Grandes protestos na Espanha sobre crise imobiliária devido ao aumento dos aluguéis, conversão de casas em apartamentos turísticos e especulação

Em 5 de abril de 2025, dezenas de milhares de pessoas se manifestaram em toda a Espanha contra a chamada “crise imobiliária”. Cerca de 150.000 pessoas participaram da manifestação em Madri, enquanto manifestações menores foram realizadas em cerca de 40 cidades.

Os manifestantes protestavam contra a especulação imobiliária. Na Espanha, a habitação tornou-se a questão social número um, com o aumento dos aluguéis, a conversão de casas em apartamentos turísticos e a especulação tornaram o aluguel inacessível para muitos.

Esta manifestação faz parte de uma onda maior de protestos por moradia na Espanha. De tempos em tempos, acontecem manifestações e protestos relacionados à moradia, como a grande manifestação em Barcelona em 23 de novembro de 2024, onde os manifestantes exigiram uma redução de 50% nos aluguéis e ameaçaram fazer greve se a situação não melhorasse.

Além disso, o movimento de ocupação tem uma longa história na Espanha. Desde 2011, grupos como a PAH (Plataforma de Afetados pela Hipoteca) ocupam prédios vazios de bancos para abrigar famílias, promovendo a ideia de moradia como um direito sobre a propriedade privada.

1/10 do estoque habitacional na Espanha foi comprado por investidores ou convertido em aluguéis turísticos, reduzindo drasticamente a oferta de moradias para os moradores. Os aluguéis na Espanha dobraram nos últimos 10 anos, de 7,2 euros por metro quadrado em 2014 para 13 euros em 2024, enquanto as rendas, especialmente dos jovens, não acompanharam esse aumento. Além disso, 1,4 milhão de famílias na Espanha gastam mais de 30% de sua renda em moradia, 200.000 a mais que há 10 anos.

A crise imobiliária levou a uma desigualdade crescente, já que apenas os mais ricos podem pagar os aluguéis em grandes cidades, como Barcelona e Madri. A conversão de casas em apartamentos turísticos agravou o problema, principalmente em destinos turísticos como Barcelona.

Em Barcelona, ​​os manifestantes do dia 5 de abril levantaram palavras de ordem como: “Nem pública nem privada, moradia autogestionada”.

agência de notícias anarquistas-ana

Soneca da tarde.
Uma brisa companheira
chega sussurrando.

Alberto Murata

[Grécia] Contra o crime capitalista estatal em Tempe | Greve Geral em 09/04

Já se passaram dois anos desde a colisão de trens em Tempe, que matou pelo menos 57 pessoas e feriu muitas outras. Desde o primeiro momento, o aparato estatal e as instituições tentaram encobrir o que está se tornando cada vez mais claro a cada dia. Não foi um acidente, mas foi um assassinato capitalista de Estado!

Por mais que tentem suprimir as vozes da raiva e do protesto para que o capital possa fazer seus negócios em paz, é ainda mais necessário resistir às políticas estatais que levam a mortes nas fronteiras, nos trilhos e no mar.

A raiva não pode ser escondida, nem pode esperar que a justiça burguesa apresente suas conclusões. A rua é a única arma que temos em nossas mãos.

Todos nós nas ruas, todos nós em greve na quarta-feira, 9 de abril.

athens.indymedia.org

agência de notícias anarquistas-ana

na barra sul do horizonte
estacionavam cúmulus
esfiapando sorvete de coco

Guimarães Rosa

[Holanda] Evento de reparo de bicicletas da Comunidade ABC

Sua bicicleta está fazendo um barulho estranho? Você só precisa de uma chave inglesa de 15 mm para apertar as rodas? Ou quer melhorar sua bicicleta? A ABC está organizando uma sessão comunitária de reparo de bicicletas no Vrankrijk na 1ª e 3ª terças-feiras do mês, das 13:00 às 17:00.

Esse evento é organizado pela ABC, a Anarchist Bike Collective. Queremos realmente construir o compartilhamento de bicicletas. Com a crescente repressão contra ativistas e manifestantes, é fundamental criarmos recursos comunitários e praticarmos a provocação não violenta.

Inspirados pelas bicicletas brancas de Provo, temos consertado e distribuído bicicletas com cadeados de combinação em Amsterdã. Portanto, se você quiser consertar sua bicicleta ou tiver ideias sobre como obter, manter e utilizar o verdadeiro compartilhamento de bicicletas, venha tomar um chá.

Vrankrijk, Spuistraat 216, Amsterdam

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Brisa matinal —
O cãozinho fecha os olhos
por alguns instantes.

Edson Kenji Iura

[Espanha] Próxima edição: “Destrua o sistema. Punk anarquista como cultura de resistência”

Uma compilação de ensaios de todo o mundo sobre como o punk anarquista influenciou e inspirou a resistência em diversas lutas. O punk e o anarquismo estão entrelaçados desde que o punk irrompeu pela primeira vez na consciência pública há cerca de 47 anos e, embora a relação seja complicada (e não onipresente), o anarquismo tem sido identificado como a “principal companhia política” do punk. No entanto, a pesquisa aprofundada sobre as conexões entre o anarquismo e o punk tem sido escassa: ou é dada como certa, ou fica escondida no fundo de outros temas de análise, ou é totalmente ignorada. Vamos mudar essa situação com a publicação de quatro livros sobre diversos aspectos da relação entre o punk e o anarquismo, este é o primeiro!

As cenas punk anarquistas deste primeiro livro abrangem África do Sul, Cuba, Venezuela, Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, País Basco, Chile, República Tcheca, Croácia, Grécia, Reino Unido, Estados Unidos, Indonésia, Japão e China.

“Destrua o sistema! Punk anarquista como cultura de resistência”, 416 páginas. 19 cm x 14 cm.

Edição de Jim Donaghey, Caroline Kaltefleiter e Will Boisseau. Capa de Guy Denning.

Tradução da edição da Active Distribution, a quem agradecemos a confiança para editá-los em espanhol.

Up the Punks Rats!

editorialimperdible.com

Tradução > Liberto

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todos aos abrigos:
a avó de novo
com o mata-moscas

Elizabeth St. Jacques

[Grécia] Solidariedade internacional com o companheiro Salvatore Vespertino Ghespe

Em 15 de fevereiro, o companheiro anarquista Salvatore Vespertino (Ghespe), que estava foragido há dois anos, foi preso em Madri (Espanha). De acordo com a mídia, sua prisão foi resultado da cooperação entre as autoridades de vários países, incluindo a Grécia.

O companheiro foi transferido para a Itália em 4 de março, inicialmente para a prisão de Rebibbia, em Roma, e atualmente está detido na prisão de Spoleto. Ele foi condenado a 8 anos de prisão sob a acusação de posse, fabricação e transporte de um dispositivo explosivo, lesões corporais graves e danos no contexto da operação Pânico de 2017 em Florença. O dispositivo explodiu nas mãos de um policial de eliminação de bombas que nem sequer seguiu os protocolos de segurança e perdeu um braço e um olho. O companheiro foi condenado com base na única evidência de um teste de DNA que foi realizado de forma grosseira e não pode ser repetido. Afinal de contas, não é a primeira vez que misturas de DNA são usadas como prova para incriminar militantes pelas autoridades, enquanto métodos como o mencionado acima estão sendo contestados pela própria ciência. Análises que são realizadas nos laboratórios dos policiais e da autoridade policial em questão, com tudo o que isso implica em termos de confiabilidade dos resultados, não dando aos que estão sendo processados a oportunidade de um reexame.

De nossa parte, estamos em solidariedade inegociável com o companheiro que está preso nas celas da democracia. Por mais que o poder mobilize seus diversos mecanismos para prender e isolar os companheiros, para neutralizar e reprimir as lutas, para semear o medo, sempre nos oporemos. Enquanto os Estados se armarem com novos meios de repressão, fortalecerem os acordos transnacionais para proteger o capital e sua própria existência, enquanto tentarem eliminar qualquer vestígio de resistência dos indivíduos em luta, devemos mostrar nossa solidariedade internacionalista e não esquecer nenhum prisioneiro da guerra social e de classes. Da Itália das repetidas operações repressivas contra ocupações e companheiros e companheiras anarquistas à Alemanha da constante caça às bruxas de antifascistas e ex-membros de organizações armadas, sempre estaremos ao lado daqueles que lutam, se rebelam e se revoltam.

DA GRÉCIA À ITÁLIA, UMA LUTA MULTIFACETATA PARA DESTRUIR TODAS AS FORMAS DE PODER
SOLIDARIEDADE AO COMPANHEIRO ANARQUISTA GHESPE
FOGO EM TODAS AS PRISÕES E CELAS
ATÉ A LIBERTAÇÃO TOTAL

Assembleia de solidariedade com os prisioneiros, militantes presos e perseguidos

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/04/03/italia-o-companheiro-ghespe-foi-transferido-para-a-prisao-de-spoleto/

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Até do tô-dango
os bolinhos se encolhem –
Vento de outono.

Morikawa Kyoriku

[México] Maio Anarquista. Rodada pela memória anárquica.

A 114 anos da Insurreição anarquista em Tecate, Tijuana e Mexicali, território ocupado pelo estado mexicano.

Por Mauricio Morales e os companheiros insurretos de Chicago.

A memória… como um motor que impulsiona a ação defensora, como parte de nossa prática política permanente que se nutre de nossa história“… Francisco Solar – preso anarquista no estado $hileno.

A história não é um produto de museu nem tampouco a memória em um baú no qual olhar com nostalgia ansiando um passado ou futuro melhor.

A memória e a história especificamente a que nos atravessa como anarquistas, são deflagradores que impulsionam em seguida de um posicionamento em tensão contra o poder e toda forma que este adquira.

Mesmo posicionamento que iniciaram nossos companheiros presos, foragidos, assassinados, acidentados, exilados, desaparecidos, caminho insurreto que nunca se acaba porque a anarquia não é um ponto de chegada nem um paraíso terreno utópico cristão. A anarquia é tensão contra um estado das coisas.

A anarquia não morre na boca prevalece nas mãos ativas” – Mauricio Morales.

* Em breve mais infos.

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Ah! Oh! É tudo
O que se pode dizer —
Monte Yoshino em flor.

Yasuhara Teishitsu

“Estamos aqui! Somos queer! Somos anarquistas”, de Edward Avery-Natale

“Nos protestos contra o G20 em Pittsburgh, em 2009, um grito popular entoava a frase: “We’re here! We’re queer! We’re anarchists, we’ll fuck you up!” [Estamos aqui! Somos queer! Somos anarquistas, vamos acabar com vocês!”]. No entanto, é quase impossível que todos os integrantes do black bloc que entoaram esse grito se identificassem como queer em sua vida cotidiana. Neste artigo, defendo que a autoapresentação dos participantes do black bloc, especialmente quanto ao mascaramento do rosto com uma bandana preta e ao uso da própria cor preta, permite a destruição de uma identificação anterior e a recriação temporária de uma nova identificação. Enfatizo as teorias desenvolvidas por Deleuze & Guattari e Giorgio Agamben. Também analiso uma zine produzida pelos organizadores da resistência ao G20 em Pittsburgh para mostrar que minha interpretação da subjetividade black bloc se espelha nas reivindicações dos participantes do black bloc.”

>> O texto completo pode ser lido aqui:

https://transanarquismo.noblogs.org/files/2025/03/Edward-Avery-Natale-Estamos-Aqui-Somos-Queer-Somos-Anarquistas.pdf

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No telhado ao lado,
Sinfonia de pardais —
Ah… chuva vernal!

Teruko Oda

Sobre o Movimento Anarquista Ácrata

“De modo genérico, o anarquismo ácrata se caracterizaria por um investimento teórico em uma concepção de retomada firme da coerência com o caráter anti hierárquico do campo de pensamento anarquista, ante à emergência de visões de desnaturamento deste pensamento, que o identificam seja à direita seja à esquerda do espectro dos projetos políticos da modernidade (calcados no princípio hierárquico) – daí, a opção pela redundância da denominação, sobrepondo acracia a anarquia, como modo de demarcar fortemente o caráter anti hierárquico desta concepção; bem como se caracteriza pela opção por uma visão transformacionista do processo de mudança social – em detrimento das visões insurrecionistas/revolucionárias;reformistas/institucionalizantes;e/ouescapistas/heterotópicas -, ante à compreensão de que as macro tendências sistêmicas mundiais atualmente dominantes parecem apontar mais para a configuração de um processo progressivo de arruinamento globalizado do sistema e da própria “civilização”, do que para uma sonhada sublevação consciente e massivamente instituinte de uma nova sociedade, por parte da/os de baixo. Seu símbolo será o arroba invertido – “espelhado” – ladeado pelos dois traços verticais do A de anarquismo, sugerindo assim uma sobreposição de duas letras a’s (como arroba e como A), que remetem às iniciais do termo, além de, no conjunto, formar a silhueta do já tradicional símbolo do movimento libertário (o popular “a na bola”), bem como de remeter (pelo arroba invertido) à ideia de uma rebelião anti sistema que se vale de recursos tecnológicos para fazer a sua luta.     

A aludida retomada firme da coerência com o caráter anti hierárquico do campo anarquista traduz-se como uma compreensão de que as formas e dinâmicas sociais organizativas ácratas, em suas expressões coerentes, caracterizam-se não por formatos estruturais traduzíveis pela geometria euclidiana e processos funcionais associáveis aos de fluxos mecânicos contínuos, mas sim, por expressões estruturais ao modo de unidades fractais multifacetadas e por funcionamentos do tipo reações em cadeia multidirecionais, compondo-se em quadros de conjuntos orgânicos desenvolvidos como recifes de corais (que se desenvolve por justaposição). Isto significa opor-se a paradigmas reprodutores de blocos de “UM”, por inspirações criadoras de tessituras de “uns”, concretizando-se em contextos sociais organizacionais ao modo de tapeçarias multicoloridas inteligíveis apenas pela afinidade entre seus motivos estéticos, do que por uma definível estrutura linear qualquer do conjunto. Entenda-se, pois, por isto, um avesso (e uma aversão) teórico e prático radical das concepções de “poder popular” – paradigma reprodutor de bloco de UM, à esquerda (anarquia não tem nada a ver com “poder”, mas com potência), e de “direito da propriedade” – paradigma reprodutor de bloco de UM, à direita (anarquia não tem nada a ver com “propriedade”, mas com posse mutável), presentes atualmente no debate público sobre concepções políticas pretensamente libertárias.

A aludida opção por uma visão “transformacionista” do processo de mudança social, significa que, ante um provável arruinamento globalizado do sistema e da própria civilização e tomando como referência para a visualização de possíveis cenários pós colapso momentos históricos posteriores às quedas de antigas civilizações tais como a do Império Romano, pode-se deduzir que em períodos deste tipo há esperanças apesar do pessimismo, visto que, desintegradas as estruturas que sustentavam a antiga “ordem”, abre-se no palco mundial do drama da sobrevivência da espécie uma fenda de possibilidades de (re)invenção de modos de vida coletiva, estabelecendo-se assim a possibilidade de uma luta mais plural entre modos de vida diversos pela sua expansão, e aqueles que se anteciparem neste embate, constituindo-se embrionariamente já dentro da própria “ordem” em declínio, e lutando para se expandirem em seu interior mesmo – e contra ela – pela constituição de fenômenos de “modas” múltiplas cuja solução de continuidade se dá pela via de um “espírito comum”, tendendo à criação de uma rede cultural desterritorializada, constituída por agregações via afinidades eletivas de unidades funcionais diversas, poderão contribuir assim para um projeto de emergência de uma “etnia” multi étnica mundializada, com vocação para exercer uma ação de transformação contagiosa no cenário do fazer humano coletivo pré e pós “evento”.  

O comunitarismo ácrata, forma de ação tática consequente a ser desenvolvida pelo campo anarquista ácrata, se caracterizaria como um projeto de criação de redes de individualidades e grupos movidas por um espírito comum de busca de construção de conhecimentos e práticas de realização de autonomias relativas máximas possíveis, em relação (e em contraposição) às forças dominantes do mercado e do Estado, e em todos os aspectos da vida – especialmente nos campos das necessidades mais fundamentais, tais como alimentação, saúde, educação, transporte, segurança, comunicação -, pela via da apropriação e desenvolvimento de tecnologias e técnicas de fácil acesso e baixo custo, a serem pesquisadas, custeadas e propagadas de forma coletiva, através das redes comunitárias ácratas.

Naturalmente, o modo de organização grupal das redes comunitárias ácratas deverá ser horizontal, auto gestionário e assembleísta, e sua ética de relações interpessoais deverá se pautar pela valorização máxima do respeito às especificidades e singularidades individuais e coletivas. O arroba invertido contido no símbolo do anarquismo ácrata pode ser visto também como uma alusão às iniciais da denominação desta sua tática consequente (ou seja, as letras “c”, de comunitarismo – o semi círculo do arroba -, e “a”, de ácrata – o núcleo do arroba -; sendo que invertidas – “espelhadas”, como sinal de sua natureza de rebelião).

Um instrumento fundamental para fundar, promover e expandir redes comunitárias ácratas, seriam plataformas de comunicações informacionais. Estas seriam sistemas de comunicação compostos por várias mídias associadas, tais como sites, grupos de redes sociais por perfis e grupos de redes por contatos telefônicos.”

(Trecho do “Manifesto Anarquista Ácrata”, de autoria de Vantiê Clínio Carvalho de Oliveira)

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um gato no telhado
para os pardais novos
que alvoroço!

Rogério Martins

[Espanha] Debate libertário: uma necessidade atual

Por Enrique Gómez Arnas

Talvez, apenas talvez, esteja ocorrendo um renascimento do movimento libertário na Espanha e no mundo. A democracia ocidental clássica, liberal, modelo pós-Segunda Guerra Mundial em grande parte do mundo, está dando sinais de esgotamento. Diante dessa situação, surgiram novos autoproclamados “libertários”, neoliberais de corte fascista, com características muito particulares que nada têm a ver com o verdadeiro libertarianismo anarquista, embora confundam parte da população. O verdadeiro libertarianismo é anarquista e anti-hierárquico; esses “libertários”, no entanto, querem se livrar da parte do Estado que os incomoda, odeiam impostos e regulamentações, assim como os benefícios sociais que eles geram.

É a lei da selva, o salve-se quem puder, mas com regras de mercado (que também não respeitam quando não lhes interessa: veja-se o intervencionismo governamental que praticam ou a recuperação econômica, após as crises capitalistas, com dinheiro público, que não desdenham).

O descontentamento social com a democracia burguesa ocorre quando a população percebe que, independentemente das cores dos governos, seus problemas cotidianos permanecem os mesmos ou pioram a cada legislatura.

Na Espanha, mesmo com a chegada da República em sua segunda edição, o movimento anarquista e anarcossindicalista sabia que esse fato político notável não traria mudanças revolucionárias. O militante anarquista tinha claro (vejam-se as afirmações de alguém tão pragmático como Ramón Acín) que a luta pela emancipação da Humanidade seria tão necessária quanto em épocas ainda mais autoritárias.

A mudança de posição ideológica em relação ao voto por parte da CNT em 1936, para evitar que a direita voltasse a vencer e para conseguir a anistia, foi determinante para o triunfo da Frente Popular. Os anarquistas pegaram em armas após julho daquele fatídico ano eleitoral, não tanto para defender uma república que havia decepcionado suas expectativas, mas para alcançar a revolução: era o espírito do 19 de julho.

A vida é o bem supremo, e melhorá-la é o objetivo de qualquer verdadeiro libertário, o que levou a grandes divergências com os frentepopulistas.

O Conselho de Aragão, assim como muitos outros experimentos coletivistas por toda a Espanha, mostrou ao mundo as possibilidades reais oferecidas pela aplicação e prática do assembleísmo e da autogestão. Seu próprio sucesso acabou com esses experimentos; alcançar um bom superávit produtivo para o “esforço de guerra”, respondendo ainda ao princípio de “a cada qual segundo suas necessidades e de cada um segundo suas possibilidades”, era uma equação perigosa tanto para o comunismo stalinista quanto para a democracia burguesa. Assim, decidiu-se acabar com as coletivizações, mesmo que isso significasse desviar forças do tão propalado “esforço de guerra”. Portanto, já durante a guerra, o movimento libertário viveu a repressão das próprias fileiras republicanas.

Uma organização férrea e hierarquizada controlaria, após a guerra, os esforços de resistência contra o franquismo e o fascismo europeu. Muitos anarquistas lutaram movidos por seu antifascismo nas fileiras da resistência, controladas principalmente, como digo, pelo Partido Comunista.

Quando surgiu a política de “reconciliação nacional”, defendida pelo PCE, alguns se desmobilizaram da luta armada, mas foram os anarquistas, a partir desse momento, que decidiram continuar na luta, desta vez na guerrilha urbana. Ou seja, o movimento libertário, apesar da maior facilidade de dispersão ao fugir e rejeitar estruturas hierarquizadas que propõem maior controle, continuava vivo e atuante, sendo responsável por muitas das tentativas de acabar com a vida do ditador.

Já no declínio do franquismo, as forças opositoras concordaram em grande parte com as do regime em criar uma democracia burguesa convencional e substituir o franquismo decadente, de modo que os movimentos revolucionários autênticos eram o inimigo a ser derrotado.

Com a chegada da Transição, tudo o que não fosse política parlamentar regulada e constitucional deveria ser eliminado. A maioria dos partidos revolucionários antifranquistas foi desaparecendo, enquanto muitos de seus membros e líderes passaram a integrar os quadros dos partidos institucionais… e também dos sindicatos fortalecidos pelos poderes públicos. Assim, surgiu o dilema de aceitar ou combater aqueles que não se conformariam com a maquiagem que a nova democracia parlamentar representava para a máquina exploradora do Estado.

Todos, como em 1937, concordaram em asfixiar economicamente, através da não devolução aos legítimos proprietários do patrimônio sindical anarcossindicalista, negando subsídios estatais (em clara discriminação frente aos sindicatos institucionalmente aceitos) e, além disso, realizando claras montagens policiais como o caso Scala e outros escândalos.

O espírito crítico, que só poderia permanecer entre aqueles que queriam não apenas uma reforma, mas ir além da frustrada ruptura, também serviu aos interesses desagregadores com uma concepção estreita da “pureza” ideológica que levou ao Congresso da divisão da CNT.

Mas o verdadeiro libertarianismo nunca esteve morto.

Após os eventos de 1968, havia uma clara concepção anarquista da vida e da política.

Após o 15M, havia desejos de autogestão e assembleísmo frente ao sistema tradicional de partidos.

Hoje, diante do cansaço com a inação dos partidos no governo, que se alternam sem que as pessoas notem melhoria em suas vidas cotidianas, existe uma alternativa que está se aproveitando da situação, e é uma alternativa perigosa.

O suposto “libertarianismo”, ao estilo anglo-saxão, copiado em muitas outras partes do mundo, oferece, como seus antecessores nos anos 20 e 30 do século passado, soluções fáceis para o povo menos instruído. É a mesma estratégia de sempre: oferecer um inimigo facilmente reconhecível, confrontar os últimos com os penúltimos, dentro das classes sociais, para que não vejam que seu inimigo está mais acima na escala econômica. Ontem eram os judeus e os comunistas, hoje são os imigrantes, os gays, os progressistas, as feministas, os ecologistas e, em geral, todos aqueles que confrontam o poder. O estabelecimento da “correção política” uniu-se, interessadamente, ao estabelecimento de uma democracia que continua decepcionando as classes mais desfavorecidas; portanto, sua falta de esperança une progressismo e democracia. Não é de surpreender que a esquerda se pergunte continuamente: “O que estamos fazendo de errado?” Devemos, nestes tempos de desinformação contínua, fazer mais esforços do que nunca para difundir a mensagem autenticamente libertária. O surgimento das “Redes Libertárias” foi como um raio de esperança em meio a tanta decrepitude e tanta apatia política. Ter o maior número possível de canais de comunicação com a sociedade deve ser uma tarefa fundamental para trazer à luz uma ideologia que nunca morreu, mas que estava em estado letárgico. A partir do movimento da Memória Histórica, abrem-se caminhos para falar sobre o que foi o verdadeiro libertarianismo (sem aspas) em nosso país.

Em Aragão, nos preocupamos muito e sempre tivemos o desejo de trazer ao conhecimento público os esquecidos entre os esquecidos: os anarquistas. Muitas exposições, palestras, homenagens e até monumentos foram impulsionados pela sensibilidade especial da Associação para a Recuperação da Memória Histórica de Aragão (ARMHA) em relação a esses temas.

Nesse contexto, não queríamos perder a oportunidade de começar a proposta de uma série de debates públicos sobre o anarquismo hoje. Assim, no dia 31 de janeiro, dentro das jornadas da “imagem da memória de 2025”, propusemos uma mesa-redonda que esperamos seja o início de muitas outras ao longo do ano, servindo também como plataforma para outras iniciativas a serem realizadas com organizações afins.

Esse mesmo desejo levou, nesta ocasião, a historiadora Laura Vicente a nos oferecer um resumo das atividades das Mulheres Libertárias em Aragão durante os anos 80; Antonio Capapé leu, e também acrescentou vivências pessoais, o texto que Paco Marcellán (que não pôde intervir presencialmente por motivos de saúde) preparou sobre uma pequena aproximação ao libertarianismo espanhol durante a Transição; finalmente, Javier Celma falou, mais concretamente, sobre a trajetória da CNT aragonesa ao longo desses anos.

O debate foi curto, devido a problemas de horário, que tentaremos corrigir nos próximos eventos que anunciarmos.

A seguir, destacarei algumas das intervenções de Laura Vicente e de Paco Marcellán, já que Javier Celma improvisou e não há nenhum escrito que ateste sua intervenção.

Laura falou sobre a história do movimento integrado na CNT local das Mulheres Libertárias, das quais destaco estes fragmentos:

“O contexto em que o grupo apareceu foi a etapa final da Transição, em 1980. O grupo surge em um cenário complexo e conflituoso, mas também esperançoso pelas possibilidades de mudanças importantes, cheio de atividade política e sindical, renovador e transformador da vida pessoal. Percebemos que a rebelião deveria ter uma dimensão ética que transformava a cultura e a educação em elementos fundamentais, focando nossa atenção em aspectos-chave da existência: alimentação, saúde, família, amor, sexualidade, relacionamento conjugal, respeito à natureza, etc.

Nada disso era novo, pois fazia parte do legado do anarquismo. Também nos tornamos conscientes da importância da defesa da liberdade coletiva, mas também individual. Dessa forma, buscamos a independência psicológica e a autoestima, valorizando a chamada ‘emancipação interna’ que Emma Goldman já defendia para que as mulheres se tornassem sujeitos de seu processo de liberação. As Mulheres Libertárias eram uma organização autônoma e libertária, aberta a todas as mulheres.

Era um grupo misto, um grupo de afinidade, em Zaragoza fazia parte da CNT, que era concebida como um organismo global até o X Congresso de 1987. Fazia parte das coordenadoras feministas a nível local e estadual; coordenação com os outros grupos de Mulheres Libertárias através de encontros… o tema principal foi o aborto, os anticoncepcionais e a maneira de entender a sexualidade, (assim como) muitos outros: trabalho, educação, antimilitarismo, violência, etc.

No grupo, logo percebemos que o feminismo não afetava apenas o político, o público, mas também o pessoal, ‘o pessoal é político’, embora houvesse muito debate sobre as carências ideológicas em relação ao alcance do anarquismo na opressão das mulheres, que eram óbvias na maioria do poder e da autoridade. Esses temas teriam exigido um estudo, debate e reflexão mais profundos, além da definição habitual do antiautoritarismo. A extinção do grupo, por múltiplas causas externas e internas, entre as quais mencionarei as duas mais destacadas: a primeira causa, o cansaço de um ativismo intenso (o mesmo que ocorreu dentro de outros movimentos e forças políticas e sindicais); a segunda, o X Congresso da CNT em 1987, no qual se rejeitou a organização global que havia sido construída em Zaragoza. Assim como não houve uma data de fundação precisa das Mulheres Libertárias de Zaragoza, também não houve uma data de extinção do grupo, mas ele desapareceu entre 1987 e 1988.”

Depois, Antonio Capapé, militante da CNT durante a Transição (tema sobre o qual versava esta mesa-redonda), leu uma intervenção de Paco Marcellán, de caráter mais geral, sobre os acontecimentos e fatos do sindicato naqueles momentos históricos:

(Antecedentes) “Estamos assistindo a uma rememoração dos últimos anos, que são qualificados como estertores da ditadura franquista, junto com outras leituras da chamada Transição democrática, na qual predominam os grandes personagens associados aos pactos/transações que evitaram uma ruptura ‘de baixo para cima’ e possibilitaram uma transação ‘de cima para baixo’.

A fragilidade do movimento libertário, após a derrota e a dura repressão pós-guerra, e o esquecimento das pessoas libertárias que continuaram lutando nas cidades e no maquis até meados dos anos 50, as dissensões tanto no exílio europeu quanto no americano, a escassa divulgação de materiais e experiências autogestionárias, tanto a nível espanhol quanto internacional, constituíram limitações para colocar em marcha uma confluência de pessoas que reivindicavam sua própria experiência antiautoritária. Um processo que iniciamos em 1972, com a participação de estudantes de grupos autônomos, professores que buscavam e promoviam uma pedagogia libertária, trabalhadores de setores como a construção, o têxtil e o metal que propunham métodos de ação direta.

(Inícios e expectativas) O coletivo zaragozano, estruturado em base a grupos de afinidade marcadamente setoriais ou de bairro, foi ganhando presença através de ações concretas. Pessoas entre 25 e 40 anos de idade colocaram em marcha um projeto que convergia com outros grupos semelhantes de Madri, Catalunha, Andaluzia, País Basco, Valência e Astúrias. Em maio de 1976, realizamos uma assembleia nos baixos da paróquia de Santa Mônica, no bairro de Romareda, que deu lugar à constituição da Regional do Vale do Ebro da CNT. A legalização da CNT na primavera de 1977, o desencanto na consecução de objetivos a curto e médio prazo, a crise dos meios de comunicação que apostavam em visões libertárias, o impacto reduzido de nossos meios de expressão, dificuldades para acessar os meios convencionais, pessoas, também do âmbito libertário, que foram se acomodando a uma situação na qual acreditavam poder desenvolver uma progressão pessoal, os conflitos no seio da CNT, acentuados ao longo de 1979, conduziram a um beco sem saída.

No entanto, aqueles que continuamos vinculados, de uma forma ou de outra, ao microcosmo libertário, acreditamos firmemente que valores como o apoio mútuo, a ação direta, a prática antiautoritária e anti-hierárquica em todos os âmbitos de nossa vida, e que aprendemos conscientemente e sem amarras durante aqueles anos frenéticos, constituem um elemento que pode servir para que explorados e exploradas por uma sociedade patriarcal, na qual os direitos são sistematicamente violados pelo capital e pelo Estado, despertem de um letargo e de uma servidão voluntária que o próprio sistema alimenta.

Esta intervenção em uma mesa-redonda sobre os libertários aragoneses na transição é uma demonstração de que aquelas lutas, experiências organizativas, continuam tendo relevância no presente, pois afetam nossa sensibilidade, e é preciso agir hoje. Sempre importa recordar o passado para saber como outras pessoas lutaram, por que e como.”

Conclusões:

Na política, como em tudo mais, a natureza tende a preencher os vazios. Diante do ceticismo muito justificado da Humanidade em relação a seus sistemas políticos, que perpetuam uma organização injusta da sociedade, a alternativa libertária sempre esteve presente, com muitas roupagens diferentes, próprias de cada época, mas presente.

A Humanidade tem milhares de anos. O que consideramos História e suas civilizações ocorreu nos últimos 4.000 anos, aproximadamente, o que significa que, existindo também dentro desse período considerado histórico uma infinidade de movimentos libertários, há também um período muito mais longo no qual os seres humanos viveram, se organizaram e sobreviveram, apoiando-se mutuamente, sem necessariamente responder a um sistema hierárquico que hoje parece não ter alternativa.

Houve muitos lampejos de luz ao longo da história humana que mostraram um caminho alternativo ao convencionalmente aceito pela esquerda e pela direita. Este momento de alternativas populistas, que não são tais, é também um momento em que as novas gerações estão sendo vendidas com o mesmo velho líquido intolerante e autoritário em garrafas aparentemente novas; para novas gerações que não sabem, porque ninguém as ensinou, o que o fascismo trouxe para a humanidade: morte e destruição em escala global; um momento em que os proletários mais lumpen são levados a acreditar que o inimigo é o diferente e não os ladrões de terno e gravata.

Em um momento em que as pessoas acreditam mais em influenciadores do que em filósofos. Elas acham que dar um “like” é fazer a revolução; nesse momento em que os princípios do machismo, da intolerância, do racismo, da homofobia, do antiprogressismo, do negacionismo etc., típicos dos comentários de botequim e da visceralidade perversa, estão refletidos no programa de alguns partidos políticos. É nesse momento, eu digo, que o movimento libertário deve fazer o maior esforço para dizer às pessoas que elas não devem permitir que esse vácuo desdenhoso seja preenchido por aqueles que querem nos escravizar e que existem alternativas. Que elas precisam assumir o controle de suas próprias vidas. Que existe o direito de viver bem e em harmonia em um planeta para todos. Que o desenvolvimento pessoal e a felicidade são possíveis com apoio mútuo, autogestão, reunião e ação direta. Pode ser a nossa hora e, de qualquer forma, nunca devemos ficar inativos e em silêncio, muito menos hoje. Temos que estar muito atentos e dar respostas alternativas, iludir o mundo iludindo a nós mesmos.

É uma tarefa árdua, mas precisamos estar lá.

Nota final: peço desculpas aos palestrantes pela seleção de seus textos, uma seleção obviamente arbitrária da qual eles podem discordar e que é de responsabilidade exclusiva do autor deste artigo.

Fonte: https://redeslibertarias.com/2025/02/28/debate-libertario-una-necesidad-actual/ 

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

De seguir o viajante
pousou no telhado,
exausta, a lua.

Yeda Prates Bernis

[Espanha] A delegação da FAL em Aranjuez inaugura a biblioteca social La Tormenta

A delegação da FAL em Aranjuez e o sindicato CNT Aranjuez inauguraram em 15 de março passado a biblioteca La Tormenta, situada na sede do próprio sindicato. Trata-se de uma biblioteca social e de consulta que reforça o trabalho de difusão cultural empreendida pelos companheiros e companheiras de Aranjuez.

Os recordamos que na própria sede, situada na rua Jesus, nº 12, encontrarás todos os títulos publicados pela Fundação Anselmo Lorenzo e pela própria delegação. Também tens a oportunidade de visitar a exposição itinerante Entornos 2.0 do artista plástico Pablo Nom, que poderá ser visitada até o dia 10 de abril. A mostra se compõe de fotografia e vídeo documental de pintura mural e peças de escultura em madeira. Os esperamos.

Onde? Sede da CNT Aranjuez e delegação da FAL Aranjuez. C/ Jesús nº 12

fal.cnt.es

agência de notícias anarquistas-ana

Num só cobertor
Órfãos num canto da rua
– Menino e gatinho.

Mary Leiko Fukai Terada

[Chile] O companheiro anarquista Francisco Solar sai do isolamento após 5 anos em regime de castigo

Após permanecer quase 5 anos em isolamento, percorrendo diversos módulos de máxima segurança e enfrentando o recente endurecimento do regime carcerário que o mantinha com 21 horas de confinamento na cela, sem TV, nem rádio e com restrições nas visitas, hoje temos novidades a respeito de sua situação intracarcerária.

Após sucessivas audiências e conselhos técnicos, a gendarmeria ficou sem desculpas para manter o companheiro em dito regime de castigo, vendo-se obrigados a transladá-lo. Hoje o companheiro anarquista, consegue sair do circuito e labirinto de isolamento e módulos de máxima segurança, sendo transladado ao módulo 33 no interior do Cárcere La Gonzalina, onde se encontram outros prisioneiros anarquistas e subversivos.

Solidariedade e cumplicidade com o companheiro anarquista Francisco Solar!
Solidariedade e cumplicidade com os que atacam o poder e a repressão!

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/03/07/chile-atualizacao-sobre-a-situacao-de-isolamento-do-companheiro-anarquista-francisco-solar/

agência de notícias anarquistas-ana

A quem me visita
o perfume da ameixeira
e a taça lascada.

Issa

[Croácia] Zagreb: Džabac, novo centro social ocupado na cidade

Džabac oferece comida, roupas, bugigangas e solidariedade toda sexta-feira, coincidindo com o boicote geral.

Depois de considerar por alguns meses se ocupamos uma das muitas vitrines abandonadas e empoeiradas para transformá-la em uma loja gratuita mais central, aberta e acessível, decidimos fazer isso logo de uma vez. Com o boicote aos supermercados e outros gastos, e a crescente conscientização das pessoas sobre a ganância insaciável do capitalismo, parecia ser a hora certa — e então limpamos e montamos espontaneamente a loja gratuita em duas semanas.

No dia dos namorados, fizemos nossa inauguração, cozinhando uma panela gigante de ensopado vegano e encorajando uns aos outros a continuar se auto-organizando. Muitas pessoas apareceram para dar uma espiada e ganhar alguns brindes grátis e, para nossa alegria extasiada, mostraram interesse em começar coisas semelhantes em seus bairros e cidades. Algumas rodadas de caçambas são suficientes para alimentar muitos com pão e doces, frutas e vegetais frescos, isso e aquilo aleatórios, de chocolate a detergente de louça. As caçambas na cidade são abundantes e as pessoas estão famintas por algumas travessuras e gostosuras! Ocasionalmente, alguns trabalhadores se organizam para doar produtos que estão prestes a vencer e outros ficam felizes em trazer seus excedentes para negociar. E muitas pessoas estavam prontas para arregaçar as mangas e se juntar ao nosso coletivo informal Džabac imediatamente.

Esperamos que Džabac se torne um ponto de encontro onde, além de produtos, as pessoas possam trocar ideias, habilidades, recursos, solidariedade e se divertir! Ao abrir tais espaços autônomos, estamos nos exercitando para um presente e futuro onde dependemos cada vez menos do Estado e do interesse privado, e em vez disso nos concentramos no apoio mútuo que é sempre surpreendentemente doce e excitantemente variado. Deveríamos ter permissão para descobrir como organizar a vida juntos, já que as infraestruturas do Estado e privadas são claramente tão descuidadamente incapazes de atender até mesmo às necessidades mais básicas do mundo vivo. Então dizemos mais uma vez: é hora de boicotar, hora de nos auto-organizarmos!

Džabac

Ulica Bozhidara Adzhije 4, Adžijina

Zagreb, Croatia

dzabac@systemli.org

Tradução > Bianca Buch

agência de notícias anarquistas-ana

Ao sol da manhã
deslizando sobre a folha
a gota de orvalho.

Alberto Murata

[França] Antifascista Gino libertado antes de julgamento de extradição

A defesa citou relatos sombrios de “tortura branca” em prisões húngaras, incluindo confinamento solitário permanente e vigilância 24 horas

Por Alisa-Ece Tohumcu

Após cinco meses na Prisão de Fresnes, Rexhino “Gino” Abazaj, ativista antifascista albanês de 32 anos, foi libertado sob supervisão judicial ontem (26 de março). Preso em Montreuil em novembro de 2024, ele enfrenta até 24 anos de prisão caso seja extraditado para a Hungria sob acusações de violência contra neonazistas. Seu caso, que gerou uma ampla mobilização de ativistas, sindicatos e políticos, será decidido pelo Tribunal de Apelação de Paris em 9 de abril.

A prisão de Gino decorre de sua suposta participação em confrontos durante a reunião da extrema-direita “Dia da Honra” em Budapeste, em 2023. Outros dezessete antifascistas foram presos no caso, incluindo a eurodeputada italiana Ilaria Salis, que passou 15 meses em prisão preventiva, e Maja T, extraditada para a Hungria no ano passado. Em janeiro, sete antifascistas procurados no caso se entregaram.

Durante a audiência de ontem, os promotores questionaram a viabilidade da prisão domiciliar devido a problemas com a documentação de moradia de Gino. No entanto, sua defesa sustentou o arranjo e apresentou uma oferta de emprego como prova adicional de estabilidade. O próprio Gino se dirigiu ao tribunal, enfatizando a força de sua rede de apoio. Após a deliberação, o tribunal decidiu a seu favor, concedendo-lhe a liberdade sem monitoramento eletrônico.

Enquanto as autoridades húngaras acusam os antifascistas de participação em uma “organização criminosa” e atos violentos, os neonazistas envolvidos nos mesmos confrontos foram libertados sem acusações. As vagas garantias da Hungria sobre as condições de detenção e a justiça do julgamento também geraram duras críticas. A defesa citou relatos sombrios de “tortura branca” em prisões húngaras, incluindo confinamento solitário permanente e vigilância 24 horas. O Comitê Europeu para a Prevenção da Tortura documentou superlotação, condições desumanas e abusos sistêmicos.

O Judiciário da Hungria, enfraquecido sob o governo de Viktor Orbán, enfrenta críticas crescentes da União Europeia. A demissão de um juiz em 2016 por criticar reformas judiciais e os protestos contínuos de magistrados húngaros destacam profundas preocupações sobre a interferência política no sistema legal. “Há uma óbvia falta de separação de poderes”, argumentaram os advogados de Gino, acrescentando que a França não pode se tornar cúmplice de uma perseguição política injusta.

“As acusações são desproporcionais. O processo é injusto. Os riscos são reais”, declarou o Comitê pela Libertação de Gino. Do lado de fora do tribunal, apoiadores repetiam o coro: “Liberdade para Gino! Liberdade para Maja! Liberdade para todos os antifas!”.
 
Tradução > Contrafatual
 
Conteúdo relacionado:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2025/02/27/franca-comunicado-e-faixa-de-9-coletivos-antifascistas-em-solidariedade-a-gino-e-a-todos-os-outros/
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
Cerejeira silvestre –
Sobre o regato se move
Uma roda d’água.
 
Kawai Chigetsu

[Espanha] “Não nos resignamos ao rearmamento e à guerra na Europa”

LIBERTÁRIAS NOS ADERIMOS AO MANIFESTO

Libertárias, como uma coletividade anarcafeminista,


… QUEREMOS fazer uma aposta ousada e firme pela Paz, e mostramos nosso mais profundo repúdio às guerras, aos conflitos armados, à escalada belicista e à cultura da morte, promovidos pelo militarismo e pela indústria armamentista biocida.

… QUEREMOS colocar as pessoas, os animais e as plantas no centro, defendendo os territórios e a natureza.

… QUEREMOS que nossa descendência não seja alvo do fogo cruzado nem que seus corpos se tornem saque de guerra.

… QUEREMOS a convivência entre os povos, acreditamos na possibilidade de entendimento entre grupos (a priori) em confronto, e vemos a necessidade de romper muros e derrubar as fronteiras.

… QUEREMOS evitar a dor, a tragédia, a angústia, os deslocamentos forçados, as ondas de racismo, os genocídios, a justificativa da violência.

… Em resumo, QUEREMOS DEFENDER A VIDA!!!

Por isso, aderimos ao Manifesto “Não nos resignamos ao rearmamento e à guerra na Europa” e te incentivamos a se somar também, clicando no seguinte link:

Forms.komun.org

PAZ, PAZ E PAZ

Fonte: https://rojoynegro.info/articulo/no-nos-resignamos-al-rearme-y-a-la-guerra-en-europa/

Tradução > Liberto

Agência de notícias anarquistas-ana


cama macia
corpo se espreguiça
nasce o dia

Carlos Seabra

[Chile] La Zarzamora completa 7 anos pela liberação total

Por La Zarzamora

Mídia livre La Zarzamora está de Aniversário e é uma boa oportunidade para conhecer algo de nossa história como mídia e também os detalhes da jornada de aniversário que realizaremos em Concepción no próximo 5 de abril.


A HISTÓRIA DE ZARZA

Em 4 de abril de 2018 criamos a mídia livre La Zarzamora entre o bosque do cerro Caracol em Concepción, a ideia primeiramente foi gerar material audiovisual, gráfico e informativo para mulheres e dissidências desde uma perspectiva ácrata, autônoma, anti-institucional, confrontacional, distanciado do estereótipo feminista que reproduz o poder e do assistencialismo.

Queríamos comunicar desde nossa vivência de dissidências e mulheres anti-especistas, veganas pobres, do povo, que não acreditam na justiça, posicionadas contra o monopólio estatal da violência, com vontade de exercê-la em nossa autodefesa, sem hipocrisias nem disfarces de pacifismos reacionários.

Desde então começamos a registrar comícios, intervenções (registráveis) em marchas e atividades. Ao mesmo tempo começávamos a escrever notas de opinião, e pequenas reportagens, aprendendo redação de maneira autodidata. É assim como fomos cobrindo a necessidade, de comunicar desde nosso olhar anti-hegemônico, desde a rua, desde a raiva.

O grupo era diverso e pouco a pouco foi mudando desde um olhar amplo, mas ligado à autonomia, para um anarcofeminismo mais de acordo com as nossas experiências individuais, menos complacente, menos de cair bem a todos, que nos deixasse expressar o que realmente sentimos ante a estrutura patriarcal e as opressões do domínio.

NOSSAS FERRAMENTAS

Tendo já o meio digital funcionando e a difusão por redes, se tornou prioridade começar com uma rádio que nos permitisse expandir nossas ferramentas de propagação, desde uma linguagem que gostamos bastante já que é mais seguro, permite resguardar identidades se fosse necessário e também nos permitia continuar a relação com o resto de rádios livres de Abya Yala, que já conhecíamos por participar em outras rádios anteriormente. Com este objetivo em março de 2020 lançamos Radio La Zarzamora.

Os anos passaram e nos demos conta que muitas vezes as informações se tornam efêmeras, no ritmo da velocidade das redes, queríamos algo que perdurasse no tempo, algo que pudesse chegar onde a internet não chega. É assim que decidimos continuar com a longa historicidade dos jornais anarcofeministas e compreendemos a necessidade de seguir colaborando desde essa trincheira. Assim em novembro de 2022 tiramos nosso primeiro número em papel.

La Zarzamora, nome que escolhemos pensando nas características da zarça ou murra (expandir-se rapidamente, defender-se com seus espinhos e ao mesmo tempo dar um fruto doce e delicioso), começou a crescer como as coisas boas (mal chamadas coisas más).

Nossas notas e artigos foram republicados e traduzidos múltiplas vezes a diversos idiomas como o grego, português, italiano, inglês e francês.

Graças a muitos compas, nossas publicações chegaram a longínquos territórios, onde atualmente fazem parte de arquivos e bibliotecas livres, em lugares como Costa Rica, Argentina, Bolívia, Equador, México, Brasil, e mais longe ainda, como quando nos avisaram que deixaram nossos números no arquivo de cultura juvenil de Berlin. Hoje já temos conversas para imprimir a publicação em lugares como Grécia, América do Norte e Itália.

Da mesma maneira desde o começo do funcionamento da rádio, participamos em mais de 27 cadeias radiais junto a companheiros de outras rádios livres e anarquistas e incontáveis transmissões radiais, conseguindo contato e trabalho conjunto com rádios dentro e fora de Abya Yala. Estas cadeias nos permitiram propagar a situação de nossos companheiros na prisão, visibilizar a violência estatal, o especismo, a violência racista para o povo e a infância mapuche, a brutalidade do extrativismo e expandir nossa memória negra, entre outras temáticas. Da mesma forma, propagamos e aprendemos das experiências e lutas dos povos e comunidades de Abya Yala, graças à bela rede de rádios livres e anarquistas que durante anos construímos juntos.

Em todos estes anos, realizamos tantas coberturas que perdemos a conta, conseguimos fazer monitoramento informativo de greves de fome, acampamentos solidários, julgamentos e processos de busca. Também criamos várias campanhas: a campanha pelo fim do zoológico centro de extermínio animal de Nonguen, campanhas de arrecadação solidária para os companheiros presos e campanhas contra o extrativismo, entre outras.

Além disso é bom recordá-lo em tempos de grosseiras difamações, geramos jornadas informativas e solidárias com nossos companheiros na prisão, lançamentos de publicações anticarcerárias, arrecadações solidárias, ajuda a familiares de presos, visitas e apoio a compas na prisão e a mulheres encarceradas, entre outros gestos, que nunca serão suficientes, mas que são imprescindíveis na luta contra a sociedade carcerária.

Todos estes anos trabalhamos de maneira autogestiva, não aceitamos nenhum tipo de financiamento, reciclamos nossos equipamentos, aprendemos a repará-los e às vezes inclusive a criá-los, começamos com nada e hoje já podemos instalar transmissões onde queremos.

As últimas novidades em nosso que fazer foram ser parte da Escola de meios de comunicação de Abya Yala, que nos brindaram de maneira gratuita e graças a estes anos de trabalho, a oportunidade de capacitar-nos em segurança digital, proporcionando-nos mais ferramentas de cuidado, as quais coletivizamos com diversos grupos afins.

Como resultado disto, hoje contamos também com um serviço de nuvem segura de armazenamento e seguimos aprendendo para proporcionar mais instâncias de segurança digital a nossas afinidades e grupos em luta.

A JORNADA DE ANIVERSÁRIO


Após essa revisão de nossa história, lhes contamos que para este 5 de abril temos preparada uma grande jornada de aniversário na qual compartilharemos com nossos leitores e ouvintes, diversas surpresas. Esta jornada nos permitirá auto financiar nosso trabalho contrainformativo anual para seguir incomodando.

A jornada começa às 11 da manhã com uma Oficina de Autodefesa para mulheres e dissidências, que se realizará em @casalaescoba.conce. Para participar só deves inscrever-te enviando-nos um email a mediolivrelazarzamora@riseup.net. O aporte sugerido para esta oficina é de 3.000 pesos (não excludente, quer dizer se não puder, converse conosco).

Na tarde por volta das 16 horas, seguiremos com a jornada da tarde, que começa com o lançamento de nosso novo número de Publicação La Zarzamora, no qual abordaremos os artigos em informações que compõem este «especial anti-extrativista».

Posteriormente desfrutamos de deliciosa comida vegana, várias bebidas (com e sem álcool) e da música de tremendas bandas e cantautores. Só para tentar-te te contamos que estaremos vendendo a mundialmente conhecida pizza vegana a La Zarzamora capaz de deleitar qualquer paladar, também contaremos com sobremesas vegan e algumas das famosas empanadas vegan de La Zarzamora: a napolitana anticana, a fora florestais (de pino vegan), e se nos pedem igual fazemos as bahía livre de mineração (pino de cochayuyo da bahía).

E como lhes contávamos, na música não ficaremos atrás, estaremos desfrutando o potente ruído de M.A.L.A, a força do rap de Expressão Fem, o fogo dos acordes de YadirA cantautore e a magia da costa valdiviana com Tara. Desfruta e aproveita para pegar nosso trabalho.

Não é demais recordar que esta atividade e o espaço no qual se desenvolverá, são livres de atitudes patriarcais, especistas, racistas e nefastas.

Vem e festeja conosco este 5 de abril para sacudirmos juntos, fortalecer-nos e seguir nossa luta contra toda dominação.

La zarza segue como a má erva, espetada e sem perder a ternura, fortalecendo-se após cada golpe, a 7 anos do começo desta travessia. Desde aqui agradecemos a todos que caminham junto conosco, nos vemos logo, cuidemo-nos entre todos.

lazarzamora.cl

Tradução > Sol de Abril

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/04/12/chile-5-anos-de-la-zarzamora-e-seguimos/

agência de notícias anarquistas-ana

Em morosa andança
Ao léu com meu ordenança —
Contemplação das flores.

Kitamura Kigin

[Chile] Semana de agitação e solidariedade com os presos por autodefesa – 05 a 12 abril

QUE A SOLIDARIEDADE TRANSPASSE OS MUROS!

De 05 a 12 de abril, fazemos um chamado aberto a todas as organizações, coletividades e individualidades anticarcerárias, antiautoritárias, dissidentes, subversivas, antipatriarcais e afins a somar-se à Semana de Agitação e Solidariedade com os Presos por Autodefesa.

Este próximo 8 de abril, Estéfano completa três anos de prisão após ter exercido sua legítima defesa frente a um ataque transfóbico. Hoje, o seguimos acompanhando, porque sua prisão é o reflexo claro de um sistema classista, patriarcal e criminalizador dos corpos dissidentes em rebeldia.

A (in)justiça $hilena, outra vez, se pôs do lado dos agressores e castigou a quem se atreveu a defender sua vida, para não ser a vítima submissa que o cis-tema espera.

Ao longo destes três anos, a família e os próximos de Estefano foram perseguidos pelos aliados do agressor que perdeu a vida. Mas nossos companheiros não estão sós.

Os corpos travestis, trans, maricas e lésbicas enfrentam dia a dia a violência estrutural de um sistema que os quer mortos, submissos ou presos. Mas nos negamos a aceitar o silenciamento e a impunidade.

A autodefesa é nossa arma contra o fascismo, contra os crimes de ódio e contra a violência patriarcal que nega o direito básico à existência.

Nossa solidariedade é inquebrantável. Exigimos liberdade imediata sem condições para Estefano e para todos os presos por autodefesa. Nos organizamos desde a raiva e o amor, desde a sabotagem e a ação direta, porque entendemos que a luta é aqui e agora.

Como anticarcerários, sabemos que a luta contra o patriarcado é a luta contra todos os poderes; contra o Estado, o capital e a moral imposta. Não se trata só de defender os que foram encarcerados por enfrentar a sua violência, trata-se de destruir os muros das prisões e de acabar com esta estrutura de dominação que criminaliza a autodefesa enquanto protege feminicidas, violadores e agressores.

Por isso, fazemos um chamado a transpassar os muros com solidariedade combativa. Que as ruas se encham de propaganda e de ações de confronto para visibilizar e exigir a liberdade de Estefano.

Que a solidariedade se expresse em cada ato de sabotagem ao cis-tema, em cada gesto de apoio real a nossos companheiros sequestrados pelo Estado.

NÃO NOS CALAMOS!

A AUTODEFESA NÃO É DELITO, É NOSSA ARMA DE LUTA!

ORGANIZA TUA RAIVA!


Fonte: https://lazarzamora.cl/semana-de-agitacion-y-solidaridad-con-lxs-presxs-por-autodefensa/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana


Saudades da amada —
Caem flores de cerejeira
às primeiras luzes.

Kaya Shirao