma concentrada nas grandes cidades.

A transição ecosocial é sinônimo de decrecimento?

O capitalismo global industrial não é apenas sociocida e ecocida, mas também insustentável. Diante disso, o que propomos é o Decrecimento. A proposta decrecentista se baseia em uma economia com consumo moderado de matérias e energia, sendo que esta última seja realmente renovável, produzida por economias locais e diversificadas, integradas no funcionamento dos ecossistemas — o que não é outra coisa senão baseadas em um setor primário agroecológico. E tudo isso, com uma forte redistribuição da riqueza. Para alcançar isso, é imprescindível recuperar nossa autonomia econômica e política, um passo essencial para superar o capitalismo.

Os relatórios do País Basco e da Catalunha foram impulsionados por organizações sindicais. Vocês propõem medidas com impacto disruptivo na forma de entender o mundo do trabalho… Como essas propostas podem ser levadas à ação sindical de uma organização como a CGT?

Quando aplicamos as transformações decrecentistas na economia do País Basco, Catalunha ou em todo o Estado, que foram os quadros que estudamos, o que encontramos é uma redução geral da economia. Isso não é surpresa, porque a maior parte de nossa atividade econômica não serve para satisfazer as necessidades humanas, mas para a reprodução do capital. Há setores muito importantes que precisam ser drasticamente reduzidos: automóveis, turismo, petroquímicos, etc., e outros precisam se reconverter e crescer: alimentação, têxtil, móveis, etc. Mas o balanço total é de uma perda de horas de trabalho.

Atenção, essas são tendências que inevitavelmente ocorrerão à medida que aprofundamos o choque contra os limites ambientais. O que está em jogo é fazer isso com parâmetros de justiça social. É isso que sindicatos como ELA, LAB, ESK ou CGT estão começando a ver, com os quais estamos trabalhando nessas transições.

O que nos une é entender que devemos proteger as pessoas, e não as atividades produtivas que devem desaparecer e já estão feridas de morte. E isso tem políticas concretas por trás, como a distribuição do emprego através da redução da jornada de trabalho sem redução salarial. Entre essas medidas, é fundamental a construção de outras economias fora das lógicas predatórias do capitalismo.

Você acha que com Donald Trump e seus seguidores será mais claro entender o que significa o ecofascismo? Ou simplesmente eles não têm nada de ecológicos?

A internacional reacionária que está se formando tem pouco de ecológica. É, na verdade, um neofascismo fóssil que nega a emergência climática e ecossistêmica. No entanto, ao mesmo tempo, algumas das medidas que eles implementam respondem à imagem socialmente difundida de uma crise profunda. Quando querem expulsar as pessoas migrantes dos EUA, o fazem entendendo que o privilégio que significa o “modo de vida americano” está cada vez mais distante de muitas pessoas devido a essa crise ecosocial profunda. Ou quando retornam a uma política imperialista de controle direto de territórios, entendem que o papel das matérias-primas, que estão se tornando cada vez mais escassas, é cada vez mais central.

Depois de ler as análises e propostas dos relatórios, ressoa a frase de Buckminster Fuller quando dizia: “Nunca se muda as coisas lutando contra a realidade existente. Para mudar algo, construa um novo modelo que torne o existente obsoleto.”

A.R. Amayuelas

Fonte: https://rojoynegro.info/articulo/el-capitalismo-global-industrial-no-solo-es-sociocida-y-ecocida-tambien-es-insostenible-ante-ello-proponemos-el-decrecimiento/

Tradução > Liberto

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as crianças
naquele pátio, e o sol
brincando de esconder

Carlos José Ribeiro

[Reino Unido] Ativistas pró-Palestina vandalizam sede da BBC

Corporação é acusada de minimizar crimes de guerra israelenses 

Scott Harris ~ 

O grupo Palestine Action afirmou que seus ativistas atacaram, na madrugada de hoje (17 de fevereiro), a sede da BBC em Portland Place, Londres, cobrindo o térreo externo do prédio com tinta vermelha, simbolizando sangue, e quebrando janelas. O grupo acusou a BBC de “minimizar os crimes de guerra israelenses” enquanto falha em “dar espaço às vozes palestinas”, tornando-se assim “cúmplice do genocídio em curso em Gaza”. Esta é a segunda vez que o grupo tem como alvo o edifício.

Em uma carta aberta publicada em novembro passado, mais de 100 funcionários da BBC escreveram ao Diretor-Geral Tim Davie e à CEO Deborah Turness, criticando a emissora por oferecer “cobertura favorável a Israel” e por não cumprir um “princípio jornalístico básico” ao não responsabilizar Israel por suas ações. Um ano antes, oito jornalistas da BBC enviaram uma carta à Al Jazeera acusando a emissora britânica de aplicar um “padrão duplo na forma como vê civis”, destacando que a BBC é “implacável” na cobertura dos supostos crimes de guerra russos na Ucrânia, mas adota outra postura em relação a Israel.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2025/02/17/palestine-activists-deface-bbc-headquarters/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Ruídos dos carros,
os escuto pela mesma orelha
que os pássaros.

Robert Melançon

Flecheira Libertária 794 | “morte ao fascismo, morte ao patriarcado”

de pé e dançando

Primeiro sábado de 2025, Zagreb, Croácia. Anarcoqueers agitaram uma ação direta “anti-clero-fascistas”, em suas palavras. O alvo foi impedir uma prática já corriqueira na cidade, realizada pelos “Cavaleiros do Imaculado Coração de Maria”: organizam-se na praça principal e, ostentando imagens sacras e patrióticas, ajoelham-se para orar. O ato é repetido em outras cidades croatas e durante marchas contra o aborto e os direitos de minorias, notadamente as lgbt’s, como gesto de “hombridade” e de amor à pátria, à deus e à família (ato também imitado no Brasil, em meio às manifestações pró-aborto, em 2024). No início deste ano, após o convite de anarcoqueers, mais libertárixs e antifascistas juntaram-se na praça antes do amanhecer. Quando os machos do senhor chegaram, encontraram o local onde armam seu púlpito tomado por gente que dançava e cantava: “morte ao fascismo, morte ao patriarcado” e, em provocativo tom lírico, “maria sapatão”. Elxs não se intimidaram e não deram espaço. Em pouco tempo, os fachos estavam empurrando, socando e chutando algumas pessoas, com escolta da polícia. Anarquistas, queers e antifascistas seguiram com seus berros e tambores ruidosos, sem recuar. De joelhos, os cavaleiros foram embora.

fúria sem lamúria

Primeira sexta-feira de fevereiro de 2025, Bogotá, Colômbia. Durante manifestação em solidariedade às mulheres e lgbt’s que vivem na Argentina, irromperam ações diretas de anarcoqueers. Com faixas e pichações afirmando “fúria marika”, “fúria trans” e “fúria kuir”, depredaram a fachada da Embaixada da Argentina, empreendimentos gringos, painéis eletrônicos de publicidade e propriedades estatais. Pelas ruas, deixaram pintados “A’s na bola”. Em texto, assinado incognitamente, propagam a revolta e o enfrentamento às crescentes violências perpetradas contra pessoas consideradas inferiores por seu sexo, corpos, prazer. Apartadxs do coro do/a/es que lamentam retrocessos no campo dos direitos e da inclusão no mercado, explicitam não estarem interessadxs em melhorar as coisas para serem assimilados à ordem e se tornarem o mesmo.

>> Leia o Flecheira Libertária 794 na íntegra aqui:

https://www.nu-sol.org/wp-content/uploads/2025/02/flecheira794.pdf

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Vi de uma lagarta:
faço um casulo de lã
na noite gelada.

Anibal Beça