[Espanha] Manifestação 8M 2025: Bloco Crítico Feminista

Apesar do empenho reacionário de alguns machistas ou medíocres por arrancar e censurar os cartazes da convocatória, centenas de pessoas nos reunimos em 8 de março às 20h30 na plaza de Fuente Sorada e percorremos o centro de Valladolid para reivindicar uma jornada combativa, de classe e de luta transfeminista. Reivindicávamos o 8M 2025, dia internacional da mulher trabalhadora, a convocatória do Bloco Crítico Feminista (Marabunta Autodefensa Feminista, CNT, Camada Queer Castelhana, CGT).

Gritando e defendendo que não queremos transfobia nem machismo em nossos bairros, que há que pôr fim à diferença de gênero no mundo laboral, que tanto faz pessoa estrangeira ou nativa porque somos todas a mesma classe obreira.

Inevitável fazer nossas as palavras das companheiras da Casa Feminista:

Começamos a marchar. Somos uma massa de pessoas caminhando e gritando: a luta será transfeminista ou não será! De norte a sul, de este a oeste, a luta segue custe o que custar! Não é um caso isolado, se chama patriarcado!

Marchamos com frio, mas contentes porque a chuva nos respeita, levantando cada vez mais a voz, orgulhosas de olharmos entre as companheiras, de ver umas meninas deixando sua voz com um megafone, recuperando a esperança. Olhando para frente e para trás, e dizendo: há muita gente, verdade? Sim, há. Após passar pela Plaza Mayor, Plaza Santa Ana, Plaza Poniente, Bajada de la Libertad e chegar à Plaza de Portugalete, onde se lê o manifesto, creio que todos temos na boca essa frase e no coração essa sensação de calor que se tem quando te sentes satisfeita e acompanhada, quando crês que vale a pena, que estás certa de que há que seguir lutando, mais forte se possível. Porque o inimigo está aí, mas nós estamos juntas, temos força e somos irrefreáveis.

Nosso objetivo é um mundo compatível com a vida, com a de TODOS: a das pessoas trans, as mulheres palestinas, as discas, as de classe obreira, de todas as idades e todas as origens, em uma terra habitável e sustentável. Essa é e será nossa luta. Em 8 de março e no resto dos dias do ano.

É em Portugalete, onde finalizou a manifestação multitudinária, onde se leu o emotivo manifesto recordando as companheiras de «las 6 de La Suiza», condenadas por lutar sindicalmente, ou o último desalojo de uma mulher e suas três pequenas.

Ao final do manifesto se agradeceu a toda a gente que apoiou o transfeminismo e o Bloco Crítico Transfeminista, com uma recordação carinhosa à companheira Vero.

Fonte: https://www.cntvalladolid.es/manifestacion-8m-2025-Bloco-critico-feminista/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

sol em plenitude
uma rã pula — em versos
barulho de Vida

Roséli

[Espanha] Concentração: “Não nos arrastem para a guerra”

A OTAN e a UE estão nos arrastando para um conflito que só beneficia as elites globais e locais, enquanto nós, os “ninguém”, estamos colocando nossos corpos e nossas vidas nele.

Essa guerra que paira sobre nós esconde outra violência mais silenciosa: demissões, salários de miséria e jornadas de trabalho exaustivas, despejos, aumento dos preços de produtos básicos e a deterioração e privatização dos serviços públicos.

Diante do discurso belicista dominante, que quer recuperar o imposto de sangue (o serviço militar) e tira os recursos do povo, é mais urgente do que nunca sair às ruas contra a guerra imperialista, contra o genocídio na Palestina, contra a OTAN, as bases militares e contra a UE e seus Senhores da Guerra.

A luta é pela vida, a soberania e a dignidade dos povos.

Não nos arrastem para a guerra!

Plaza de los Fueros, Tudela. Navarra

Sábado, 15 de março. 12 horas

agência de notícias anarquistas-ana

livro aberto gelado
o norte geme no vento
sobre a página branca

Lisa Carducci

[Itália] Um café bom e justo? Sim! Obrigado!

Domingo, 16 de março de 2025 – Praça do Município – Marigliano
A partir das 10h00 – Coletivo utopiA e TATAWELO; 18 anos de rebeldia em uma xícara de café excelente.

A partir das 11h00, a radioplazA transmite o evento ao vivo da praça e em streaming no collettivoutopia.noblogs.org

Para mais informações e outras sugestões, escreva para
collettivoutopia@bruttocarattere.org

Pressupostos

Em Marigliano, existe um grupo de compra promovido pelo coletivo utopiA, que há 18 anos apoia e promove a distribuição direta de um café muito especial, bem diferente daquele ao qual todos nós estamos acostumados a consumir em nossas casas ou nos bares do mundo inteiro.

Há muitos anos se sabe que a maioria do café comercializado pela grande distribuição, além de ser símbolo da exploração dos trabalhadores e da devastação descontrolada de certos territórios, não é nem mesmo um produto genuíno e fresco da estação. Ele é, na verdade, cultivado com o uso massivo de produtos químicos, tóxicos e poluentes; depois, é colhido ainda verde, amadurece estocado por meses em navios mercantes e, em seguida, é empilhado por anos em alguns armazéns ao redor do mundo, antes de ser transformado e consumido por milhões de pessoas, muitas vezes sem saber de tudo isso.

Isso é comprovado por dezenas de livros, investigações e documentários dedicados ao tema.

E por isso…

No domingo, 16 de março de 2025, a partir das 10h30, o coletivo utopiA convida todos que estiverem na Praça do Município em Marigliano a participar da apresentação do projeto TATAWELO, uma cooperativa de Turim que, há muitos anos, mantém contato com pequenas comunidades de agricultores do Chiapas (México) que, nessas terras, resistem ao poder dos mercadores das multinacionais, através da venda direta de seu café, cultivado com métodos agroecológicos, respeitando o meio ambiente, a saúde e a dignidade das pessoas.

Tudo verdadeiro!

 A cooperativa TATAWELO, que importa, transforma e distribui esse café na Itália, apoia o trabalho e a autonomia dessas comunidades por meio de um pré-financiamento promovido todo ano na primavera, e garante para quem o adquire a alta qualidade dos grãos, colhidos no ponto certo de maturação e transformados no próprio ano da colheita.

A receita do pré-financiamento, além de cobrir os custos de produção e distribuição do café, é empregada em projetos sociais para apoiar as realidades autônomas zapatistas nas terras de Chiapas.

Então, todos na praça para um bom café!
E para quem não puder estar lá no calçadão, ouçam bem! Tem radioplazA.

A partir das 11h00, transmissão ao vivo da praça e em streaming “ExtemporAnea (Ultra)rAdiofOnica rAdioplazA” no collettivoutopia.noblogs.org:
notícias, música, histórias reais e testemunhas oculares; para uma xícara de café (TATAWELO!) que tem o cheiro da liberdade.

Pela autonomia – coletivo utopiA
Marigliano – Inverno de 2025

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Na velha roseira,
entre as folhas e os espinhos,
uma aranha tece.

Humberto del Maestro

[Reino Unido] Façam vocês mesmos e cuidem uns dos outros

Reflexões sobre três décadas de ativismo ambiental 

Helen Baczkowska ~ 

A primeira coisa a fazer foi reorganizar os móveis—o que estava disposto para um palestrante e uma plateia rapidamente se transformou em um círculo improvisado. Afinal, uma discussão significa ouvir muitas histórias, não apenas uma.

Estávamos na Caracol Books, em Norwich, para uma conversa sobre as últimas três décadas de ativismo ambiental no Reino Unido. Comecei a noite lendo trechos do livro Twyford Rising—a história do primeiro protesto anti-rodovia no Reino Unido na década de 1990. O livro é uma história oral, com as vozes daqueles que participaram narrando a campanha de ação direta contra a construção da rodovia M3. Essas vozes incluem moradores locais de Twyford Down, a “Tribo Dongas” que acampou na terra ameaçada, e ativistas do Earth First!, então em sua infância no Reino Unido. Como sempre, imprimi citações-chave do livro e as distribuí para que as pessoas as lessem durante a noite. Twyford Rising não é apenas a minha história, mas uma história da qual muitas pessoas fizeram parte, e o caos, os ocasionais desacordos, a música, os mitos e o cheiro de urina de cabra no abrigo comunitário fazem todos parte do relato.

Antes do encontro, um membro local do Just Stop Oil perguntou se eu era uma ativista “aposentada”—acho que essa suposição foi feita porque não faço parte do JSO. Responder a isso vai direto ao coração das conversas que tivemos—o ativismo assume muitas formas e trabalha em muitas frentes. Talvez a melhor resposta que eu poderia dar foi que passei grande parte do dia ao lado de outros, em solidariedade com as Marchas Populares na América, realizadas antes da posse de Donald Trump. Um pequeno gesto, não radical, admito, mas tudo o que senti que podia fazer a essa distância, e algo recebido com gratidão por nossos contatos nos Estados Unidos. A mensagem vinda de muitos grupos nos EUA neste momento é que a ajuda mútua será uma das formas mais importantes de resistir aos piores excessos da presidência de Trump. Na reunião da noite, discutimos como a ajuda mútua e a organização local poderiam ser cruciais nos próximos anos.

A Caracol Books organizou o evento como parte de uma série de aprendizado intergeracional entre anarquistas e grupos ativistas. Como resultado, uma das perguntas feitas foi o que nós, mais velhos, aprendemos; a resposta unânime foi cuidar mais de nós mesmos e dos outros. Com isso, queríamos dizer que, nos primeiros anos dos protestos contra rodovias, não dedicávamos tempo para cuidar de nós mesmos ou das pessoas ao nosso redor. Muitos de nós ficamos esgotados e tratávamos isso como normal. Para mim, a necessidade de autocuidado e apoio mútuo é algo que aprendi trabalhando ao lado de pessoas negras e ativistas LGBTQIA+.

Eu disse que organizar-se sem hierarquias e líderes há muito tempo é crucial para meu ativismo ambiental. Na prática, isso garante inclusão, diversidade de ideias e, muitas vezes, maior segurança nas ações. Também é parte de criar o futuro que desejamos, aqui e agora, e colocar o mundo natural no centro de todas as decisões. Sempre deixo claro nas minhas falas que a classe social também é parte disso. Com muita frequência, as preocupações ambientais são vistas como questões de classe média, mas vemos cada vez mais que o acesso a espaços verdes e selvagens é crucial para a saúde humana. Isso não é novidade, meu bisavô, que começou a trabalhar em uma mina de carvão aos sete anos, era um defensor da campanha pelo direito de caminhar na década de 1930 e um apoiador da proteção das terras comunais no País de Gales. Minha vida como ativista faz parte de um legado de gerações, e aprender a história de muitas lutas na Grã-Bretanha foi algo que discutimos naquela noite.

As pessoas também me perguntaram sobre as infiltrações de policiais-espiões e como a vigilância disfarçada impactou minha geração de ativistas (muito, e ainda está acontecendo). Outra pergunta foi como continuamos com ações diretas em uma época de legislação cada vez mais draconiana. Isso foi respondido por várias pessoas, que apontaram que muitas nações e gerações anteriores enfrentaram desafios semelhantes. Essas observações são verdadeiras, mas as penalidades cada vez maiores para protestos políticos estão se mostrando um fator dissuasivo para aqueles que, por muitos e válidos motivos, não podem arriscar ir para a prisão.

A questão sobre “para onde vamos a partir daqui”, no entanto, permanece importante e precisa ser abordada coletivamente, por meio de discussões e da inclusão de muitas vozes. Como disse uma das pessoas entrevistadas para Twyford Rising, em uma citação que sempre gosto de incluir: “a melhor maneira de entender tudo isso é sair e fazer você mesmo… fazer parte da resistência é mais significativo do que ler ‘e nós resistimos’.”

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2025/01/23/do-it-yourselves-and-take-care-of-each-other/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Abro o armário e vejo
nos sapatos meus caminhos.
Qual virá no séquito?

Anibal Beça

[França] A biblioteca Libertad precisa de você!

A biblioteca anarquista “Libertad” foi criada em Paris, em 2010, como um espaço “onde experiências e perspectivas podem ressoar umas com as outras, para pôr fim a um mundo mortal baseado na lógica da exploração e dominação”. Mês após mês, muitas discussões, debates, palestras e exibições de filmes aconteceram lá, entre milhares de livros, arquivos e zines disponíveis para empréstimo ou distribuição. Suas paredes ecoaram as vozes de camaradas de outros continentes que vieram compartilhar suas lutas.

Elas nos permitiram reunir documentos e testemunhos de lutas passadas para aprofundar as possibilidades do presente. Elas falaram em solidariedade com camaradas presos e com as ondas de ataques ao existente. Vibraram com debates vivos sobre os novos assaltos da dominação à liberdade e à vida, e os diferentes caminhos a serem trilhados para derrubar o mundo como ele é.

Muitos encontraram nesses debates uma fonte de inspiração para rupturas, assim como encontros significativos, “tantas oportunidades de abandonar os caminhos alienantes da resignação e de afiar nossas críticas para o aqui e agora”.

Ao longo dos últimos catorze anos, a biblioteca Libertad sempre fez questão de se manter longe de financiamentos institucionais, graças, em particular, a eventos de apoio, como refeições, concertos, mas também doações e criatividade coletiva. Localizada no bairro de Belleville, em Paris, a biblioteca enfrenta um aluguel que se torna mais pesado a cada ano. É por isso que estamos fazendo este apelo excepcional por apoio financeiro, para que possamos quitar a dívida acumulada com o aluguel que nos sufoca… e continuar a explorar os vasos comunicantes entre ideias e ação com total autonomia, sem mestres nem escravos. Precisamos arrecadar vários milhares de euros para pagar esse déficit e continuar a pagar o aluguel semestral de 6.000 euros.

Acolhemos todos os tipos de doações anônimas e iniciativas públicas organizadas de forma descentralizada, que, é claro, serão somadas aos nossos próprios esforços.

Se tiver perguntas ou quiser mais informações, escreva diretamente para amiesdelibertad@riseup.net… e, de qualquer forma: viva a anarquia!

Participantes da biblioteca anarquista Libertad,

(bibliothequelibertad.noblogs.org)

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

Um trovão estronda –
e os trovõezinhos ecoam
na selva em redor.

Nenpuku Sato

[Espanha] Uma solução para o problema da guerra

Por Acratossauro Rex

A esquerda não dizia que a culpa da direita vencer as eleições era da abstenção? Pois bem, na Alemanha, nessas eleições, a direita venceu com 84% de participação. Ou seja, quase todo mundo votou, exceto aqueles que não puderam se aproximar das urnas por problemas de mobilidade, documentação vencida, erros no censo, distrações, etc., além dos que votaram nulo… Eu mesmo não votei nessas eleições porque tinha que escovar o cachorro. Queria votar com todas as minhas forças, e foi impossível.

Mais uma vez, fica demonstrado que a abstenção não tira nem coloca a esquerda. O que faz a esquerda não vencer as eleições não é que as pessoas se abstenham. A esquerda perde porque não convence os eleitores. Não sei por quê. Por algo será. Parece que as bobagens e os slogans que a esquerda lança deixam seu eleitorado completamente indiferente. Por isso, este é o meu conselho: esquerdista, para ganhar as eleições, você só precisa conseguir que as pessoas votem em você. É isso. Garantido. É o que a direita faz.

Segundo a imprensa, as coisas estão esquentando no mundo. EUA, UE, Rússia, China, Índia e um monte de outros países estão se preparando para a guerra. Chamam isso de dissuasão, ou seja, se você tem um exército enorme e poderoso, ninguém vai se meter com você. O que acontece é que, se seu exército é grande e muito forte, a tentação de invadir seu vizinho ou de colocar seus interesses à frente de tudo vai provocar a guerra. Bom, sim, é que isso é o que sempre aconteceu. Isso não facilita uma visão otimista do futuro, quando esquerda e direita estão dispostas a aumentar seus orçamentos militares para 5% da arrecadação. Pela paz e pela segurança, já veem.

Ah, e outra coisa: um problema da esquerda é que alguns de seus slogans acabam sendo adotados pela extrema direita. Diziam que Zelensky, o da Ucrânia, era um governo nazista. Agora, Trump aparece e afirma que ele é um ditador e que deve renunciar. A esquerda verdadeira afirmava que os EUA e a UE deveriam parar de financiar o governo da Ucrânia em sua guerra com a Federação Russa. Aí vem Trump e diz que ele e Putin vão resolver o assunto. A esquerda autêntica proclama que a União Europeia é uma porcaria, e o Partido Conservador do Reino Unido faz o Brexit… Enfim, os reacionários não deixam os progressistas acertarem nem uma, nacionalistas de Estados soberanos, cuja única visão de uma Europa Unida é dada pelo Festival da Canção da Eurovisão.

Não está claro, diante do panorama existente, que os Estados estão cada vez mais poderosos, que os milionários estão mais ricos e que essas concentrações de armas e dinheiro vão provocar o caos mais cedo ou mais tarde? Para mim, o que está claro é que a solução para todos esses problemas horríveis continua sendo o anarquismo: não mais exércitos, abaixo os Estados soberanos. Entrar em discussões sobre como nos defendemos só nos levará a gastar dinheiro, esforços e vidas em guerras que não nos dizem respeito. Só há uma forma de evitar as guerras: não participar delas. E me dirão que isso é uma loucura… Bem, parece que é mais inviável fazer a esquerda vencer uma eleição.

Fonte: https://acracia.org/una-solucion-al-problema-de-la-guerra/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

A abelha voa vai
vem volta pesada
dourada de pólen

Eugénia Tabosa

[Espanha] Agustín García Calvo, ou o pensamento como ação direta

Em um livro recente e relevante, ¡Al ladrón! Anarquismo y filosofía (Kaxilda, 2023), Cathérine Malabou argumenta que alguns dos pensadores mais significativos da filosofia contemporânea “roubaram” impulsos, orientações e conceitos do anarquismo para desenvolver uma crítica da dominação ou uma lógica de governo, sem reconhecer a origem dessas ideias e sem jamais se autodeclararem anarquistas. Assim, o anarquismo — ou o pensamento social anarquista — seria a fonte não confessada de filósofos como Schürmann, Levinas, Derrida, Foucault, Agamben ou Rancière, que sempre rejeitaram o rótulo. Existiria, portanto, uma persistente negação do anarquismo em um pensamento contemporâneo que, ao mesmo tempo, se alimenta dele em grande medida. Como se a relação dos filósofos com a literatura anarquista ocorresse às escondidas, de forma clandestina, como algo vergonhoso que se pratica, mas não se declara. Um anarquismo que a filosofia primeiro saqueia e depois disfarça em expressões conceituais sublimadas. No entanto, isso estaria começando a mudar hoje, com o chamado “giro anarquista” na teoria, em que diversos pensadores parecem sair do armário. É o caso de Malabou na filosofia, ao desenvolver um conceito propriamente anarquista: o do “não governável”. Algo semelhante ocorre em outras áreas, como com o antropólogo David Graeber ou a autora de ficção Ursula K. Le Guin. Parece que o anarquismo hoje se torna mais apresentável nos debates acadêmicos.

Antes de abraçar esse giro e arquivar a negação filosófica do anarquismo, proponho reabrir o caso e chamar uma última testemunha: o pensador Agustín García Calvo.

García Calvo parece, à primeira vista, um exemplo perfeito dessa negação. Malabou poderia tê-lo incluído em sua lista se conhecesse sua obra. Um exemplo: em 1972, editores da revista Ruedo Ibérico convidaram-no para colaborar em um número especial sobre anarquismo. García Calvo recusou, explicando em uma carta (publicada posteriormente em 1978 na História Libertária) que tal colaboração contribuiria para a institucionalização da anarquia, transformando-a em “doutrina” ou “identidade” apta a se tornar poder. Para ele, há uma contradição insuperável entre negar a Ordem e ser um negador da Ordem, entre rebelar-se contra a Sociedade e ter um ideal de Sociedade.

García Calvo defende um “coração anárquico” (ou “anarquizante, acrático, rebelde ou negativo”). O anarquismo não é teoria, mas prática — uma ação que destrói sistemas, não um sistema filosófico. Isso o aproxima da “desconstrução” de Derrida ou da “destituição” de Agamben. Para ele, a liberdade anarquista só existe como ato de libertação, não como conceito. Essa liberdade negativa (prática, não identitária) o liga também à emancipação em Rancière. García Calvo, que praticou atos anárquicos a vida toda, recusou o rótulo de “anarquista”, herdando a tradição prática do anarcossindicalismo espanhol, mas elevando-a ao terreno contracultural.

Sua ação direta era pensamento como dinamite: criar brechas na Cultura (com “C” maiúsculo) para que “o vivo e palpável” emergisse. Um exemplo é o hino da Comunidade de Madrid que ele compôs — um “anti-hino” que expõe a abstração do poder político. Para García Calvo, a ação anarquista no pensamento abre espaço para “o corpo” e “o povo” (entendidos como anti-Estado, não governáveis). O povo, dizia, “só existe quando se rebela”.

Isso se materializou no programa de rádio Pensamiento 3 (1988-1990), que levou filosofia ao grande público e conectou coletivos minoritários. O programa foi cancelado, mas García Calvo evitou o discurso de “censura heroica”, sugerindo que o fim era parte da rotatividade normal das mídias. Para ele, o pensamento como ação direta não busca a verdade, mas destrói abstrações (Estado, Capital, Futuro) para que o “vivo” respire.

García Calvo também rejeitou identidades fixas usando pseudônimos, anonimato e assinaturas coletivas (como na Comuna Antinacionalista Zamorana). Seu pensamento libertário exigia negação constante — não para fundar uma nova ordem, mas para ressuscitar o caos primordial, onde tudo é possível. Chamá-lo de “anarquista” seria trair essa negação, transformando-a em ideologia.

O anarquismo, para García Calvo, não é teoria, mas ação de qualquer um. Não pertence a “anarquistas”, mas à prática de quem nega a dominação — até mesmo no pensamento, quando a abstração é a forma moderna de opressão.

Jordi Carmona Hurtado 

Professor de filosofia

Nota: Texto citado em Jordi Carmona Hurtado, Cómo matar a la muerte. Agustín García Calvo y la filosofía de la contracultura (La oveja roja, 2022), p. 246.

Fonte: https://acracia.org/agustin-garcia-calvo-o-del-pensamiento-como-accion-directa/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Enquanto agachado
Ao lado da chaleira
Como faz frio!

Naitô Jôsô

Élisée Reclus: Um Visionário da Geografia e da Liberdade

Recordamos neste mês de março, o nosso camarada Élisée Reclus. 

Ele, que veio ao mundo em 15 de março de 1830, na França, Élisée Reclus consagrou-se como um dos mais brilhantes geógrafos e pensadores do século XIX, cuja obra transcendeu as fronteiras acadêmicas para dialogar com as urgências sociais e ambientais de seu tempo. Reclus revolucionou a ciência geográfica ao integrar uma visão humanista e ecológica, décadas antes de tais conceitos ganharem espaço mainstream. Sua monumental Nouvelle Géographie universelle não apenas mapeou o mundo físico, mas investigou as complexas relações entre sociedades e seus ambientes, antecipando preceitos da geografia humana e do ambientalismo moderno. Para ele, a natureza não era um mero cenário, mas um organismo vivo interligado à história e à cultura — uma perspectiva que o tornou pioneiro do pensamento interdisciplinar.

Além de seu legado científico, Reclus dedicou-se às lutas por justiça social, alinhando-se ao anarquismo e participando ativamente de eventos como a Comuna de Paris (1871). Sua crítica contundente ao colonialismo, à exploração capitalista e às estruturas de poder autoritárias ecoou em textos e ações, defendendo uma sociedade baseada na cooperação livre e na autonomia coletiva. Perseguido e exilado por suas ideias, jamais recuou de seu ideal: um mundo onde a ciência servisse à emancipação, não à dominação. Sua geografia, portanto, não era neutra — era um instrumento de transformação, que denunciava desigualdades e inspirava resistências.

Mais de um século após sua morte, o legado de Reclus permanece vivo. Seus escritos influenciam movimentos ecologistas, correntes anticoloniais e práticas pedagógicas libertárias, evidenciando que sua visão de harmonia entre humanos e natureza segue não apenas atual, mas urgente. Em tempos de crise climática e ascensão de autoritarismos, Reclus nos lembra que a ciência engajada e a ética solidária são armas contra a opressão. Sua crença na capacidade dos povos de construir alternativas horizontais e sustentáveis ressoa em lutas atuais, das ocupações agroecológicas às redes de apoio mútuo. Élisée Reclus não foi apenas um homem de seu tempo — mas um farol para quem ousa imaginar futuros mais justos e livres.

Federação Anarquista Capixaba – FACA

federacaocapixaba.noblogs.org

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/04/12/espanha-lancamento-antologia-elisee-reclus-la-conciencia-de-la-tierra/

agência de notícias anarquistas-ana

Menino de rua
arrastando os passos
na névoa noturna

Jorge Lescano

Protestos dos aposentados na Argentina

Idosos protestam contra perda de direitos e declínio acentuado no valor das aposentadorias, em consequência das políticas ultraliberais de Javier Milei, que dobraram os preços de medicamentos e serviços essenciais.

Uma manifestação de aposentados apoiada por torcidas de futebol e organizações sociais na Argentina nesta quarta-feira (12/03) terminou em violentos confrontos com a polícia, que resultaram na prisão de ao menos 103 pessoas e deixaram 20 feridos, um deles em estado grave.

O protesto – o mais violento no país desde que o ultraliberal Javier Milei assumiu o governo, em dezembro de 2023 – foi o mais recente de uma série de atos públicos que ocorrem há anos todas as quartas-feiras em defesa dos direitos dos aposentados, que vêm sofrendo um declínio acentuado em seus rendimentos e poder de compra.

Nos últimos meses, os protestos dos aposentados passaram a ser reprimidos pela polícia com gás lacrimogêneo e violência física contra os idosos.

Confrontos violentos

O número de participantes nos protestos nesta quarta-feira se multiplicou exponencialmente com a adesão das torcidas organizadas de 30 times de futebol.

Os tumultos começaram no meio da tarde, quando os manifestantes, também convocados por organizações sociais e sindicais, desafiaram os cordões policiais que tentavam liberar a área em frente ao Congresso e a Praça de Maio, em Buenos Aires.

A polícia utilizou balas de borracha, gás lacrimogêneo e canhões de água contra os manifestantes, muitos dos quais usavam camisas e bandeiras de seus times.

Alguns atiraram pedras retiradas de calçadas e fogos de artifício, enquanto um grande cordão policial avançava pelas ruas. Uma viatura policial e uma motocicleta foram incendiadas, e outros sete veículos da Secretaria de Segurança de Buenos Aires foram vandalizados. Um fotojornalista foi atingido por um projétil enquanto registrava o confronto.

De acordo com dados da Secretaria de Segurança, a polícia local prendeu 89 pessoas, enquanto outras 14 foram presas pelas diversas forças federais.

Entre os 20 feridos, pelo menos 10 são policiais com ferimentos leves, e os demais são civis, incluindo um homem em estado grave, que teve o crânio fraturado como resultado do impacto de uma cápsula de gás lacrimogêneo atirada na praça em frente à sede do Congresso.

Na quarta-feira à noite, após o fim dos incidentes no Congresso e na Praça de Maio, ocorreram panelaços em várias partes de Buenos Aires, e centenas de manifestantes marcharam novamente até a sede do governo.

Aumento da pobreza gera revolta

Em seu primeiro ano, o governo de Milei reduziu a inflação de 211,4% em 2023 para 117,8% em 2024 e alcançou um superávit fiscal, mas o ajuste resultou na perda de 200 mil empregos, na paralisação de obras públicas e no aumento das taxas de pobreza e pobreza extrema na Argentina

A política de Milei de liberar os preços dobrou o custo dos medicamentos e serviços essenciais em um ano. Quase 60% dos aposentados recebem a pensão mínima, equivalente a cerca de R$ 1.970. No ano passado, o governo congelou um bônus de aproximadamente R$ 406 para os aposentados.

Fonte: agências de notícias

agência de notícias anarquistas-ana

O casulo feito
bicho dentro dele dorme
vestido de seda.

Urhacy Faustino

[Chile] Atualização sobre os companheiros Aldo e Lucas Hernández

Já vão mais de dois anos daquele 2 de dezembro de 2022, dia dos diversos arrombamentos orquestrados pela Promotoria de Alta Complexidade Metropolitana Sul, onde foram invadidos seis domicílios. Cinco deles na Região Metropolitana e um na região de Valparaíso, todos registrados por grupos policiais OS9, GOPE e LABOCAR, com um resultado de seis detidos, sendo que quatro passaram à prisão preventiva. Dois destes correspondem aos irmãos e companheiros Aldo e Lucas Hernández.

No transcurso dos meses os companheiros seguiram sob investigação pelo ataque explosivo à Direção Nacional de Gendarmería de Chile; Aldo foi indicado como o suposto colocador do artefato e também é acusado de delitos da Lei de Controle de Armas, igual que Lucas, acusado por diversos delitos da Lei de Controle de Armas e Explosivos.

Meses depois aos companheiros se solicita uma audiência de reformalização, somando delitos para ambos, como a fabricação de armas e de artefatos explosivos, por diversos elementos encontrados no domicílio invadido em Pedro Aguirre Cerda.

Nesse processo temos visto como a promotoria, através de artimanhas e jogos sujos, tenta prejudicar e amedrontar com prisão a este entorno, buscando informações e até mesmo delações com o fim de terminar a investigação e poder firmar o que a promotoria acusa. Todavia, segue tendo um resultado negativo ao assédio, já que todos os detidos posteriormente à operação policial se mantiveram dignos e íntegros às medíocres tentativas do promotor Claudio Orellana, demonstrando na prática cumplicidade e lealdade aos princípios do companherismo anti-autoritário.

No transcurso dos meses os companheiros viveram diversas e diferentes realidades carcerárias, já que desde o começo foram separados em uma tentativa de romper seus laços familiares, sem ter contato e compartilhar o mesmo espaço físico há mais de dois anos.

Neste momento ambos se encontram na espera da audiência de preparação de julgamento oral, a qual foi adiada já em duas ocasiões sob diversos argumentos jurídicos. Na espera do julgamento que demorou mais de dois anos, os companheiros seguem sem poder se reunir, sob alegação de “questões de segurança”, vulnerabilizando seu direito de conservar o vínculo familiar que os une.

Nessa audiência arriscam a pegar condenações exemplificadoras. Para Aldo a promotoria solicita uma condenação de 90 anos e para Lucas de 26 anos. Afirmamos exemplificadoras porque essa quantidade excessiva de anos somente busca amedrontar o entorno e a quem decida devolver os golpes dando a cara, sem esperar iludidos e idealizados o momento oportuno para enfrentar nossos inimigos.

Aldo e Lucas seguem íntegros e com o ímpeto intacto para seguir contribuindo e fortalecendo o caminhar anárquico fora e dentro das prisões, aferrando-se firmemente a seus ideais e seus valores, no apoio a diversos companheiros que se viram privados de liberdade assim como eles, fazendo das suas ideias uma ameaça real para o leque de condutas nefastas dentro da prisão e praticando a solidariedade carcerária. Seguem se posicionando a prisão e seus carcereiros dentro das suas próprias casas (as prisões).

O poder segue golpeando, as represálias são parte do cotidiano/cativeiro de nossos irmãos.

O último acontecimento foi a transferência de Aldo para o módulo 2 de máxima segurança no presídio “La Gonzalina”, no dia 24 de dezembro de 2024, mudando assim seu regime carcerário. Atualmente se encontra com um cotidiano de 21h dentro de uma cela e 3 horas de pátio, somado a diversas restrições, como proibição de aparelhos eletrônicos (TV, chaleira elétrica, rádios).

Essa transferência foi produto de um arrombamento realizado no módulo 12 (onde Aldo se encontrava há dois anos). No dia 18 de dezembro se encontra no interior de sua cela a informação pessoal dos 16 funcionários da gendarmeria lesionados no dia do atentado à direção nacional (27 de dezembro de 2021). Essa informação se encontrava nas pastas investigativas do caso, motivo pelo qual os responsáveis por sua transferência para a prisão de La Gonzalina decidem por seu isolamento.

A prática violenta segue mais vigente que nunca, e é sangue para bombear os corações dos nossos irmãos na prisão.

Cada ação certeira, cada gesto de propaganda revela a vulnerabilidade de um sistema predador que se sustenta por uma falsa segurança que não é mais do que uma careta quebrável e ao alcance das nossas mãos cheias de convicção e coragem.

As ações como ataques com armas-bombas a instituições-polícias-aparatos que protegem os interesses do poder e dos ricos são somente uma mostra disso.

Que quem nos oprime tenha medo, que as balas tenham nomes e sobrenomes, que nossas energias sejam capazes de criar o que nossa imaginação alguma vez pensou, que se transborde cada ideia na mente de quem olha que a luta violenta é possível.

Fogo e morte ao espectador, ao necrófago, ao mártir e ao abutre.

Liberdade para xs convencidxs, certeirxs, y
que vão contra a dominação!
Presxs anarquistas, subversivxs y mapuche para as ruas!

Que nos atrevamos a criar o proibido!

Fazer das ideias uma ameaça real!

Aldo y Lucas Hernández às ruas!

Fevereiro, 2025.

Fonte: https://edicoesinsurrectas.noblogs.org/post/2025/03/12/atualizacao-sobre-os-companheiros-aldo-e-lucas-hernandez/

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/12/27/chile-solidariedade-anarquista-com-aldo-e-lucas-hernandez/

agência de notícias anarquistas-ana

A sensação de tocar com os dedos
O que não tem realidade –
Uma pequena borboleta.

Buson

[Reino Unido] Bristol: Janelas quebradas nos escritórios da BAM Construction

No dia 16 de fevereiro, em vez de participar do espetáculo enjoativo do ‘capitalismo romântico’, decidimos quebrar as janelas da BAM Construction em Stoke Gifford, Bristol.

A BAM Construction é uma das maiores empresas de construção do mundo, contribuindo para o pesadelo do Leviatã. Estamos cansados de ver seus edifícios sem vida de vidro e concreto por toda parte — não há nada de selvagem e natural nesses cenários de cidades inteligentes.

A BAM tem suas mãos artificiais em quase todos os grandes projetos de construção que se pode imaginar. Lembramos de sua participação na construção da chamada ‘prisão humana’ em Dendermonde, na Bélgica. Mais localmente, foram responsáveis pelo novo prédio de Engenharia da Universidade do Oeste da Inglaterra, que abriga seu novo laboratório de robótica, e também estão envolvidos na construção da nova ‘Temple Quarter Enterprise Zone’ — mais um tijolo na transformação de Bristol em um Vale do Silício do Reino Unido, onde startups tecnológicas e científicas serão deixadas para prosperar sem limites. Como se isso não bastasse, a BAM foi escolhida como um dos principais parceiros do ‘Programa de Pequenos Reatores Modulares (SMR) do Reino Unido’.

Rimos cinicamente da ideia de que o Estado britânico está implementando uma meta de carbono zero ou combatendo as mudanças climáticas, quando essa farsa de ‘capitalismo verde’ não passa de uma grande mentira. Apenas deslocam a destruição ecológica para outros lugares, seja na extração de lítio na Cornualha ou no lixo nuclear dessas mini-Fukushimas. Energia limpa, uma ova!

O Leviatã está se tornando Narciso, admirando sua própria imagem sintética em seu próprio lago sintético, encantado com o espetáculo de si mesmo. É um bom momento para as pessoas abandonarem sua sanidade, suas máscaras e armaduras, e enlouquecerem, pois já estão sendo expulsas de sua bela pólis.” – Eco-anarquistas – Gangue ‘Fredy Perlman’

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

nas noites de frio
um bom vinho, um edredon
dois corpos no cio

Cristina Saba

[França] Montpellier: uma nova ocupação social foi aberta em Les Beaux-Arts

“La Thermite, localizada na rue Lakanal, 2, foi inaugurada em um antigo salão de esportes no domingo, 9 de março. Os ocupantes querem montar um “centro de dia” no local e, no momento, estão precisando de apoio.

A “La Thermite” abriu suas portas no domingo, 9 de março, em um prédio antigo que estava abandonado há quatro anos no bairro Beaux-Arts de Montpellier. Esse antigo pavilhão esportivo foi originalmente planejado para ser vendido para criar uma loja do Carrefour e, depois, um centro para terceiros. Seus ocupantes estão reivindicando “um local ocupado que lute contra a propriedade privada, que enriquece proprietários e incorporadores […] em uma cidade que carece de espaços de atividade, recepção e acomodação acessíveis a todos”.

“La Thermite” tem a intenção de se tornar um ‘centro de dia’, com máquinas de lavar e chuveiros ‘acessíveis a todos’ e a organização de ‘festas não comerciais e noites de apoio’.

Fonte: https://fr.squat.net/2025/03/10/montpellier-un-nouveau-squat-social-a-ouvert-aux-beaux-arts/

agência de notícias anarquistas-ana

fino fio de fumaça
fere o espaço
com seu perfume

Eliakin Rufino

[Espanha] Indigência moral

Por Juan Cáspar

Caminhando por um bairro central de uma grande cidade, pode-se contemplar, como mais uma amostra da paisagem urbana, uma verdadeira comunidade de indigentes. Essas pessoas que vivem nas ruas já são tão habituais que a atitude recorrente das pessoas de uma condição social mais abastada é, simplesmente, de indiferença. Ao longo da minha vida, sempre senti uma profunda rejeição à pobreza, e quero acreditar que está claro o que quero dizer. Alguém me disse uma vez que as classes mais conservadoras sentem verdadeira repulsa pela pobreza, mas também medo, daí se esforçarem para mantê-la longe. Claro, apesar de sua própria atitude e condição serem as que geram e sustentam essa mesma pobreza, sempre alheia, é claro. No meu caso, desnecessário dizer, a rejeição à pobreza não é aversão ao pobre, fobia ou atitude que agora tem uma denominação chamativa na forma de um neologismo. Infelizmente, essa repulsa, desprezo ou mera indiferença pela pessoa pobre, e mais especificamente pelo indigente declarado, é algo profundamente interiorizado nas sociedades mal chamadas de desenvolvidas. É assim ao ponto de as opiniões supérfluas e justificativas sobre a situação dessas pessoas passarem por considerá-las preguiçosas e irresponsáveis, algo que sempre me surpreende, essa ousadia em julgar as circunstâncias vitais dos outros e, com mais ferocidade, no caso dos mais desafortunados. Também se menciona, às vezes, um possível desequilíbrio mental ou vícios habituais em álcool ou outras substâncias, algo que carregaria ainda mais de responsabilidade o pobre infeliz.

Seja como for, responsabilizar cada pessoa por suas circunstâncias sociais e vitais nos introduz em não poucos problemas, desde que usemos minimamente a consciência e o intelecto. Também, de forma extremamente infeliz para uma possível evolução moral da humanidade, em nossas sociedades capitalistas e consumistas, já em fase avançada da pós-modernidade, essa mentalidade estúpida e iníqua sobre os problemas sociais se impôs. Dito de outra forma, e para que me entendam, explicação seguramente desnecessária dada a óbvia indigência moral que abunda, o que prolifera é a máxima ofensiva e desumanizada de que “quem é pobre é porque quer ou não se esforçou o suficiente”. Estou falando, claro, de uma grande parte da sociedade, e especificamente do vulgo mais insultuoso, não de alguém que tenha um mínimo de consciência social. Pessoalmente, não consigo evitar certa empatia pelas classes mais desfavorecidas, e não sei se por conservar ainda alguma consciência de classe, embora esse conceito me remeta a alguma visão clássica um tanto rígida sobre o proletariado que também rejeito. Ou seja, se nos primórdios do socialismo se considerava que a classe trabalhadora seria a protagonista da revolução futura, que mudaria tudo, inevitavelmente se acabaria desprezando o chamado lumpem, aqueles que estavam mais abaixo na escala social, os desclassificados.

De acordo, desde os princípios do socialismo, houve também gratas e lúcidas exceções. Entre outros, os anarquistas, que sempre viram com simpatia esses chamados desclassificados. Não sei se tanto por ver neles certo potencial revolucionário, quanto por uma ampla visão sobre os problemas sociais, onde se incluem absolutamente todos os oprimidos. Também, claro, por uma enorme concepção de solidariedade e apoio mútuo que abrange todas as pessoas. Hoje, já no final do primeiro quarto do século XXI, não são bons tempos para insistir em valores emancipatórios, e o significado prático de solidariedade não difere muito da chamada caridade, que sempre parece ter uma conotação de classe (de novo, a inevitável palavrinha). Essa comunidade de indigentes, de um bairro central, de uma grande cidade em um país mal chamado de desenvolvido, costuma ser visitada de vez em quando por certas pessoas preocupadas com sua situação. Membros de ONGs ou de alguns coletivos religiosos costumam conversar amigavelmente com as pessoas que mal vivem nas ruas e distribuir roupas e comida. Não serei eu, venha de quem vier, quem critique essa atitude com os desfavorecidos, que eu mesmo mantenho com frequência. No entanto, é a isso que chegamos: uma sociedade meramente assistencial com a pobreza, simplesmente assumida como algo endêmico e inevitável. Para combater verdadeiramente os problemas sociais, é necessário questionar determinadas estruturas de classe e dominação, por mais antiquado que isso soe. E isso, nenhum coletivo religioso fará, nem provavelmente qualquer ONG, que, no melhor dos casos, são produtos bem-intencionados de uma sociedade doente. Particularmente, não desejo simplesmente aliviar os sintomas, muito menos idealizar (ou santificar, conceito horrendo) a doença. O que quero é acabar com ela, estar razoavelmente saudável.

Fonte: https://acracia.org/indigencia-moral/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

deu no jornal:
economia vai bem
o povo vai mal

Carlos Seabra

[França] Inauguração da Biblioteca Maurice Rajsfus no sábado, 15 de março de 2025, a partir das 17h30

Maurice Rajsfus faleceu em 2020. Sua biblioteca pessoal, que ocupava todos os cômodos de seu apartamento, continha quase 5.000 títulos sobre uma ampla variedade de assuntos. Para evitar que ela se dispersasse, a pedido dos filhos de Maurice, o CEDRATS e o Atelier de Création Libertaire concordaram em abrigá-la e disponibilizá-la ao público, de acordo com arranjos a serem definidos.

O Atelier de Création Libertaire abriu espaço para ela e amigos vieram para refazer a pintura e o piso e instalar estantes. Hoje, os livros estão instalados e vamos inaugurá-la com a presença de Michelle e Marc, filhos de Maurice.

O programa é o seguinte:

– Das 17h30 às 18h30, visita à biblioteca na rue Burdeau, 37.

– A partir das 19h, no CEDRATS, 27 montée Saint-Sébastien, “A vida e as lutas de Maurice”, apresentada por seus filhos.

Aberto a todos e todas.

Fonte: https://rebellyon.info/Inauguration-de-la-bibliotheque-Maurice-28520

agência de notícias anarquistas-ana

durante o teu sonho
eu brinco com as nuvens
e tu não sabes de nada

Lisa Carducci

[EUA] 15 de Março: Dia Internacional Contra a Polícia

Convidamos, pelo segundo ano, as pessoas deste território a se reunirem para participar do Dia Internacional Contra a Polícia, M15. Em um contexto de expansão nacional da infraestrutura e do poder policial e de uma repressão maior contra movimentos sociais, comunidades e indivíduos rebeldes, achamos necessário voltar à questão da polícia – das cidades policiais em todos os territórios dominados pelo estado americano, à nova implantação da tecnologia de vigilância assistida por IA, à flexibilização do ICE [serviço de imigração] e da fiscalização da patrulha de fronteira em uma tentativa frustrada de consertar um nacionalismo despedaçado, à expansão de novas leis e modos de detenção para capturar cada vez mais pessoas na teia de exploração do sistema carcerário.

Escolhemos uma temática de defesa social e combate à polícia – desenvolvendo habilidades e conhecimentos para resistir melhor à polícia e ao sistema carcerário em todos os estágios; de nossas casas e bairros às ruas, às escolas, ao local de trabalho, onde quer que possamos encontrá-los e em qualquer luta que venhamos a travar contra eles.

Yauger Park @ the park shelter, St’cas (chamado Olympia)

em torno de 2PM-4pm

Faça chuva ou faça sol – Vista-se adequadamente!

Máscaras são necessárias e serão fornecidas

O dia consistirá em uma arrecadação de fundos para prisioneiros anarquistas e subversivos na forma de estampagem de camisetas no local e uma venda de bolos.

Haverá um memorial montado para pessoas que foram assassinadas pela polícia – pedimos às pessoas que tragam velas, flores e fotos ou nomes de pessoas mortas pela polícia.

Também haverá um estande montado para escrever cartas a prisioneiros, onde serão fornecidos todos os materiais necessários para isso.

Uma discussão sobre a luta contra a prisão na vida cotidiana

Um Conheça Seus Direitos (e Suas Limitações)

Treinamento Cop Watch 101 e Por Quê

Jogos de Des-Detenção [1] (envolvem contato físico, use roupas que possam sujar e uma toalha se estiver chovendo)

Fonte: pugetsoundanarchists.org

[1] Nota de tradução: refere-se a interromper tentativas de detenção.

Tradução > acervo trans-anarquista

agência de notícias anarquistas-ana

Vento cortante –
Se esconde em meio ao bambu
E desaparece.

Bashô

[Espanha] A cruel matança de golfinhos vinculada à pesca do bacalhau

Uma prática ilegal, segundo o Convenção de Berna, que proíbe a captura e matança deliberada destas espécies

Por Nacho López Llandres | 04/02/2025

A polêmica caça de golfinhos e baleias das Ilhas Feroe ou “Grindadrap” foi objeto de críticas pelo sacrifício de aproximadamente 1.400 cetáceos ao ano, 265.000 desde que se têm registros. A primeira caçada deste ano de 2.025 aconteceu em 10 de janeiro e custou a vida de 53 exemplares de baleias piloto, incluindo filhotes e fêmeas prenhes. A matança foi documentada pela Fundação Capitão Paul Watson no marco da “Operation Bloody Fjords” (Operação Fiordes Sangrentos), iniciativa que expõe publicamente estas matanças.

A associação pelos direitos dos animais e o meio ambiente ARDE denuncia a vinculação comercial entre a indústria pesqueira espanhola e a matança de golfinhos e baleias nas Ilhas Feroe. Sete dos dez principais supermercados na Espanha vendem produtos de bacalhau procedentes do arquipélago Feroês.

Os pescadores são os encarregados de informar quando há um avistamento de manadas de cetáceos e os perseguem com suas embarcações para levá-los às praias, onde ocorre a matança. A Fundação Paul Watson exige dos supermercados espanhóis o fim das relações comerciais com as Ilhas Feroe enquanto estas matanças aconteçam.

O Grindadrap ou Grind, como se costuma chamar, é um método de caça criado pelos vikins faz mais de 1.000 anos e que os feroeses conservaram como parte de sua cultura.

Esta arcaica tradição consiste em conduzir grupos inteiros de pequenos cetáceos (principalmente baleias piloto, que pertencem à família dos golfinhos, e golfinhos de flancos brancos do Atlântico) até a orla, onde enfrentam uma morte dolorosa.

A prática, ainda que defendida por alguns habitantes como parte de sua herança cultural, tem provocado reações adversas, tanto a nível local como internacional.

A indústria pesqueira participa ativamente no Grindadrap. Quando os barcos pesqueiros avistam qualquer das seis espécies de cetáceos autorizados para caçar, e se as circunstâncias marítimas são propícias, os feroeses saem com suas barcas carregadas de pedras, ganchos, facas e cordas. As embarcações giram em forma de semicírculo e jogam pedras, criando paredes de bolhas que o sistema de eco localização dos golfinhos percebe como uma parede; o objetivo é guiar os cetáceos para a praia e encalhá-los.

Os que não conseguem empurrar são levados à força através da inserção em seu espiráculo de um gancho que se encontra atado a uma corda, desde a qual os estabelecimentos situados na costa atiram. Depois, pescadores e outros habitantes feroeses entram na água com varas metálicas com uma ponta de lança e seccionam a medula espinhal entre as vértebras cervicais do animal. Utilizando facas, atravessam os feixes vasculares, nervos e musculatura dos cetáceos, ocasionando-lhes uma abundante perda de sangue.

Esta matança infringe a legislação europeia sobre os cetáceos. É uma prática ilegal segundo o Convenção de Berna, que proíbe a captura e matança deliberada destas espécies, assim como sua comercialização.

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

folhas escuras
tremem na brisa
à contra-lua

Rogério Martins