5ª Conferência Internacional de Geógrafxs e Geografias Anarquistas

Departamento de Geografia, FFLCH, Universidade de São Paulo (USP), 9-12 dezembro 2025

PRIMEIRA CHAMADA DE TRABALHOS (até 31 de março)

Depois das quatro Conferências Internacionais de Geógrafxs e Geografias Anarquistas  organizadas em Reggio Emilia (Itália, 2017), Rabastens (França, 2019), Oaxaca (México, 2021) e Córdoba (Argentina, 2023), a quinta acontecerá na cidade de São Paulo (Brasil) em 2025.

Esta localização é muito significativa porque São Paulo, a USP e mais geralmente o Brasil, têm uma tradição de reflexão e organização de conferências internacionais sobre figuras históricas da geografia anarquistas.

Assim, os Colóquios Internacionais sobre Elisée Reclus (2011) e sobre o Centenário do falecimento de Peter Kropotkin (2021), foram organizados pela Biblioteca Terra Livre com o apoio do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo.

Para esta quinta edição, convidamos a enviar propostas de resumos principalmente (mas não exclusivamente) sobre os seguintes eixos temáticos:

1) Práticas de lutas libertárias e espacialidades emancipatórias

2) Pedagogias anarquistas e outras práticas libertárias de educação

3) Povos originários, movimentos negros, indígena e desafios da decolonialidade

4) Colapso ambiental e outras relações entre sociedades e naturezas

5) Corpo-território. Gênero, espaço e sexualidade

6) Contra-cartografias

7) Geografias da abolição: Prisões, fronteiras, Estados

8) Outras histórias da geografia

9) Outras histórias e geografias do anarquismo

10) Espaço nas lutas de classes e espaços das lutas de classes

11) Perspectivas transnacionais e internacionalistas das geografias anarquistas

>> Mais informações em:

https://reclus.hypotheses.org/files/2020/09/CIGGA-CFP-2025.pdf

agência de notícias anarquistas-ana

chuva lá fora –
os pássaros, molhados,
foram embora

Carlos Seabra

Nasce a Okupa Uru’bu

O grande pássaro negro dá nome e ânimo na nova Okupa. Se alimentando das entranhas duma sociedade moribunda, transforma essa carne podre em força pra transformar, criar outras formas de viver. Depois de meses desterritorializados, desde a enchente, agora tomamos um novo espaço, abrimos mais uma chaga no capital especulativo imobiliário, mais um espaço pra incendiar com o ideal Anarquista, na base da autonomia, espaço pra fermentar ações, ataques, expandir a solidariedade insubmissa. Da Pandemia fica a relação com o Guahyba, aprimorada com as lições aprendidas.

Viva a Okupa Uru’bu, protetor dos céus para os Mbya Guarani. Viva a Anarquia!

agência de notícias anarquistas-ana

rápido encontro —
no banquinho do parque
duas folhas secas

Seishin

[Espanha] Obrigada, companheiras

Desde a CNT, expressamos nosso mais profundo agradecimento a todos os sindicatos filiados à Confederação Internacional do Trabalho (CIT) que responderam a nossa chamada e se uniram a nossa campanha de crowdfunding. Sua generosa contribuição transcende fronteiras e demonstra, uma vez mais, a força da solidariedade internacional e o compromisso compartilhado pela defesa dos direitos dos trabalhadores. Graças a seu apoio, poderemos dar um passo significativo para a defesa de nossas companheiras de La Suiza.

Esta campanha foi um claro exemplo de como a união faz a força. Juntas, demonstramos que a solidariedade não é só uma palavra, mas uma prática que transforma vidas.

Queremos destacar a importância de cada uma das doações recebidas. Graças a seu pequeno ou grande aporte, conseguimos alcançar uma meta que parecia inalcançável. Sua confiança em nosso projeto nos enche de orgulho e nos motiva a seguir trabalhando incansavelmente.

Nestes tempos difíceis, onde os direitos dos trabalhadores estão constantemente ameaçados, sua solidariedade é um bálsamo que nos reconforta e nos impulsiona a seguir adiante. A CNT se compromete a utilizar estes fundos de maneira transparente e responsável, sempre a serviço dos interesses da classe trabalhadora.

Uma vez mais, agradecemos a todos os sindicatos da CIT que tornaram possível esta conquista. Juntas, estamos construindo um futuro melhor para todas e todos.

cnt.es

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

até que enfim
não dei em nada
dei em mim

Rubens Jardim

Resposta ao texto “Uma crítica ao anarco primitivismo” de Gilson Moura Henrique Junior

Esta é uma resposta ao texto “Uma crítica ao anarco primitivismo¹” de Gilson Moura Henrique Junior, publicado em 2014 e citado pelo canal História Anarquista num vídeo de 2024 chamado “Primitivismo não é Anarquismo. Uma crítica ao primitivismo²”.

O anarco-primitivismo surgiu nos anos 80 do século XX e produziu uma vasta quantidade de material, incluindo duas revistas anarquistas: a Green Anarchist (Reino Unido, 1984-2001) e a Green Anarchy (EUA, 2001-2008), assim como outras publicações. Este movimento difundiu a crítica à civilização no meio anarquista, inspirando diversos coletivos e fomentando discussões sobre história, antropologia e psicologia.

Gilson Moura diz concordar com a crítica à civilização, mas discorda da forma como os anarcoprimitivistas “rejeitam a tecnologia” e “louvam o primitivo”, o que, no entanto, não é uma acusação informada. Ele ainda afirma, equivocadamente, que o anarcoprimitivismo se associa ao evolucionismo social e que estabelece uma divisão hierárquica entre civilização e primitivo. A crítica se foca em John Zerzan, um dos principais autores do anarco-primitivismo, e na sua antropologia, que o autor considera “etnocêntrica” e comparável às ideias de Rousseau. Moura também aponta o uso problemático do termo “tribos” e a classificação de etnias como “caçadoras/coletoras”, considerando tais conceitos anacrônicos e inadequados.

O autor sugere o uso do termo “etnias não-ocidentais”, o que não se refere à mesma coisa. A divisão entre ocidente e oriente é muito mais recente do que o processo histórico que visamos criticar com o conceito de “civilização”. Por isso, não faz sentido falar de “civilização ocidental” ou de “civilizações não-ocidentais” no contexto da teoria anarcoprimitivista. Zerzan não está ignorando a globalização e o capitalismo no processo de assimilação e destruição dessas culturas, pelo contrário. Moura sugere que devemos absorver valores de culturas ancestrais sem classificá-las como “primitivas” e sem descartar todos os valores da cultura ocidental, visto que a anarquia é um desses valores. Isso sim é etnocêntrico.

As críticas de Moura são, como pretendemos demonstrar, bastante problemáticas. A crítica à tecnologia, presente no anarcoprimitivismo assim como em outras linhas de pensamento, não é uma rejeição simplista dos meios tecnológicos, mas uma teoria crítica do sistema técnico dominante e no modo como o pensamento tecnológico contribui para a alienação e dominação da natureza. O conceito de “primitivo”, que também não é utilizado apenas por anarcoprimitivistas, não é uma atribuição de inferioridade, como disse o autor, mas sim uma diferença estrutural, já que compreendem a civilização como uma estrutura opressiva. Os anarcoprimitivistas rejeitam o darwinismo social e não veem as sociedades civilizadas como superiores ou mais evoluídas. Trata-se na verdade de uma crítica radical ao mito do progresso, que no contexto da ideologia civilizatória/colonial significa “mais parecido com a Europa”.

Zerzan não se baseia em Rousseau e não considera os povos originários ingênuos. Ele critica os efeitos da alienação social e ambiental, que, segundo ele, têm raízes no patriarcado e na divisão do trabalho, de maneira similar aos impactos do capitalismo nas sociedades industriais. O uso de “tribo” como uma classificação genérica para os modos de vida não-civilizados é problemático, mas ainda é um termo muito usado nos EUA. Além disso, a expressão “caçador-coletor” continua sendo usada em artigos científicos para descrever modos de subsistência que não dependem da agricultura ou criação de animais, sem conotações pejorativas.

Moura diz discordar da interpretação anarcoprimitivista de Pierre Clastres, dizendo que Clastres não colocava esses modos de vida no plano do “primitivo”. No entanto, o uso do termo “civilização” como oposto de “primitivo”, indicando superioridade, é justamente o que os anarcoprimitivistas questionam. Para Zerzan, a civilização é definida pela domesticação de seres humanos e da natureza, e a domesticação é um processo violento e opressivo.

Anarcoprimitivistas não idealizam as culturas ancestrais, e muito menos as consideram atrasadas ou pertencentes ao passado. Eles se focam na sua capacidade de viver de modo mais ecológico e com menos hierarquia. Se já vivemos desse modo antes, podemos viver novamente. Como, exatamente, seria esse modo de vida, ninguém sabe. Embora a base antropológica de Zerzan seja realmente problemática, ela foi revisada por anarcoprimitivistas posteriores, muitos deles com formação em em antropologia, e por isso a crítica a Zerzan não invalida o movimento como um todo.

Moura acusa o anarco-primitivismo de não dialogar com povos indígenas e de defender um ludismo simplista, mas essa crítica é injusta. Anarcoprimitivistas estão, de fato, em diálogo com movimentos indígenas e criticam o pensamento etnocêntrico que ignora os custos do “desenvolvimento” tecnológico e cultural. Não são ludistas, mas é importante notar a ressignificação do ludismo no anarquismo contemporâneo.

O autor sugere que, em vez de louvar um “primitivismo mitificado”, deveríamos “dialogar com outras civilizações” para revisar os males da civilização ocidental. No entanto, a crítica anarcoprimitivista não se limita a louvar o primitivo, mas sim a criticar a colonização e o progresso civilizatório, que inclui criticar o uso do termo “civilização” como sinônimo de “sociedade organizada” ou “avançada”. O movimento defende um uso de civilização num sentido anticolonial, isto é, como processo histórico comparável à colonização, e não como forma de organização social.

Moura sugere que o anarcoprimitivismo rejeita ideias feministas em favor de uma visão patriarcal, o que é infundado. Zerzan e outros anarcoprimitivistas consideram o patriarcado como um dos fundamentos da civilização, que eles rejeitam. Um dos textos mais citados do Zerzan, traduzido por uma feminista e publicado numa publicação feminista, é uma crítica ao patriarcado enquanto domesticação.

Referências como Ailton Krenak e Davi Kopenawa oferecem uma crítica à civilização que ressoa com as ideias anarcoprimitivistas, enfatizando a necessidade de uma relação menos hierarquizada entre humanos e a natureza. Moura acusa o anarcoprimitivismo de operar no plano metafísico, ignorando a ação concreta. No entanto, anarcoprimitivistas defendem e participam das mesmas ações diretas e organizações que outros anarquistas. Não as rejeitam nem propõem substituições. A crítica anarcoprimitivista apenas adiciona questões que não estavam sendo tratadas no meio anarquista ainda, mas que se aproximam de algo que sempre esteve no anarquismo, como a ideia de Kropotkin sobre a naturalidade do apoio mútuo. Anarcoprimitivistas defendem que as relações humanas voltem a ser prevalentemente não-mediadas pelas instituições civilizadas.

Por fim, a crítica de Moura ao anarco-primitivismo como não sendo anarquismo é rasa e infundada. O anarquismo ganhou e tem a ganhar com o aprofundamento das críticas à civilização, que em grande parte vieram do anarcoprimitivismo. É bom lembrar que o termo “primitivista” foi atribuído pejorativamente a pessoas como Zerzan, e que elas o adotaram criticamente, tal como alguns anarquistas adotam o rótulo de “baderneiro”. Vale lembrar também que o anarcoprimitivismo não está de modo algum relacionado ao movimento artístico ou literário conhecido como “primitivismo”. Nas palavras de Zerzan: “Primitivo é um termo bastante inútil. O divisor de águas é o fato de as pessoas praticarem ou não alguma domesticação”. Anarcoprimitivistas não acham que as culturas ancestrais são atrasadas ou pertencem ao passado, e sim que elas são o futuro, já que as instituições civilizadas irão cair junto com o estado e o capitalismo. Por isso mesmo não estão defendendo um retorno ao passado, mas sim a superação ou abolição de uma estrutura social relativamente recente que se espalhou por violência colonial e assimilação cultural, que chamamos de “civilização”.

Eu pesquiso sobre anarcoprimitivismo desde que conheci pessoalmente o Zerzan, em 2006, num evento anarquista, e antes disso já escrevia sobre crítica à civilização. A princípio, eu também estava muito desconfiado dessas ideias, mas eu tive a oportunidade de tirar minhas dúvidas diretamente com Zerzan e outros autores. Desde então eu me tornei, aparentemente, um dos poucos tradutores e articuladores da crítica anarquista à civilização no Brasil, mesmo não me considerando como anarcoprimitivista. Meu objetivo sempre foi levantar o debate sobre crítica à civilização no meio anarquista. Fica então o convite para todos os anarquistas que não gostam de Zerzan nem de anarcoprimitivismo a ter uma conversa aberta sobre isso, em vez fazer vídeos ou textos taxativos para fechar o diálogo, deixando de responder aos comentários.

O texto de Moura e o vídeo do canal História Anarquista fazem outras acusações que não correspondem ao que o anarcoprimitivismo defende, ou já foram respondidas por outros anarcoprimitivistas, mas vou deixar para responder essas em outro momento. Fica o convite para quem leu este texto dizer se conhece o anarcoprimitivismo, como conheceu e se concorda com o que foi dito aqui.

[1] https://www.anarquista.net/uma-critica-ao-anarco-primitivismo/

[2] https://www.youtube.com/watch?v=zn6FO5T8SVo

Fonte: https://contraciv.noblogs.org/resposta-ao-texto-uma-critica-ao-anarco-primitivismo-de-gilson-moura-henrique-junior/

agência de notícias anarquistas-ana

sonolento
o cão sente
a leveza do vento

Jurandir Junior

[EUA] “Finalmente acabou, vou para casa”: Leonard Peltier

Hoje, o presidente Joe Biden outorgou clemência executiva a Leonard Peltier e comutou o resto de sua sentença. A decisão do presidente é o resultado de décadas de organização de base no território indígena e da revelação de quantidades cada vez maiores de evidência de má conduta dos promotores e violações constitucionais durante o processo do caso de Peltier.

“Finalmente acabou, vou para casa”, disse Leonard Peltier. “Quero demonstrar ao mundo que sou uma boa pessoa e de bom coração. Quero ajudar as pessoas, tal como me ensinou minha avó”.

“A liberdade de Leonard Peltier hoje é o resultado de 50 anos de resistência, organização e defesa intergeracional”, disse Nick Tilsen, fundador e diretor executivo do NDN Collective. “A liberação de Leonard Peltier é nossa liberação: o honraremos trazendo-o de regresso a sua terra natal para que viva o resto de seus dias rodeado de seus seres queridos, sarando e reconectando-se com sua terra e sua cultura”.

“Que a liberdade de Leonard seja uma lembrança de que todo o chamado Estados Unidos está construído sobre as terras roubadas aos povos indígenas, e que os povos indígenas resistiram com êxito a todas as tentativas de oprimi-los, silencia-los e coloniza-los”. continuou Tilsen.

“A vitória de liberar a Leonard Peltier é um símbolo de nossa força coletiva e nossa resistência nunca se deterá. Todos os que estamos aqui hoje nos apoiamos em três gerações de ativistas que lutaram pela justiça para Leonard Peltier. Hoje é uma vitoria monumental: o dia em que Leonard Peltier finalmente volta para casa”, acrescenta Tilsen.

19 de janeiro de 2025

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

O amanhecer,
Só cinco folhas douradas
No topo da Árvore

Rodrigo Vieira Ribeiro

[Itália] O desafio anarquista. Breve relato do XXXII Congresso da FAI

De 3 a 6 de janeiro, ocorreu o XXXII Congresso da FAI (Federação Anarquista Italiana). A Federação celebrou seus 80 anos de existência em Carrara, a cidade que viu seu nascimento logo após a Libertação. O debate foi amplo e abordou os principais campos de atuação do anarquismo social e organizador diante do capitalismo, da guerra e da violência estatal contemporânea.

A discussão demonstrou mais uma vez o compromisso das federações, comissões e companheiros e companheiras nas numerosas lutas locais e internacionais. É impossível relatar exaustivamente todos os aspectos do debate neste artigo, mas destacaremos alguns dos temas mais importantes.

O congresso começou reafirmando o compromisso da FAI com o antimilitarismo. A Federação esteve na linha de frente das lutas contra a militarização das escolas e universidades, contra as fábricas de armas, contra as bases militares do Friuli à Sicília, do Piemonte à Toscana, apoiando as iniciativas das trabalhadoras e trabalhadores contra a economia de guerra, a produção e o tráfico de armas, e em solidariedade aos desertores de todas as guerras. Esse posicionamento é mais crucial do que nunca, diante da multiplicação de conflitos em escala global e do risco concreto de uma catástrofe nuclear. Para sair dessa espiral, o caminho é um só: contrapor a força de ações coletivas, coerente e antimilitarista, fora dos partidos e do controle das instituições, para sabotar e destruir a máquina de morte dos patrões e governos.

Outro momento crucial do debate foi sobre as lutas ambientais. A recente COP 29 em Baku, no Azerbaijão, foi mais uma demonstração da inutilidade dessas conferências diplomáticas e, de modo geral, do fracasso dos governos e da absoluta ineficácia da delegação. A falta de financiamento substancial para ações de mitigação, somada à reversão de políticas sobre combustíveis fósseis e ao negacionismo difundido, tornou esse encontro não apenas ineficaz, mas também prejudicial. Esses fatos nos lembram inequivocamente da necessidade de um compromisso amplo com ações diretas, autogestionadas e de base. Tais ações devem ser enquadradas em uma crítica radical da conivência entre representação política e capitalismo, já que o aquecimento global e sua aceleração estão indissociavelmente ligados ao atual sistema político e econômico, que, por sua própria natureza, é completamente incapaz de implementar as ações necessárias para deter a catástrofe climática.

Outro tema importante foi a crítica transfeminista e queer, que deve ser considerada parte integrante da luta anarquista. A perspectiva trazida por essas lutas é indispensável para um processo revolucionário que vise a subversão anárquica da ordem social e política em que somos forçados e forçadas a viver. Por isso, é fundamental multiplicar as lutas e aprimorar a reflexão contra o patriarcado, o sexismo e o machismo, em uma perspectiva que seja ao mesmo tempo interseccional e de superação de qualquer essencialismo, identitarismo ou binarismo de gênero. Essas questões são mais urgentes do que nunca, diante do avanço das direitas identitárias e soberanistas, que estão promovendo cada vez mais descaradamente seu projeto de um estado ético forte, firmemente baseado na família, na nação, na religião e na repressão. Esse projeto ressalta a centralidade das lutas anticlericais, a serem travadas contra qualquer condicionamento religioso, bem como a oposição ao que cada vez mais se apresenta como um verdadeiro estado policial. O governo está, de fato, testando novos e mais eficientes mecanismos de exclusão e controle dos “indesejáveis”, por meio de medidas de segurança que incluem zonas vermelhas, proibições urbanas e projetos de lei. O mais recente, o DDL 1236 (ex 1660), criminaliza movimentos climáticos, sociais, sindicais, anticarcerários e no border [contra as fronteiras], impondo longas penas de prisão por práticas simples de luta política e social. Um endurecimento severo da repressão que caminha lado a lado com uma série de proteções à polícia e concessões de poder aos serviços secretos, que poderão infiltrar-se em organizações terroristas e até assumir seu controle, com garantia de anonimato e impunidade pelos crimes cometidos.

Em 19 de setembro de 1945, nascia a FAI. Os sobreviventes do exílio, das ilhas de deportação, dos campos de concentração, das prisões fascistas, da Guerra da Espanha e da Resistência deram vida a essa Federação assembleária, federalista e autogestionada que hoje completa 80 anos.

A utopia concreta que animou o movimento anarquista naqueles dias distantes não envelheceu e ainda está diante de nós, em toda a sua atualidade, interrogando aqueles que hoje enfrentam um novo fascismo, perfeitamente inserido em um quadro democrático, mas não menos perigoso em sua repressão ao dissenso e em sua guerra contra os explorados e exploradas.

Em Carrara, mais uma vez, foi recolhido o testemunho daqueles que haviam segurado o sonho de uma sociedade diferente em suas mãos, daqueles que o fizeram nas fábricas ocupadas, na Espanha em julho de 1936, daqueles que viram o fascismo nascer como “contra-revolução preventiva”, daqueles que também o viram cair, derrotado como projeto social e abatido com armas em punho.

Junto com esse importante testemunho, herdamos também todos os desafios a ele ligados: os de um anarquismo social que saiba conciliar organização e liberdade, que saiba tornar crível e praticável um projeto de transformação radical do existente, em um horizonte libertário, de igualdade, de apoio mútuo, de solidariedade entre todos os oprimidos e oprimidas do mundo.

A Comissão de Correspondência da FAI

Fonte: https://umanitanova.org/la-sfida-anarchica-breve-cronaca-del-xxxii-congresso-della-fai/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Laranjais em flor.
Ah! que perfume tenuíssimo…
Esperei por ti…

Fanny Dupré

[Grécia] Protestos em massa exigem justiça para as vítimas do acidente de trem

A investigação do desastre de Tempe é amplamente vista como um encobrimento da negligência com a infraestrutura

~ Kit Dimou ~

Centenas de milhares de manifestantes antigoverno inundaram as ruas da Grécia no último fim de semana, atendendo a um chamado das famílias das 57 vítimas do acidente de trem de Tempe em fevereiro de 2023. Embora as maiores multidões estivessem no centro de Atenas e em Tessalônica, as cidades rurais, vilarejos e ilhas também viram suas maiores manifestações em anos.

Em Atenas, após o término da manifestação na Praça do Parlamento, houve confrontos – envolvendo não apenas o considerável black bloc anarquista, mas pessoas de todas as idades e origens, que atiraram pedras e sinalizadores na polícia.

A investigação oficial é amplamente vista como um encobrimento, tendo ignorado as suspeitas de corrupção, bem como a negligência subjacente e o desfinanciamento de infraestruturas pelo governo neoliberal de Mitsotakis. O desastre ocorreu enquanto o governo estava trabalhando para tornar ilegal a greve dos motoristas por questões de segurança e evitando a obrigação da UE de criar uma comissão permanente de investigação de acidentes ferroviários.

O desfinanciamento dos serviços públicos também foi responsabilizado pela fraca resposta aos incêndios florestais ocorridos no país no verão passado.

Pouco antes do início do protesto em Atenas, uma reunião de residentes sérvios lamentou a morte de 15 passageiros de trem em Novi Sad no ano passado, quando a cobertura de concreto da principal estação ferroviária desabou sobre a movimentada calçada abaixo. Esse desastre também é publicamente atribuído à terceirização e ao corte de custos.

Outras manifestações em massa são esperadas para daqui a um mês, no aniversário de dois anos do acidente.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2025/01/31/greece-mass-protests-demand-justice-for-train-crash-victims/

Tradução > Contrafatual

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agência de notícias anarquistas-ana

Cai a pedra n’água
partindo o espelho do rio:
as nuvens se esvaem.

Ronaldo Bomfim

[Espanha] A CNT supera os 95.000€ no crowdfunding em apoio a Las 6 de La Suiza

A campanha de crowdfunding em apoio às “Seis de La Suiza”, implementada pela CNT e com o apoio do grupo Sofitu, superou todas as expectativas, arrecadando mais de 95.000€. Esta cifra não só é um triunfo econômico, mas também uma contundente demonstração da força da solidariedade popular e um marco na luta sindical.

O Financiamento Popular em apoio das companheiras de La Suiza significou um marco que demonstra a enorme solidariedade da sociedade civil e o compromisso com a defesa dos direitos laborais.

A condenação a prisão destas seis pessoas por defender os direitos laborais de uma companheira desencadeou uma onda de indignação e manifestou a precariedade dos direitos laborais em nosso país. A sentença, considerada por muitos como um ataque à liberdade sindical e ao direito ao protesto, teve recurso e a luta legal continua.

Graças à generosidade de milhares de pessoas, as “Seis de La Suiza” contam agora com os recursos necessários para enfrentar os gastos legais e garantir seu bem estar. Este apoio econômico transcende o individual e se converte em uma mensagem clara às instituições: a sociedade civil não está disposta a tolerar a repressão sindical e a violação dos direitos fundamentais.

“Desde o Secretariado Permanente da CNT, queremos agradecer enormemente a participação e difusão da Campanha de Financiamento popular em apoio às 6 de la Suiza por parte dos incontáveis coletivos e pessoas individuais que destinaram seu tempo a isso”, destaca Erika Conrado, Secretaria Geral da CNT. “O apoio e carinho que se transmite destas contribuições que, como classe trabalhadora, fazemos desde o coração, e para as companheiras que lutaram nas ruas usando as ferramentas do sindicalismo clássico. Não permitiremos que nos dobrem e seguiremos ao lado das companheiras doa a quem doer”, acrescenta Conrado.

A campanha de crowdfunding transcendeu as fronteiras regionais e gerou um amplo debate a nível nacional e internacional sobre a situação dos direitos laborais e a importância da solidariedade. Numerosas organizações sociais, sindicais e políticas se somaram a esta iniciativa, convertendo-a em um símbolo da luta pela justiça social.

Um total de 1506 pessoas, organizações, sindicatos, partidos políticos… quiseram contribuir com a causa mostrando uma vez mais que quando se trata de solidariedade, as siglas não são um problema para fazer frente comum ante as injustiças.

Este êxito demonstra que o financiamento coletivo é uma ferramenta poderosa para empoderar os movimentos sociais e desafiar as estruturas de poder. A campanha das “Seis de La Suiza” se converteu em uma referência para outras lutas similares e abriu novas vias para o financiamento de projetos sociais e políticos.

cnt.es

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

Na casa do avô
Havia tantos pernilongos
Em noites como esta!

Paulo Franchetti

Traduções, quer ajudar?

[Austrália] Vídeo | Papai Noel Antifa detona escritório de fascistas na véspera de Natal

O Natal chegou mais cedo quando, na noite de segunda-feira, a porta da NWA foi quebrada e o interior de seu escritório foi destruído com um líquido misterioso.

Durante a noite, a sede do grupo fascista Aliança Nacional dos Trabalhadores (NWA, na sigla em inglês) foi atacada por antifascistas. A NWA tem atuado como uma ponte para unir a extrema-direita sob o disfarce de “organização da classe trabalhadora”.

A NWA organizou três eventos fascistas este ano, com membros de grupos neonazistas, como o NSN, presentes em cada um deles, junto com outras figuras da extrema-direita. Eles também marcham quase todos os sábados pelo chamado centro de Melbourne.

Este escritório foi o local do mais recente (e fracassado) evento de recrutamento da NWA.

Solidariedade a todas as ações antifascistas tomadas nesta colônia. Devemos continuar a combater o fascismo em todos os lugares, nas ruas, nos locais de trabalho e na comunidade.

Nenhuma piedade para fascistas.

>> Veja o vídeo aqui:

https://www.instagram.com/reel/DD9z8XrN8BC/  

agência de notícias anarquistas-ana

o coqueiro coqueirando
as manobras do vermelho
no branqueado do azul

Guimarães Rosa

Pausa. Voltamos dia 03 de fevereiro de 2025.

[Canadá] Mude o Mundo: Divirta-se, Seja Criativo

De Fifth Estate, nº 415, Verão de 2024

Por Norman Nawrocki

Imagine se mais pessoas acreditassem no poder e na magia da criatividade coletiva, que novo e maravilhoso mundo anarquista poderíamos construir. Sob o capitalismo, qualquer forma de criatividade geralmente é vista como uma busca individual, o domínio dos ricos, da elite e dos artistas. É algo a ser comodificado, reembalado e vendido de volta aos outros na forma de cultura pop a ser consumida. As pessoas aceitam que devem assinar plataformas para assistir filmes ou ouvir música a fim de satisfazer suas necessidades culturais. Para a pessoa comum, os altos custos de frequentar apresentações de teatro ou dança ao vivo costumam ser proibitivos.

Quem então imaginaria que pessoas comuns, com pouca experiência, poderiam acessar e aproveitar sua própria criatividade e imaginação, usando seus próprios poderes de expressão junto a outros para criar uma arte não comercial com um propósito político? Uma obra artística que também pode ser usada como uma ferramenta de organização? E fazer isso em uma atmosfera coletiva, de apoio, sem julgamento, juntos a outros que compartilham o mesmo desejo de mudança social radical? Quando as pessoas têm a oportunidade e o objetivo de dançar, desenhar, pintar, cantar, gritar, atuar e planejar uma maneira de alcançar as mentes e os corações de um público inesperado, isso tudo pode acontecer. E, pode ser divertido.

Usando minhas décadas de experiência como artista anarquista multidisciplinar, ensino Resistência Criativa (RC): como usar as artes, música, dança, teatro, poesia, arte visual, arte digital, etc., para abordar questões críticas e trabalhar na criação de um mundo mais sensato. E, como usar essa abordagem para um ativismo comunitário mais eficaz e uma mudança social radical. O palco pode ser universidades e faculdades, mas também pode ser nas comunidades com ativistas de direitos à moradia ou que lutam contra a crise climática, organizadores trabalhistas, grupos LGBTQ2S e anarquistas. Os participantes são, na maioria, pessoas sem prática artística, sem experiência em apresentações, que nunca imaginaram como as artes poderiam ser úteis em seus trabalhos.

Em um workshop de RC sobre direitos à moradia, realizado por um grupo de anarquistas e simpatizantes em Kelowna, uma pequena cidade na Colúmbia Britânica, onde o turismo é uma atividade econômica importante, os participantes foram convidados a nomear e resumir os problemas locais e possíveis soluções em respostas curtas. A lista se transformou em material para slogans, cartazes e esquetes. Por Exemplo:

“Falta de direitos dos inquilinos: é preciso advogar!”
“Imóveis como investimento de capital: A moradia é um direito humano!”
“Casas de férias vazias: Encham-nas com ocupantes!”
“Aluguéis de curto prazo para turistas: Proíbam os Air B’n’Bs!”
“O estigma prejudica pessoas sem casa ou em situação de insegurança: Educação!”

Cada grupo de trabalho escolheu um tema, fez uma sessão de brainstorming para criar uma representação criativa e teatral desse tema e dramatizou tanto o problema quanto a solução. O resultado: esquetes de teatro anarquista de guerrilha improvisadas, contundentes e de fácil compreensão, que poderiam ser apresentadas em qualquer lugar público. Eles também adicionaram acompanhamento musical ao vivo improvisado, cantaram cânticos e desenharam obras de arte simples, mas poderosas, para segurar atrás e ao lado das performances. Durante um workshop de duas horas, conseguiram fazer tudo isso em menos de trinta minutos com um rápido ensaio de dez minutos. O restante do tempo foi dedicado a aprender os princípios e a teoria da RC e as práticas recomendadas em outros lugares.

O próximo passo foi retornar aos seus grupos comunitários para compartilhar as novas habilidades, incluindo como trabalhar com a população local de pessoas sem casa, algumas das quais haviam manifestado interesse em usar o teatro para avançar suas demandas por moradia acessível.

Em St. John’s, Newfoundland, alguns anos atrás, um grupo de estudantes queria montar uma campanha para enfrentar o problema das drogas de estupro em bares. Como resultado de um workshop de RC, eles criaram uma série de esquetes improvisadas sobre experiências reais em bares, que mais tarde refinariam, filmariam e, com a cooperação dos bares locais, exibiriam nas TVs dos estabelecimentos como anúncios de serviço público. Uma das participantes do workshop escreveu: “Saí cheia de ideias, funcionando a todo vapor! Muito do que você disse era muito prático e extremamente útil. Algumas de suas palavras se repetem na minha cabeça todos os dias: por exemplo, ‘Você não pode fazer esse tipo de trabalho criativo sozinha, sentada em frente a uma tela de computador.'”

Em Regina, Saskatchewan, alguns anos atrás, jovens sindicalistas planejaram uma campanha de apoio público a baristas que estavam tentando organizar as filiais de uma cadeia local de cafeterias. A equipe de RC fez um brainstorming e encenou não apenas esquetes de teatro agitprop a serem apresentadas na rua em frente e dentro das lojas, mas também criou porta-copos impressos com mensagens de apoio aos trabalhadores. Eles até reescreveram as letras de músicas pop para incentivar o público a pressionar a administração e a reconhecer o sindicato e os direitos dos empregados por melhores condições de trabalho. De acordo com um dos ativistas: “Seu workshop me fez perceber que, embora nossa paixão pela justiça social seja uma batalha séria pela qual lutamos todos os dias, nossa visão parece mais alcançável quando nos concentramos em construir uma cultura de resistência por meio da criatividade, ação coletiva e diversão!”

No início deste ano, trabalhei online com membros de um grupo ambiental que desejam permanecer anônimos, combatendo o financiamento de oleodutos pelo Royal Bank of Canada. Os participantes criaram toda uma estratégia de ações de RC usando teatro improvisado, realizado em saguões de bancos, durante reuniões de acionistas e nas ruas durante essas reuniões. As ações incluíam tudo, desde derramar tinta preta para representar óleo na propriedade do banco até se vestir como acionistas, invadir reuniões e tomar os microfones exigindo responsabilização, ou se vestir como caixas eletrônicos convidando o público a colocar dinheiro, para depois alguém derramar óleo/tinta preta na máquina. Um participante escreveu depois: “Seu workshop nos deixou animados e prontos para planejar uma nova campanha baseada em ações de Resistência Criativa.”

Como um anarquista de carteirinha, com bandeira preta tremulando, todos os participantes dos meus workshops de RC são incentivados a seguir os princípios anarquistas — sem líderes, sem estrelas. Todos têm um papel igual a desempenhar. O consenso é fundamental. Contestando a autoridade, as narrativas dominantes e as crenças hegemônicas. Trabalhamos coletivamente, adotamos abordagens de grupos de afinidade e aprimoramos práticas de autossuficiência e autogestão do grupo. Nunca esquecemos da importância de brincar, de ter a liberdade de explorar nossa própria natureza brincalhona, de nos soltar e experimentar a alegria da auto expressão. Porque a luta nem sempre precisa ser chata.

Após um workshop ou aula de RC cheio de energia, os participantes se sentem empoderados. Sabem que agora têm uma nova ferramenta de organização e ativismo. Uma ferramenta para ajudar a se pensar, imaginar, planejar e criar campanhas visíveis e ações mais eficazes. Eles descobrem talvez habilidades criativas nunca antes reconhecidas que revelam o palhaço, cantor ou ator oculto dentro de si mesmos e ouvem o poder de suas próprias vozes em uma formação grupal dinâmica e diferente, cantando, atuando ou gritando juntos. Experimentam a emoção de criar coletivamente algo possivelmente selvagem e artístico para abordar questões sociais e imaginar soluções potenciais.

E percebem que conseguiram isso se dedicando em um curto período de tempo. É uma alternativa nova ao ativismo geralmente monótono que negligencia as práticas criativas. Uma abordagem para ajudar a reiniciar imaginações e inspirar, informar e empoderar a si mesmos e aos outros. Um meio de engajar pessoas de formas novas e divertidas. Provocar questionamentos. Alcançar um público mais amplo cansado de protestos tradicionais. Comunicar ideias de forma mais eficaz. E atrair mais atenção da mídia. Os participantes sempre afirmam que saem dos workshops energizados e prontos para ir às ruas.

Essa liberdade de criar e se expressar dentro de uma estrutura política é algo com o qual os anarquistas sempre se identificaram. Desde críticas ao Estado e à ordem social burguesa até visões de um novo mundo, artistas e simpatizantes anarquistas sempre usaram marionetes, poesia, canções e teatro para espalhar a Ideia.

Cabarés anarquistas animados prosperaram pela Europa no final do século XIX. Dezenas de grupos de teatro anarquista existiram mundialmente no início do século XX. Protestos anarquistas ao estilo de carnaval, desde os anos 1970, sempre tiveram um componente artístico. O Festival Internacional de Teatro Anarquista de Montreal, onde o público pode ver o melhor do teatro anarquista contemporâneo, continua essa tradição, assim como os cabarés do Anarchist Writers Bloc (Bloco de escritores anarquistas), também em Montreal.

Artistas anarquistas estão especialmente conscientes das conexões entre a autoexpressão criativa, o poder das artes de agitar a mente das pessoas e o trabalhar pela Revolução Social.

Todo poder à imaginação.

Norman Nawrocki é comediante, educador sexual, artista de cabaré, músico, autor, ator, produtor e compositor baseado em Montreal. Seu mais novo livro é o Red Squared Montreal (Black Rose Books, 2023). normannawrocki.com

Tradução > Alma

agência de notícias anarquistas-ana

Quietude na sala
Apenas rompida
Pelo perfume da rosa.

Ignez Hokumura

[Canadá] Malcolm Archibald: 50 anos de Black Cat Press

Nesta entrevista, o fundador da editora de Edmonton rememora seu legado

por Sean Patterson

Nas últimas cinco décadas, a Black Cat Press (BCP), em Edmonton, Canadá, tem servido como um centro local para a comunidade radical da cidade e como uma importante editora de material anarquista. Ao longo dos anos, a BCP produziu muitos títulos notáveis, incluindo as primeiras traduções para o inglês das obras coletadas do anarquista ucraniano Nestor Makhno em cinco volumes. Outros trabalhos de destaque da BCP incluem The Dossier of Subject No. 1218 [“O Dossiê do Sujeito n. 1218”, em tradução livre], as memórias traduzidas do anarquista búlgaro Alexander Nakov; The Russian Anarchist Movement in North America [“O Movimento Anarquista Russo na América do Norte”], de Lazar Lipotkin, um manuscrito inédito mantido no Instituto Internacional de História Social de Amsterdã; e Kronstadt Diary [“Diário de Kronstadt”], uma seleção dos registros originais do diário que Alexander Berkman escreveu em 1921.

Entre reimpressões de obras clássicas de autores como Kropotkin, Bakunin e William Morris, a BCP também destacou o trabalho de pesquisadores anarquistas de todo o mundo, incluindo Kropotkin and Canada [“Kropotkin e o Canadá”], de Alexey Ivanov, Anarcho-Syndicalism in the 20th Century [“Anarcossindicalismo no Século XX”], de Vadim Damier, The Tyranny of Theory [“A Tirania da Teoria”], de Ronald Tabor, e a obra Atamansha: The Story of Maria Nikiforova, the Anarchist Joan of Arc [“Atamansha: A História de Maria Nikiforova, a Joana D’Arc Anarquista”], do próprio Archibald.

Infelizmente, a Black Cat Press fechou suas portas em 2022, vítima econômica da pandemia de Covid. Quaisquer esperanças futuras de reviver a editora foram posteriormente destruídas na esteira de uma segunda tragédia. Em 26 de junho de 2024, um incêndio doméstico criminoso durante a madrugada destruiu os equipamentos e o estoque restantes da BCP. A perda da BCP é dolorosa não apenas localmente, em Edmonton, mas nacionalmente como uma das poucas editoras anarquistas do Canadá. Esperamos que o compartilhamento da história de cinco décadas da BCP inspire outras pessoas a seguir o legado da BCP e a tradição mais ampla de pequenas editoras anarquistas.

Neste mês, o fundador da BCP Malcolm Archibald sentou-se com a Freedom News para refletir sobre toda uma vida de publicação e sua jornada pessoal pelo anarquismo através dos anos.

Você está envolvido com a comunidade anarquista há muitos anos. Pode nos contar um pouco sobre sua formação e como começou a se interessar pelo anarquismo?

Tendo crescido em Halifax, Nova Escócia, durante a Guerra Fria, certamente não tive contato com o anarquismo. Minha família também não tinha nenhuma predileção por políticas de esquerda. O único livro sobre socialismo na biblioteca pública era History of Socialist Thought, de G. D. H. Cole, que eu devorava. Em 1958, aos 15 anos, participei de uma convenção provincial da CCF (Cooperative Commonwealth Federation – Federação Cooperativa da Comunidade de Nações do Reino Unido) como delegado jovem. A CCF na Nova Escócia era um partido proletário com forte base nos distritos de mineração de carvão. Depois disso, a política de esquerda me pegou de jeito.

Interessei-me pelo anarquismo ao ler livros sobre a Guerra Civil Espanhola. O primeiro anarquista de verdade que conheci foi Murray Bookchin, numa conferência em Ann Arbor em 1969. Bookchin entendeu que muitos estudantes radicais eram anarquistas na prática, mesmo que se autodenominassem marxistas, por isso enfatizou os elementos libertários de Marx em sua propaganda.

Com quais organizações/grupos anarquistas você se envolveu ao longo dos anos?

Como pós-graduando na Universidade de Illinois em Champaign-Urbana, fiz parte de jornais clandestinos, incluindo um tabloide anarquista, The Walrus [“A Morsa”]. Mais tarde, ajudei a fundar uma revista anarquista em Edmonton chamada News from Nowhere [“Notícias de Lugar Nenhum”] (impressa pela Black Cat Press). Em Edmonton, nos anos 70, tínhamos uma filial da Social-Revolutionary Anarchist Federation (“Federação Anarquista Social-Revolucionária” – SRAF), mas a maior parte da atividade anarquista estava centrada na IWW, na Black Cat Press e na Erewhon Books. Os anarquistas também estavam envolvidos nos jornais Poundmaker (“Trapeiro”) (com circulação de 19.000 exemplares!) e Prairie Star (“Estrela das Pradarias”). Em 1979, foi criada a North American Anarchist Communist Federation (“Federação Anarquista Comunista Norte-Americana” – NAACF, mais tarde simplificada para ACF), e eu participei ativamente de duas de suas filiais por vários anos, mas não consegui fortalecer muito a organização em Edmonton.

Quando você começou a Black Cat Press e como ela evoluiu ao longo do tempo? Quais são alguns momentos importantes da história da editora que você gostaria de compartilhar com os nossos leitores?

A Black Cat Press começou quando comprei uma impressora offset e uma câmera de cópia em 1972. O proprietário anterior havia tentado ganhar a vida com esse equipamento e acabou sendo internado em um hospício, o que não foi nada auspicioso. A BCP tornou-se uma “gráfica do movimento” em Edmonton, usada por quase todos os grupos e causas de esquerda. Em 1979, a BCP se tornou a gráfica não oficial da ACF e imprimiu vários panfletos para essa organização.

De 1989 a 2001, a BCP dividiu espaço com o Boyle McCauley News, o jornal mensal do centro de Edmonton, com uma equipe totalmente voluntária. O jornal geralmente tentava publicar notícias positivas sobre a comunidade, mas uma exceção era a questão da prostituição juvenil, uma praga até que começamos a publicar histórias sobre ela e as autoridades finalmente tomaram providências.

Em 1994, a gráfica do governo onde eu trabalhava foi fechada e a BCP começou a operar em tempo integral com três sócios que haviam sido demitidos na mesma época. Nossa base de clientes incluía agências sociais próximas à nossa loja no centro da cidade de Edmonton, além de vários sindicatos. Em 2003, comprei uma máquina de encadernação perfeita e pude começar a imprimir livros. Nosso primeiro livro foi A Moral Anarquista, de Kropotkin, um eterno favorito. Por fim, foram impressos cerca de 30 títulos, que foram distribuídos pela AK Press, livrarias independentes e mesas de literatura em feiras de livros anarquistas.

Como você começou a traduzir textos radicais e anarquistas do russo?

Estudei russo na universidade e depois fiz cursos noturnos de alemão, francês, ucraniano e polonês. Fiquei sabendo de Nestor Makhno pela primeira vez na década de 1960 por meio de um livro do historiador britânico David Footman. Quando cheguei a Edmonton, descobri que a Biblioteca da Universidade de Alberta tinha quatro livros de Nestor Makhno, raridades bibliográficas.

Fico constantemente surpreso com a riqueza da tradição anarquista no Império Russo e na URSS. Por muitos anos, The Russian Anarchists (“Os Anarquistas Russos”), de Paul Avrich, era o único trabalho de pesquisa sobre o assunto, mas recentemente surgiram duas histórias na Rússia e uma na Ucrânia. É uma medida da profundidade do movimento o fato de essas histórias serem praticamente independentes umas das outras e quase não darem atenção a Avrich.

Meus primeiros trabalhos de tradução do russo foram artigos de física, que não dão muito espaço para a originalidade. Ao traduzir textos históricos, a maior parte do esforço não vai para a tradução propriamente dita, mas para a pesquisa de nomes de lugares, pessoas etc. e para anotações. Tento fornecer ao leitor mapas, gráficos e índices que facilitam a compreensão do texto.

Embora eu geralmente não trabalhe com textos literários, traduzi alguns poemas de Nestor Makhno. Ele escreveu um poema de nome The Summons (“Os Chamados”) enquanto estava na prisão em 1912. Uma busca em sua cela em 1914 descobriu esse poema, o que o deixou numa cela de castigo por uma semana. Enquanto estava nessa cela, ele compôs outro poema, que escreveu assim que foi autorizado a voltar para sua cela regular. Mas outra pesquisa descobriu o segundo poema (mais sanguinário que o primeiro), e ele acabou na cela de castigo novamente. Portanto, não era fácil ser um poeta anarquista!

Algumas de suas principais contribuições para os estudos anarquistas são as traduções de fontes primárias russas e ucranianas. Em particular, você traduziu e publicou a primeira edição em inglês dos três volumes das memórias de Nestor Makhno. Poderia descrever esse projeto de tradução?

A biblioteca da Universidade de Alberta possui cópias das memórias de Makhno, incluindo as versões em francês e russo do primeiro volume. Comecei a traduzir essas memórias já em 1979, quando a BCP publicou um panfleto intitulado My Visit to the Kremlin (“Minha visita ao Kremlin”), uma tradução de dois capítulos do segundo volume. Esse panfleto acabou sendo publicado em muitos outros idiomas.

A maior parte do trabalho envolvido na preparação das traduções das obras de Makhno foi a pesquisa sobre as pessoas e os lugares que ele menciona. Foi feito um esforço para fornecer material suficiente na forma de notas e mapas para tornar a narrativa inteligível para o leitor.

A Black Cat Press recentemente fechou suas portas após cinquenta anos de atividade. O ambiente econômico para a publicação está cada vez mais difícil em geral, e especialmente para as pequenas editoras anarquistas. Qual é a sua opinião sobre as perspectivas atuais da publicação anarquista e que mudanças podem ter que ser feitas para manter sua viabilidade a longo prazo?

A maioria das editoras anarquistas têm que encomendar uma tiragem substancial e depois esperar vender os livros em um período (esperamos) não muito longo. A BCP estava à frente de seu tempo ao usar um modelo de impressão sob demanda em que os estoques eram mantidos baixos para que o capital não ficasse preso a um estoque que não estava em movimento. O braço editorial da BCP não foi muito afetado pela pandemia; em vez disso, foi a impressão de trabalhos que sofreu, forçando o fechamento.

Como você viu o anarquismo (especialmente no Canadá) mudar ao longo das décadas? O Canadá raramente viu um movimento anarquista organizado como alguns grupos na Europa ou nos Estados Unidos. Por que você acha que isso acontece, e você vê alguma esperança de um movimento canadense organizado no futuro?

Quando me tornei ativo no movimento anarquista no Canadá, na década de 1970, os anarquistas eram todos pobres, tentando sobreviver com empregos de salário mínimo. A geração seguinte estava em situação muito melhor e tinha muito dinheiro para gastar. Agora, a geração atual voltou a ser pobre de novo, sem os recursos para causar impacto. Mas acho que as perspectivas para o futuro são boas porque (a) a velha esquerda (comunistas, trotskistas, ou seja, a brigada da sopa de letrinhas) está intelectual e moralmente falida e (b) o New Democratic Party (“Novo Partido Democrata”) (em Alberta, pelo menos) é ambientalmente irresponsável. Isso deixa muito espaço na esquerda para que os anarquistas estabeleçam seu território e atraiam os jovens para o movimento.

Agradecimentos a Kandis Friesen por compartilhar materiais usados nesta entrevista que foram obtidos previamente.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2024/10/31/interview-malcolm-archibald-of-black-cat-press/

Tradução > anarcademia

agência de notícias anarquistas-ana

Uma árvore nua
aponta o céu. Numa ponta
brota um fruto. A lua?

Guilherme de Almeida

[França] Como alguém pode viver livremente à sombra de uma prisão?

Existem certos momentos, como hoje na Síria, em que só podemos nos alegrar. Ver as estátuas de Bashar e seus parentes saqueadas, as multidões nas ruas, as portas das prisões abertas. Esses momentos nos lembram que todos os regimes, até os mais autoritários, podem cair.

Se há uma constante em revoluções, é a libertação de prisioneiros. Símbolo de poder, de quem pode decidir a liberdade de seus súditos, a prisão é um dos pontos sobre onde repousa a submissão ao Estado e a aceitação das normas sociais.

Uma das piores prisões do mundo, Sednaya, aparentemente foi completamente esvaziada de seus prisioneiros, permitindo que as pessoas revissem seus parentes dos quais não tinham notícias há muitos anos ou até mesmo que os encontrassem pela primeira vez. Mas não nos enganemos, enquanto os “rebeldes” esvaziam as prisões do regime caído, aquelas sob seu controle já estão cheias de opositores.

Revolucionários já caíram antes na armadilha de apoiar organizações pró-Estado, a favor do terceiro-mundismo, contra o imperialismo, seduzidos pelo comunalismo curdo ou o romantismo da guerrilha. Infelizmente, trata-se muito mais de uma aliança religiosa, desejando dar direção à “vontade do povo”, do que dos insurgentes na Síria que conseguiram derrubar o regime. Estruturas como essas, que utilizam práticas militares, nunca serão desejáveis. Queremos carregar uma solidariedade antiautoritária e sem fronteiras para com os revoltados na Síria, porque nossas esperanças na revolução síria vão além da perpetuação de uma sociedade mantida pelas armas, submetida a um poder celeste e terreno, que exige que as prisões existam.

Enquanto celebramos a libertação dos sírios das algemas do clã Assad, só podemos esperar que o que estava em germinação durante as insurreições de 2011 possa ir ainda mais longe, rumo a uma autorganização de todas as esferas da vida cotidiana, ataque e total questionamento ao poder e a propriedade.

Tanto aqui como lá, muito ainda existe para ser destruído. Prisões, Religiões, Estados.

Felicidade ao reencontro dos libertados, força àqueles aprisionados em todo o mundo!

Anarquistas, confiantes e cautelosos,
França, 9 de dezembro de 2024

Tradução > Alma

agência de notícias anarquistas-ana

Flor esta
De pura sensação
Floresta.

Kleber Costa

Um chamado à arte revolucionária! Solidariedade com Rojava

Por Internationalist Commune | 18 de dezembro de 2024

A Revolução de Rojava é também uma Revolução cultural. Se uma sociedade perde a sua cultura, perde a sua identidade. A cultura exprime os valores, a história e a linguagem da sociedade. Para manter a sociedade viva, ela precisa representar e expressar a sua própria cultura, e é por isso que um dos ataques mais profundos do sistema é o ataque à cultura.

A Revolução de Rojava abriu caminho para um renascimento cultural do povo. Desde o início da Revolução, floresceram milhares de canções, poemas e desenhos que exprimem os desejos e as esperanças do povo. As expressões e os desenvolvimentos culturais em Rojava tornaram-se uma inspiração para todo o Oriente Médio e não só.

Preservar e divulgar a cultura dos povos que resistem é um dever e uma responsabilidade de todos os artistas do mundo. Em todas as revoluções e resistências, a arte sempre desempenhou um papel decisivo. Na resistência contra os ataques da Turquia que visam liquidar a Revolução de Rojava, este papel é uma tarefa de todos nós. Temos de criar cultura e arte e transformá-las na voz e nas cores da resistência.

Por isso, fazemos um chamado à todos os artistas para que criem arte revolucionária, como grafites, pinturas, música, cartazes ilustrados, esculturas, etc.

Envie o seu trabalho artístico para: internationalistcommune@riseup.net

agência de notícias anarquistas-ana

Bailando ao vento
margaridas nos contemplam
e se tornam haicais.

Franciela Silva

[Reino Unido] Anarquia é amor – Carne Ross

Eu costumava pensar que o anarquismo era  uma filosofia política. Eu estava errado. É muito, muito mais que isso.

Por filosofia política me refiro a uma forma de pensar sobre a política, as instituições e a tomada de decisões. Como as pessoas decidem assuntos entre si, teorias de governo – ou de autogoverno – ou a abolição de toda hierarquia. Eu gostava de resumir o anarquismo em algumas frases concisas como “o anarquismo significa ninguém ter poder sobre ninguém”.

Eu não estava errado. O anarquismo se trata de todas essas coisas. É uma filosofia política. Trata-se de como as pessoas tomam decisões conjuntamente e gerem seus assuntos de forma coletiva. Mas eu acreditava que esta era sua filosofia em sua totalidade, que não havia nada além disso. Que era uma forma de pensar separada de nossas realidades interiores. Que era uma filosofia externa, acima de tudo sobre como nos comportamentos uns em relação aos outros.

Essas ideias levam longe na análise da situação política e econômica atual e na elaboração de como reformá-la e substituí-la. No lugar de um sistema de governo de cima para baixo, precisamos de um sistema em que as decisões sejam tomadas pela massa, incluindo a todos os interessados. No lugar de um sistema econômico controlado por poucos com enorme riqueza concentrada, precisamos de um em que as partes sejam iguais, tanto em termos de riqueza quanto em termos de agência, no qual todos possam opinar sobre os assuntos econômicos que lhes afetam, seja no local de trabalho ou na sociedade em geral. O indivíduo e a sociedade estão no centro desta ideia. Os indivíduos devem ser livres para atuar como queiram, mas sempre tendo em conta as necessidades dos demais: uma negociação justa e igualitária (esta não é, é claro, a forma mais puramente libertária de anarquismo, e sim o socialismo libertário).

Mas quem é esse indivíduo e como pensa? Os anarquistas são céticos em relação à religião formal, já que a consideram outra forma de controle social em que se nega a capacidade de ação do indivíduo em favor de uma ortodoxia rígida imposta hierarquicamente, na maioria das vezes por homens. A afirmação de que Deus existe é vista como um véu, utilizado para ocultar muitos males e injustiças humanas, permitido como bálsamo e explicação universais. O anarquismo rechaça a religião: nem deuses, nem amos.

Por isso eu desconfiava de quem às vezes se chamava “anarquista espiritual”. O que é o espiritualismo se não outro tipo de religião que nos confunde e nos aliena de nossas realidades terrenas? Eu via o que se pode chamar de espiritualismo como algo narcisista e egoísta, centrado na alma individual e em suas necessidades e expressões. Alguns que ouvi discutindo o espiritualismo se retiraram do campo de batalha da sociedade rumo às drogas e outras formas de refúgio, tanto físico quanto mental. A batalha está em nossas cidades e ruas, aqui e agora, argumentei com reticência.

Mas esses mesmos espiritualistas me diziam que não era possível haver uma revolução de toda a sociedade sem revolucionar a forma como os indivíduos pensam dentro dela. Não se podia esperar que a sociedade adotasse práticas de igualdade, respeito e inclusão a menos que nós mesmos nos transformássemos para além do racionalismo e do pensamento analítico que a tudo vê como estrutura ou transação. O interior também precisa ser reformado. Não pode haver revolução em um âmbito sem revolução no outro.

Tenho pensado que pode ser que tenham razão.

No coração de todo anarquismo está a maneira como tratamos os outros. O anarquismo exige que esse trato seja sempre respeitoso e igualitário: ninguém pode coagir o outro, seja por meios abertos ou sutis. O meu tipo de anarquismo exige que tratemos aos demais como eles querem, não como nós queremos (o que é, por certo, uma subversão explícita da chamada ‘regra de ouro’, segundo a qual tratamos os demais como gostaríamos que os demais tratassem a nós. Em vez disso, devemos atender ao que eles dizem que querem, não ao que nós imaginamos que eles querem). Devemos renunciar a toda noção de dominação, de influência e de conseguir que os outros façam o que queremos. Devemos renunciar a todo poder.

Uma vez trabalhei para o governo. O poder me entusiasmava, eu estava convencido que era parte de uma elite que entendia as necessidades da sociedade – no meu caso, na política exterior e na diplomacia – melhor do que a sociedade entendia a si mesma. Isso nutriu meu ego e estruturou a minha vida em torno da carreira e do status. Tem sido um duro caminho abandonar esses pilares do sentido que dei ao valor e ao “eu”. Se não tenho poder, o que sou? Se não posso dizer aos outros o que eles têm que fazer, que valor têm minhas ideias e meus desejos? Se eu sou só eu mesmo, o que sou?

Descobri que preciso acreditar em algo. Não sei ao certo o nome disso. Mas suspeito que meus amigos espiritualistas chamariam isso de necessidade espiritual. É a crença de que existem valores e significados fora de nós, mas que animam e inspiram nossas realidades interiores. As religiões poderiam chamar isso de deus, expressando-o em litanias. Mas a minha litania é o anarquismo, e não estou disposto a chamar de deus esse espírito guia. É algo mais terreno, mais humano.

Identifico-o observando o núcleo da prática anarquista: a interação com os demais. Como tratamos os outros. No anarquismo, essa interação deve estar guiada pela consideração e pelo cuidado, a equiparação das necessidades dos outros com as nossas. Pelo menos: na sua versão mais extrema, trata-se do desaparecimento do ego. Lao Tzu fala disso no Dao te Ching. É o poder que se tem ao renunciar a todo poder. Ele chegou a essa conclusão há milhares de anos. É uma harmonia entre como vemos e tratamos os outros e como tratamos a nós mesmos. Existe uma palavra para esta prática: amor.

Sem esse núcleo espiritual, o anarquismo não tem sentido. Julgada nos termos da cultura capitalista atual, essa prática não é necessariamente mais eficiente ou produtiva: não produz necessariamente mais bens ou faz mais dinheiro. O que consegue, de fato, é um valor infinito: a beleza dos seres humanos que vivem uns com os outros em amor, em respeito e igualdade. São coisas abstratas, inefáveis, que não podem ser medidas em euros, libras ou dólares. De fato, isso está para além da própria linguagem – daí a dificuldade de colocar isso em palavras. Isso está em um plano acima de tudo isso. E se você quiser chamar esse plano de uma dimensão espiritual, OK. O que ocorre no espírito ou na alma importa, porque também importa para a realidade exterior. Aquilo em que acreditamos no que tange a nós mesmos é intrínseco à forma como nos relacionamos com o mundo. Um não funciona sem o outro.

Carne Ross é um ex-diplomata britânico, autor de The Leaderless Revolution: How ordinary people will take power and change politics in the 21st century [“A Revolução Sem Líderes: como pessoas comuns tomarão o poder e mudarão a política no século 21”, em tradução livre] e protagonista do filme Accidental Anarchist [“Anarquista Acidental”, em tradução livre].

Fonte: https://www.dopemag.org/issue26

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No extremo vazio
do mais oco, sopro sons:
flauta de bambu.

Urhacy Faustino