
Por Susanna Schimperna | 19/03/2021
Exatamente cem anos atrás, em 20 de março de 1921, a sede da polícia, a prefeitura, o governo e o parlamento se encontraram unidos no medo, nunca maior do que então, da eclosão de tumultos intermináveis e simultâneos por toda a península, tumultos orquestrados por anarquistas e parte de um plano que levaria à revolução.
Durante algum tempo o descontentamento popular, causado principalmente pela crise econômica, tinha crescido e tinha feito como porta-voz o Partido Socialista, o Partido Republicano, os sindicatos. E é verdade, as asas extremas dos partidos (além, obviamente, dos anarquistas) tinham como objetivo declarado a revolução. Além disso, havia suspeita – mas não havia provas neste sentido – de ligações entre anarquistas italianos e residentes em Nova York (onde, naquele período, os ataques e manifestações eram diários, especialmente após a prisão, considerada injusta, de Sacco e Vanzetti), bem como subsídios em ouro que, segundo a hipótese da Sede da Polícia, o jornal anárquico Umanità Nuova, teria recebido da Rússia.
Para agitar particularmente as almas, a greve de fome começou por Errico Malatesta, Armando Borghi e Corrado Quaglino, uma greve à qual se juntaram imediatamente muitos outros prisioneiros. Os três estavam na prisão desde 17 de outubro, o primeiro como diretor do Umanità Nuova e os outros como editores. Eles tinham praticamente reunido toda a equipe editorial naquele 17 de outubro, mas então, sob pressão da imprensa e dos deputados socialistas, e na total ausência de provas, pelo menos os homens implicados foram libertados. Os três que permaneceram na cela pressionados para finalmente terem um julgamento, este era o objetivo da greve, e a condição de Malatesta, já avançada em idade e doente, era tão preocupante que se temia que durante a greve de fome não sobrevivesse.
Os anarquistas pediram um protesto em massa, o que não aconteceu porque sindicatos e partidos de esquerda recuaram, mas a indignação havia se tornado geral. Umanità Nuova publicou um relato detalhado de uma tentativa fracassada da Questura de incriminar o acusado com provas falsas, enquanto na Câmara dos Deputados os socialistas perguntaram insistentemente a um Giolitti envergonhado porque Malatesta estava preso.
Todas as informações apontavam para o dia 20 de março como o dia crucial. A inauguração da placa em memória de Luigi Molinari (um advogado anarquista que morreu em 1918) deveria ter sido a ocasião para desencadear a primeira centelha, que seria seguida por todas as outras. Para isso, naquele dia, carabinieri e guardas reais se reuniram em números impressionantes no Cemitério Monumental de Milão, onde prenderam – medida preventiva – quarenta anarquistas.
Não havia um plano para uma insurreição geral. Porém, nas mesmas horas, muitos fascistas que desfilaram pelas ruas de Milão para celebrar os Cinco Dias, e depois de dispersos quando começaram a marchar para o Palazzo Marino, decidiram ir provocar os “vermelhos” em Greco, o bairro tradicionalmente operário, anarquista, comunista.
Para chegar ao bairro Greco, a coluna que cantou e zombou dos Vermelhos foi a Viale Monza na Piazzale Loreto. Aqui uma mulher, Giovanna Maestri, evidentemente de uma opinião diferente, reagiu acenando um pano vermelho de sua janela. Foi o pretexto para iniciar os confrontos violentos. Alguns deles deixaram a rua para ir arrombar a porta de Giovanna, arrombaram a casa, tiraram o pano e o substituíram pela bandeira tricolor. Os outros ficaram para trás para lutar, e o saldo final (de acordo com o relatório da Prefeitura) foi de trinta feridos e dois mortos: Aldo Setti, um fascista, e Margherita Lazzarini, uma socialista.
Não haveria nenhuma revolução e nenhuma decisão em relação ao julgamento. Malatesta e seus companheiros, no entanto, suspenderam sua greve de fome três dias depois, após o ataque ao teatro Diana que deveria ter atingido o promotor Giovanni Guasti e Benito Mussolini, mas em vez disso deixou vinte e um mortos. Um ataque que Malatesta condenou e que mais tarde inspirará um longo artigo no qual ele dirá que a propaganda pelo fato não deve ser confundida com o massacre, e seja qual for a barbaridade que eles tenham feito aos outros, cabe aos anarquistas e homens de progresso manter o confronto dentro dos limites da civilização.
Tradução > Liberto
agência de notícias anarquistas-ana
peixes voadores
ao golpe do ouro solar
estala em farpas o vidro do mar
José Juan Tablada
Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!
Esta coluna é uma ótima iniciativa. Precisamos de mais resenhas sobre os livros com temática anarquista que estão sendo lançados…
Noam Chomsky roots are in the Marxist Zionist "Hashomer Hatsair" youth movement. He even spent few months in an Israeli…
crítica válida e pertinente, principalmente para o momento atual.
Que a terra lhe seja leve, compa!