
Desde 1920 o então jornal diário fundado por Errico Malatesta, hoje lançado semanalmente e publicação oficial do FAI (Federação Anarquista Italiana), continua a difundir ideias e reflexões das organizações do anarquismo comunista.
Por Mario Di Vito | 17/03/2020
Semana após semana, durante um século, o galeão de Umanità Nova continua sua viagem e espalha a voz daqueles que, como cantava Leo Ferré, “Eu não sou o 1%, mas acreditem, eu existo”: os anarquistas.
ERA FIM DE FEVEREIRO, em 1920, quando o jornal então fundado por Errico Malatesta – “o revolucionário mais temido de todos os governos e sedes de polícia do reino” – fez a sua estreia no panorama editorial recortado da época. Um sucesso: nove mil exemplares de circulação que em um mês se tornaram 50 mil -mais que l’Avanti -, um crescimento atrasado “apenas pela falta de papel”, por uma quantia que subiu para mais de um milhão de liras.
No entanto, a embriaguez não durou muito: a ocupação das fábricas falhou e, no final do ano, a redação foi presa sob a acusação de conspiração contra o Estado e de conspiração para cometer atos criminosos. Mais tarde, com a chegada dos grupos fascistas e depois com o regime, o Umanità Nova foi alvo de vários ataques e foi, por fim, forçado a se esconder e sair apenas vez ou outra, com uma composição vaga confiada a algumas pessoas corajosas, primeiro no Brooklyn, depois em Buenos Aires e Pouteaux na França. O regresso à Itália, sob a forma de jornal semanal, ocorreu apenas no final da guerra, em 1945.
É DESDE ENTÃO que a publicação oficial da Federação Anarquista Italiana não perde mais uma edição e, a cada sete dias, chega aos apoiadores e militantes. “Devemos necessariamente fazer hipóteses – diz a equipe de redação – entre exemplares impressos, pdf e leitores na rede, poderíamos estimar um número de leitores em torno de vinte mil”. Obviamente, não podemos conhecer todos. É um pouco mais fácil se nos limitarmos apenas à versão em papel: além do uso informativo do que o anarcomunismo e o anarquismo social pensam e fazem na Itália e no mundo, os cerca de cinquenta apoiadores o usam também como propaganda e a presença de um jornal desses em bancas, quadros de avisos e assim por diante. São, claro, na sua maioria, militantes”.
HOJE A REDAÇÃO é nomeada diretamente pelo Congresso do FAI, do qual Umanità Nova é uma representação direta. “Por esta razão – explicam os editores novamente – o jornal não é um espaço de debate aberto a todos e a todos aqueles que se reconhecem num libertarismo genérico, mas o instrumento de uma estrutura militante”. O que isso significa? “O jornal tem a tarefa de fornecer o ponto de vista dos anarquistas da Federação sobre o que está acontecendo no mundo e analisar a realidade sob as lentes do Plano de Malatesta”.
Por exemplo, a última edição, obviamente centrada no coronavírus, intitulado de início como “Estamos na sala 101?”, referência a 1984 de George Orwell, com artigos analisando o impacto da epidemia no mundo do trabalho e as consequências que o “vírus do medo” pode ter na sociedade. Em edições passadas, grande atenção tem sido dada ao movimento francês dos Coletes Amarelos e às guerras ao redor do mundo, muitas vezes, e de bom grado, hospedando crônicas e reflexões de militantes anarquistas que já estão em cena.
A DECISÃO SOBRE O QUE colocar no jornal acontece na segunda-feira, quando a equipe editorial se reúne através do Skype e decide quem escreve, quem traduz textos ou entrevistas expostas em publicações anarquistas ao redor do mundo e quem cuida dos contatos com colaboradores externos. O fim de semana é dedicado à edição e layout. A impressão é feita às terças-feiras, o envio às quartas-feiras e para os apoiadores chegam às quintas-feiras. Também consta no newsletter: “Para os assinantes, se tiverem sorte, o jornal está disponível entre sexta-feira e a segunda-feira seguinte”.
À espera da publicação estão, sobretudo, “companheiros anarquistas, mas também simpatizantes no sentido amplo com presença em sindicatos, centros sociais, associações, ONGs etc”. Há já alguns meses, em anexo à revista semanal, também são distribuídos cadernos de notas. Até agora, cinco foram lançados: uma longa entrevista com ativistas de Hong Kong editada por Chrimethinc, um ensaio de Alessandro Bresolin sobre o movimento cooperativo, dois textos críticos de Flavio Figliuolo e Enrico Voccia sobre a relação entre ficção científica e anarquia, e um conto”para uso das novas gerações” em1969, o massacre na Piazza Fontana e a estratégia de tensão editada pelo grupo Michail Bakunin de Roma.
A SEDE DO Umanità Nova está situada em Carrara – a capital italiana do anarquismo -, no antigo edifício da Cooperativa Tipolitografica, inaugurado pela FAI para imprimir o jornal e para as publicações dos livros Zero in Condotta e La Baronata di Lugano, cujo nome vem da mítica cabana suíça onde Bakunin e Carlo Cafiero planejaram a revolta fracassada em Bolonha, em 1874.
Tradução > L. Insuela
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